sábado, 30 de janeiro de 2010

Entrevista com o Ev. Caramurú Afonso Francisco


Nesta feita convidamos o estimado irmão e amigo em Cristo Jesus Ev.Caramurú Afonso Francisco para nos falar de assuntos urgentes à vida da Igreja.Principalmente nestes dias que precede o iminente retorno do Mestre.Agradeço pela gentileza e presteza do Dr. Caramuru.



1. Qual a importância do ensino? E onde,ou.como se encaixa a EBD.

R: O ensino é fundamental, pois ele é a própria sobrevivência espiritual do cristão. Se ao sermos salvos por Cristo, “nascemos de novo”, tornamo-nos “uma nova criatura”, tem-se que esta “nova criatura” precisa sobreviver, crescer até que alcance a dimensão da eternidade. Esta sobrevivência dá-se pela alimentação, que Jesus disse ser a Palavra de Deus (Mt.4:4). Por isso, a Igreja tem de anunciar o Evangelho aos incrédulos, para que eles alcancem a salvação, mas também ensinar os crentes, para que eles possam sobreviver espiritualmente até o dia do arrebatamento da Igreja. A Escola Bíblica Dominical é a principal atividade de ensino da Igreja, porque, a um só tempo, reúne toda a Igreja para o aprendizado das Escrituras, dando oportunidade, que é única, de os crentes elucidarem suas dúvidas e, assim, aumentar a cada dia a firmeza na f é.




2.Vivemos uma desvalorização do que é realmente essencial e vital à igreja; a banalização do que é correto e a valorização do que é biblicamente errado. Qual deva ser a postura do professor de EBD frente a isso?
R: Os dias em que vivemos são os dias imediatamente anteriores ao arrebatamento da Igreja, dias de apostasia (I Tm.4:1), de esfriamento do amor de Deus em quase todos os crentes (Mt.24:12). Nesse momento, mais do que nunca, o professor de EBD deve ter a consciência de que foi chamado para “estar na brecha” (Ez.22:30), ensinando a verdade aos seus alunos, mostrando a eles que, em dias tão difíceis, não existe outra alternativa senão conhecer e viver o que ensina a Bíblia Sagrada. Somente o conhecimento da verdade libertará os crentes destas artimanhas malignas (Jo.8:31,32). Ora, para ter condições de desincumbir de tão árdua tarefa, o professor de EBD deve ser o primeiro a conhecer a Palavra, o primeiro a se dedicar ao estudo e ao ensino (Rm.12:7), o que exige dele um zelo superior aos dos demais no aprendizado, ensino e divulgação da verdade.


3.Temos uma identidade.Até que ponto mudanças são necessárias?
R: Quando dizemos que temos uma identidade, de pronto estamos a dizer que não podemos mudar de forma ilimitada, pois quem muda além de certos limites perde a própria identidade. As Assembleias de Deus no Brasil passam por um momento extremamente delicado, precisamente porque sofre uma crise de identidade. Tendo se formado de modo descentralizado, num país continental, nossa denominação sofreu muito o influxo da globalização, quando há uma tendência de uniformização, pela mídia, de nossa cultura segundo padrões estabelecidos nas grandes metrópoles e, até mesmo, segundo os países mais desenvolvidos do mundo, em especial dos Estados Unidos da América. Esta “padronização” está a seguir os parâmetros do “mistério da injustiça” (II Ts.2:7), do “espírito do anticristo” (I Jo.4:3). Assim, a Igreja sofre duplamente: além de haver uma ten tativa de sufocação de uma cultura localizada e regional, como toda manifestação sofre neste processo, também tem de lutar contra valores e princípios diametralmente opostos à sã doutrina. Para piorar, durante muito tempo, nossa denominação procurou construir uma identidade à luz de costumes, que são, precisamente, os elementos que mais sofrem com esta “padronização” e que, por serem humanos, não têm a imunidade que a doutrina, que é eterna, possui. Vivemos, pois, momentos em que é necessário reavaliar o discurso de identificação com base em costumes (discurso que está praticamente abandonado), mas, ao mesmo tempo, temos de resistir firmes na fé às astutas ciladas do diabo que, na revisão dos costumes, quer envolver os crentes com “mudanças doutrinárias”, o que é inadmissível, pois a Palavra de Deus permanece para sempre (I Pe.1:25). Assim, se é caso de revermos algumas normas puramente de costumes, como já fizemos no passado quando se aboliu a obrigatoriedade do uso do chapéu para os homens, não se pode admitir, em hipótese alguma, que se permitam comportamentos que afrontam a Palavra de Deus, como, por exemplo, já há alguém que entenda que se possa permitir seja o homossexualismo, seja a imoralidade e sensualidade nas vestimentas, por exemplo. Tudo isto se complica quando vemos que, ao contrário dos crentes do passado, aumenta hoje o “analfabetismo bíblico” dos crentes, pois eventuais mudanças exigem, antes de mais nada, que se saiba o que é doutrina e o que não é, e, evidentemente, não estamos em condição de tal discernimento na atualidade.


4.O preparo é extremamente importante ao professor de EBD.Como o professor deve se preparar e ser preparado? Do quê consta esse preparo?
R: Somente pode ensinar quem tiver aprendido. O professor de EBD deve ser, em primeiríssimo lugar, um assíduo e dedicado aluno na EBD. Infelizmente, muitas pessoas assumem a função de professor de EBD sem sequer ter sido aluno da EBD, o que não se pode tolerar. O professor de EBD deve ter bom conhecimento bíblico, ou seja, alguém que sempre tenha levado a sério a leitura devocional da Bíblia. Deve, também, ter conhecimento básico de didática, ou seja, da arte de lecionar, pois não basta que saiba a matéria, mas é fundamental que saiba transmiti-la aos alunos. Evidentemente, como o ensino é um dom ministerial (Ef.4:11), é algo destinado apenas àqueles que foram chamados por Deus para esta tarefa.


5. Uma palavra aos professores e trabalhadores da EBD.
R: Como professores da EBD, temos uma missão importantíssima nestes últimos dias da Igreja sobre a face da Terra, pois cabe a nós participarmos da resistência contra o engano que assola grande parte da Igreja nestes tempos trabalhosos. Cabe a nós uma importante contribuição nesta tarefa para impedir que muitos percam a salvação.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010


A quinta Lição do 1º trimestre/2010 tratará da fragilidade da natureza humana (vasos de barro) e da graça de Deus em confiar suas riquezas espirituais a pessoas limitadas e imperfeitas.

PLANO DE AULA

1. OBJETIVOS DA LIÇÃO

- Conscientizar-se de que mesmo sendo frágeis, Deus nos usa para transmitir as Boas Novas e nos dá poder para realizarmos sua obra.
- Compreender as fragilidades dos vasos de barro.
- Saber que no final os vasos de barro serão glorificados pelo Senhor.

2. CONTEÚDO

Texto Bíblico: 2 Co 4.1-12

Observaremos inicialmente, para entendermos um pouco a metáfora, os tipos e utilidades dos vasos nos tempos bíblicos.

Douglas (1988, p. 1646-1647) nos informa que antes da invenção da cerâmica (durante o sexto milênio A.C.) os vasos eram receptáculos feitos de peles, canuços, madeira e pedra. Esses objetos eram feitos de materiais perecíveis, têm raramente sobrevivido até os nossos dias. Pedras de resistência média, pedra calcária, alabastro, basalto, e também obsedianas (feita de lava que esfriou rapidamente) eram cortadas e escavadas para tomar forma como taças, jarras, pratos, etc. Grandes jarros de pedra ou de barro eram empregados para guardar líquidos. O barro poroso de que eram feitos esses vasos absorvia um pouco do líquido, assim, impedindo a evaporação e mantendo o conteúdo fresco.

Conforme Rienecker e Rogers (1995, p. 343) "A cerâmica coríntia era famosa no mundo antigo (Strabo, Geography VIII, 6.23) e Paulo pode ter se referido às pequenas lâmpadas de barro que eram bastante baratas e frágeis, ou, então, a vasos ou urnas de cerâmica."

O CONTEÚDO DOS VASOS DE BARRO

Nos vasos de barro (gr. ostrakinois skeuesin) humanos do Senhor, alguns conteúdos preciosos (tesouros) estão presentes, como por exemplo:

- A Palavra de Deus. "Pelo que, tendo este ministério, segundo a misericórdia que nos foi feita, não desfalecemos; pelo contrário, rejeitamos as coisas que, por vergonhosas, se ocultam, não andando com astúcia, nem adulterando a palavra de Deus; antes, nos recomendamos à consciência de todo homem, na presença de Deus, pela manifestação da verdade." (2 Co 4.1-2)

- O Espírito Santo. "E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco, o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; vós o conheceis, porque ele habita convosco e estará em vós." (Jo 14.16-17)

Paulo adverte que os conteúdos podem ser adulterados (2 Co 4.2). O termo grego para "adulterando" é dolountes (part. pres. at. de doloô), que significa usar de engano, de falsidade, corromper, enganar, falsificar. (RIENECKER; ROGERS, 1995, p. 342).

Vine (p. 594, 2003) define doloô da seguinte maneira: "forma reduzida de dolios (enganoso), significa primariamente 'fazer cair numa armadilha, enlaçar, atrair', por conseguinte, 'corromper', sobretudo entrosando as verdades da Palavra de Deus com as doutrinas ou concepções falsas, e lidando com elas com 'falsidade' (2 Co 4.2).

Dessa forma, como nos tempos de Paulo, não são poucos os que adulteram ou falsificam a Palavra de Deus, objetivando com isso tirar proveito, lucrar, alcançar os seus objetivos pessoais.

Um exemplo desta prática na atualidade são alguns televangelistas que disseminam a Teologia da Properidade, o Evangelho Judaizante, o Teísmo Aberto e outros ensinos que não se sustentam à luz de uma exegese e hermenêutica séria, associando-os às verdades bíblicas. Muitos crentes, além de assistir estes falsificadore, são envenenados por seus ensinos e ainda contribuem para o crescimento de seus "impérios pessoais".

OS VASOS DE BARROS

O barro fala de nossa natureza humana:


"E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra [...]" (Gn 2.7)

"Ai daquele que contende com o seu Criador! E não passa de um caco de barro entre outros cacos. Acaso, dirá o barro ao que lhe dá forma: Que fazes? Ou: A tua obra não tem alça." (Is 45.9)

"Pois ele conhece a nossa estrutura e sabe que somos pó." (Sl 103.14)

A nota de rodapé da Bíblia de Estudo Almeida (2006, p. 262) sobre 2 Co 4.7 diz que "Era comum guardar o tesouro ou as riquezas em vasos de barro cozido, material comum e frágil."

Sobre o mesmo texto comenta a Bíblia de Estudo Dake (2009, p. 1856): "Gr. ostrakinos, aqui em 2 Timóteo 2.20. Muitas vezes, no Oriente, os tesouros são esconddos em vasos de barro para protegê-los da umidade. Confira Jeremias 32.14. Aqui se refere ao poder do Espírito Santo por meio da luz do evangelho em nosso corpo. A ênfase está na diferença entre um vaso frágil de barro e o inestimável tesouro do poder que está nele."

A Bíblia de Estudo Pentecostal diz: " O cristão é um "vaso de barro" que, às vezes, passa por tristezas, lágrimas, aflições, perplexidades, fraquezas e temores (cf. 2 Co 1.4, 8,9; 7.5). Mas o cristão não é derrotado por causa do "tesouro" celestial que nele está. O cristianismo não é a eliminação da fraqueza, nem meramente a manifestação do poder divino através da fraqueza humana (12.9). Isto significa: (1) que em toda aflição podemos ser mais do que vencedores mediante o poder e o amor de Deus (Rm 8.37), e (2) que nossas fraquezas, aflições e sofrimentos, nos tornam totalmente receptivos à graça abundante de Cristo, e permitem que a sua vida seja manifesta em nossos corpos (vv. 8-11; cf. 12.7-10)."

3. MÉTODOS E ESTRATÉGIAS DE ENSINO

Escreva num quadro ou num cartaz uma relação de características frágeis de nossa humanidade e solicite aos alunos que a complete com outras características ausentes na relação. Você poderá também levar um vaso de barro para a sala de aula com alguns objetos de certo valor dentro dele (aliança, relógio, jóia, objetos raros ou de grande valor afetivo etc. ). Deixe o vaso guardado numa bolsa para apresentá-lo apenas no final da aula. Escolha um vaso muito simples. Antes de terminar a aula, tire o vaso da bolsa, mostre-os aos alunos e tire de dentro do vaso os objetos de valor. Diga-lhes em seguida que assim como aquele vaso flágil e sem muita aparência guarda objetos de valor, assim são eles para o Senhor, vasos frágeis escolhidos como receptáculos de tesouros espirituais (sua palavra, seu espírito, seus dons etc). Diga-lhes ainda, que em breve os vasos de barros serão transformados (glorificados) por ocasião da volta de Jesus (1 Co 15.42-49).

4. RECURSOS DIDÁTICOS

Quadro, cartolina, pincel ou giz, vaso de barro, objetos pessoais.

5. SUGESTÕES BIBLIOGRÁFICAS

- Bíblia de Estudo Almeida, SBB.
- Bíblia de Estudo Dake, CPAD.
- Bíblia de Estudo Pentecostal, CPAD
- Chave Linguística do Novo Testamento Grego, Vida Nova.
- Dicionário VINE, CPAD.
- Novo Testamento Interlinear, SBB.
- O Novo Dicionário da Bíblia, Vida Nova.

Boa aula!
Pr. Altair Germano

www.altairgermano.com/2010/01/tesouro-em-vasos-de-barro-subsidio-e.html

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A DOUTRINA DA MORTE


“Porque sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna, nos céus” (II Co.5:1).

INTRODUÇÃO

- A título de complementação dos estudos que temos tido sobre a Segunda Carta de Paulo aos Coríntios, faremos um breve estudo a respeito da doutrina da morte, tema que é tratado pelo apóstolo nos primeiros dez versículos do capítulo 5 daquela epístola, ainda que de passagem e sob o aspecto do desejo do crente de estar com o Senhor.

- O tema da morte tem desaparecido dos púlpitos, em mais uma demonstração da apostasia que grassa no meio da Igreja. A morte é uma realidade que deve ser enfrentada e que não deve ser motivo de angústia, mas, sim, de esperança para aquele que serve fielmente ao Senhor.

I – OS SIGNIFICADOS DISTINTOS DE MORTE NA BÍBLIA SAGRADA

- O apóstolo Paulo demonstrava aos coríntios que o crente, embora seja um vaso de barro, tem um tesouro excelente dentro de si, tesouro este que o mantém esperançoso apesar de todas as dificuldades que o cercam nesta jornada sobre a face da Terra (II Co.4:7-10).

- Esta realidade da vida traz, também, uma postura do crente em relação à morte, pois, como disse o escritor aos hebreus, “aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo” (Hb.9:27), postura esta que o apóstolo anuncia ser completamente distinta com relação aos demais homens, que não têm Cristo. O salvo em Jesus Cristo tem esperança, sabendo que, assim como Jesus ressuscitou, também ele ressuscitará e será apresentado ao Senhor com toda a Igreja (II Co.4:14).

- A morte é, sem dúvida, um dos fatos que mais intrigam o ser humano. Registros de todas as comunidades humanas, em todas as épocas e em todos os estágios civilizatórios, mostram que o tema da morte é uma questão com a qual o homem sempre se depara, sem saber como dela cuidar. Esta perplexidade do homem diante deste tema é, aliás, mais uma demonstração de que a morte surge como um elemento intruso, inadequado e indevido na existência humana.

- A Bíblia mostra claramente que o homem não foi feito para morrer. O homem foi criado para ser imagem e semelhança de Deus (Gn.1:26,27), um verdadeiro reflexo da divindade na criação e, por isso, a eternidade, que é um dos atributos divinos mais proeminentes (Gn.21:33; Dt.33:27), tinha de ser vista no ser humano, ainda que como uma eviternidade, ou seja, uma existência que tivesse princípio mas não tivesse fim.

- No entanto, a morte era uma possibilidade para o homem, pois o próprio Deus assim o quis, dizendo ao homem que a morte seria conseqüência da sua desobediência (Gn.2:17). O primeiro casal pecou e, como conseqüência do pecado, tivemos a inserção da morte na existência humana. Por isso, é dito que o salário do pecado é a morte (Rm.6:23).

- Morte significa separação e, a partir do pecado, houve, de imediato, uma separação entre Deus e o homem. Esta separação deu-se logo naquele dia, quando o Senhor Se apresentou no jardim. A Bíblia diz-nos que o primeiro casal procurou fugir da presença de Deus (Gn.3:8), a demonstrar, pois, que não havia mais a comunhão entre Deus e o homem, que o pecado havia produzido a separação entre o Criador e a sua mais sublime criatura sobre a face da Terra (Is.59:2).

- Vemos, nesta atitude do homem, a morte espiritual, que é o primeiro significado da morte para o ser humano. A morte espiritual é a separação entre Deus e o homem, é a ausência de comunhão entre Deus e o homem. É chamada de “morte espiritual” porque é o espírito humano que promove este elo de ligação entre Deus e o homem, daí porque se dizer que, quando o homem aceita a Cristo como seu Senhor e Salvador, há a vivificação do espírito (I Co.15:22), bem como que o homem, antes da salvação, está morto em seus delitos e pecados (Ef.2:1).

- Como consequência da morte espiritual, vemos que houve, também, uma morte moral do ser humano. Tendo sido descoberto por Deus na sua inútil tentativa de d’Ele se esconder, o homem é posto diante da presença do Senhor e vemos, então, não mais o ser que era a imagem e semelhança de Deus, cônscio de seus deveres e responsabilidades, cientes de seus direitos, mas alguém que não assume qualquer responsabilidade, que procura culpar o próximo, mesmo sendo a pessoa que tanto amava. Adão, diante do seu erro, tenta culpar sua mulher e esta, por sua vez, acusa a serpente.

- O homem, espiritualmente morto, também se encontrava moralmente morto. A morte moral é decorrência direta da morte espiritual. A morte espiritual separou o homem de Deus, enquanto que a morte moral separou o homem do seu próximo. O ser humano não mais passou a amar o semelhante, a amar o próximo, mas a ser egoísta, querendo apenas o interesse próprio, enxergando somente a si mesmo. Adão quis se safar de qualquer punição, imputando a Eva toda a responsabilidade e Eva, por sua vez, fez o mesmo, imputando tudo à serpente(Gn.3:12,13). O homem se encontrava separado do próximo, encontrava-se separado da virtude, do que é certo. Era a morte moral deste ser que havia sido feito com capacidade de discernimento. Estavam separados da liberdade e seu desejo, agora, estava escravizado pelo pecado (Gn.4:7).

- Mas não é apenas a morte espiritual ou a morte moral que advêm por causa do pecado. Ainda naquele fatídico dia da queda do primeiro casal, Deus impôs uma outra conseqüência do pecado, a saber: a morte física. “No suor do teu rosto, comerás o teu pão, até que te tornes à terra, porque dela foste tomado, porquanto és pó e em pó te tornarás” (Gn.3:19). Deus determinou que, por causa do pecado, passasse o ser humano a ter uma degeneração de seu corpo físico, até que ele se separasse do homem interior (alma e espírito), que é a morte física. O corpo, feito do pó da terra, teria de voltar a esta terra, voltar a ser pó, o que ocorreria no momento determinado por Deus, quando, então, ocorreria a separação entre o homem exterior e o homem interior.

- A morte física foi, assim, a segunda espécie de morte que surge para o homem, morte esta que não escolhe idade nem tem uma causa certa ou predeterminada. O primeiro homem cuja morte física é narrada na Bíblia foi Abel, filho de Adão e de Eva, mais jovem do que eles, portanto, que morreu de “morte matada”, ou seja, foi vítima de crime praticado por seu irmão Caim, a chamada morte violenta(Gn.4:8). Depois, o próprio Adão é apresentado como tendo morrido, depois de ter vivido 930 anos após a perda da imortalidade (sim, o tempo de vida de Adão nos é desconhecido, apenas sabemos que viveu 930 anos depois que foi sentenciado à morte física por Deus). É o exemplo de morte natural, morte decorrente da degeneração do organismo, diante da sentença divina dada no jardim do Éden (Gn.5:5).

- Mas também Deus mostraria que as pessoas também morrem por conta de um juízo divino, como ocorreu quando do dilúvio, quando o Senhor resolveu destruir o gênero humano da face da Terra por causa da sua impiedade(Gn.7:21). Mas ainda há o caso da morte por enfermidade, por uma doença ou por complicações orgânicas que acometem o homem e aceleram o processo de degeneração, como aconteceu com Raquel (Gn.35:18,19) ou com Jacó (Gn.48:1; 49:13).

- Ainda que seja por causas várias, o fato é que ninguém escapa da morte física, todos quantos nasceram sobre a Terra, morreram fisicamente, sejam ricos ou pobres, doutos ou indoutos, homens ou mulheres, fiéis ou infiéis. A morte física é inevitável, é o resultado de uma sentença dada por Deus a toda a humanidade, através do primeiro casal(Ec.9:5 “in initio”), algo que somente Cristo mudaria, como adiante se verá nesta lição.

- Mas, além da morte espiritual, da morte moral e da morte física, a Bíblia fala-nos da morte eterna ou “segunda morte” (Ap.20:14), que é a separação eterna de Deus, resultado da condenação no julgamento final, quando, então, aqueles que resolveram viver longe da presença de Deus, que recusaram o Seu senhorio em suas vidas, serão lançados no lago de fogo e de enxofre para todo o sempre. Esta separação é definitiva e não representa aniquilamento ou fim da existência, mas uma separação eterna e irreversível de Deus.





II – O ESTADO INTERMEDIÁRIO DOS MORTOS

- Pelo que podemos verificar, portanto, segundo as Escrituras, o homem, feito para viver para sempre, acabou por escolher a morte, visto que desobedeceu a Deus e, ao pecar, d’Ele se separou. Esta separação nada mais é que a própria morte em si.

- A salvação do homem é precisamente a iniciativa divina para que o homem torne a ter vida, volte a ter comunhão com o seu Criador. Já no Éden, Deus prometeu ao homem que seria desfeita a inimizade que se instalou entre Ele e o homem por causa do pecado, prometendo que da semente da mulher surgiria um que reataria a amizade entre Deus e o homem (Gn.3:15).

- Não é por outro motivo que o Senhor Jesus diz que quem n’Ele crê passa da morte para a vida (Jo.5:24), bem como que n’Ele crê não perece mas tem a vida eterna (Jo.3:16), como também que não mais chamaria os Seus discípulos de servos mas de amigos (Jo.15:15).

- Jesus veio trazer a possibilidade para que o homem retome a sua comunhão com Deus, passando a ter vida em todos os sentidos, ou seja, tendo o pronto restabelecimento de sua vida espiritual, de sua vida moral e, ainda, a certeza da vida eterna. O único obstáculo para que haja uma completa restauração da situação anterior ao pecado é, precisamente, a morte física, visto que a carne e o sangue não herdarão o reino de Deus (I Co.15:50), visto que o nosso corpo físico foi afetado pela corruptibilidade por causa do pecado e, agora, deverá ser transformado em outro corpo, um corpo glorioso pelo qual poderemos entrar nas mansões celestiais, assim como ocorreu com Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (I Co.15:52-54).

- Mas quando ocorrerá esta transformação do corpo para o salvo? Paulo deixa bem claro, tanto na primeira carta aos coríntios, quanto na primeira carta aos tessalonicenses, que isto ocorrerá, para os salvos em Cristo Jesus, quando do arrebatamento da Igreja, evento ainda não ocorrido. Diante disso, vemos, com clareza, que há um instante na vida de cada ser humano entre a sua morte física até o dia do arrebatamento da Igreja (para os salvos) e o juízo do trono branco, também chamado de “juízo final” em que as pessoas que morreram fisicamente aguardarão a ressurreição, ou seja, a reunião de espírito, alma e corpo para enfrentar o julgamento divino, pois, depois da morte, segue-se o juízo (Hb.9:27). É a esta situação entre a morte física e a ressurreição que se denomina de “estado intermediário dos mortos”, em que houve já a morte física, mas ainda não se tem a ressurreição e o julgamento do destino eterno do indivíduo.

- Muito se especula sobre o estado intermediário dos mortos, assunto que não é minudentemente tratado nas Escrituras, o que se entende pelo simples fato de que nossa decisão em relação à salvação deve ser dada nesta vida. Deus, ao revelar Seu plano ao homem, quis que o homem tomasse uma decisão no momento oportuno e este momento é o da sua vida sobre a face da Terra. Aqui é o instante em que devemos crer ou não em Cristo e alcançar a vida eterna. Depois que dermos aqui o último fôlego de vida, nosso destino já estará selado e não há, mesmo, qualquer utilidade em se saber o que se passa “do outro lado da vida”. As Escrituras, desta maneira, estão muito mais voltadas para explicar qual é o destino eterno do homem do que em dar pormenores de um estado que é, ademais, passageiro.

- De qualquer maneira, não há um silêncio completo da Bíblia a respeito. Embora sem precisar detalhes, o texto sagrado mostra-nos que o estado intermediário dos mortos inicia-se com uma decisão imediato, um juízo provisório de Deus a respeito de onde aguardará a pessoa o seu julgamento.

- Com efeito, a Bíblia diz que, quando há a morte física, o corpo volta ao pó da terra, em cumprimento à sentença divina exarada sobre a humanidade pecadora, enquanto que o homem interior (alma e espírito) apresentam-se diante do Senhor (Gn.3:19; Ec.12:7; Rm.5:12). O corpo, que é matéria, desfaz-se, corrompe-se (I Co.15:42; II Co.4:16), enquanto que a alma e o espírito são levados à presença de Deus, pois têm origem direta do Senhor (Gn.2:7), quando, então, num “juízo provisório”, são mandados ou para o Paraíso ou terceiro céu (Lc.23:43; II Co.12:4; Ap.2:7), se foram fiéis ao Senhor Jesus e alcançaram a vitória guardando a fé (Mt.24:12; II Tm.4:7), ou, então, são encaminhados para o Hades, o lugar dos mortos, i.e., daqueles que tiveram uma vida separada de Deus, que se mantiveram debaixo do pecado, onde aguardarão, entre tormentos, o dia do juízo final (Lc.16:23).

- Na história que Jesus contou a respeito do rico e de Lázaro (Lc.16:19-31), o Senhor Jesus mostra-nos, claramente, que o estado intermediário dos mortos é um estado de plena consciência, ou seja, não se trata de um “sono profundo” em que alma e espírito aguardam a ressurreição. Jesus deixa-nos bem claro que tanto o rico quanto Lázaro, enquanto aguardavam a ressurreição (e estão a aguardar até o dia de hoje), tinham plena consciência de onde estavam e porque ali estavam. Os tormentos vividos pelas almas que se encontram no Hades é, precisamente, a certeza de que não há para elas mais oportunidade de salvação, de que tudo quanto havia sido pregado a elas a respeito do Evangelho de Cristo é a realidade e que a incredulidade deles levou-os a uma irreversível e eterna separação de Deus. Quer maior tormento do que este?

- Muitos advogam a tese da “inconsciência” do homem interior durante este estado intermediário diante de expressões bíblicas como “dormir no Senhor” (I Ts.4:13-15). No entanto, devemos observar que a expressão “dormir” não significa que eles estejam inconscientes, mas, sim, dois pontos importantes:
a) que eles estão em descanso, ou seja, que não sofrem tormentos nem aflições, pois, ao contrário dos que se encontram no Hades, têm uma paz incomensurável, pois sabem que fizeram a escolha certa, que creram na verdade e, por isso, o que os aguarda é a vida eterna com o Senhor.
b) que eles não têm consciência do que acontece aqui na Terra. Eles não sabem nem tem acesso aos fatos e acontecimentos deste mundo e, neste aspecto, e só neste, é que são inconscientes.

- Que não há inconsciência vemos no episódio da história do rico e Lázaro. Defendem alguns que ali se teria uma “parábola”, ou seja, não seria um fato real, mas apenas um ensino de Jesus. Mas, ainda que se tivesse uma parábola, Jesus não iria se utilizar de uma história que não correspondesse à realidade espiritual, pois aí estaria a distorcer a verdade para ensinar, o que é inadmissível em se tratando da própria verdade (Jo.14:6). Também, quando observamos as palavras de Jesus ao ladrão arrependido, como admitir que ele saberia que estaria com Jesus no Paraíso naquele mesmo dia se tanto ele quanto Jesus ficassem inconscientes diante da morte física? E nem se diga que Jesus ressuscitou, pois a Sua ressurreição se deu ao terceiro dia e, portanto, não haveria como saber que o ladrão estava com ele no primeiro dia de morto.

- Mas analisemos mais detidamente o uso da expressão “dormir no Senhor”. O apóstolo Paulo inicia seu ensino a respeito da morte física aos crentes de Tessalônica, informando que os crentes falecidos “dormiam”, fazendo, assim, uma grande distinção entre os crentes falecidos e as demais pessoas que haviam morrido. A expressão “dormiam” (em grego, κοιμωμένων, i.e., “koimoménon”) que surge neste que é, talvez, o primeiro escrito do Novo Testamento, será repetida por mais quatorze vezes nas Escrituras, sempre se referindo a morte de pessoas crentes (Mt.27:52- santos que ressuscitaram depois de Jesus; Jo.11:11- Lázaro; At.7:60 – Estevão; At.13:36 – Davi; I Co.7:39 – marido crente; I Co.11:30 – crentes em Corinto; I Co.15:6,18,20,51 – crentes falecidos; I Ts.4:13,14,15 – crentes falecidos em Tessalônica; II Pe.3:4 – crentes falecidos da primeira geração da igreja). Assim, é uma expressão reservada para os crentes, para os fiéis, que não se reproduz com relação à morte física dos ímpios.

- O uso desta expressão por parte do apóstolo já demonstra haver, pois, uma diferença entre a morte física dos crentes e a morte física daqueles que não haviam aceitado a Cristo como seu Senhor e Salvador, o que já é um indicador de que não se refere a um estado do homem após a morte física, como têm entendido alguns segmentos religiosos, em especial, os adventistas. A utilização de uma expressão diferenciada para designar a morte física dos crentes reflete uma distinção de destino entre uns e outros, o que, de pronto, já revela não ser possível considerar que, após a morte física, tanto crentes quanto ímpios participarão de um estado de inconsciência.

- A expressão “dormiam” aqui foi empregada por Paulo em significado figurado, ou seja, não deve ser considerado do ponto-de-vista literal, mas revela que havia um descanso, que havia apenas uma interrupção do convívio dos crentes falecidos com os que ainda viviam, assim como acontece quando estamos dormindo. Quando dormimos, separamo-nos daqueles com quem convivemos. Estamos presentes em corpo, mas ausentes, separados de todos aqueles que estão à nossa volta, inconscientes em relação aos que nos cercam, mas vivos e ativos na dimensão interna do nosso inconsciente, onde, inclusive, temos sonhos, sonhos estes que, como têm os psicólogos revelado ao longo dos anos, muitos nos revelam a respeito de nosso mundo interior e até fazem associações que o estado de acordado não nos permite atingir.

- Quando Paulo usa a expressão “dormiam”, em hipótese alguma estava dizendo que, quando uma pessoa morre, ela passa a ficar inconsciente, a ter um sono espiritual que somente terminará quando da volta de Cristo ou do julgamento final. Se Paulo estivesse dizendo isto, estaria contradizendo o próprio Jesus, que, ao relatar a história do rico e de Lázaro, mostra claramente que, após a morte, a pessoa mantém plenamente a sua consciência, sendo levada a um lugar onde aguardará ou a primeira ressurreição, ou a ressurreição do último dia (Ap.20:5,12 e 13).

- Se Paulo estivesse dizendo que os homens, ao morrerem, entram num estado de inconsciência, estaria contradizendo o próprio ministério de Jesus Cristo, que, ao se transfigurar, conversou e teve a companhia de Elias e de Moisés, tendo este último morrido fisicamente (Dt.34:5). Como ainda não havia ocorrido seja a primeira ressurreição, seja a ressurreição do último dia, como o libertador de Israel poderia estar consciente naquele evento? E, o que é relevante, uma testemunha desta aparição, o apóstolo Pedro, é precisamente um dos escritores que se refere à morte física do crente como sendo “dormir” (I Pe.3:4).

- Se Paulo estivesse dizendo que os homens, ao morrerem, entram num estado de inconsciência, estaria contradizendo o próprio Jesus Cristo que, quando indagado sobre a ressurreição, pelos saduceus, disse que Deus Se identificou a Moisés como o Deus de Abraão, Isaque e Jacó porque era um Deus de vivos e não de mortos (Mc.12:27), acrescentando ainda que eles, saduceus, erravam muito por entenderem que a morte física era o fim de tudo.

- Vemos, portanto, que não há como se defender que a morte física é uma circunstância de inconsciência por parte do homem, até porque, como vimos, a morte física é tão somente a separação do corpo do homem interior, pois o que Deus sentenciou foi o retorno do pó à terra e o homem interior não veio do pó da terra, mas do fôlego de vida inserido no homem pelo próprio Deus (Gn.2:7).

- Paulo utiliza-se da expressão “dormiam” precisamente para mostrar aos crentes de Tessalônica que a morte física para o crente era um estado de separação da comunidade, mas uma separação temporária, passageira, assim como é a separação daquele que dorme dos seus familiares. Quando dormimos, separamo-nos daqueles com quem convivemos por um período de tempo, sem, no entanto, deixar de viver, sem que nem sequer deixemos de ter atividades psíquicas e mentais. Vezes há, até, em que, no sono, Deus mesmo Se revele ao homem, através de sonhos, como há diversos registros nas Escrituras, mais um fator a nos mostrar que o sono indica inatividade apenas para aqueles que cercam o que dorme e que, em momento algum, signifique suspensão de vida, como, erroneamente, defendem os adventistas, capitaneados por Ellen White.

- Paulo, ao usar esta expressão, que se consagraria nos escritos do Novo Testamento, que foi fruto da inspiração do Espírito Santo, a um só tempo, mostra que a morte física é um estado passageiro, como é o sono, como também revela que há apenas uma aparência de inatividade para os que convivem com o falecido, para a comunidade, mas que não deixa de haver vida, de haver atividade, a atividade do homem interior, a consciência no relacionamento com Deus.

- Ao dizer que os crentes falecidos “dormem”, entretanto, o apóstolo deixa também claro que não há como haver comunicação entre os crentes que estão vivos e os que “dormiram”. Mais uma vez, de forma peremptória, as Escrituras indicam-nos não ser possível a comunicação entre vivos e mortos, assim como não pode alguém que está acordado se comunicar com alguém que está dormindo.

- Muitos, aliás, se impressionam com a tese da inconsciência após a morte física exatamente para demonstrar que os mortos não se comunicam com os vivos, tese esta que é a própria essência do espiritismo. O Pequeno Dicionário Enciclopédico Koogan-Larousse define espiritismo como sendo “ a doutrina cujos partidários pretendem provocar a manifestação dos ‘espíritos’, em particular a das almas dos defuntos, e entrar em comunicação com eles, através de um mediador a que chamam médium” (p.337). O próprio Allan Kardec, considerado o “codificador da doutrina espírita”, em seu Livro dos Espíritos, afirma que “…a Doutrina Espírita ou o Espiritismo tem por princípio as relações do mundo material com os Espíritos ou seres do mundo invisível…”(Trad. de J. Herculano Pires. São Paulo: FEESP, s.d., p.19). Assim, é espírita quem crê que os mortos podem se comunicar com os vivos.

- Entretanto, não há a necessidade de se crer na tese da inconsciência do homem após a morte física para se negar o espiritismo, como defende Ellen White. A expressão “dormiam” significa precisamente isto: não há comunicação entre mortos e vivos, assim como não há comunicação entre quem dorme e quem está acordado, mas isto, em absoluto, significa que o que dorme está inativo ou sem vida.
OBS: No capítulo 34 de sua obra A um passo do Armagedom, Ellen White, a principal doutrinadora do adventismo, faz a correlação entre a crença na comunicação entre vivos e mortos com a da consciência do homem após a morte física, o que, como se vê, não tem qualquer respaldo ou fundamentação. Ademais, para White, a idéia da imortalidade da alma teria origem pagã, o que, como vimos, é apenas uma meia verdade. O paganismo fala da imortalidade da alma, mas é a Bíblia quem ensina que o homem foi feito para ser imortal.

- Por causa disto, também, não podemos, de modo algum, concordar com alguns “testemunhos” que têm sido proferidos por simpatizantes do sr. Ouriel de Jesus, de diálogos e conversas entre crentes falecidos, que estariam no “paraíso”, no “terceiro céu”, e crentes que estão conosco aqui, esperando Jesus. Tais “experiências” são sem qualquer respaldo bíblico e, se não forem farsas ou fraudes, nada mais são do que manifestações demoníacas, idênticas às manifestações mediúnicas dos kardecistas. Os crentes que morrem fisicamente “dormem”, ou seja, não se comunicam com os que com ele pertenciam a parte do corpo de Cristo que está viva aguardando a volta do Senhor Jesus.

- Mas, poderão alguns dizer que Jesus Se comunicou com Elias e com Moisés no monte da transfiguração, o que, aliás, dissemos há pouco como prova de que não há inconsciência após a morte física. Entretanto, se bem verificarmos o episódio, que é descrito tão somente por Mateus, veremos que Jesus, antes de conversar com os dois homens de Deus, Se transfigurou(Mt.17:2,3), no único episódio em todo o Seu ministério em que Sua humanidade foi absorvida pela Sua deidade. Com isto, temos claramente que não foi o homem Jesus, ainda vivo, que conversou com Moisés, mas, sim, o Filho de Deus, na plenitude da Sua glória. Enquanto Deus, Jesus poderia, sim, conversar com os mortos, porque Deus não é Deus de mortos, mas Deus de vivos, para Ele não há esta barreira, que é fruto do pecado na vida humana. Assim, ao Se transfigurar para poder dialogar com quem já passou desta dimensão física da vida, Jesus, uma vez mais, confirma que não há comunicação entre os homens vivos e os homens que já morreram fisicamente. Ademais, observemos que nenhum dos discípulos conversou com Moisés e Elias, apenas Jesus, enquanto esteve transfigurado.

- Paulo, ao usar da expressão “dormiam”, portanto, não disse que os que morrem ficam inconscientes, mas apenas afirmou que os que morrem não mais se comunicam com os vivos e desfrutam de um estado passageiro, transitório, que se encerrará com a ressurreição.

- Advém, então, a segunda parte do ensino de Paulo àqueles crentes. O apóstolo afirma aos crentes de Tessalônica que eles não deveriam se entristecer como os demais, ou seja, a morte física é motivo, sim, de tristeza e os crentes, enquanto seres humanos, sentirão, sim, a dor da separação, a angústia da interrupção de uma convivência com pessoas queridas, pessoas que compartilhavam conosco da mesma fé, da mesma esperança, pessoas que se amavam umas às outras, como ocorria na igreja de Tessalônica, como temos tido ocasião de estudar neste trimestre.

- Ninguém pense que o crente, por ser crente, não irá sentir a partida de um ente querido, de um familiar, ainda que esta pessoa não seja crente (o que, aliás, aumenta ainda mais a dor para o cristão, por saber que esta separação é definitiva, ao contrário daquele que tão somente “dorme”). Paulo apenas não podia tolerar nem admitir que os crentes tessalonicenses encarassem a morte física da mesma maneira que os demais, que não tinham esperança, que não tinham a compreensão do significado da morte física para o salvo.

- “Não quero que sejais ignorantes acerca dos que já dormem para que não vos entristeçais como os demais, que não têm esperança” (I Ts.4:13). O apóstolo sabia que a tristeza era natural aos que ficavam vivos diante de uma morte. Não havia como deixar de sentir tristeza diante da separação de um irmão em Cristo, mormente numa igreja onde havia tanto amor fraternal como Tessalônica, nem a comunhão com Cristo nos transforma em robôs, em seres insensíveis, antes, pelo contrário, aguça a nossa humanidade, pois ser humano é ser imagem e semelhança de Deus e isto, sem dúvida alguma, só o crente pode ser em toda a sua plenitude.

- Jamais se pode exigir de um crente que não sinta tristeza numa ocasião fúnebre, pois, além da tristeza própria de cada um, sentimos, em situações como esta, a tristeza de todos os que nos cercam, num ambiente que aumenta, ainda mais, a tristeza, tanto que assim que Jesus, mesmo sabendo que ressuscitaria Lázaro, chorou diante do clima fúnebre quatro dias depois do sepultamento de Lázaro. Se Jesus chorou, quem somos nós para não nos entristecermos diante disto?

- Sentimos tristeza quando alguém querido se separa fisicamente de nós porque somos humanos e isto é perfeitamente natural, não residindo aí a diferença entre o crente e o ímpio. O apóstolo enfatiza que a tristeza do crente, embora natural e perfeitamente compreensível, não pode ter o mesmo sentido da tristeza do ímpio e é este sentido, este significado que faz a diferença entre uma e outra. “Não vos entristeçais, como os demais, que não têm esperança” (destaque nosso). O crente fica triste quando alguém morre, mas não pode agir como os ímpios, que não têm esperança.

- A distinção entre a tristeza do crente e a tristeza do ímpio em ocasiões fúnebres está na esperança que tem o crente de que, além da morte física, existe uma eternidade de delícias com o Senhor, existe uma plenitude da vida eterna que já começamos a gozar aqui. O crente sabe que, com a morte física, há tão somente uma passagem para uma comunhão mais perfeita com o Senhor, é uma etapa a mais na caminhada rumo à glorificação, quando, então, no dia do arrebatamento da Igreja, tanto mortos quanto vivos, que agora são filhos de Deus, terão manifestado o que haverão de ser, pois, quando Cristo Se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque assim como é O veremos (I Jo.3:2).

- Quando estivermos diante de uma ocasião fúnebre de um servo do Senhor, não devemos nos desesperar, como é costumeiro ocorrer quando se trata da morte de ímpios ou da reação de ímpios diante da morte de entes queridos, como estava acontecendo em Tessalônica, mas, pelo contrário, ainda que entristecidos, porque humanos somos, temos de nos consolar e nos confortar com a esperança que temos de que Jesus virá buscar a Sua igreja e que, vivos e mortos, serão reunidos nos ares e se encontrarão com o Senhor, para vivermos uma plenitude de comunhão com o Senhor.

- Em mais um paradoxo da vida cristã, no momento da tristeza pela separação de uma pessoa querida, com quem compartilhávamos o amor divino, o amor fraternal, a alegria de servirmos e sermos abençoados pelo mesmo Deus e Pai, sentimos alento espiritual, conforto e consolo pelo fato de sabermos que há uma promessa de nos reunirmos, num corpo glorioso e transformado, com o Senhor naquele dia em que seremos glorificados. A morte física do crente, portanto, não é apenas um motivo de tristeza, mas uma fonte de esperança e de estímulo e incentivo em seguirmos até o fim com fidelidade e santidade, assim como aquele que se separa fisicamente de nós.

- Os estudiosos das Escrituras, inclusive, afirmam que, com a morte de Jesus, ocorreu uma importante modificação no chamado “estado intermediário dos mortos”. Até então, como Jesus deixa claro na história do rico e Lázaro, que tanto o “seio de Abraão” quanto o “Hades” ficavam lado a lado, ou seja, nas “regiões inferiores” (daí a palavra latina “inferno”). No entanto, quando da morte de Cristo, o Senhor teria, ao vencer a morte e o pecado, transferido o seio de Abraão para o terceiro céu, para o Paraíso, daí porque para lá ter sido arrebatado o apóstolo Paulo (II Co.12:2-4).

- Esta retirada do “seio do Abraão” para o terceiro céu é a profecia constante do Sl.68:18, reproduzido em Ef.4:8, em que se mostra que o Senhor Jesus subiu ao alto e levou cativo o cativeiro, recebeu dons para os homens e até para os rebeldes, para que o Senhor habitasse entre eles. O próprio apóstolo Pedro, na pregação do dia de Pentecostes, menciona a profecia divina (Sl.16:10) segundo a qual Deus não permitiria que a alma do Senhor ficasse no Hades nem que Seu corpo se corrompesse (At.2:27,31).

- Como explica o apóstolo Paulo, quando as Escrituras dizem que Cristo subiu, foi porque desceu às partes mais baixas da terra, o que se deu com a Sua morte, morte que foi por Ele vencida e, deste modo, pôde o Senhor ter, em Suas mãos, a chave da morte e do inferno (Ap.1:18), de forma que, agora, os que n’Ele creem não mais vão às regiões inferiores para aguardar a ressurreição, mas, sim, são levados ao Paraíso, onde aguardam o arrebatamento da Igreja, pois, contra a Igreja, não prevalecem “as portas do inferno” (Mt.16:18).

- A consciência do estado intermediário é ainda demonstrada no livro do Apocalipse. Com efeito, após o arrebatamento da Igreja, ainda ocorrerá a morte física e, como sabemos, ainda que bem diminuta, ainda haverá salvação durante a Grande Tribulação, salvação esta que, feita pela fé em Jesus, levará inevitavelmente os salvos para a morte física (Ap.13:10), pois, nesse tempo, será permitido ao Anticristo destruir todos os santos do Altíssimo (Dn.7:25). Estes mortos, que somente ressuscitarão no início do reino milenial de Cristo (Ap.20:4), (completando, assim, a “primeira ressurreição” —Ap.20:6 — iniciada com Cristo, as primícias — I Co.15:20 — e, posteriormente, ampliada com os que dormem em Cristo na Sua vinda — I Co.15:23) são apresentados plenamente conscientes enquanto aguardam a sua ressurreição na abertura do quinto selo (Ap.9:6-11).

- O que fazem os salvos durante este estado intermediário? A Bíblia não nos fala e, ainda, o apóstolo Paulo diz que o que ouviu são “palavras inefáveis [i.e., que não podem ser faladas], de que ao homem não é lícito falar” (II Co.12:4). Assim, diante de tal afirmativa bíblica, tudo que se disser será mera especulação. Sabemos apenas que, em contraste com os tormentos de quem está no Hades, no Paraíso há a doce presença do Senhor, a paz e a alegria daqueles que venceram o mal e sabem que já estão a desfrutar da eternidade com Deus, sendo este, ademais, o “comer da árvore da vida” mencionado em Ap.2:7, que nada mais é que a comunhão plena com o Senhor Jesus, sem quaisquer obstáculos ou imperfeições, precisamente o que havia sido retirado do primeiro casal quando de sua queda (Gn.3:22,24). Se temos imensa alegria espiritual com a nossa vida espiritual aqui nesta Terra, que dirá o gozo que desfrutaremos caso partamos para a eternidade antes do arrebatamento? Como disse a poetisa sacra Eufrosine Kastberg: “Já os filhos de Deus bem alegres estão, porém, no céu prazer melhor terão, os gozos do cristão apenas gotas são do mar de bênçãos em Sião!” (estrofe do hino 351 da Harpa Cristã).

- O estado intermediário encerrar-se-á com a ressurreição. A Bíblia fala-nos de duas ressurreições, a saber:
a) a primeira ressurreição – uma bem-aventurança (Ap.20:6) – é a ressurreição dos santos, ou seja, daqueles que se separaram do pecado e, por isso, têm vida, estão em comunhão com Deus. Esta ressurreição dá-se em três instantes, a saber: as primícias dos que dormem, que é Cristo, que já ressuscitou e está à direita do Pai aguardando o tempo de restaurar todas as coisas (At.3:21; I Co.15:20); os que creram em Cristo, que ressuscitarão quando do arrebatamento da Igreja (I Co.15:23; I Ts.4:16) e os que crerem em Cristo e, por causa disso, serão mortos durante a Grande Tribulação (Ap.20:4). Estes estarão para sempre com o Senhor.
b) a segunda ressurreição – é a ressurreição de todos os demais que morreram sem ter crido em Cristo. Esta ressurreição é uma ressurreição para julgamento. Esta ressurreição se dará por ocasião do juízo do trono branco, após a rebelião final da humanidade, que se dará no término do Milênio, e a retirada dos atuais céus e Terra de cena (Ap.20:11-15). Os que tiverem rejeitado Cristo serão condenados à morte eterna e lançados no lago de fogo e enxofre, que não se confunde com o Hades, que, aliás, ele mesmo será também lançado naquele lago (Ap.20:14). É a chamada “segunda morte”, como já dissemos supra, a morte espiritual, a morte eterna.

- A morte física é uma realidade inevitável, que temos de enfrentar, da qual só escaparemos se estivermos vivos e em comunhão com o Senhor no dia do arrebatamento da Igreja. Por isso, devemos estar bem conscientes da necessidade de vivermos uma vida santa a todo instante. Temos de estar preparados para morrer, pois, se estamos em Cristo e Cristo está em nós, temos de ter com a morte a mesma reação que tem o nosso Deus, para quem a morte do santo é preciosa à Sua vista (Sl.116:15). Qual é o nosso sentimento a respeito?

Caramuru Afonso Francisco

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Convite Para a Escola Dominical

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

O CULTO PENTECOSTAL QUE NÃO DEU CERTO




Caramuru Afonso Francisco*


Texto bíblico - I Cr. 13:1-14



O presente texto bíblico é um dos trechos que mais me intrigam em todas as Escrituras Sagradas. Com efeito, ao lê-lo, temos a nítida impressão de que Deus foi em demasiado cruel para com um simples e bem-intencionado homem, chamado Uzá, sem se falar no estrago que
fez ao rei Davi precisamente quando estava ele, em total consideração e zelo para com o Senhor e, precisamente, com a mais expressiva mostra da presença de Deus no meio do povo de Israel, a saber, a arca do concerto.
Todavia, como veremos na presente meditação, tal impressão é somente uma aparência, um reflexo dos conceitos humanos e da lógica que, muitas vezes, permeia a nossa mente quando estamos a estudar as Escrituras, conduta que deve ser, ao máximo, evitada, porquanto, como afirma o profeta, " assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos" (Is.55:9).
Revela este trecho da palavra do Senhor que Davi, o grande rei de Israel, o conquistador , o vencedor de tantas batalhas, continuava a ser o mesmo homem segundo o coração de Deus que, desde sua juventude, havia agradado ao Senhor.
Mesmo diante de tamanho êxito em seu reinado, Davi não se esquecia dos seus compromissos com o Senhor e estava incomodado com a situação em que se encontrava a arca do concerto do Senhor.
Com efeito, a arca, que era o símbolo da presença de Deus no meio do povo de Israel, estava esquecida, abandonada, desprezada em Quiriate-Jearim, cidade da tribo de Judá.
Desde os tempos do juiz Eli, quando o povo havia levado, imprudentemente a arca para a guerra, pensando que ela, por si só, pudesse trazer a vitória para o povo, ocasião em que foi a arca tomada pelos filisteus e depois devolvida após imenso sofrimento que sua presença causara entre eles, tradicionais inimigos dos judeus, a arca fora deixada num segundo plano para os israelitas.
Era ela, sem dúvida, a lembrança de que o povo deveria seguir fielmente os caminhos do Senhor, que o Senhor não tinha compromisso senão com a Sua Palavra, que não era um amuleto, um ícone que tivesse força por si só, mas tão somente um símbolo do compromisso que Israel e Deus haviam feito ainda no deserto.
A arca era um incömodo para o povo. Era a demonstração clarevidente de que Deus é fiel a Sua Palavra e não ao homem, que Deus é o mesmo, não muda, nEle não há sombra nem mudança de variação e que o home deve estar sempre, persistente e perserverantemente conforme à Sua vontade para que possa ter vitória.
Um tal símbolo não teria, mesmo, a popularidade ou um lugar de proeminência no meio de um povo que vivia de aparência e que se esforçava em nela viver.
Aliás, não tinha sido este povo quem escolhera a Saul pela sua aparência, por ser um homem mais alto do que qualquer outro de Israel ?
Não era este povo quem decide se submeter a Davia somente quando verifica ser ele o que venceu o campeão Golias e, mais do que isto, depois da morte de Saul, a quem ajudaram a perseguir Davi, mesmo depois das vitórias que este trouxe a Israel ?
Sim, um povo como este não iria dar lugar algum de proeminência a um objeto tão incômodo, que relembrasse a responsabilidade e, mais, as falhas e o superficialismo de um povo obstinado como era Israel.
Daí porque, nos dias de Saul, ninguém havia se importado em buscar a arca, em buscar para um lugar devido a arca do concerto do Senhor.
A situação de desprezo era tanta que a arca nem ao menos se encontrava no tabernáculo, na tenda da congregação.
Como podemos bem verificar, neste tempo, a tenda da congregação, o tabernáculo se encontrava edificado em Nobe, conforme I Sm.21, enquanto que a arca permanecia em Quiriate-Jearim, para onde fora levada após ter sido devolvida pelos filisteus, ainda nos tempos de Eli.
Entretanto, esta situação de indiferença, de desprezo para com a aliança com Deus não iria perdurar mais.
Assim que confirmado no reino, Davi revela que continuava a ser aquele jovem segundo o coração de Deus e, como primeira medida de seu promissor reino, chama a todos os anciãos e os capitães para chamá-los à responsabilidade e os conscientizar da necessidade de se trazer a arca do concerto para Jerusalém, para a capital, ou seja, da necessidade de retomar o compromisso do povo para com Deus, de tornar a pôr a aliança com Deus como o centro das preocupações e da vida nacional.
Davi não fez uma imposição, agindo como se fosse simplesmente o rei de Israel, mas procurou demonstrar a todo o povo que lhes era necessário dar o devido lugar ao Senhor em sua vida cotidiana.
Por isso Davi era um homem segundo o coração de Deus: não tinha o propósito de fazer valer seu poder, sua posição em detrimento da vontade alheia, mas queria levar o povo a se decidir, por sua própria vontade, por seu livre-arbítrio, a render a Deus o primeiro lugar em suas vidas, a cumprir o primeiro mandamento da lei, que era precisamente o de amar a Deus sobre todas as coisas.
Daí porque Davi convocou o conselho dos capitães e anciãos, com o fim de persuadi-los da necessidade de serem cumpridores da lei do Senhor. É esta atitude de persuasão, é esta disposição de mostrar a Deus como o necessário centro de nossas vidas que Deus exige, hodiernamente, de Sua Igreja, cuja tarefa primordial é, precisamente, esta atividade.
Propôs, então, o piedoso rei que se juntassem os sacerdotes e os levitas para que, juntamente com o exército, trouxessem a arca de Quiriate-Jearim para Jerusalém, propositura que foi aceita unanimemente, de plano, pois o povo achou que o negócio era reto, ou seja, era direito.
Começa aqui a tragédia em que se converteu esta ação.
O povo aceitou a proposta do rei, mas porque lhe parecia reta, porque lhe parecia direita aos seus próprios olhos.
O povo não demonstrava arrependimento por ter deixado a arca abandonada e desprezada numa pequena cidade da tribo de Judá, longe até dos demais artefatos da tenda da congregação.
O povo também não estava lamentando a atitude de ter deixado de buscar a arca, ou seja, de não ter dado o devido valor à aliança com Deus e ao pacto estabelecido entre Deus e Israel nos dias de Saul, mas porque achou justo aos seus próprios olhos atender ao desejo do rei, decidiu inicar esta empresa.
Quais são os motivos pelos quais estamos aparentemente servindo a Deus ?
Se estamos a executar tarefas e empresas, às vezes penosas e tão meritórias, como era o de levar a arca do concerto para Jerusalém, apenas para saciar nosso "ego", apenas para satisfazer a nossa justiça, apenas para nos fazer sentir, ainda mais esta vez a nossa auto-suficiência, saibamos que isto somente trará a um fracasso, isto apenas servirá para gasto de nossos recursos, de nosso tempo, sem que haja qualquer resultado efetivo na obra de Deus.
Davi estava imbuído de um desejo sincero e agradável a Deus, não tendo querido, ainda em conformidade com a vontade do Senhor, impô-lo ao povo, mas tendo querido repartir a consciência da importância desta medida com seus capitães e, posteriormente, com os sacerdotes e levitas, mas, lamentavelmente, obtivera um consenso que não se enquadrava nas regras e diretrizes desejadas: o povo concordara, sim, em trazer a arca para Jerusalém com toda pompa e circunstância, mas porque isto lhe parecia justo, reto, aos seus próprios olhos, porque isto lhes fazia sentir corretos, santos. Porque isto lhes agradava, não porque iria agradar a Deus.
Triste coisa é para o cristão quando seus passos passam a ser dados para seu próprio auto-agrado, para satisfação de sua auto-suficiência e não para o Senhor. Deste momento para diante, o cristão não terá outro destino senão a tragédia, a morte, o fracasso. Que Deus nos guarde de assim agirmos e que nossa prática seja conforme a oração que o Senhor nos ensinou e que pös em prática no Getsemane: " Que a Tua vontade se faça assim na terra como no céu".
Tenhamos a visão de Deus e não a nossa própria visão. É por isso que o apóstolo Paulo nos alerta para que andemos por fé e não por vista (II Co.5:7), precisamente porque a fé é dom de Deus (Ef.2:8), enquanto que os nossos olhos, estes sim, são o nosso "eu" (Mt.7:3, Lc.6:41, Mc.10:47).
Faz-se mister que não vejamos com os nossos olhos, ou seja, que não nos deixemos levar pela nossa lógica, pelos nossos preconceitos, pela nossa cultura. As coisas espirituais se discernem espiritualmente e não podemos tentar entender estas coisas pelo caminho natural, pela cultura, pelos preconceitos, pela lógica humana.
É, realmente, um dos grandes males, senao o maior mal na vida cristã do dia-a-dia o impregnar da mente natural nas coisas espirituais.
Devemos servir a Deus com a mente de Cristo, porque só ela pode fazer-nos discernir as coisas espirituais (I Co.2:12-16).
Quando passamos a nos utilizar de coisas naturais, da mente natural para falarmos das coisas espirituais, enveredamo-nos pelo mesmo caminho que o povo de Israel estava a trilhar nesta passagem bíblica.
Passamos a querer conformar a Palavra de Deus, que é a revelação de Deus aos homens, aos nossos conceitos, aos nossos parâmetros e, a partir de então, iniciamos um desvio que nos conduzirá, certamente, à morte espiritual, à separação inevitável do Senhor.
Não há outro destino para quem quiser conformar Deus a seus conceitos e a seus parâmetros. Tal atitude revela apenas uma auto-deificação, que outra xonseqûëncia terá senão o distanciamento do Espírito Santo, cuja única função é a glorificação de Cristo e de nenhum outro ser (cf. Jo.16:14).
Este povo, entretanto, não quis reconhecer seus erros, seus pecados, sua inobservância do primeiro mandamento da Lei, mas entendeu que o gesto de trazer a arca do concerto para Jerusalém seria uma atitude simpática, demonstradora ao povo de uma profunda devoção e, sobretudo, estar-se-ia agradando o rei, que agora estava no mais completo controle da situação política do reino.
Mas o Senhor Deus de Israel conhecia o profundo dos corações, sabia das reais intenções de Seu povo e continuava a observar os seus gestos e seus preparativos, certo de que, ao contrário do rei, que não tinha tal discernimento, muito breve Deus mostraria a verdade, que era bem diferente do que as aparências indicavam.
Tomada a decisão de trazer a arca para Jerusalém, determinou Davi que todo o povo se ajuntasse em Quiriate-Jearim (cujo nome antigo era Baalá-Js.15:9), precisamente o local onde havia sido a arca deixada após a devolução dos filisteus (I Sm.7:1) e ali deixada por aproximadamente 100 anos, já que Samuel renovou o pacto com o povo quando ela ali estava já há 20 anos e Saul reinou 40 anos sobre Israel, sendo que Samuel deve ter governado por 40 anos antes de constituir a Saul.
Este gesto de Davi demonstrava bem as suas intenções : queria que o povo sentisse o drama do desprezo, do abandono, da falta de prioridade para as coisas de Deus a fim de que jamais tornasse a praticar algo semelhante.
É preciso, quando tomamos o propósito de retomar a caminhada com Deus, de irmos até o local onde caímos para dali em diante, cientes de nossos erros, verdadeiramente arrependidos, passarmos a Ter uma vida nova com o Senhor, humildes, reverentes, conscientes de nossos erros passados, para não mais repeti-los. Foi, precisamente, o que o Senhor recomendou à igreja de Éfeso, em sua carta registrada no livro de Apocalipse (Ap.2:5).
Devemos nos lembrar de onde caímos para que, levantados pelo Senhor, prossigamos, arrependidos e perdoados, a nossa caminhada com Deus.
Muitos querem se desviar do local da queda, alegam ter traumas, não ser justo retornaram ali, ser isto um constrangimento, ser esta uma exigência que busca antes humilhar e trazer vergonha ao caído, não havendo nisto qualquer edificação ou propósito, motivo pelo qual relutam em aceitar tal determinação divina.
Contudo, não é com o propósito de trazer vergonha ou constrangimento que o Senhor nos convida, mais do que nos convida, exige que nos lembremos de onde caímos. Trata-se de uma exigência que revela, precisamente, a sinceridade de nossos propósitos, de nossas intenções, de nossa conversão: se nos humilhamos, se aceitamos que erramos e em que erramos, damos a prova indelével de que estamos arrependidos, de que reconhecemos a soberania do Senhor e Sua infinita misericórdia e, portanto, que estamos realmente prontos a reiniciar a caminhada, certos de que nada podemos fazer sem o Senhor.
Quem resiste à ordem do Senhor revela apenas prepotência, auto-suficiência, demonstra que não há arrependimento mas, tão somente, um remorso, remorso este que nbão poderá dar qualquer fruto para a vida eterna.
Se Judas Iscariotes tivesse retornado para o local onde havia caído, para a presença do Senhor, para o convívio do Mestre, se a ele tivesse recorrido para pedir perdão, para reconsiderar o seu beijo traidor com as lágrimas aos pés do Senhor, a exemplo daquela mulher que tanto recriminara alguns dias antes da traição, certamente teria recebido do seu amigo (pois foi assim que Jesus se identificou a Judas no momento da traição, Mt.26:50, deixando, assim, o caminho livre para uma reconciliação) o perdão e a restauração.
Mas Judas não quis voltar para aquele lugar, não aceitou lembrar-se de onde tinha caído mas, antes, preferiu voltar até ao templo, onde pensou obter o perdão dos sacerdotes, que, entretanto, nada lhe podiam fazer. O resultado outro não poderia ser: morte e perdição.
Em Quiriate-Jearim, deveria o povo se lembrar daquele concerto que estava há quase um século esquecido. Deveria se lembrar que o Senhor habitava entre os querubins, como figurava a arca, que reinava sobre todo o Universo, que era santo e que não havia escolhido Israel por ser ele um povo forte, bom ou poderoso, mas, muito pelo contrário, precisamente porque era Deus, escolhera o povo mais débil e menos numeroso, para confundir as coisas que são com as que não são.
Em Quiriate-Jearim, o povo deveria se lembrar que Deus lhe escolhera pela Sua infinita misericórdia e que Sua glória era tremenda, a ponto de o povo não Ter suportado uma pequena manifestação quando da entrega da Lei.
Em Quiriate-Jearim, o povo deveria se lembrar que, quando da entrega das tábuas da Lei a Moisés, apesar de toda a demonstração de poder, o povo havia feito para si um bezerro de ouro, mas que Deus demonstrara, uma vez mais, Seu amor para com aquele povo, deixando de destruí-lo, a pedido de Moisés.
Em Quiriate-Jearim, o povo deveria se melbrar de todos os ditames da Lei, deveria relembrar todos os mandamentos, verificar quais eram as ordenanças de Deus e, assim, retomar o curso da obediência e da rigorosa observância da vontade de Deus.
Todavia, embora o povo estivessem em Quiriate-Jearim, esmbora estivesse todo ele reunido, embora houvesse alegria e, com certeza, toda a alegria por parte daquela bonita multidão, composta de todos os sacerdotes, de todos os levitas, de todos os soldados e de muitos moradores, não havia real disposição para um arrependimento, para uma consagração a Deus.
Muitas das reuniões que hoje se realizam no meio do povo de Deus, notadamente entre aqueles que se dizem pentecostais e, portanto, que dizem dar plena liberdade à atuação do Espírito Santo, são idênticas ao ajuntamento de Quiriate-Jearim.
Nelas, como em Quiriate-Jearim, há muito povo, povo de todas as partes, sem exceção de qualquer cidade, bairro ou vila da denominação, ministério ou comunidade.
Nelas, como em Quiriate-Jearim, há sacerdotes, levitas (os obreiros não consagrados e os auxiliares litúrgicos em geral), também de todas as partes, sem qualquer exceção.
Nelas, está presente também o rei, seu exército e todos os anciãos (entendido aqui como o líder ou líderes máximos), bem como os cantores e instrumentistas.
Nelas há uma grande confraternização e, como não poderia faltar, muita alegria, com festa, folguedo e toda sorte de emoção, como havia em Quiriate-Jearim, mas faltava a disposicão de coração, a real intenção de servir a Deus.
Como podemos afirmar que lá não havia a disposição de servir a Deus, de realmente se iniciar uma caminhada conforme a direção e a vontade de Deus ?
Simplesmente porque o versículo 7 nos informa que, ao lado dos cânticos, dos alaúdes, das harpas, dos címbalos e das trombetas que faziam a alegria do culto e que, certamente, assemlhava a reunião com os "cultos pentecostais" dos dias atuais, estavam a levar a arca de Deus num carro novo.
Ora, poder-se-ia dizer, que mal haveria em se levar a arca de Deus num carro novo ?
Com efeito, se havia um carro novo para levar a arca de Deus é porque algum denodado servo de Deus, com a mais pura das intenções, havia se esforçado para que, não só ele, mas todo um grupo de israelitas, assim que souberam da disposição do rei Davi em levar a arca até Jerusalém, iniciassem esta árdua tarefa de construir um novo carro, fazer um carro especialmente para levar a arca de Deus.
Certamente, estavam se lembrando do episódio segundo o qual a arca havia ido até Quiriate-Jearim, ou seja, através de um carro de bois, no qual havia uma oferenda de hemorróidas de ouro, através do qual os filisteus tinham tentado aplacar a ira do Senhor durante o tempo em que a arca esteve nas cidades filistinas.
Mas, como não havia real disposição para se lembrar dao passado, do motivo pelo qual a arca tinha estado nas mãos dos filisteus, preocuparam-se não em saber porque a arca tinha estado com os tradicionais inimigos dos hebreus, mas em fazer um carro novo, com certeza mais bonito, mais puro, bem mais confortável que o que fora feito pelos filisteus.
Não temos dúvida de que o carro novo era belo, deslumbrante mesmo e que deve até ter impressionado o rei Davi, que ficara sensibilizado com tamanha obra de arte que nem se importou, ou quem sabe, até concordou que seria o adequado meio de transporte para a viagem da arca até Jerusalém.
Este é o problema de se estar pensando segundo a lógica humana, de se estar fora da direção e da vontade de Deus.
Davi, bem intencionado e emocionado com toda a confraternização que se realizava, não pôde discernir espiritualmente o que significava a utilização de um carro novo parta se levar a arca de Deus.
Era terminantemente proibido o transporte da arca de Deus por meio de um carro.
Segundo a lei, a arca deveria ser sempre transportada pelos sacerdotes em varais especialmente feitos para isso (Nm.4:10), não antes de a arca ser coberta pelo véu e este com peles de teixugos e um pano todo de azul (Nm.4:6).
A arca deveria ser carregada pelos sacerdotes, em varais, daí porque ter a arca argolas (Ex.25:12), pois não poderia ser vista nem tocada, numa clara demonstração de que, em virtude do pecado, não poderia haver comunicação direta entre Deus e os homens.
Todavia, ao invés do peso da arca, ao invés do trabalho de ter de trazer o véu, a cobertura de pele e o pano todo azul lá do tabernáculo, que se encontravam em Nobe, de arrumar os varais e levar todo aquele peso, era muito mais atraente e fácil fazer um carro novo e levar a arca deste modo em meio a cânticos e sonidos de instrumentos.
Este é, lamentavelmente, o comportamento de muitos crentes nos dias hodiernos.
Preferem as facilidades, o caminho mais curto, o meio mais fácil para servir a Deus, a o modo indicado pelo Senhor, esquecendo-se do que diz a Sua Palavra.
O carro novo é mais atraente, é mais cômodo, é muito mais popular, emocionando a muitos e permitindo que todos possam se alegrar mais rapidamente.
Sim, não há como fugir à tentação de ceder ao charme, à aparência do carro novo.
Quem levava o carro novo eram bois, mantendo-se os sacerdotes no ócio, apenas no louvor a Deus, seja cantando, seja tocando os instrumentos. Que maravilha! Que grande mudança para bem dos homens que se dispõem a servir a Deus!
Este é o que pensam os que querem modernizar a Igreja do Senhor. Os que vêem nas inovações tecnológicas, no desenvolvimento da Humanidade um pretexto para suavizar os rigores da doutrina, as exigências e responsabilidades do cristão.
Quem busca o carro novo é aquele que só quer saber dos supostos direitos do cristão, das supostas obrigações do Senhor, não raro transformado em um Senhor nominal mas que é, nas suas concepções, tão somente um super-empregado, alguém que é obrigado a satisfazer os desejos do crente na hora, no modo e na medida do coração do suposto servo, o verdadeiro senhor, já que tudo determina à sua boa-vontade.
Quem busca o carro novo, não tem qualquer responsabilidade sobre seus ombros, não tem necessidade de fazer qualquer esforço para servir a Deus, serve do seu modo, em meio a muitos cânticos e sons de instrumentos, de uma forma bem mais suave, chegando, mesmo, a dizer que assim é que se deve servir a Deus, pois "seu fardo é leve e seu jugo é suave".
Este pensamento, lamentavelmente, tem prevalecido em muitos lugares no meio do povo de Deus e tem desviado muitos da vontade do Senhor.
Assim como ocorria naquela festividade em Quiriate-Jearim, em muitos lugares, em muitas festividades existentes no meio do povo de Deus, tem-se preferido colocar o carro novo, tem-se adotado o carro novo, ao invés de se cumprir o que manda a Palavra do Senhor.
Os sacerdotes, que são nada mais nada menos que os próprios servos do Senhor na atual dispensação, que somos nós (I Pe.2:9), Sua Igreja, preferem construir um carro novo a ter de levar sobre seus ombros, em varais determinados por Deus, o peso, a responsabilidade da arcaç que é o símbolo da presença do Senhor.
Quantos não têm preferido servir a Deus em cultos recheados de louvores (quando não só de louvores, os chamados "louvorzões"), com pequeníssimo espaço para a Palavra de Deus, ao invés de buscarem meditar na Palavra, na doutrina, para melhorarem seus ca minhos ?
Quantos não têm preferido discutir dilemas bíblicos, pontos obscuros das Escrituras, costumes sociais a verificarem o que a Palavra de Deus tem a lhes dizer sobre sua ética, sobre suas atitudes cotidianas, sobre seu proceder perante a Igreja e perante os incrédulos ?
Quantos não têm procurado êxtases, novidades espirituais, verdadeiros "shows", ao invés de um real confronto e auto-exame entre sua vida, seu dia-a-dia e a Palavra de Deus, de uma vida de consagração, de oração e jejum, para desfrutar, ele próprio, de uma real porção da graça do Senhor ?
Estes são os que estão a procurar e a empenhar seu tempo no carro novo, tal qual ocorria com aquela grande multidão, que tinha, inclusive, a conivência do rei Davi, um rei segundo o coração de Deus.
Com certeza, Davi se deixou influenciar peloa quantidade de presentes, pelo belo e agradável som dos instrumentos, pela multidão dos cantores, enfim, pelas aparências, que indicavam, enganosamente, que se estava diante de um grande e inédito culto de toda a Nação, que estaria sendo do imenso agrado do Senhor.
Ledo engano, que muitos líderes, hoje, repetem, entusiamando-se com a quantidade, com as multidões, com a popularidade, com as massas, esquecendo-se de que o primoridal, o mais importante é se ter não um ajuntamento, como o que havia em Quiriate-Jearim, mas uma reunião que agrade a Deus e não era o caso daquela grande festividade.
A festividade fora convocada para que o povo pudesse retomar a responsabilidade para com Deus, para que o povo recobrasse sua memória e tornasse a dar o devido lugar para a aliança com Deus, mas se convertera numa ode, num louvor a esta mesma e já secular vida descompromissada com Deus.
Ao invés de se lebrar de onde caíra, ao invés de reiniciar uma vida com Deus em seu devido lugar, qual seja, o primeiro de todos, conforme o mandamento, o povo aproveitava a ocasião para, mais uma vez, revelar que estavam servindo a Deus ao seu próprio modo, que estavam perseverantes no seu propósito de conservarem seus intentos, suas ambições, seus desejos acima do Senhor. Mantinham-se firmes em seu egoísmo espiritual, em colocar o "eu", a auto-suficiência no seu plano primeiro de suas existências.
O engano, o desvio para com o modelo bíblico era tanto que, por incrível que pudesse parecer, que os levitas nem sequer haviam sido convocados para levar a arca de Deus, como se pode entender pelo que se contém em I.Cr.15:2, quando, após a tragédia de que ora se fala, Davi caiu em si e foi buscar a direção do Senhor para que a arca pudesse ser trazida para Jerusalém.
Ora, nem mesmo as pessoas que Deus havia determinado para tão importante serviço haviam sido lembradas para ele!
Havia um clima de festança totalmente alheio à Palavra de Deus e à Sua vontade. Havia, sim, muito barulho, mas nenhuma espiritualidade. Havia muita vontade de servir a Deus, mas Deus não se fazia presente, precisamente porque o povo queria servir a Deus a seu modo e não da forma determinada pelo Senhor.
Grande perigo é este que corre o povo de Deus, o de passar a querer, ele próprio, estabelecer os parâmetros, os limites e as condições do serviço a Deus.
Quando assim começa a agir, o povo envereda por um caminho que somente trará a morte e a tragédia espirituais.
Disse Jesus que Ele era o caminho, a verdade e a vida e que ninguém viria ao Pai senão por Ele. Ele é o caminho, Ele é a forma pela qual chegamos a uma plena comunhão com o Senhor.
Não aceitemos outros caminhos, outros modos de serviço a Deus, não aceitemos falsos Cristos, que estão, notadamente nestes últimos dias, apresentando-se em cada esquina, em cada ponto da cidade ou do campo, buscando desviar a quem possa, agentes de Satanás que são.
Sirvamos ao Senhor dentro do modelo estabelecido pela Sua Palavra, sem inovações, sem modismos, sem carro novo e, assim, com certeza, desfrutaremos da presença de Deus até chegarmos a Jerusalém.
A festividade, aparentemente espiritual e alegre, um verdadeiro "culto pentecostal", para nos utilizarmos de expressão corriqueira do povo de Deus nos dias atuais, prosseguia alegre e a alegria invadia os corações de todos, a começar do rei Davi.
Era uma grande confraternização, era um festa emocionante, que fazia com que lágrimas corressem pelas faces de todos quantos ali estavam. A música era tocante e a todos sensibilizava.
Era, porém, uma alegria puramente carnal. Eram emoções, legítimas e sinceras, não resta dúvida, mas emoções que brotavam da carne, dos sentimentos do homem, que não tinham como origem o Espírito de Deus.
Sim! É possível alguém se emocionar numa festividade desta natureza como se emocionam as pessoas com peças teatrais, romances, situações as mais variadas da vida real, filmes e outras coisas similares.
Os crentes são seres humanos e a emoção faz parte de suas vidas como a de qualquer outro.
Entretanto, a emoção não vem necessariamente de uma atuação do Espírito Santo e, muitas das vezes, é algo decorrente de nossa própria estrutura psíquico-corporal.
Era esta a emoção que invadia os corações de todos aqueles que participavam daquela festividade e é a espécie de sentimento que existe em muitas festividades que são realizadas atualmente no meio do povo de Deus.
Não se iluda. Jesus disse, o que é nascido da carne, é carne e todo sentimento que nasce fora das diretrizes e dos parâmetros estabelecidos pela Palavra de Deus não pode ser algo espiritual, mas será apenas uma estratégia carnal, que fruto espiritual algum poderá gerar.
Ao se chegar à eira de Quidom, porém, revelou-se a verdade, desapareceram as aparências.
A eira é um terreno liso e duro onde se limpam e se secam cereais ou legumes. Era, pois, um terreno que tinha muitos restos de cereais, muita palha, em que se poderia, como realmente ocorreu, haver o tropeço dos bois que conduziam o carro novo.
A eira de Quidom representa o momento da dificuldade, o instante de atenção e vigilância que se deve ter na caminhada.
Não se trava de nenhuma área de grande dificuldade, como uma ladeira, um vale profundo, ou algo similar. Era apenas uma eira, um terreno em que haveria algum senão, mas que não poderia se comparar a qualquer dos acidentes gegoráficos que, por si sós, complicam e dificultam sobremaneira uma viagem, mormente nos dias em que os fatos se deram.
Mas, numa vida superficial, numa vida de aparência, fora da direção de Deus e que prima pela comodidade e pela irresponsabilidade, qualquer eira se torna um perigoso obstáculo, um obstáculo que será intransponível.
Bem disse o Senhor, ao finalizar o Sermão do Monte, que só aqueles que ouvem e praticam as Suas palavras podem ser comparados aos que edificam suas casas sobre a rocha e que suportam os ventos, as tempestades e as correntes de águas, que são símbolos, respectivamente, das adversidades causadas pelos nossos atos, das provas de Deus e das tentações do adversário.
Os outros, que embora ouçam as palavras do Senhor mas não as praticam, disse Jesus, são como aqueles que edificam suas casas sobre a areia, néscios que sucumbirão quando vierem os ventos, as tempestades e correntes de águas.
Assim são aqueles que, deixando de lado o que manda a Palavra de Deus, preferem o carro novo, perseveram em servir a Deus ao seu modo e de acordo com os seus interesses. Edificam suas vidas espirituais sobre a areia, que é exatamente o fundamento que escolheram, a sua auto-suficiência, o evangelho de facilidades, o carro novo ao invés do peso e da responsabilidade dos varais.
À primeira adversidade, sucumbem, não resistem, porque não têm fundamento, porque não tem seguido a Palavra do Senhor.
É, realmente, preocupante se verificar, nas igrejas, que muitos não têm buscado aprimorar e os líderes em levar o povo a se aprimorar na Palavra do Senhor e na Sua doutrina.
Não há uma real disposição em se fazer um discipulado junto aos neoconversos, incutindo-lhes a sã doutrina e lhes dando alimento espiritual sadio para que possam, no dia mau, havendo feito tudo, ficar firmes.
Mister se faz que a Igreja regue o terreno, adube-o, para que a semente possa germinar e dar fruto, sem o que, inevitavelmente, o novo convertido poderá ser sufocado pelos cuidados deste mundo, por não haver profundidade em sua terra, bem como Ter arrebatada a semente da palavra do seu coração pelo inimigo ou morrer de inanição, por falta de alimento.
A quantidade, o barulho, a emoção, nada disse traz para o povo de Deus o fundamento da Palavra de Deus, o alicerce para que se enfrentem as dificuldades, a rocha, que é Cristo Jesus, que é quem deve ser formado em cada um de nós (Gl.4:9).
Quando isto não ocorre, uma simples eira, um terreno liso e duro, sem buracos, mas que contém um pouco de palha e restos de cereais, é suficiente para trazer a morte e para dar fim a toda a pseudo-espiritualidade existente.
Pois bem, bastou chegar-se a eira de Quidom, a uma primeira dificuldade, ainda que de pequenas proporções, para que os bois começassem a tropeçar.
O carro novo não resistia sequer a uma eira, a um terreno com um grau mínimo de dificuldade, assim como as inovações doutrinário-teológicas não podem resistir ao mínimo de detida meditação da Palavra, ao mínimo de argumentação, daí porque apelem sempre para a emoção, para o êxtase e fujam, desesperadamente, da exposição criteriosa e ungida da Palavra de Deus.
Bastou uma eira para que os bois, aqueles que estavam encarregados pelos comodistas, a levar a arca, que se encontrava à vista de todos no carro novo, , começassem a tropeçar.
Estivessem os levitas com seus varais, levando a arca, devidamente coberta pelo véu, pela cobertura de peles de teixugos e pelo pano azul, certamente a eira não seria problema algum para a travessia da arca rumo a Jerusalém.
Mas, ao invés de levitas, ao invés de pessoas devidamente separadas por ordem de Deus, quem estava a conduzir a arca eram bois, animais irracionais, sem capacidade de discernimento.
Triste fim este o de um ajuntamento em que a condução dos trabalhos, a condução em busca da presença de Deus fica com bois, com animais irracionais, com seres desprovidos de espiritualidade, de discernimento espiritual.
Quantos não são estes ajuntamentos, em que bois ditam as regras e a direção que se deve tomar, apesar de estarem ali líderes escolhidos por Deus, como era o caso de Davi ?
Quantos não são os movimentos que, por serem liderados por bois, por se terem tirado as responsabilidades impostas a cada crente, na primeira dificuldade, na simples eira de Quidom, tragicamente sucumbem, para escândalo e tristeza e, o que é pior, para morte de muitos ?
Entretanto, tal qual se deu em Quiriate-Jearim, ou um pouco além daquela cidade de Judá, assim se dá em muitos ajuntamentos, em muitos movimentos hodiernos, em que estão a trocar a cruz pelas facilidades, em que já não se ouve mais a série e grave palavra do Senhor: "quem quiser me seguir, tome a sua cruz e me siga".
Os bois começaram a tropeçar e o carro novo não deu mostras de que iria segurar a arca, que estava a ponto de cair no chão e, quem sabe, até quebrar, o que seria um escândalo inominável, mesmo para um povo que se conformava em alegrar-se segundo suas vontades, mesmo para quem preferia Ter seus deleites religiosos ao invés de assumir uma responsável adoração a Deus.
É neste instante que surge a figura de Uzá, aquele que, com a própria vida, levaria o rei e todo aquele ajuntamento de volta à realidade espiritual, à consciência da verdade.
Diz a Bíblia que Uzá era um dos filhos de Abinadabe(II Sm.6:3) e que, juntamente com seu irmão Aiô, guiavam o carro novo.
Muito provavelmente, ele e seu irmão tinham sido um dos principais responsáveis pela fabricação do carro novo. Portanto, era pessoa que estava intimamente ligada com esta inovação, que zelava pela manutenção das aparências e da inovação trazida para o ajuntamento.
Deveria ser, provavelmente, um levita, já que a arca teria estado sob os cuidados de seu pai durante todo o tempo em que a arca esteve em Quiriate-Jearim e, portanto, mais do que ninguém, sabia das normas e da necessidade de que a arca fosse levada nos ombros pelos levitas e não num carro novo.
Diz a Bíblia, também, que, enquanto seu irmão Aiô estava diante da arca, ou seja, à frente, procurando, muito provavelmente, dirigir os bois que levavam o carro novo, Uzá, bem ao contrário, se encontrava bem próximo ao carro novo, perto da arca do Senhor.
Estava, como bem se observa, totalmente aborvido na sua admiração pela forma mais confortável pela qual se estava a levar a arca do concerto.
Embevecido estava pela sua obra-prima, pela comodidade alcançada, pela facilidade criada. Mal podia se conter o jovem Uzá com o sucesso e o êxito daquele ajuntamento e, certamente, já sonhava com as conseqûências de seu gesto perante o rei Davi quando chegasse a Jerusalém.
Ao invés de ajudar seu irmão Aiô, que, mesmo dentro da comodidade, ainda procurou o que fazer para o sucesso da viagem, Uzá estava, mesmo, era preocupado em saciar seu ego, em demonstrar a sua auto-suficiência, era o personagem mais comprometido com o lamentável estado de coisas daquele ajuntamento do ponto-de-vista espiritual.
Caminhava praticamente ao lado da arca, colocava, para se utilizar de linguagem bem popular de nossos interioranos, "o carro na frente dos bois", visto que se preocupava muito mais em demonstrar a firmeza, a esperteza e o êxito de seu carro novo do que em servir a Deus, em cumprir a Sua palavra e, mesmo, de, pelo menos, ajudar a guiar os bois que estavam a fazer a tarefa que, de direito, deveria ser exercida pelos levitas, em especial aqueles que haviam guardado a arca por tantos anos.
Quando deixamos a visão de Deus e passamos a nos guiar por nós mesmos, passamos a ser cegos espirituais, deixamos de compreender as coisas do Senhor e nos tornamos tolos por completo, everedando pelo caminho da morte que, muitas vezes, é sem qualquer volta.
Uzá não surge na narrativa por acaso nem sua morte será uma fatalidade, uma demonstração surpreendente da ira de Deus. Não !
Uzá era o principal personagem, o protótipo do espírito alheio a Deus que tomara conta daquele ajuntamento, que transformara aquele "culto pentecostal" numa reunião festiva, fraterna, barulhenta, vistosa mas sem qualquer presença real do Senhor.
O povo se divertia, o povo se confraternizava, o povo se apresentava piedoso, mas, na verdade, apenas estava seguindo seu já secular caminhar de desprezo e desconsideração ao Senhor.
Naquele ajuntamento, por incrível que possa parecer, o povo apenas estava a dizer, em alto e bom som, que continuava a deixar Deus de lado, que persistia em negar ao Senhor a primazia em suas vidas e na vida da nação.
Naquele ajuntamento, ao contrário do que tanto sonhava o rei Davi, o povo não estava restabelecendo sua comunhão com Deus nem entronizando ao Senhor, uma vez, sobre Israel, mas, bem ao contrário, continuavam a colocar a sua vontade como ponto de referência, como razão de ser de suas atitudes e condutas. Como haviam rejeitado a Deus como rei nos dias de Samuel e Saul, estavam prontos a fazê-lo uma vez mais durante o governo de Davi.
Uzá estava completamente absorvido pelo carro novo e pela situação, quando vê que os bois começam a tropeçar e que a arca poderia tombar.
Que fazer, então ?
Parar o ajuntamento e avisar a Davi que se deveriam trazer os varais, cobrir-se a arca e chamar levitas para o transporte ?
De modo algum! Como retirar o brilho e o sucesso do carro novo, obra-prima de suas mãos ? Afinal de contas, a culpa não é do carro, mas, sim, dos bois que não têm capacidade para bem caminhar e do irmão Aiô que não tem competência para guiá-los!
Ajudar a Aiô na direção dos bois, para que consigam um caminho melhor nesta eira, cujo grau de dificuldade é mínimo ?
De jeito nenhum! Uzá já havia feito a sua parte, que era ter fabricado o carro novo e agora, enquanto acompanhava a arca, enquanto se notabilizava como a pessoa mais próxima de Deus em todo o ajuntamento, que Aiô faça a sua parte e bem conduza os bois que estão a tropeçar.
Mas a arca vai cair, Aiô não está bem conduzindo os bois, o escândalo pode ocorrer, o ajuntamento pode se tornar em tragédia, o carro novo pode não dar conta da sua tarefa, a comodidade e a solução obtidas podem fracassar?
Surge, então, a resposta que solucionaria o dilema e manteria as aparências? Basta que Uzá dê uma pequena ajuda, que segue a arca, que a não deixe tombar, demonstrando toda a sua pureza, todo o seu zelo, toda a sua espiritualidade, todo o seu cuidado.
Mas a arca não pode ser tocada ? Bobagem, pois nem mesmo poderia ter sido colocada a descoberto em um carro novo e o foi, com total aprovação de Deus, tanto que o ajuntamento está alegre, os hinos são entoados com perfeição e a emoção a todos contagia... e a arca foi tocada por Uzá e a verdade se revelou!
Tragédia! Ao tocar a arca, Uzá cai fulminado ao chão. O ajuntamento pára de caminhar. Apesar de toda a confusão que, naturalmente, seguiu-se a este desastre, não fez com que a arca caísse nem que os bois, antes trôpegos, assustassem-se a ponto de causarem estrago à arca do concerto.
O problema não eram os bois, não era a posição da arca, nem mesmo o carro novo. O problema era o homem, o povo de Israel que insistia em servir a Deus de qualquer maneira, segundo a sua própria vontade e desejo.
Deus não se deixou escarnecer e fulminou a Uzá, não um inocente que pagaria pelos erros de todos, mas, indubitavelmente, a pessoa que mais representava o espírito que estava dirigindo aquela festividade.
Certo pastor disse, em uma ocasião, para susto de muitos, que uma das mais extremas formas de Deus falar é através da morte. Quando tudo está a falhar, quando Deus já se utilizou de todos os modos para alertar a Seu povo e não é ouvido, lança mão deste recurso extremo, em que alguém perece para que muitos possam alcançar a vida eternal.
Embora seja palavra dura e, até certo ponto, aterrorizadora, temos de concordar com aquele homem de Deus e a passagem sobre a qual estamos a refletir é um caso concreto desta ação extrema do Senhor.
De nada havia adiantado todo o sofrimento passado por Israel desde a derrota para os filisteus nos tempos de Eli. Cem anos aproximadamente decorreram e o povo permanecia indiferente à presença de Deus em seu meio e até proporcionava uma festividade, que seria para arrependimento e mudança de atitude a este respeito, para reafirmar sua vida desregrada e seu desprezo para com a soberania divina.
Mas Deus não se comove com barulho, com cânticos, com instrumentos, com quantidade de pessoas, não se deixa impressionar por aparências.
Muito pelo contrário, o Senhor é a Verdade e não permite que ela fique oculta por muito tempo nem que o engano prevaleça indefinidamente.
Em especial, na atual dispensação, foi incisivo ao afirmar para a Igreja de que "as portas do inferno não prevalecerão contra ela" o que significa afirmar que a mentira nunca terá guarida nem sucesso no meio do povo de Deus, já que a mentira é algo muito próprio daquele que é mentiroso desde o princípio e que luta contra essa Igreja(Jo.8:44).
Assim, ainda que muitos estejam preocupados em criar carros novos para atrair multidões, saiba que a alegria, os cânticos e a demonstração de espiritualidade poderão, sim, trazer a atenção da mídia, o prestígio entre as autoridades e os políticos, mas nada disso comoverá o coração do Senhor mas, bem ao contrário, fará com que Ele se incumba de trazer à tona a verdade, nada mais do que a verdade.
Toda a alegria, toda a emoção, todos os cânticos, todos os instrumentos, toda a espiritualidade se foi após a manifestação do poder de Deus.
Eis o "culto pentecostal" que não dá certo: aquele em que a Palavra do Senhor é deixada de lado, é substituída pela inovação, pelo barulho, pela emoção carnal. Seu fim não será outro senão o da morte e da tragédia.
Li num comentário deste trecho que a morte de Uzá se deveu tão somente à circunstância de que não havia sacerdócio regular em Israel naqueles dias, que Deus estaria apenas atestando tal circunstância.
É um grande simplismo assim raciocinar-se, sendo este um entendimento bem apropriado para os inovadores, para os auto-suficientes que, ao lerem esta passagem, sintam calafrios em suas veias pelo fato de estarem, assim como Uzá, buscando carros novos que venham a substituir as suas responsabilidades na vida cristã.
Havia, sim, um sacerdócio regular em Israel, instituído que fora por Moisés ainda no deserto, como haviam regras clarevidentes a respeito de como se deveria conduzir a arca. Verdade é que Davi estava a iniciar o processo de alteração do local de culto, empresa que não pôde levar avante e que ficou ao cargo de seu sucessor, seu filho Salomão. Todavia, não há como deixar de ver, neste trecho, a falta de vontade do povo em seguir a lei do Senhor, a insistência em se manter rebelde aos mandamentos de Deus, a razão primeira para que tenha ocorrido a morte de Uzá.
As Escrituras são claras: Uzá morreu ali perante Deus. Era diante de Deus que Uzá estava em falta. Era diante de Deus que aquele ajuntamento se constituía em reunião abominável e desagradável .
Diante do rei e de todos os que ali estavam, Israel estava vivendo um dos seus principais e mais emocionantes instantes de devoção a Deus mas, para o Senhor, nada disso era o que se via, mas uma voluntária, unânime e decidida manifestação de rebeldia, de contrariedade aos mandamentos que deveriam reger o povo de Israel.
O episódio nos evoca a torre de Babel, onde também o povo em unanimidade se dispôs a desafiar a Deus e, tal como no texto que estamos meditando, Deus desceu com providência de juízo, sempre visando manter a humanidade em condições de poder chegar a aceitar o Seu amor.
De imediato, o coração de Davi se encheu de tristeza, pois era um coração conforme o coração de Deus. Davi caiu em si e percebeu que a Deus era desagradável aquele ajuntamento e que, embora suas intenções fossem as melhores possíveis, não se estava na direção de Deus.
Diz o texto sagrado que Davi temeu e se perguntou como deveria levar a arca de Deus para Jerusalém.
Esta é uma atitude de um verdadeiro servo de Deus, que se conscientiza da necessidade de ser guiado pelo Senhor em todos os seus desejos e propósitos.
Davi logo entendeu que aquele ajuntamento não estava de acordo com a vontade do Senhor, embora, para tanto, Deus tivesse de Ter falado pela dura forma da morte.
No entanto, Davi, ainda que de modo tão duro, sensibilizou-se e percebeu que toda aquela parafernália, toda aquela festividade desagradara ao Senhor e que seria necessário que se perquirisse qual o modo do Senhor.
Davi inicia um auto-exame, a fim de que pudesse fazer uma análise introspectiva, uma auto-avaliação, a fim de perceber onde havia errado. ""Lrembra-te de onde caíste", diz o Senhor à igreja de Éfeso, e, então, será possível um real arrependimento e o reinício de uma caminhada na vontade do Senhor.
Esta deve ser, sempre, a conduta do cristão. Pedro, em sua primeira epístola, claramente a isto aduz quando afirma que o crente deve deixar toda a malícia, todo o engano, todos os fingimentos, toda a inveja e todas as murumurações e, aí então, desejar afetuosamente o leite racional, não falsificado, para que possa haver o crescimento espiritual (I Pe.2:1,2).
Para que o crente possa crescer espiritualmente, para se chegar a Deus, mister se faz que nós deixemos o engano, a hipocrisia, o fingimento, que abandonemos o "fermento dos fariseus"e nos apropriemos dos "asmos da sinceridade", reconhecendo nossos erros, nossos percalços e, assim, aceitemos a doutrina sá, o verdadeiro ensinamento do Senhor, para que possamos tornar a ter Cristo formado em nós.
Somente desta forma, afirma Pedro, poderemos oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo (I Pe.2:6).
Não se pode querer agradar a Deus guiando-nos pelos nossos próprios conceitos, pelos nossos próprios parâmetros, pela nossa própria vontade. Enquanto assim agirmos, seremos rebeldes e desobedientes à Palavra do Senhor e nada obteremos do Senhor Jesus senão sua reprovação: "mas, para os rebeldes, a pedra que os edificadores reprovaram, essa foi a principal da esquina, e uma pedra de tropeço e rocha de escândalo para aqueles que tropeçam na palavra, sendo desobedientes, para o que foram destinados." (I Pe.2:7b,8).
Pelo que se pode observar, não havia outro caminho para Uzá, que havia desobedecido deliberadamente à Palavra do Senhor e que tropeçara na sua doutrina.
Ao invés do rapaz bem-intencionado, inocente e que foi abruptamente alvo da ira de Deus, como se pode até achar numa primeira leitura apressada do texto, o que vemos é a justa retribuição a um homem que, conhecedor que era da doutrina, deliberadamente dela se aparta e se constitui num dos principais personagens que transtornaram todo o intento do ajuntamento, que era o de trazer de volta ao coração dos israelitas a primazia e soberania de Deus e que o transformara, bem ao contrário, na máxima exaltação da rebeldia e da desobediência.
Há, ainda, muitos Uzás no meio do povo de Deus, homens inescrupulosos, que, com suas inovações, com seu comodismo e pensamentos, altamente atraentes e aparentemente espirituais, transtornam o espírito das reuniões do povo de Deus, desviam totalmente a sua intenção, tornando-os em ajuntamentos altamente desagradáveis ao Senhor.
Entretanto, não nos iludamos, o Senhor é o mesmo e, ainda que estejamos na dispensação da graça, Deus não se deixa escarnecer e, a seu tempo, abrirá a brecha em Uzá, transformando o palco da alegria fácil e carnal em lugar de tristeza e de conscientização de alguns.
Deus não abre roturas em meio ao Seu povo porque tenha prazer na morte do ímpio, ainda que seja ele agente deliberado do inimigo para transtornar a Sua obra e seja da natureza de Deus desfazer as obras do diabo, mas pelo Seu grande amor para com o homem, pois, através desta brecha, que aniquila as astutas ciladas do inimigo, também abre a oportunidade para o arrependimento de todo o povo.
Deus, se de um lado não preserva os lobos vorazes que se infiltram no rebanho, aqueles que deliberadamente passam a seguir o caminho de Caim, que se deixam enganar pelo prêmio de Balaão e, por isso, perecem na contradição de Coré (Jd.11); de outro, abre uma real oportunidade para que muitos temam ao Senhor e, como Davi, perguntem-se como poderão agradar a Deus e, por meio deste gesto de sincero e real arrependimento, alcancem a vida eterna.
Ao entender que não estava agradando a Deus, Davi suspendeu o ajuntamento, desistiu de levar a arca do concerto para Jerusalém e determinou que a arca ficasse na casa de um estrangeiro, o giteu Obede-Edom, numa clara demonstração de que entendera que o povo de Israel não estava em condições de ter a presença de Deus.
Era uma atitude difícil e que poderia gerar inúmeros problemas para Davi: rei recém-confirmado por todas as tribos, seu gesto poderia ser mal interpretado pelos capitães e anciãos, que poderiam se rebelar e até mesmo contestar a autoridade do novo rei.
Entretanto, Davi tinha decidido servir primeiramente a Deus e a ele somente obedecer, custasse o que custasse a sua opção.
Conscientizado pela abertura da brecha em Uzá, imediatamente reconheceu que não estava em condições de ter ao seu lado a presença do Senhor, simbolizada pela arca, nem o povo que ele esta a governar. Colocou a arca na casa de um estrangeiro e passou a procurar como poderia agradar ao Senhor.
O povo, atemorizado que estava com a morte de Uzá, também não se rebelou e aceitou a determinação do rei, aceitando, pela vez primeira, em quase cem anos, que não era um povo santo nem privilegiado, reconhecendo que não era digno da presença do Senhor.
O resultado deste ato de arrependimento, deste gesto de humilhação e reconhecimento de indignidade por Israel e pelo seu rei se fez sentir na casa de Obede-Edom.
O texto sagrado nos diz que Deus abençoou grandemente a Obede-Edom durante os três meses em que a arca esteve em sua casa.
A bênção na casa de Obede-Edom não é explicitada pelas Escrituras Sagradas, mas, certamente, alcançou todos os aspectos de sua vida e de forma bem visível e palpável, para que Israel não tivesse qualquer dúvida de que Deus, ao contrário do que acontecera no trágico ajuntamento, agora, sim, estava a aprovar a conduta e as atitudes tomadas pelo Seu povo.
Veja que paradoxo: num ajuntamento solene, formado só de israelitas, com cantores e instrumentistas, em meio a tanto barulho e pseudo-alegria, Deus não se fez presente senão para causar a morte de Uzá; agora, sem qualquer festa, em meio a temor, na casa de um estrangeiro, Deus demonstra todo Seu agrado, abençoando aquele que hospedava a arca do concerto.
As coisas de Deus são assim mesmo, fogem completamente à lógica humana, como já dissemos há pouco.
` Quando há sinceridade de propósitos, reconhecimento das próprias faltas e desejo ardente de reconciliação, Deus abençoa, nem que seja o gentio, nem que seja o estrangeiro, o alheio aos compromissos com Sua Palavra, se o objetivo [e mostrar ao Seu servo o Seu agrado e a conformidade com a Sua vontade.
Deus não é um ser que se ausente de nós ou que venha apenas no ferir ou nos trazer juízos, ainda que com propósito de correção e cura, mas um ser que está sempre disposto a dialogar conosco, a nos mostrar o caminho direito que devemos andar, a nos incentivar e estimular a termos uma vida de comunhão com Ele e vida de comunhão é tornar comum tudo aquilo que não só acontece em nossa vida, como também aquilo que Ele tem nos destinado a fazer.
Como temos comunhão com Deus, já não somos alguém, mas somos um com o Senhor e tudo que Ele quer de nós , ele nos faz saber, pois somos um com Ele, assim como tudo que queremos, a ele participamos, vivendo sempre segundo a Sua vontade. Este é o mistério que Jesus revelou em Sua oração sacerdotal: "Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim , e eu em ti/ que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste" (Jo.17:21).
É esta a unidade proposta por Jesus a cada um de nós, uma unidade de propósitos, de desejos, que nós renunciemos a uma vida própria, a uma vontade própria e passemos a desfrutar da vontade de Deus, de um querer único e comum.
Davi percebeu que, daquele modo, não poderia servir a Deus e foi buscar a presença do Senhor, buscar a Sua vontade e, aí, então, descobriu que deveria seguir a Lei, trazer levitas, sacerdotes que, com os varais em seus ombros, conduzissem a arca, assumindo a sua responsabilidade, o esforço que o Senhor requer de cada um que quer segui-lo.
E, ao perceber isto, pôde trazer, com festa realmente espiritual, a arca para Jerusalém.
Que assim também procedamos, que deixemos nossos conceitos, nossas facilidades, nossos parâmetros, que busquemos somente agradar ao Senhor e não às circunstâncias que o mundo nos oferece e, assim, certamente, poderemos fazer um " culto pentecostal" que, ao contrário do de Uzá, dê certo. Amém.


* Evangelista da Igreja Evangélica Assembleia de Deus – Ministério do Belém – sede, responsável pelo Estudo dos Amigos e Professores da Escola Bíblica Dominical e colaborador do Portal Escola Dominical.

sábado, 5 de dezembro de 2009

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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

O PACTO DAVÍDICO


O “pacto davídico” é um momento dos mais importante do plano de Deus para a salvação da humanidade, pois é o instante em que se revela a dignidade real do Messias e sua condição de “Filho de Davi”.

I – OS PACTOS DIVINOS DO ANTIUGO TESTAMENTO

- Neste último estudo complementar do trimestre letivo a respeito da vida de Davi, analisaremos o chamado “pacto davídico”, o último pacto divino do Antigo Testamento, quando o Senhor revela ao mundo que o Messias, o Salvador seria da casa de Davi, dinastia que se iniciava em Israel.

- O instante em que Deus revela a Davi, por meio do profeta Natã, que o Senhor é quem edificaria casa eterna para Davi e não Davi uma casa para o Senhor, como era o desejo do rei, é o ápice da vida espiritual do “homem segundo o coração de Deus”, em que o rei se vê como um elemento-chave de um plano que nem sequer tinha como imaginar.

- Deus, no Seu desejo de Se relacionar com o homem, tendo-o dotado tanto de razão quanto de espiritualidade, por Seu profundo amor, sempre tomou a iniciativa de firmar com o ser humano “pactos”, ou seja, compromissos a fim de abençoar o homem.
OBS: “…O conceito de pacto permeia a compreensão hebraica de sua relação com Deus. Yahweh, o auto-existente Deus, inicia e mantém aliança com o homem. Ele é motivado por um amor inabalável chamado hesed, que é traduzido ‘bondade amorosa’ ou ‘misericórdia.’ Que o Deus transcendente condescende para entrar em parceria com a sua própria criação é realmente motivo de culto. Ele não é dependente de nada, nós não temos nada para oferecer-lhe que ele primeiro não nos tenha dado. No entanto, ele deseja fazer um pacto com os homens, e entrar em um relacionamento pessoal com sua criação. Porque a natureza de Deus é pactual, nós que somos criados à sua imagem também fazemos pactos. O termo hebraico berith é utilizado mais de 280 vezes no Antigo Testamento para descrever tratados, alianças, ou ligas entre os homens. Ele é usado para descrever uma constituição entre um governante e os seus subordinados. E é utilizado com referência a uma relação entre Deus e seu povo.…” (REASONER, Vic. Uma teologia arminiana do pacto. Trad. de Lailson Castanha. Revista Arminiana - Vol 18 Edição 2 - outono 2000. Disponível em: http://www.arminianismo.com/index.php?option=com_content&view=article&id=790:uma-teologia-arminiana-do-pacto&catid=175&Itemid=29 Acesso em 29 out. 2009)


- Num pacto, como diz Vic Reasoner, o padrão básico continha “…um preâmbulo, em que o iniciador é identificado; uma introdução histórica anterior descrevendo as relações entre as partes; estipulações e demandas que deveriam ser lidas publicamente em intervalos regulares; juras de um juramento com bênçãos e maldições; e a designação de testemunhas e sucessores.…” (end. cit.).

- Os estudiosos da Bíblia costumam considerar os seguintes pactos firmados entre Deus e o homem, todos visando a salvação do homem:
a) o pacto edênico ou pacto da criação — Este pacto encontra-se em Gn.2:16,17, quando o Senhor condicionou a vida eterna à obediência do homem em não comer da árvore da ciência do bem e do mal no Jardim do Éden, sob pena de morte. O primeiro casal não obedeceu à condição pré-estabelecida e, por isso, foram separados de Deus, cumprindo-se, assim, a cláusula referente à morte, seguida, ainda, de outras maldições, que se encontram em Gn.3:14-19. Entre elas, Deus fez a promessa de que salvaria o homem das garras do pecado por meio da “semente da mulher que esmagaria a semente da serpente”, uma maldição sobre a serpente, mas, simultaneamente, uma bênção para a humanidade.

b) o pacto noaico – Este pacto encontra-se em Gn.9:1-16, que os judeus chamam de “Shéva Mistvót Benê Nôach” (os Sete Preceitos dos Descendentes de Noé), quando o Senhor abençoou Noé e seus filhos depois do dilúvio, retomando as ordens de frutificação e multiplicação dada aos primeiros pais, como também o domínio do homem sobre a criação terrena, estabelecendo, porém, preceitos morais de defesa da vida e proibição de consumo de sangue, prometendo também nunca mais destruir a criação terrena com um dilúvio, pondo o arco-íris no firmamento como prova e lembrança da Sua promessa.

c) o pacto abraâmico – Este pacto encontra-se em Gn.12:1-3 e 17:1-14, quando o Senhor chamou Abraão para dele formar uma grande nação em que seriam benditas todas as famílias da Terra. Neste momento, Deus começa a formar a nação de onde viria o Salvador do mundo. Neste pacto, Deus promete ter um concerto perpétuo com a nação que surgiria de Abraão, por intermédio de Isaque, estabelecendo a circuncisão como símbolo deste pacto, desde que houvesse, por parte do homem, a fé no Senhor (“andar na presença do Senhor, o Todo-Poderoso, e ser perfeito”).

d) o pacto sinaítico – Este pacto encontra-se em Ex.19:5-9, quando o Senhor propôs a lei ao povo de Israel no monte Sinai e os israelitas se comprometeram em cumprir os mandamentos que receberiam da parte do Senhor, por intermédio de Moisés. Neste momento, já formada a nação de Israel, Deus lhe traz regras e mandamentos, sob os quais haveria de nascer o Messias, que era a personagem apontada por todos os ritos, cerimônias e regras deste pacto (Gl.3:23,24; Hb.10:1).

e) o pacto palestiniano – Este pacto encontra-se em Js.8:30-35, onde se cumpriu o determinado em Dt.27 e 28. Nesta ocasião, cumprindo a ordem do Senhor, os israelitas, já instalados em Canaã, mesmo em meio à conquista ainda, comprometem-se a observar a lei de Moisés como condição para que permanecessem na “terra que mana leite e mel”. O cativeiro da Babilônia e a diáspora vivida a partir de 70 d.C. são consequências diretas do descumprimento deste pacto.

f) o pacto davídico – Este é o pacto que estudaremos neste breve apêndice, encontrado em II Sm.7:5-17, repetido em I Cr.17:7-15, quando o Senhor, em resposta ao desejo de Davi de edificar-Lhe um templo, diz que o templo só seria edificado pelo sucessor de Davi, mas que quem haveria de edificar casa para Davi era o próprio Senhor, pois a casa de Davi reinaria para sempre. Com isto, dando mais um passo no cumprimento de Seu plano para salvar o homem, Deus revela qual seria a estirpe, a família de onde surgiria o Messias.

II – O PACTO DAVÍDICO

- Davi tinha a visão da arca do Senhor em uma tenda que havia preparado para ela em Jerusalém, ao mesmo tempo em que habitava num palácio, cuja construção havia sido possível mediante uma aliança que firmara com Hirão, rei de Tiro, aliança esta, aliás, que o havia feito entender que seu reino havia sido confirmado pelo Senhor (II Sm.5:11,12).

- Davi não suportou a circunstância de morar num palácio, enquanto a arca do Senhor se encontrava numa tenda e decidiu que iria construir uma casa para o Senhor. Neste seu desejo, Davi mostra que dava prioridade, em seu governo, ao culto a Deus, que compreendia, como homem espiritual que era, que seu papel como rei de Israel era o de fazer com que sua nação cumprisse o propósito assumido no monte Sinai de ser “um reino sacerdotal e um povo santo” (II Sm.7:1-3; I Cr.17:1,2).

- Este desejo de Davi não era, nem poderia ser, desagradável a Deus. Seus intentos e sua motivação eram da mais perfeita razoabilidade e demonstravam uma espiritualidade elevada. Por isso, ao confidenciar este seu plano ao profeta Natã, o homem de Deus não titubeou em confirmar as intenções de Davi, estimulando-o a fazê-lo, sem que, no entanto, tivesse consultado a Deus ou tivesse falado em nome do Senhor. Deixou-se levar pelas evidências lógico-humanas, o que, entretanto, nunca deve ser feito por quem é escolhido pelo Senhor para trazer mensagens para o povo.

- Deus não pensa como o homem, pois senão não haveria de ser Deus (Is.55:8,9). Deus, por definição, é superior ao homem e, por isso, jamais poderemos entendê-lO (Pv.20:24). Não se pode, pois, admitir qualquer doutrina ou filosofia que esquadrinhe Deus em princípios e regras previamente estabelecidos pelo ser humano e que tudo expliquem. O que sabemos a respeito de Deus é tão somente aquilo que nos foi revelado pela Bíblia Sagrada (Dt.29:29), que é a verdade (Jo.17:17). Tudo o mais não passará de especulação e de vaidade humana. Cuidado com os “especialistas em Deus”, com os “doutores em divindade”, com aqueles que tudo sabem e tudo explicam à revelia das Escrituras…

- Naquela mesma noite, como Deus não é Deus de confusão (I Co.14:33), o Senhor se apresentou ao profeta Natã e o mandou desfazer a “profetada”, dizendo a Davi que ele não iria edificar o templo em Jerusalém, mas que tal tarefa ficaria a cargo de seu sucessor. O Senhor, como se vê, não recriminou o genuíno propósito de Davi, tanto que o confirmou (I Rs.8:18), mas queria mostrar ao Seu ungido que havia reservado para ele algo mais excelente do que ser o construtor e inaugurador do templo, onde se unificaria e de estabilizaria o culto a Deus em Israel, como um importante fator de estímulo ao cumprimento do propósito divino para Israel, mas que seria ele o construtor e o inaugurador da dinastia real de onde viria o Messias, cujo templo era muito mais importante que o que fosse construído com pedras (Jo.2:19,20).

- Muitos líderes, na atualidade, precisam ter este mesmo despertamento que Deus deu a Davi. Estão muito preocupados na construção de templos de pedras, esquecendo-se de que sua mais importante tarefa é ser “pescador de homens”, é construir o corpo de Cristo, este templo que não poderá ser derribado pelas portas do inferno, contra o qual não podem se levantar as hostes espirituais da maldade. Não podemos ter a mentalidade dos judeus que viam (e ainda veem) no templo material o suprassumo de seu culto a Deus, mas entender que os verdadeiros adoradores adoram o Pai em espírito e em verdade (Jo.4:20-24).

- É evidente que não somos contrários à criação de templos, visto que são eles necessários para que se tenha o devido culto a Deus, além do que servem eles de referência indispensável para que se cumpram as funções determinadas à Igreja na sua tarefa de evangelização dos perdidos e edificação dos salvos, mas não podemos, de forma alguma, tornar prioritário na administração das igrejas locais a construção civil. Muitos ministros do Evangelho reduziram-se a mestres de obras, o que não se pode admitir. O Senhor quis mostrar a Davi que ao homem segundo o coração de Deus está reservada uma tarefa mais importante que a da construção civil, embora não tenha, em momento algum, recriminado esta iniciativa, como já dissemos.

- Na Sua mensagem a Davi, o Senhor, em primeiro lugar, disse que nunca havia pedido que se Lhe construísse uma casa de cedros. Havia, pelo contrário, determinado que se construísse o tabernáculo para que ali fizesse sentir Sua presença no meio do povo. O que exigia de Davi é que apascentasse o Seu povo e que o objetivo de Deus era a preparação deste povo para que fosse ele plantado no lugar em que habitasse e dali nunca mais fosse removido nem afligido pelos filhos da perversidade. Por isso, aliás, havia dado descanso a Davi de todos os seus inimigos em redor (II Sm.7:8-11; I Cr.17:7-10).

- O Senhor mostra a Davi que mais importante do que edificar-Lhe casa de cedros era apascentar o povo de Israel. A pessoa humana tem prioridade para o Senhor. O homem foi feito a coroa da criação e é ele o bem mais precioso que existe no povo de Deus. Os pastores devem ter isto sempre em mente, pois, se jamais se esquecerem desta realidade, terão um comportamento totalmente diverso em relação a cada crente, cuja alma vale mais do que o mundo inteiro (Sl.49:7,8). Quantos, na atualidade, estão a sacrificar centenas, quiçá milhares de crentes, decepcionando-os, escandalizando-os em troca de alguns milhares e até milhões de reais ou de dólares norte-americanos? Ah, se soubessem quanto vale uma alma e o que é prioritário aos olhos do Senhor…

- O Senhor esperava de Davi que contribuísse, no seu governo, para o plano divino de fixação de Israel em um lugar de forma definitiva, para que de lá nunca fosse removido, o que, em outras palavras, nada mais era que um esforço do rei para que o povo servisse a Deus, pois somente na obediência ao Senhor, conforme os pactos sinaítico e palestiniano, pudessem permanecer na Terra Prometida (II Sm.7:10; I Cr.17:9).

- Deus havia abençoado Davi para que vencesse todos os inimigos ao redor de Israel para que eles tivessem descanso. Isto só pôde ser feito por Davi porque Deus o ajudou neste sentido, porque Deus o abençoou para que isto se concretizasse, tanto que, com Davi, Israel, pela vez primeira, chegou aos limites prometidos por Deus a Abraão. Mas não seria com Davi que isto se daria de modo definitivo. Na profecia, vemos claramente que Deus haveria, ainda, de fazer isto e, como sabemos, tal promessa somente se realizará com o próprio Jesus, em Seu reino milenial.

- Esta palavra, ademais, pode, sim, legitimamente, ser aplicada aos ministros do Evangelho em nossa atual dispensação. O “Israel de Deus” (Gl.6:16) também tem sido afligido pelos filhos da perversidade (Jo.16:33). Caminhamos neste mundo de aflições com bom ânimo, sabendo que Jesus já venceu o mundo e brevemente nos tirará daqui para que estejamos com ele para sempre, onde jamais poderemos ser afligidos novamente. Enquanto isto não acontece, os pastores, a quem incumbe apascentar o rebanho de Deus (I Pe.5:1-3), têm a responsabilidade de contribuir para que os crentes em Cristo se mantenham no lugar da bênção (os “lugares celestiais em Cristo” – Ef.1:3), a fim de que sejam devidamente plantados para que não sejam debilitados nem removidos de onde estão (“na rocha”, ou seja, em Cristo – Sl.40:2; I Co.10:4).

- Revela, então, o Senhor a Davi que edificaria casa ao rei. Em vez de Davi edificar uma casa ao Senhor, seria o Senhor quem construiria uma descendência, uma dinastia, uma casa real a Davi. Por isso, um dos filhos de Davi se assentaria no trono de Israel e teria o seu reino confirmado. Este sucessor é quem edificaria casa ao Senhor e o seu trono seria confirmado para sempre. Ao contrário do que havia ocorrido com Saul, o antecessor de Davi, Deus Se faria pai deste sucessor e ele seria Seu filho, a benignidade divina não se desviaria deste sucessor e ele seria confirmado na casa do Senhor e no Seu reino para sempre e o seu trono seria firme para sempre (II Sm.7:10-17; I Cr.17:10-15).
OBS: “…A promessa que ‘a casa’, ‘o reino’ e ‘o trono’ de Davi seriam estabelecidos para sempre é significativa porque mostra que o Messias viria da linhagem de Davi e que Ele estabeleceria um reino sobre o qual Ele reinaria. O pacto é sintetizado pelas palavras ‘casa’, prometendo uma dinastia na linhagem de Davi; ‘reino’, referindo-se a um povo que seria governado por um rei; ‘trono’, enfatizando a autoridade do mandamento do rei; e ‘para sempre’, enfatizando a natureza eterna e incondicional desta promessa para Davi e Israel…” (O que é o pacto davídico? Disponível em: http://www.gotquestions.org/Davidic-covenant.html Acesso em 31 out. 2009) (tradução nossa de texto em inglês).

- O fato de Davi não edificar o templo servia, assim, como uma comprovação de que Deus havia suscitado uma casa real para o Seu ungido. Seria o seu sucessor, um de seus filhos, que haveria de edificar casa para o Senhor. Este sucessor deve ser entendido em uma dupla aplicação do texto, a saber: uma aplicação imediata e uma aplicação futura.

- A aplicação imediata foi a prova de que Deus estava constituindo uma dinastia real. O sucessor de Davi construiu a casa que Davi havia desejado mas não iria fazê-lo. Com efeito, Salomão construiu o templo em Jerusalém, tendo, no ato da inauguração, relembrado, diante de todo o povo, a promessa que havia sido feita pelo Senhor (I Rs.8:12-21; II Cr.6:14-19).

- Após a construção e inauguração do templo, Deus apareceu a Salomão e mostrou ao rei que o pacto estabelecido com Davi dependia de uma condição para que fosse mantido, qual seja: a fidelidade de cada ocupante do trono de Davi. Cada rei que assumisse o trono, para ter seu reino confirmado, deveria andar como Davi andou e fazer tudo o que o Senhor ordenara na lei de Moisés, sob pena de o Senhor não só fazer valer o pacto palestiniano, retirando o povo da Terra, como também destruiria não só o templo de Jerusalém como também apearia do poder real a casa de Davi (I Rs. 9:1-9; II Cr.7:17-22). Vemos, pois, que o pacto davídico não era um pacto incondicional, mas que dependia do cumprimento, por parte dos descendentes de Davi, da observância da lei, como também a promessa não se esgotava em Salomão, mas tinha uma aplicação futura.
OBS: “…Neste pacto com Davi, Yahweh apresenta a Davi duas categorias de promessas: aquelas que se realizariam durante o tempo de vida de Davi (II Sm. 7:8-11a) e aquelas que encontrariam cumprimento depois de sua morte (II Sm. 7:11b-16). …” (GRISANTI, Michael A. O pacto davídico. Disponível em: http://www.tms.edu/tmsj/tmsj10p.pdf Acesso em 31 out. 2009) (tradução nossa de texto em inglês).

III – O CUMPRIMENTO DO PACTO DAVÍDICO AO LONGO DA HISTÓRIA DE ISRAEL

- A aplicação futura do pacto davídico diz respeito ao fato de que surgiria das entranhas de Davi, de sua semente, alguém que edificaria casa ao Senhor e que reinaria para todo o sempre sobre Israel. Este não era Salomão, pois, além de o próprio Salomão, na dedicação do templo, ter relembrado a promessa divina de perpetuidade da casa de Davi como algo futuro e ainda não acontecido (I Rs.8:25,26; II Cr.6:16), o Senhor, como já vimos, apareceu a ele, depois da dedicação do templo, para mostrar-lhe a condicionalidade do pacto inclusive para ele, que havia construído o templo.

- O fato é que os descendentes de Davi, a começar do próprio Salomão, não cumpriram com a condição de se manter fiel aos mandamentos do Senhor. Salomão, por causa da multiplicação de mulheres, caiu na idolatria e, por isso, o Senhor lhe tomou dez das tribos de Israel (I Rs.11:1-13; II Cr.10:15,19).

- Como se isto ainda fosse pouco, Manassés, o 14º rei de Judá (portanto, o 16º da linhagem da casa de Davi), aquele que mais tempo reinou sobre o povo de Deus (cinquenta e cinco anos — II Rs.21:1; II Cr.33:1), extrapolou todos os limites de desobediência aos mandamentos do Senhor, numa impiedade nunca antes vista sobre o povo, de tal maneira que, por causa de seus muitos pecados, determinou o Senhor que a casa real de Judá seria retirada do trono, por força mesmo do pacto davídico (II Rs.21:1-16; II Cr.33:1-10).
OBS: Alguém pode, corretamente, observar que Uzias também reinou 55 anos sobre Judá (II Cr.26:3), mas não podemos nos esquecer que não governou todo este tempo, visto que, por ter ficado leproso, foi declarado imundo e, num período não explicitamente determinado nas Escrituras (Flávio Josefo afirma que isto aconteceu no 52º de seu reinado, portanto, teria “reinado” leproso por três anos), reinava mas não governava, pois foi substituído pelo seu filho Jotão, que era quem efetivamente administrava Judá a partir deste instante – II Cr.26:20,21.

- Apesar do avivamento proporcionado por Josias, neto de Manassés, o Senhor manteve a Sua sentença contra Judá e a casa de Davi, como deixou claro na palavra que trouxe por intermédio da profetisa Hulda, quando se descobriu o livro da lei no templo de Jerusalém (II Rs.22:14-20; II Cr.34:22-28).

- Deus não foi insensível aos clamores de Josias e do povo. Na verdade, vemos que, morto Josias, a geração que se lhe seguiu não cessou de desobedecer ao Senhor. Os sucessores de Josias, três de seus filhos e um neto (Joacaz, Joaquim, Jeconias ou Jeioaquim – este, neto de Josias — e Zedequias) não serviram a Deus e fizeram o que era mal aos olhos do Senhor. Como consequência disto, o profeta Jeremias foi usado por Deus para relembrar a sentença de perda da dignidade real da casa de Judá (Jr.22), em especial a Jeconias, que, por ser o neto de Josias, era o “natural” suscitador de semente à casa real de Judá.

- Em palavra a Jeconias (ou Joaquim, na ARC), o profeta Jeremias afirmou que estaria “privado de seus filhos, homem que não prosperará nos seus dias nem prosperará algum de sua geração para se assentar no trono de Davi e reinar mais em Judá” (Jr.22:30).
- Teria, então, o Senhor quebrado o pacto davídico? De forma alguma! O pacto davídico era condicional, no que respeita à manutenção no trono de um descendente de Davi, à observância deste descendente dos mandamentos, estatutos e juízos do Senhor. Entretanto, os descendentes de Davi não se mantiveram fiéis ao Senhor e, por isso, o Senhor fez o que havia dito a Salomão. Destruiu o templo e não permitiu mais que alguém da casa de Davi reinasse sobre Judá.

- Mas, se o Senhor ratificou que não haveria mais quem reinasse sobre Judá da casa de Davi, não permitiu, porém, que a semente de Davi fosse destruída, o que era o que de mais natural ocorria quando da conquista de um povo por outro, em especial quando este povo era o da Babilônia, cuja política era a da mistura dos povos conquistados para que perdessem a sua identidade.

- Como prova de que Deus não havia se esquecido de seu compromisso com Davi, fez com que o rei de Babilônia, Evil-Merodaque, no 37º ano do cativeiro, levantasse ao mesmo Joaquim (ou Jeconias) da profecia de Jeremias da cabeça da prisão e lhe desse um lugar de destaque na sua corte, lugar que reteve até a sua morte. Com esta elevação, Deus impediu que a dinastia de Davi se extinguisse e, assim, o plano da redenção da humanidade prosseguisse (II Rs.25:27-30; Jr.52:31-34).

- Quando o povo retornou a Jerusalém, o próprio Senhor determinou que fosse reconstruído o templo, apesar de toda a oposição dos gentios. Esta reconstrução foi dirigida por ninguém mais, ninguém menos que Zorobabel, bisneto de Jeconias, neto de Pedaías e filho de Sealtiel (I Cr.3:15-19).

- Muitos discutem como que Jeremias disse que Jeconias seria “privado de filhos” e, em I Crônicas, é dito que teve dois filhos (Assir e Sealtiel). Há alguns que dizem que Sealtiel não seria filho biológico de Jeconias, mas, sim, um sobrinho que teria sido adotado como filho na corte de Babilônia, buscando, inclusive fundamento para tal pensamento na genealogia de Jesus, vez que Sealtiel é ali apontado como filho de Neri, que seria descendente de Natã (outro filho de Davi com Bate-Seba – I Cr.3:5) e não de Salomão (Lc.3:27-31). Como não é dada qualquer descendência de Assir, ter-se-ia cumprido a profecia de Jeremias sem que se tivesse quebrado o pacto davídico, visto que se tem a manutenção não só da linhagem legal como também biológica da linhagem de Davi e Bate-Seba.

- Zorobabel dirigiu a reconstrução do templo em Jerusalém, atendendo às determinações do Senhor feitas pelos profetas Ageu e Zacarias (Ed.5:1,2; 6:14). O templo foi, então, reconstruído por um descendente de Davi, que, mais uma vez, edificava-Lhe casa. Zorobabel, porém, não mais ostentava a dignidade real e, por isso, não era a personagem mencionada na aplicação futura do pacto davídico.

- Tanto assim é que, em meio à reconstrução do templo, vieram a Zorobabel duas mensagens da parte do profeta Ageu.

- Na primeira delas (Ag.2:1-9), o Senhor, além de confirmar a necessidade da reconstrução do templo, prometeu que, “daqui a pouco”, faria tremer os céus, a terra, o mar, a terra seca, todas as nações e trariam os tesouros de todas as nações e a casa se encheria de glória, pois a glória daquela casa seria maior que a da primeira e naquele lugar daria o Senhor a paz.

- Em Ag.2:7, há muita discussão sobre a tradução, pois algumas versões traduzem “tesouros de todas as nações” como o “Desejado de todas as nações”, fazendo, pois, alusão, nesta profecia, ao Messias, que seria apontado nesta profecia, em uma demonstração de que o pacto davídico ainda estava de pé, embora não fosse se cumprir em Zorobabel.

- Sem adentrarmos nesta discussão, o certo é que, nesta profecia de Ageu, mostra-se que a reconstrução do templo era necessária mas não se daria ali o cumprimento do pacto davídico, pois aquela casa testemunharia uma glória maior que a da primeira, que fora construída por Salomão. Ora, tal não se deu na construção do Segundo Templo, pois, ao contrário do que ocorrera com Salomão (e mesmo no tabernáculo com Moisés), quando o Segundo Templo foi dedicado, a glória do Senhor não apareceu e não encheu aquela casa (Ed.6:15-22). Esta glória viria “daqui a pouco”, como afirmou o Senhor.

- Na segunda profecia de Ageu, o Senhor prometia fazer tremer os céus e a terra, derrubar o trono dos reinos e destruir a força dos reinos das nações, quando então seria tomado Zorobabel e feito “anel de selar”, porque havia Zorobabel sido escolhido pelo Senhor (Ag.2:20-23).

- Ora, quando o profeta Ageu se dirige a Zorobabel, chama-o de “príncipe de Judá”. Zorobabel nada mais era que um simples “príncipe”, pois, embora fosse o herdeiro da coroa real de Judá e estivesse, por milagre, à frente do povo apesar desta condição, não podia, de forma alguma, governar sobre os judeus, que eram servos dos reis da Pérsia, tanto que edificavam o templo “conforme o mandado de Ciro e de Dario, e de Artaxerxes, rei da Pérsia” (Ed.6:14 “in fine”). Como, então, haveria o Senhor de “derrubar o trono dos reinos e destruir a força dos reinos das nações” nos dias de Zorobabel, que nem sequer se tornou rei?

- Deus confirmava a Zorobabel que o havia escolhido para dar a continuidade à semente de Davi. O templo estava sendo reconstruído, mas não seria ainda Zorobabel quem haveria de ser o descendente que firmaria o seu trono para sempre em Israel. Deus queria a reconstrução do templo, mas não seria nesta reconstrução que se cumpriria a promessa dada à casa de Davi. O cumprimento ainda seria no futuro, quando, inclusive, os poderes gentílicos, que hoje dominavam sobre os judeus, seriam extirpados.

- Tal circunstância foi bem compreendida pelo povo judeu no cativeiro, como vemos, por exemplo, na oração feita pelos maiorais dos levitas nos dias de Neemias (Jesua, Cadmiel, Bani, Hasabneias, Serebias, Hodias, Sebanias e Petaías) (Ne.9:34-38).

- Este descendente de Davi, que teria seu trono confirmado para sempre e que traria a glória do Senhor para o Segundo Templo, é Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Desde o instante em que entrou, pela vez primeira, no templo em Jerusalém, foi apresentado como a salvação do Senhor, a luz para alumiar as nações e a glória de Israel (Lc.2:29-32). Quando retornou a este mesmo templo, doze anos depois, apresentou-Se como a sabedoria de Deus, causando admiração por Sua inteligência e respostas, mostrando-Se como o Filho (Lc.2:46-49), como anunciado no pacto davídico (II Sm.7:14a; I Cr.17:13a).

- O Segundo Templo teve, assim, maior glória que o primeiro, pois, se no Primeiro Templo, a glória de Deus se apresentou e encheu a casa por ocasião da inauguração, no Segundo, o próprio Deus compareceu, através da pessoa do Filho, trazendo, neste mesmo templo, o Seu poder, o Seu amor e os Seus ensinos.

- Mas o verdadeiro templo não era aquele construído por Zorobabel e reformado por Herodes, cuja beleza causava admiração a todos os judeus (Mt.24:1,2; Lc.21:5,6). Logo no início de Seu ministério terreno, Jesus foi ao templo e, conforme a narrativa de João, ali revelou qual era o verdadeiro templo: aquele que seria derribado, mas que, em três dias, tornaria a se levantar: o Seu corpo (Jo.2:19-21). Esta afirmação de Jesus calou profundamente na mente dos judeus, tanto que foi a principal acusação que lhe fizeram no Sinédrio, quando de Seu julgamento perante os judeus (Mt.26:59-61; Mc.14:57-59).

- Jesus edificou uma casa que não seria jamais derribada: a Sua Igreja (Mt.16:18), que é o Seu corpo (I Co.12:27). Esta casa somos nós (Hb.3:3-6) que, enquanto aqui estamos, devemos nos portar como templo do Espírito Santo (I Co.6:19).

- Mas, além de ser o edificador da casa que jamais seria derribada, Jesus, também, é Aquele que terá confirmado o Seu reino e o Seu trono para sempre. A outra acusação que se fez contra o Senhor Jesus, desta feita, perante os romanos, foi precisamente o de Se declarar rei dos judeus (Lc.23:1-3; Jo.18:33-37).

- A Pilatos, Jesus mostrou que Seu reino não era deste mundo, indicando, assim, que não haveria de ser nesta ocasião em que seria confirmado n’Ele o reino e o trono de Davi. Isto se dará no futuro, quando o Senhor retornará glorioso com a Sua Igreja, a casa que tiver edificado, derrotando o Anticristo e se estabelecendo em Israel, não só como rei dos judeus, mas como rei de todas as nações, Rei dos reis e Senhor dos senhores, derrubando os tronos de todas as nações, como profetizado por Ageu (Is.11; Dn.2:44,45; Ap.19:11-21; 20:4).

- Conforme podemos ver, o pacto davídico está em pleno vigor ainda, não tendo sido definitivamente cumprido, já que Jesus ainda não ocupou o trono de Israel, como prometido por Deus a Davi. Nem se diga que Jesus disse que Seu reino não era deste mundo, pois, efetivamente, não no é, mas o pacto firmado com Davi fala do “trono de Davi”, do “reino de Davi” e sabemos bem que o trono de Davi e o reino de Davi é o reino de Israel, cujas fronteiras, não por acaso, são as mesmas da promessa dada por Deus a Abraão.

- Este não cumprimento do pacto mesmo com a vinda do Messias e Sua morte vicária no Calvário foi atestado pelo próprio Senhor Jesus, pois a única pergunta feita por Jesus e que não foi respondida por Ele durante Seu ministério terreno diz respeito ao pacto davídico, como se verifica de Mt.22:41-46 e Mc.12:35-37.

- Esta resposta viria, por inspiração do Espírito Santo, no dia de Pentecostes, quando, na sua pregação, Pedro mostrou aos judeus que o ouviam que o Filho de Davi era Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, que seria levantado do fruto dos lombos do segundo rei de Israel, segundo a carne, para que este descendente Se assente sobre o trono de Davi (At.2:25-30). Que isto ocorrerá, diz Pedro, não se pode ter dúvida porque Jesus ressuscitou dentre os mortos e foi recebido nos céus e, por isso, Davi profetizara que o Filho de Davi era Senhor (At.2:32-36).

- Completando este raciocínio, o mesmo Pedro, na segunda pregação que é relatada no livro de Atos, feita após a cura do coxo da porta Formosa do templo, afirmou que convém que o céu contenha a Jesus Cristo até os tempos da restauração de tudo, inclusive do reino de Israel (At.3:20,21).

- Não há, pois, como deixarmos de observar que o pacto davídico apontava para Cristo Jesus e que ainda não foi completamente cumprido, visto que, apesar da edificação da casa indestrutível, ainda não se confirmou o reino de Israel e o trono de Davi a Jesus. Brevemente, porém, o Senhor Jesus, com a Sua casa já edificada, reinará sobre Israel. Além da casa construída não por mão de homens, a casa espiritual que é a Sua Igreja, também haverá de edificar um templo em Jerusalém, o templo descrito pelo profeta Ezequiel (Ez.40-46), reinando sobre um novo Israel, restaurado e que cumprirá o propósito de ser um reino sacerdotal e um povo santo (Ez.47,48). Após estes mil anos, então, o Senhor Jesus, tendo feito a completa restauração da humanidade e da criação, submeter-Se-á ao Pai e terá congregado n’Ele todas as coisas (Ef.1:10), tendo, então, a consumação dos séculos. Aleluia!

- Estas sublimes promessas foram feitas a Davi, motivo por que dissemos que é o pacto davídico, sem dúvida, o ápice da vida espiritual deste homem segundo o coração de Deus.

- Neste pacto, uma vez mais, aprendemos que os desígnios de Deus se cumprem independentemente da vontade humana, mas que a cada ser humano é dada a oportunidade de aceitar, ou não, a oferta proveniente da benignidade e misericórdia do Senhor. Assim como Davi aceitou os ditames deste pacto e se manteve fiel ao Senhor até o fim reunindo condições de desfrutar das “firmes beneficências” que lhe foram prometidas, também podemos nós nos habilitar a recebê-las, desde que aceitemos a oferta que nos faz o Senhor (Is.55:1-3).
OBS: “…É enquanto filho de Yahweh que Davi e seus descendentes desfrutariam das cláusulas deste pacto. Estes versículos [II Sm.7:14-16, observação nossa] também introduzem a possibilidade de que filhos desleais poderiam perder a oportunidade de desfrutar das cláusulas deste (cf. I Rs.2:4; 8:25; 6:12-13; 9:4, 6-7; Sl.89:29-32; 132:12). Como a Abraão (Gen 12:1-3), Yahweh prometeu a Davi uma descendência eternal e a posse da terra. Filhos leais, i.e., que vivessem de acordo com as estipulações do pacto mosaico, poderia desfrutar plenamente das cláusulas oferecidas a eles. Contudo, filhos desleais, i.e., descendentes davídicos que fossem infiéis ao pacto, perderiam a prometida proteção divina e eventualmente perderiam o gozo da autoridade e da terra. Ainda assim, Yahweh prometa que os filhos desleais perderão sua oportunidade de gozar das cláusulas deste pacto, afirma que a casa davídica e o trono durarão para sempre, dando a esperança de que Yahweh poderia levantar, um dia, um filho leal que satisfaria as exigências de Yahweh para a observância do pacto. Embora a linhagem de Davi pudesse ser castigada, os termos deste pacto, a hesed (חסד) de Deus jamais seria retirada.…” (GRISANT, Michael A. end. cit.) (tradução nossa de texto em inglês).


- Na história deste pacto, vemos homens que, apesar de seus pecados, deles se arrependeram e obtiveram o perdão divino, como é o caso do próprio Davi e mesmo de Manassés que, apesar de ter sido o mais ímpio dos descendentes de Davi, aproveitou a oportunidade para se arrepender dos males cometidos (II Cr.33:11-20), mas também temos casos como o de Uzias que, apesar de iniciado bem nos caminhos do Senhor, sendo ricamente abençoado, acabou se rebelando contra o Senhor e tendo triste fim (II Cr.26:16-23) ou de Joás que, igualmente, acabou se desviando dos caminhos do Senhor, chegando, inclusive, a cometer crimes dentro do próprio templo (II Cr.24:17-22; Mt.23:35; Lc.11:51).

- A todos estes descendentes de Davi, integrantes da casa de Davi, Deus deu a mesma oportunidade para que se mantivessem fiéis ao Senhor, a fim de receber as bênçãos da perpetuidade. Nem todos aproveitaram esta chance. Assim ocorre conosco, hoje, nós, que somos, também, integrantes da casa de Davi, visto que fomos feitos “reis e sacerdotes” por Nosso Senhor Jesus Cristo (Ap.1:6), coerdeiros de Cristo (Rm.8:17), irmãos do Senhor (Hb.2:11). Vamos desperdiçar esta manifestação da graça do Senhor? Que Deus nos ajude a perseverarmos até o fim e atingirmos as “firmes beneficências de Davi”. Amém.

Caramuru Afonso Francisco