sábado, 14 de novembro de 2009

A interpretação atual e tradicional dos dízimos e das ofertas baseada no antigo testamento-particularmente em Malaquias-culmina na teologia da prosper




A interpretação atual e tradicional de Malaquias três e do restante do antigo testamento é uma interpretação literal que afirma; para o crente ser abençoado financeiramente deve ser dizimista fiel. O crente que não é dizimista fiel não é abençoado financeiramente. Temos, portanto, o segredo do sucesso financeiro, bem como o segredo do fracasso financeiro. Este ensino é estraido de uma interpretação literal de Malaquias três do verso oito ao onze. Segundo o professor D. Kizzear. Em uma nota de rodapé para Malaquias três do dez ao doze na bíblia de estudo vida nova. Quatro bênçãos são prometidas ao dizimista: 1, mantimento na casa do senhor v. 10; 2, bênçãos de natureza espiritual v.10; 3, produtividade nos campos e nos negócios v.11; 4, reconhecimento das bênçãos divinas por parte do mundo v.12. Ele conclui sua nota dizendo que no novo testamento somos chamados a renunciar tudo por ele que tudo Entregou por nos. Todo professor serio deve concordar com Kizzear e suas conclusões deste texto. E consequentemente reconhecer que o método de interpretação empregado no texto deve ser o método literal. Porem, ao que me parece, esta interpretação deste texto nos deixa com um problema. Não são somente as conclusões acima que são extraídas deste texto. Extraímos também a Conclusão de que ao retermos o dizimo somos condenados como ladrões. A despeito da coerência do método utilizado, não posso admitir tais conclusões por um único motivo geral.
Esta exegese não leva em conta a regra áurea de interpretação; a analogia da fé. Nenhum teólogo ou professor serio e honesto pode negligenciar a regra básica de que o antigo testamento deve ser interpreta à luz do novo testamento e não o contrario, pois o antigo testamento é provisório e preparatório e só pode ser entendido à luz do novo testamento.Sabemos que todas as doutrinas cristãs estão contidas no antigo testamento, mas só podem ser mantidas e sustentadas se corresponderem ao ensino do novo testamento. Malaquias três deve ser interpretado em primeiro lugar à luz do restante do antigo testamento e consequentemente á luz do novo testamento. E não de modo isolado como - ao que me parece -, fez o professor Kizzear e principalmente os teólogos da prosperidade. Portanto, nossa discussão será limita a tentar provar - mediante uma analise dos principais textos que mencionam os dízimos – que a atual interpretação é insustentável e que só pode nos levar à teologia da prosperidade.
A primeira referencia bíblica a dizimo remonta a Abrão que deu dízimo a Melquesedeque. (GN. 14, 20). Este é um dos textos prova que são usados para provar a atual doutrina dos dízimos. Este è, para mim, um argumento aparentemente forte e que apresenta no mínimo três dificuldades que torna invalida sua aplicação para a igreja nos dias atuais. Primeiro, a pratica de dar dízimos a homens com poder e autoridade sacerdotal, é uma pratica pagâ antiga, e não uma revelação divina dada a Abrão. Todo herói de guerra, ao retornar da guerra com a vitória, recebia a benção do sacerdote, e como conseqüência o herói de guerra lhe dava o dizimo dos despojos, como sinal de adoração e gratidão ao deus ao qual o sacerdote era representante. Alguns professores - principalmente os dizimistas - sustentam que por se tratar de uma passagem citada no novo testamento concluem que ela permite a pratica para os crentes do novo testamento.
Esta tese parece boa, mas não corresponde à verdade. Só porque uma passagem do antigo testamento é citada no novo não quer dizer que deva ser um padrão de conduta para ele. Esta historia bíblica deve ser vista como uma revelação provisória e preparatória da superioridade do sacerdócio de Cristo, como superior ao sacerdócio levitico. Esta tese é uma conclusão extraída de uma exegese de hebreus sete. Só por meio de uma exegese forçada podemos chegar a outras conclusões nestes dois textos.
Segundo, Os teólogos dispensacionalistas fizeram uma clara e coerente distinção entre Israel e a igreja. Estas distinções dispensacionalistas devem - já que somos dispensacionalistas – ser levadas em conta ao interpretarmos o antigo testamento, pois a maioria de seu conteúdo esta restrito em seu contesto. O evento de Abrão – como já dissemos – era um costume antigo. Deus – no antigo testamento – não se relaciona com o homem por meio de praticas e costumes divinos, mas sim humanos. Deus usa praticas do cotidiano de vida do povo para que o povo possa entendê-lo, e consequentemente se relacionar com ele. Por exemplo; para entrar em aliança com Abraão Deus não usa um procedimento divino ou transcendente, pelo contrario ele usa um procedimento do cotidiano de vida de Abraão. A nova aliança também foi instituída mediante um costume comum de execução que havia no império romano. Aprouve a Deus estabelecer - como lei irrevogável – um costume antigo, para o sustento e manutenção dos sacerdotes, bem como de sua obra e dos pobres e necessitados, de modo restrito para a nação de Israel. Não podemos confundir costumes antigos com palavra Deus, nem tampouco trazer para a igreja mandamentos que estão restritos a Israel. A não ser que Deus nos autorize por meio dos ensinamentos de seus apóstolos e profetas contidos no novo testamento.
Terceiro todo exegeta serio que tenha um compromisso com a verdade da palavra de Deus deve concordar que para estabelecermos uma doutrina e torna-la padrão para o ensino e a pratica na igreja, não basta apenas obter três referencias bíblicas como textos prova, pois na maioria dos casos tais textos prova não prova o que é improvável. Nem é suficiente usar o método hermeneutico comumente chamado analogia da fé, pois com tal método simplesmente colocamos o antigo testamento no mesmo nível de revelação do novo testamento, e isto é inverossímil. O professor que deseja ser coerente com a revelação contida nas sagradas escrituras deve, primeiro, como padrão doutrinário, reconhecer que o antigo testamento deve ser interpretado à luz do novo testamento, e não o contrario, e levar em conta a relação que existe entre ambos de promessa e cumprimento, revelação em progresso e revelação completa. Devemos esperar que com o progresso da revelação venha uma revelação mais clara e completa de qualquer ensino pressuposto no antigo testamento. O que, a meu ver é decisivo, é que não há no novo testamento qualquer indicio que relacione o dizimo de Abraão com a igreja, nem tampouco o dizimo de Malaquias. Portanto, afirmamos, o dizimo conforme ensinado na lei, bem como antes dela, não tem parte no novo testamento, e não pode ser ensinado desta maneira na igreja, pois agindo assim abrimos as portas para a teologia da prosperidade. Cristo não ensinou e nem tampouco ordenou tal pratica para a igreja. Paulo - que na minha concepção é o padrão doutrinário para a igreja, e para medir a ortodoxia – também não ensinou tal pratica. Em resumo, nenhum teólogo apostólico ensinou tal pratica. Por isso, perguntamos, porque os autores do novo testamento não mencionam o dizimo? Duas respostas são possíveis; primeiro esta era uma pratica tão normal nestes dias, que menciona-la seria supérfluo. Este é um argumento simplista, e não leva em conta a idéia de que no novo testamento são mencionadas muitas coisas que eram de fato normais e praticadas por todos. Segundo, a diversidade encontrada nos documentos do novo testamento frequentemente reflete os diferentes interesses pessoais e estilos idiossincráticos de cada um dos autores. (esta é uma reflexão do doutor Donald A. Carson. Extraída de seu livro; unidade e diversidade no novo testamento.) E ele aconselha a sermos cuidadosos ao afirmar que um autor não crê nesta ou naquela doutrina simplesmente porque não há menciona ou enfatiza. Reiterando o que disse, não quero com minhas palavras negar a possibilidade de os autores do novo testamento reconhecer ou não a pratica do dizimo. Quero com ênfase, ressaltar que com a falta de ênfase por parte dos autores sagrados a igreja não deve estabelecer o dizimo como doutrina bíblica com base em uma doutrina bíblica que esta restrita ao antigo testamento e é uma pratica segundo a lei. Eu acrescentaria mais uma idéia à reflexão de Carson; a diversidade do novo testamento também se da por aquilo que eles viam como essencial e não essencial o que é importante e menos importante. Isto explica o porquê de tantas omissões e tantas coisas em demasia nos escritos sagrados do novo testamento. Creio também ser este o principal motivo para a omissão por parte dos teólogos apostólicos das praticas de dízimos, já que falam apenas de ofertas, não deveríamos entender o que não é indicado. Deixe-me mostrar a partir de textos chave no novo testamento, o que aqui é, e não é indicado. Encontramos em o novo testamento, apenas dois textos que falam sobre o dizimo; Mateus 23.23 com seu equivalente sinóptico em Lucas; Lucas 18. 12 e hebreus 7. 4-10.
Mateus 23.23. Ai de vos, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dizimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da lei: a justiça a misericórdia e a fé; devíeis porem, fazer estas coisas, sem omitir aquelas! E claro e obvio que Jesus aqui, não esta ministrando um ensino normativo para a igreja. Este texto é decisivo, e prova que Cristo ratificou a pratica dos dízimos ao afirmar que devemos fazer estas coisas, sem omitir aquelas, esta é parte final do verso e, portanto esta ai firmada por Cristo a pratica dos dízimos, enfaticamente como dever. Esta exegese é convincente para apenas os que já estão vendidos a ela. Na verdade este texto - de acordo com uma exegese coerente - É decisivo contra o atual ensino praticado pela igreja, principalmente os teólogos da prosperidade. E isto por três motivos; Primeiro, Jesus, obviamente trata com escribas e fariseus. Ambos eram ministros da religião da lei, isto é, legalistas viviam sob o regime e a tutela da lei. E Cristo não nega este fato, pois também, tinha um ministério caracterizado por sua submissão a lei do antigo testamento. Embora com freqüência rompesse com a tradição por um sem numero de ensinos e ditos que só puderam ser entendidos e compreendidos depois de sua morte e ressurreição (Carson. Ibid pg. 60). Portanto, Cristo, comprometido com o cumprimento irrestrito da lei convoca os escribas e fariseus a cumprirem a lei por completo e não apenas parte dela ou simplesmente aquilo que lhes são convenientes cumprir. (Tg. 2.10).
Segundo, eles davam os dízimos, mas negligenciavam os preceitos mais importantes da lei; a justiça a misericórdia e a fé. O que não esta indicado aqui e que Cristo divide a lei em preceitos importantes e menos importantes. Para mim isto é extraordinário, temos o doador da lei nos ensinando como entender a lei. Os que querem viver sob a lei devem cumprir literalmente tanto os preceitos mais importantes quanto os menos importantes. Mas os ministros da lei supervalorizavam os preceitos menos importantes e minimizavam os mais importantes da lei. Por isso merecem ser chamados de hipócritas. Tome um fôlego, Cristo não trata a sua igreja assim, sabe por quê? Porque ela vive sob a graça e não sob a lei. Para Deus a oferta de Caim não é pior do que a oferta de Abel. É evidente que os preceitos mais importantes da lei aqui é a justiça a misericórdia e a fé. Ao que me parece já esta provado que não podemos mais firmar uma doutrina de dízimos com base neste texto. Mas mesmo se pudéssemos este texto nos mostra que uma supervalorização do dizimo é errado, e qualificar os cristão de fiel e infiel com base em dar e não dar dízimos é mais errado ainda. Isto é visto de nossos púlpitos todos os dias. Acho que tenho aqui uma tangente inconsciente entre a salvação pelas obras e pela fé.
Terceiro, os preceitos mais importantes da lei devem ser ensinados como pratica padrão na igreja. E os preceitos menos importantes devem ser abolidos. Tornou-se padrão na teologia moderna dividir a lei em três aspectos; cerimonial os rituais e as praticas religiosas do culto levitico. Civil as leis estatutárias para o regimento da nação. Moral preceitos éticos de conduta e caráter para uma santidade de vida e uma comunhão perfeita com Deus e com o próximo. Em qual aspecto da lei os dízimos de Malaquias devem se enquadrar? Isto não é indicado aqui. E Cristo não toca nesta parte. Mas ele nos da uma pista aqui, que devemos seguir para resolver este problema. Ao que me parece os preceitos mais importantes devem der enquadrados no aspecto moral da lei. A justiça a misericórdia e a fé são enfatizados no novo testamento, ao passo que, os preceitos menos importantes não são enfatizados. A doutrina dos dízimos e ofertas do antigo testamento devem estar enquadrados nos aspectos cerimonial e civil da lei, e, portanto, não são aplicáveis à igreja. A igreja vive, não sob a lei, mas sob a graça. É, portanto, pela graça que a igreja cumpre a lei moral de Cristo através da operação do espírito santo na vida de todo cristão. (MT. 5-7; RM. 7,8; 13.8-10; GL. 3-5).
Hebreus 7. 4-10
V. 5. Os que recebem o sacerdócio têm mandamento de recolher, de acordo com a lei, os dízimos do povo... Este texto traz consigo uma antítese entre o sacerdócio de Cristo e o sacerdócio levitico. E sem duvida, o autor sagrado – que é desconhecido e cujas habilidades teológicas são extraordinárias – vê claramente a relação estreita que existe entre a ordem de Melquisedeque com a ordem de Cristo. Ao que me parece Abraão com seu dizimo é apenas um coadjuvante em uma peça teatral cujos personagens centrais são Cristo e Melquisedeque. Ora é evidente que o autor aos hebreus não tem o propósito de estabelecer uma pratica de dizimo na igreja. O que ele nos revela é o que já foi indicado; de acordo com o verso 5 há uma ligação estreita entre o dizimo de Abraão e os dízimos da lei.
Este é o quadro que emerge de uma analise dos principais textos da bíblia que tratam de dízimos e ofertas. Fica evidente que a atual interpretação de tais textos não pode ser sustentada frente a uma analise livre de tendências legalistas e de prosperidade. Olhe mais de perto a nota do professor Kizzear ele diz na benção três que haverá produtividade nos campos e nos negócios. Se aplicarmos esta benção a Israel estamos corretos, mas, contudo, erramos se aplicarmos esta benção a igreja. Consegue ver a teologia da prosperidade nesta benção? E quando afirmamos que o dizimo é uma semente, que plantamos hoje para colher amanhã? E quando afirmamos que Malaquias três é um lugar onde Deus nos deixa prova-lo? E quando afirmamos que os dizimistas são abençoados ao passo que os não dizimistas são amaldiçoados? O pastor e teólogo das assembléias de Deus do Brasil, Eliezer Lira. Disse em um encontro de casais que quem não é dizimista esta cometendo latrocínio, e não deve ser admitido no seio da igreja, pois é um bandido. O pastor Cruvinel, teólogo e professor de grego, disse que aqueles que não são dizimistas não estavam autorizados a comprar seu dvd, pois Deus não entra pela janela. O que ele quis dizer com isso? Obvio não é? É por causa dessas aberrações que este ensaio foi preparado.
A vida cristã desmente esta pratica. A realidade da vida cristã, bem como a realidade da vida na sociedade não tolera tal idéia dentro de seus muros. A igreja deve abandonar tais praticas ilícitas, e procurar desenvolver um procedimento bíblico que seja coerente para ensinar e estimular o povo a contribuir. No caso de dízimos e ofertas creio que sem sombra de duvida podemos formular a partir de dados tanto do antigo quanto do novo testamento, uma doutrina de dízimos e ofertas que seja livre de tais aberrações supra citadas. Devemos iniciar o nosso trabalho a partir do novo testamento, em direção ao antigo testamento, e jamais o contrario. O antigo testamento deve ser interpretado à luz do novo e não contrario. O ensino de Paulo sobre o assunto deve ser o nosso guia para desenvolver uma doutrina coerente de dízimos e ofertas. Qualquer ensino, seja ele apostólico ou profético, ou sapiencial, no antigo ou no novo testamento deve como regra estar de acordo com o ensino de Paulo. O doutor John Stott afirma que as partes didáticas da bíblia devem ter prioridade sobre as partes narrativas, e as partes narrativas devem ser interpretadas à luz das partes didáticas. (batismo e plenitude do Espírito Santo. Vida nova) não podemos fazer uma exegese minuciosa de todos os dados bíblicos por falta de espaço. Porem quero deixar perfeitamente claro apenas o fator decisivo. A contribuição financeira na igreja deve ser única e exclusivamente voluntária. Ninguém é obrigado a contribuir, e ninguém deve ser ensinado a contribuir e esperar receber bênçãos financeiras em troca e nem tampouco colocar Deus a prova. Este é um ensino que pode e deve ser derivado do novo testamento e conseqüentemente ensinado na igreja.
A origem da alma esta em Deus e consequentemente a sociedade é colocada lá também. A vida deve ser medida pela vida. Nos temos que aceitar a vida e o mundo como nos são dados e não como sonhamos que seja. É melhor calcular os custos antes de começar a construir a torre... Lc. 14.28. O mundano é a analogia do celestial. Os filhos deste mundo são sábios julgam por seus próprios padrões e fazem bem suas obras – melhor que os filhos da luz que julgam por meio deles – e o senhor os louva por isso. Não há nada melhor para um homem do que comer e beber, e do que fazer sua alma se alegrar no seu trabalho. Isto também eu vi que era da mão de Deus. (Ec. 2.24). Consegue entender a filosofia pratica de Eclesiastes? Siga teu caminho coma teu pão com alegria e beba teu vinho (opa! Vinho?) com coração alegre, pois agora Deus aceita suas obras. Que tuas vestes sejam sempre brancas; e que não falte unção há tua cabeça. Viva alegremente com tua esposa a quem tu amas todos os dias de tua vida, a qual ele te deu sob o sol, pois esta é tua porção nesta vida e em teu labor que tens debaixo do sol o que quer que tuas mãos encontrem para fazer, faça-o com tua força; pois não há obra, nem invenção, nem conhecimento, nem sabedoria no tumulo para onde vais. (Ec. 9.7-10). Consegue ver tal filosofia nos ensinos de Cristo? Considere o ponto de vista da vida que as parábolas dos evangelhos sinópticos expressam. Nelas vemos o mundo simplesmente como se pode encontrar. As coisas invisíveis de Deus são entendidas pelas coisas que são criadas. Este não é um processo racional obvio e auto-evidente, ele é próprio da natureza da revelação. Para que o que se pode ser conhecido de Deus manifeste-se entre eles, pois Deus lhes manifestou... Porque as coisas invisíveis de Deus são claramente vistas desde a criação do mundo, sendo entendidas por meio das coisas que são criadas. Mesmo seu poder eterno e divindade. (Rm. 1.19; 20).
Este é o quadro relativamente mal pintado que emerge de meu entendimento da vida cristã sendo vivida na vida do mundo. Concluo com sabias palavras do famoso teólogo suíço que diz; Uma liberdade de movimento humilde, mas proposital e realmente feliz, sempre em algum grau, nos será permitida mesmo nesta era – A liberdade de entra e sair em silencio da casa dos publicanos e pecadores; a liberdade de viver na terra dos filisteus; a liberdade de entrar e sair da casa de mammom e da injustiça; a liberdade de entrar e sair da casa do estado; a liberdade de entrar e sair da falsamente proclamada ciência e artes liberais; e por fim a liberdade ate mesmo de entrar e sair da casa de adoração (Karl Barth).




Pb. Juliano da Silva
Setembro 2009




Nota : As opiniões aqui expressas não representam necessariamente a posição e interpretação do blog.

DAVI E A CASA DE SAUL


O relacionamento de Davi com a casa de Saul mostra o seu coração misericordioso, que tem, porém, como limite, a justiça de Deus.

Texto áureo: “E disse Davi: Há ainda alguém que ficasse da casa de Saul, para que lhe faça bem por amor de Jônatas?” (II Sm.9:1)


INTRODUÇÃO

- Neste trimestre letivo, que estamos a estudar a vida de Davi, resolvemos acrescer as lições de alguns apêndices que complementam a história desta grande personagem bíblica.

- Iniciaremos estes acréscimos com um estudo a respeito do relacionamento de Davi com a casa de Saul, episódios que mostram o coração bondoso que Davi possuía, mas que também ilustra que Deus é justo e que ninguém é bom senão Deus (Mt.19:17; Mc.10:18; Lc.18:19).

I – A BONDADE DE DAVI PARA COM MEFIBOSETE

- Como acréscimo ao estudo da vida de Davi, estudaremos neste apêndice um ponto que, pela exiguidade do trimestre, não foi diretamente abordado pelo nosso ilustre comentarista, qual seja, o relacionamento que Davi teve com a casa de Saul, o seu antecessor.

- Como uma prática costumeira e encontradiça na história de todos os povos, era comum que, uma vez entronizado um rei que não pertencesse à família do rei anterior, fossem os familiares do rei substituído mortos, visto que, certamente, seriam um natural foco de oposição ao novo governante. Era costume, pois, na mudança de uma dinastia (isto é, da família reinante), que todos os integrantes da dinastia substituída fossem mortos.

- Davi assumiu o reino, como temos visto no estudo do trimestre, após vencer uma guerra civil com Isbosete, o único filho de Saul que havia sobrevivido à batalha de Gilboa (I Sm.31). Assim, era natural que quisesse o extermínio da família de Saul, como forma de se confirmar no reino.

- No entanto, Davi era um homem segundo o coração de Deus, um governante diferente, que sabia que havia sido escolhido por Deus e que devia o trono à ação divina. Sendo assim, ao contrário do que todos costumavam fazer, não quis a destruição da casa de Saul, seu antecessor. Pelo contrário, quando Isbosete ainda vivia, conseguiu que este lhe devolvesse sua ex-mulher Mical, que Saul havia dado a outro homem, restaurando-lhe a dignidade de sua mulher e, por conseguinte, como uma das rainhas do país, após subir ao trono.

- Logo após a morte de Saul e de seus filhos, entre eles Jônatas, Davi mostrou que seria um governante diferente. Ungido como rei de Judá, Davi fez questão de mandar elogios aos moradores de Jabes-Gileade por terem providenciado sepultura aos corpos de Saul e de Jônatas, tornado “troféus” nas mãos dos filisteus e exibidos em suas cidades, numa clara demonstração de que não tinha qualquer sentimento vingativo contra a casa de Saul (II Sm.2:5-7).

- Uma vez confirmado no reino, Davi, não contente com o fato de ter trazido Mical para o palácio, lembrou-se do pacto que havia feito com Jônatas, filho de Saul, segundo o qual cada um prometera ao outro que não permitiria que as respectivas descendências se extinguissem (I Sm.20:11-17). Uma vez no trono, mesmo tendo Jônatas morrido, Davi sabia que, como servo de Deus, tinha de cumprir o que havia jurado, de forma que indagou seus súditos a respeito de alguém ter restado da descendência de Saul, mui especialmente da descendência de Jônatas.

- Nos dias de Davi, quando se estava na dispensação da lei, era imperioso ao homem honrar os juramentos que tivesse feito (Nm.30:2; Mt.5:33). Davi sabia que, embora não houvesse quem da casa de Saul pudesse cobrar seu juramento, e fosse até esperado que exterminasse a toda a descendência de Saul e isto fosse visto como absolutamente natural entre os israelitas, havia um Deus nos céus que a tudo havia presenciado, de forma que não poderia Davi fugir ao juramento feito.

- Em nossos dias, dias da dispensação da graça, não devemos jurar (Mt.5:34-36), mas nosso falar deve ser sim, sim, não, não, pois o que passa disto é de procedência maligna (Mt.5:37). Nossa responsabilidade, portanto, é bem maior que as dos homens da época da lei, e, lamentavelmente, muitos são os que cristãos se dizem ser mas cuja palavra nada vale, que não sustentam o que falam, o que prometem. Que Deus nos guarde e que, com Davi, aprendamos a cumprir a nossa palavra, ainda que isto possa aparentemente trazer transtornos e incompreensões na nossa vida terrena.

- Davi estava disposto a cumprir o juramento que fizera a Jônatas e, então, busca saber se ainda havia alguém da casa de Saul que ele pudesse beneficiar, por amor a Jônatas. Foi, então, chamado, um servo da casa de Saul, chamado Ziba, a fim de que informasse o rei se restara alguém da casa de Saul (II Sm.9:1-3).

- Ziba, que, embora fosse servo da casa de Saul, estava praticamente livre, vez que não havia mais a quem servir, muito provavelmente imaginando que Davi iria pôr fim a todos os descendentes de Saul e disto ele tiraria proveito, indicou a Davi que ainda havia restado um filho de Jônatas, chamado Mefibosete, aleijado de ambos os pés, que estava na casa de Maquir, em Lo-Debar.

- O texto sagrado diz-nos que, quando da batalha de Gilboa, assim que as novas chegaram a Jizreel, onde estava o filho de Jônatas, Mefibosete, então com cinco anos de idade, sua ama fugiu e tomou o menino e, na fuga, o menino caiu e ficou coxo (II Sm.4:4). Sua ama o levou até Lo-Debar, onde ficou morando na casa de Maquir. Lo-Debar, cujo nome significa “nada” (Am.6:13, que, na Versão Almeida Revista e Corrigida, traduz ‘Lo-Debar” por “nada”), era uma cidade em Gileade, perto do Jordão (Js.13:26), local bem distante do centro das decisões políticas do país, onde Mefibosete estava escondido, precisamente para que tivesse sua vida poupada, já que era o herdeiro presuntivo da coroa, por parte da descendência de Saul.

- Ao saber da existência deste filho de Jônatas, Davi manda que ele fosse trazido até Jerusalém. Mefibosete chegou e, naturalmente, temendo por sua vida, prostrou-se diante de Davi, como a pedir clemência, dizendo-se servo de Davi. O rei, porém, disse a Mefibosete que não temesse e que, ao contrário do que se imaginava, o havia chamado para lhe fazer bem, restituindo tudo que era de Saul e, ainda, dizendo que, de contínuo, Mefibosete comeria pão na mesa do rei, tendo, pois, “status” de príncipe, de filho do rei (II Sm.9:4-7).

- Mefibosete, demonstrando toda a sua humildade, perguntou, então, a Davi quem era para que tivesse tamanha honra, já que se considerava um cão morto, mas Davi chamou Ziba e lhe comunicou que Mefibosete passava a ser dono de tudo quanto era de Saul e que Ziba deveria tornar a servir a casa de Saul, agora a Mefibosete, juntamente com seus quinze filhos e vinte servos. Ziba, sem outra alternativa, prometeu cumprir a ordem do rei, tornando a ser servo quando achava que se tornaria senhor de tudo quanto havia sido de Saul, como costumava ocorrer. Mefibosete tinha então um filho, Mica, e Ziba e todos os seus passaram a servir a Mefibosete, que morava em Jerusalém e de contínuo comia à mesa do rei (II Sm.9:8-13).

- Neste episódio de Davi e Mefibosete, temos algumas lições importantes do ponto-de-vista espiritual. Davi, aqui, tipifica o nosso Deus, o Soberano do Universo, que, podendo executar justiça contra o homem que Lhe desobedeceu, prefere, porém, usar de misericórdia, permitindo-lhe uma nova oportunidade para ter comunhão com Ele.

- Mefibosete, que simboliza o ser humano, estava em Lo-Debar, ou seja, no lugar chamado “nada”. Quem está separado de Deus, quem se esconde de Deus, e nos escondemos do Senhor quando pecamos (Gn.3:8), está no “nada”, visto que sem Deus nada podemos fazer (Jo.15:5 “in fine”). Somos uma nulidade, um verdadeiro “cão morto”, como se expressou Mefibosete ao rei Davi, que nada merecíamos da parte do Senhor. Como diz o próprio Davi no Salmo 8:4, “que é o homem mortal para que Te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites?” ou, ainda, no Salmo 144:3, “Senhor, que é o homem para que o conheças, e o filho do homem, para que o estimes? O homem é semelhante à vaidade; os seus dias são como a sombra que passa”.

- Não podemos nos iludir. Deus ama o homem porque é misericordioso, porque é amor, não porque o homem mereça qualquer demonstração de amor da parte do Senhor. Os dias em que vivemos são dias de um falso humanismo, de uma indevida exaltação do ser humano, tornado medida de todas as coisas. O homem nada é sem Deus e se não fosse o amor e a misericórdia divinas, nada nos estaria assegurado senão o justo tormento eterno pelos nossos delitos e pecados. Mas a mensagem do Evangelho é uma mensagem de boas novas precisamente porque nos faz saber que Deus é bom e que o homem, esta nulidade, tem oportunidade, pela misericórdia divina, de voltar a ter comunhão com o Senhor e ser alguma coisa, mesmo sendo menos que nada (Is.40:17).

- O próprio nome de Mefibosete tem um significado que demonstra a lamentável condição do ser humano diante de Deus. “Mefibosete” significa “ele espalha, “ele extermina” ou, ainda, “vergonha”. Esta é a situação do ser humano sem Deus e sem salvação: nada ajunta, só espalha, está em constante inimizade com o Criador de todas as coisas (Mt.12:30; Lc.11:23). Sem Deus, o homem não tem vida nem constrói coisa alguma, só “extermina”, só produz morte, ou seja, tudo quanto faz é separado de Deus, visto que seus pecados o separam da bondade e da misericórdia divinas (Is.59:1,2). Por fim, é ele uma “vergonha”, ou seja, possui um sentimento de inferioridade, de indignidade, porque deixou de ocupar a posição para a qual foi criado, que era em comunhão com Deus, para dele viver separado, num destino que não é o seu, num futuro que não foi o reservado para ele. Afinal, vergonha é opróbrio e a Bíblia diz que “…o pecado é o opróbrio dos povos”(Pv.14:34b).

- Davi convocou Mefibosete para que comparecesse a Jerusalém. Mefibosete não tinha condição alguma de se apresentar diante do rei. Corria risco de morte, visto que era o representante da dinastia derrotada, tinha de viver escondido para o resto de sua vida, mas o rei quis saber de seu paradeiro, quis trazê-lo à sua presença. A salvação não tem qualquer iniciativa humana, pois o homem, por si só, não tem como comparecer à presença de Deus. Entretanto, Deus chamou o homem à salvação, convoca-o a se apresentar diante do Senhor e a reconhecer o seu pecado e, através da fé em Cristo Jesus, ter a oportunidade de recuperar a sua posição espiritual perdida por causa do pecado.

- Mefibosete aceitou o convite do rei e foi até a sua presença. Lá chegando, prostrou-se diante do rei e se disse seu servo. Para que o homem alcance a salvação é preciso reconhecer o senhorio de Deus, fazer-se Seu servo e adorá-lO na beleza da Sua santidade. Sem arrependimento dos pecados, sem submissão à vontade de Deus não há salvação. Somos salvos? Temos realmente nos prostrado diante do Senhor e aceito a Sua vontade?

- Mefibosete apresentou-se ao rei em Jerusalém. Foi o rei quem o chamou, mas ele teve de sair de Lo-Debar, da “nulidade”, do “lugar dos oráculos”, pois Lo-Debar também era conhecida como “Debir” e era tido como um lugar onde os cananeus tinham lugares de adoração antes da conquista por Israel da região. Para o homem alcançar a salvação, é preciso que deixe o pecado, que deixe os ídolos, que abandone a vã maneira de viver que recebeu por tradição de seus pais e parta para Jerusalém, para a cidade da presença de Deus, para a “cidade fundada em paz”, ou seja, corra em direção a Jesus Cristo, o “Príncipe da Paz”, o único caminho que leva ao Pai (Jo.14:6).

- Mefibosete foi para Jerusalém e lá chegou porque tomou o caminho certo. Somente alcançaremos a salvação se tomarmos o caminho certo, que é Jesus Cristo, o único que nos leva até a presença do Pai, a fim de que, ali, possamos nos arrepender dos nossos pecados e assumir o compromisso de obedecer-Lhe.

- Diante do arrependimento, da adoração e da confiança demonstrada, Mefibosete encontrou o favor do rei. Davi disse que nada temesse e que haveria de recuperar a posição que antes detinha. Como herdeiro de Saul, receberia todos os bens de seu avô e, como se isto fosse pouco, também passaria a comer de contínuo na mesa do rei, como um verdadeiro príncipe, retomando, assim, mesmo sendo outra a dinastia reinante, a posição que lhe cabia por direito antes da morte de seu avô e da qual nem chegou a desfrutar, em virtude de sua tenra idade.

- A salvação proporciona o mesmo para o homem. Uma vez salvo, o homem recupera a posição que havia perdido no Éden, ou seja, passa a ter comunhão com Deus, a ter uma vida de contínuo na mesa do rei, a desfrutar da intimidade, da orientação, da companhia e do amor do Senhor. Esta é a “restituição” simbolizada aqui no episódio de Mefibosete. Muitos, na atualidade, têm se aproveitado desta passagem bíblica para defender uma suposta “prosperidade material” do crente, dizendo que, uma vez alcançada a salvação, o cristão irá ter a fartura material de Mefibosete, os bens de Mefibosete e ainda sentar-se com os “grandões” da sociedade, assim como o neto de Saul. Que pobreza de interpretação, que mostra, aliás, que tais pregadores são os mais miseráveis de todos os homens, já que esperam em Cristo apenas para as coisas desta vida (I Co.15:19).

- A “restituição” que se tipifica aqui é única e tão somente de ordem espiritual. Mefibosete voltou ao seu “status” de neto de Saul e de príncipe de Israel. No episódio, sem dúvida alguma, isto representava benesses de ordem material e uma posição social proeminente, mas o ensino escriturístico aqui tem a ver com a nossa posição espiritual. No pecado, estávamos num lago horrível, num charco de lodo (Sl.40:2) e o Senhor dali nos tirou, quando nos arrependemos dos nossos pecados, pondo nossos pés numa rocha, firmando nossos passos e nos pondo na boca um cântico novo (Sl.40:3). De perdidos, mortos, agora fomos vivificados em Cristo (Ef.2:1-5), temos comunhão com Deus, passamos da morte para a vida (Jo.5:24).

- Saímos da cidade da miséria do pecado, de “Lo-Debar”, para irmos para Jerusalém, a cidade santa, a cidade da presença de Deus, onde, de contínuo, gozamos da comunhão com o Senhor, comunhão esta que é demonstrada visivelmente na celebração da ceia do Senhor, a “mesa do Senhor” (I Co.10:21). Pouco importa se temos, ou não, bens materiais, até porque o texto sagrado, como veremos, dá a entender que Mefibosete, no mínimo, só ficou com metade de seu patrimônio após o término da rebelião de Absalão.

II – DAVI E MICAL

- Na sequência do estudo do relacionamento com Davi com a casa de Saul, veremos, ainda que sucintamente, o relacionamento de Davi com a filha de Saul, Mical, sua primeira mulher.

- Como já vimos em lições anteriores, Davi recebeu Mical como sua mulher, pelo dote de cem prepúcios de filisteus (na verdade, ele entregou duzentos). Saul, sabendo que Mical amava Davi, procurou, com astúcia, fazer com que o jovem, em luta contra os filisteus para conseguir este dote, morresse neste embate, o que, porém, não teve o resultado pretendido por Saul (I Sm.18:20-28).

- O texto sagrado faz questão de dizer que Mical amava Davi, mas nada fala sobre o sentimento de Davi para com Mical. Não podemos especular a respeito disto, mas Davi não se esforçaria tanto se não viesse, pelo menos, com simpatia Mical, se não gostasse dela, até porque demonstrou, desde o episódio do gigante, que tinha interesse em se casar.

- Quando Davi fugiu para não ser morto por Saul, avisado por Mical, que demonstrou seu amor para com Davi avisando-o da armadilha de Saul, ainda que corresse risco de morte com isto, Saul deu Mical como mulher a outro homem, Palti, filho de Laís (I Sm.25:44).

- Durante a guerra civil com Isbosete, Davi pediu ao seu oponente que lhe fosse devolvida Mical, sendo, surpreendentemente, atendido pelo filho de Saul, que, com este gesto, mostrava não querer entrar em atrito com Davi (II Sm.3:13-15). O texto sagrado diz-nos que Paltis saiu atrás de Mical, chorando atrás dela, prova de que muito a amava, mas nada fala sobre o comportamento de Mical, que, de qualquer maneira, voltava ao convívio do que homem que amava e que estava em posição de proeminência.

- Todavia, como se vê em lição do trimestre a respeito, Davi não soube cultivar este amor de Mical por ele. Na verdade, Davi, embora tenha pedido de volta a Mical, não devotou nenhum cuidado nem proeminência a Mical, que, inclusive, não tinha filhos de Davi, a indicar que Davi nem ao menos tinha intimidade sexual com a filha de Saul. Entendeu Davi que, ao restituir Mical a sua condição de mulher de Davi, tinha cumprido o seu papel.

- Mical, como toda mulher, sentiu-se desprezada e o seu amor se tornou em rancor, em amargura. Tal situação atingiu seu clímax quando Mical, ao ver Davi cantando e dançando com o povo na cerimônia de trazida da arca do testemunho para Jerusalém, ter desprezado Davi em seu coração e, por causa de tal desprezo, acabar repreendendo publicamente o rei, o que era uma falta extremamente grave, seja para uma mulher, seja para um súdito (II Sm.6:16,20-22; I Cr.15:29).

- Como resultado desta repreensão pública, Davi a repreendeu, lembrando que era o escolhido de Deus em lugar de Saul, pai de Mical, para reinar sobre Israel, algo, aliás, que Mical sabia muito bem, pois havia vivenciado o início da perseguição que Saul empreendera contra Davi. Entretanto, em vez de reconhecer a unção de Davi e a sua dignidade, Mical o desprezara, o menosprezara e, num instante, em que demosntrava toda sua alegria perante o Senhor. Mical mostrava, assim, que preferia que Davi fosse seu marido do que rei sobre Israel, que achava que Davi devia antes se submeter a ela do que ao Senhor, o que era inadmissível. Davi disse que seu desprezo não retiraria a honra que tinha, da parte de Deus, diante do povo e, ante esta atitude tresloucada de Mical, ficou ela estéril e não teve filhos até o dia da sua morte (II Sm.6:23).

- Neste episódio, temos importantes lições espirituais e familiares. Por primeiro, vemos que o marido não deve negligenciar o amor de sua mulher. Mical tinha um amor muito grande por Davi, a ponto de ter arriscado sua vida para proteger a de seu marido, mas este amor, não tendo sido cultivado, tornou-se em desprezo de coração. O amor conjugal não é divino, por isso não é eterno, depende de ser cultivado dia após dia pelos cônjuges. Como costuma dizer um pastor conhecido nosso, o amor conjugal é como uma planta que temos em casa, que precisa ser regada todos os dias para se manter viva e atraente.

- Por segundo, aprendemos que um relacionamento conjugal não se sustenta por força da manutenção das aparências ou por interesses humanos. O retorno de Davi e de Mical não foram obra de uma dedicação ou de uma demonstração de amor, como havia sido o casamento de ambos, mas fruto exclusivo do interesse. Davi quis Mical de volta para se “redimir” diante do povo de Israel, para mostrar que até a mulher que Saul lhe havia tirado ele estava a recuperar, era um “troféu” a apresentar em seu embate político-militar com Isbosete. Mical tornou-se, assim, uma cláusula do acordo de paz que se esboçava em Israel, um “negócio de Estado”, nada mais que isto.

- Por outro lado, para Mical, o retorno ao convívio de Davi era também um excelente negócio. Deixaria de ser marido de um homem que, bem ou mal, era vinculado ao rei morto e retornaria ao palácio real. Apesar da mudança dinástica na monarquia de Israel, Mical recuperaria a sua posição social, voltando não só a ser princesa, mas, sim, rainha de Israel e, pensava ela, a principal mulher de Davi, pois era filha de Saul e representaria a unificação de ambas as famílias reais. Certamente, de suas entranhas sairia o terceiro rei de Israel…

- Os interesses não podem sustentar um casamento, mesmo quando os interesses parecem ser vantajosos para ambos os cônjuges. Somente o amor desinteressado, que é o amor “agape” (I Co.13:5), dado por Deus, tem condições de fazer superar as divergências e manter unido um casal apesar das adversidades (Ct.8:7).

- Por terceiro, aprendemos que, mesmo na vida conjugal, a adoração ao Senhor, a vida espiritual tem proeminência. Não pode o cônjuge querer impedir o seu companheiro de ter uma vida de comunhão com Deus. Deus está acima até do nosso cônjuge. Se o cônjuge é a pessoa que mais amamos nesta vida debaixo do sol, se é alguém com quem nos tornamos um, isto cessa com a morte física de um dos dois ou com o arrebatamento da Igreja (Gn.2:24; Mt.22:30; Mc.12:25; Rm.7:2,3). O casamento não é eterno, está preso a esta dimensão, enquanto que a vida com Deus é eterna, não tem fim (Jo.3:16; I Ts.4:17).

- Isto não significa, entretanto, que a vida ministerial esteja acima da vida familiar, como muitos ministros e oficiais das igrejas locais têm equivocadamente achado. Nossa vida espiritual está acima da vida familiar, mas nossa vida familiar está acima de nossa vida eclesiástica ou ministerial. Davi errou muito ao negligenciar Mical e, por isso, foi desprezado no coração por Mical. O erro de Mical foi desonrar o rei publicamente, mas a Bíblia não a censura por ter desprezado Davi em seu coração. Ademais, a vida familiar desastrosa de Davi comprometeu, inclusive, o seu ministério, a sua imagem como homem de Deus, de modo que não há como deixarmos de reconhecer que a família ocupa o segundo lugar, em nossas vidas, depois da vida com Deus.

- Por quarto, aprendemos com Mical que não podemos, de forma alguma, deixar esfriar o amor que temos pelo Senhor. Falando agora alegoricamente, vemos em Mical a figura do salvo que deixa que seu amor a Deus se esfrie, por causa da iniquidade, enquanto que Davi, o “amado”, representa aqui o próprio Deus.

- Mical amou Davi, quando este era apenas um jovem na corte real, um jovem que já não era bem visto pelo rei Saul. O amor de Mical era genuíno, autêntico, desinteressado, sincero. Quantos crentes não amam assim a Jesus e, por Ele, inclusive, chegam mesmo a arriscar suas vidas!

- No entanto, as circunstâncias da vida fazem com que estes deixem que seu amor pelo Senhor arrefeça. Contrariedades na vida, falta de diálogo e de convivência com o “amado” fizeram com que Mical se tornasse insensível, não mais demonstrasse amor por Davi.

- Quando indagada por seu pai porque deixara Davi fugir, Mical mentiu, dizendo que havia sido ameaçada por Davi. Teve vergonha de declarar o seu amor por Davi diante de Saul. Ora, Saul bem sabia que Mical amava a Davi, era fato público e notório. A atitude de Mical, ainda que buscando sua sobrevivência, revela que preferiu ganhar a sua vida do que manter o amor por Davi. Muitos crentes assim procedem: preferem ganhar a sua vida do que perdê-la por amor ao Senhor e, como disse Jesus, quem ganha a sua vida, perdê-la-á (Mt.10:39; 16:25; Mc.8:35; Lc.9:24).

- Quando a pessoa começa a dar mais valor ao seu bem-estar que à fidelidade a Jesus, busca satisfazer seus prazeres, sonhos e desejos, em vez de seguir a Cristo, começa a caminhada rumo ao arrefecimento do amor a Deus, caminho perigoso e que quase todos estão a trilhar nestes dias finais da dispensação da graça (Mt.24:12; Ap.2:4). É o “abandono do primeiro amor” que Jesus denunciou à igreja de Éfeso e que tem verificado na vida de muitos. Tomemos cuidado!

- Mical, buscando resguardar sua própria vida, mentiu, o que, sejamos justos e imparciais, fez também Davi, quase que na mesma época, diante do sumo sacerdote Aimeleque. Entretanto, Davi se arrependeu, como vemos nos salmos compostos quando esteve em Gate, enquanto que Mical perseverou em sua mentira, aceitando casar-se com Paltis, segundo a ordem de Saul.

- Dirá alguém que Mical não tinha como recusar-se a aceitar este casamento, que corria risco de morte. No entanto, não arriscou porventura Mical sua vida quando arquitetou a fuga de Davi? Ao aceitar o casamento com Paltis (ou Paltiel), mostrou que seu amor por Davi se havia esfriado e podemos afirmar isto diante da reação de Paltis quando lhe tomaram Mical, a demonstrar que Mical lhe havia sido uma boa mulher, de que ela realmente assumiu seu papel de mulher de outro homem, desistindo de Davi.

- Este arrefecimento do amor chegou ao desprezo de coração. Ao ver Davi bailando e saltando na entrada de Jerusalém, quando acompanhava a arca, da janela de sua casa, Mical desprezou Davi em seu coração. Este é o caminho daquele que se envergonha do Senhor, que não mais O ama: chega o instante em que despreza a presença de Deus, em que as coisas de Deus lhe trazem mal-estar, em que a alegria do Senhor lhe causa náuseas, lhe causa ódio e rancor.

- Mical desprezou Davi no seu coração, não lhe agradou a adoração que se fazia ao Senhor, não teve nenhum temor de fazê-lo quando a arca do testemunho entrava na cidade. Mical, inclusive, estava em sua casa, não saía do palácio, porque estava presa à posição social, às coisas desta vida, não queria se misturar com a plebe, não queria sequer prestigiar e homenagear a arca, símbolo da presença de Deus no meio de Israel.

- Assim se portam os crentes frios, que não mais amam a Deus. Para eles, as coisas terrenas têm mais valor que os cultos ao Senhor. Para eles, a liturgia é “maçante”, “chata”, “rotineira”. Eles querem viver das ilusões do mundo, das aparências, do luxo, do consumismo desenfreado. Desprezam as coisas do Senhor, as bênçãos espirituais, estão voltados única e exclusivamente para o mundo e o que ele oferece. Tomemos cuidado!

- Por quarto, vemos que Mical, já tendo desprezado Davi em seu coração, insulta-o publicamente, desonra-o. Este é o estágio final daquele que abandona o Senhor. O limite da desobediência é o insulto ao Senhor, a apostasia, o desrespeito, a blasfêmia contra a divindade. Se a blasfêmia for contra o Espírito Santo, aí estaremos diante do “pecado para a morte”, que não tem perdão. Mical, ao insultar o ungido de Deus, foi duramente repreendida e ficou estéril, levou sobre si uma maldição.

- Que despropósito. Enquanto toda a casa de Davi foi abençoada pelo rei após o término da festividade da vinda da arca para Jerusalém (I Cr.16:43), Mical, aquela que deveria ser a mais proeminente, aquela que era das poucas mulheres de Davi que tinha sido princesa antes de ser rainha, e a única princesa de Israel, recebia, pela perda do amor, da parte do Senhor a pior das maldições que uma mulher poderia ter — a esterilidade. Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo!

- Davi havia sido bondoso para com Mical e a havia restituído à vida palaciana, mas Deus não Se agradou de seu comportamento, de modo que a tornou estéril, impedindo-a de dar uma descendência que fosse, simultaneamente, da casa de Davi e da casa de Saul. Na linhagem messiânica, não se teria, de forma alguma, semente daquele que ousou apostatar da fé.

III – DAVI E MEFIBOSETE

- Quando se fala da história de Davi e de Mefibosete, costuma-se tão somente contar a bondade demonstrada pelo rei ao neto de Saul e filho de Jônatas, de que já tratamos no primeiro item deste estudo. No entanto, existe outro episódio a envolver não só ambas as personagens, como também o servo de Saul, Ziba, que é relatado quando da revolta de Absalão e que também será objeto de nosso estudo, que trata de como Davi se relacionou com a casa de Saul.

- Quando Davi recebeu a notícia de que Absalão se proclamara rei em Hebrom e que tinha a seu lado o povo, o rei, prudentemente, resolveu sair de Jerusalém, fugindo, a fim de que, se pudesse, organizasse a resistência contra o usurpador. Na sua fuga, levou seus familiares, deixando apenas dez concubinas para guardar o palácio real (II Sm.15:14-16).

- Mefibosete, que era como se fosse um dos filhos do rei, pediu a Ziba que lhe albardasse um jumento, mas Ziba, vendo nesta situação uma oportunidade para ter aquilo que almejara e não conseguira antes, ou seja, os bens que haviam sido de Saul e agora eram de Mefibosete, saiu de Jerusalém e foi ao encontro de Davi, deixando Mefibosete em Jerusalém (II Sm.19:26).

- Ziba encontrou Davi quando este descia do monte das Oliveiras (II Sm.15:30; 16:1), após ter se entrevistado com Husai, depois de ter adorado o Senhor. Davi estava psicológica e fisicamente abalado, sabia que Absalão tinha muito melhores condições de reinar e, deste modo, corria risco de morte. Estava, além disso, extremamente cansado, quase que esgotado fisicamente, até porque já não era um jovem.

- Ao encontrar-se com Ziba que, astutamente, vinha com um par de jumentos albardados e sobre eles duzentos pães, com cem cachos de passas, com frutas de verão e com um odre de vinho, perguntou o rei qual era a pretensão do servo de Mefibosete. Ziba, então, disse que todo aquele mantimento era para o rei e seus homens.

- Em seguida, Davi perguntou sobre o paradeiro de Mefibosete e Ziba, então, maldosamente, disse que Mefibosete ficara animado com a rebelião, achando que, com ela, ele se tornaria rei de Israel, pois haveria a restauração da casa de Saul. Davi, sem pensar duas vezes, sem se lembrar do comportamento e conduta exemplares que Mefibosete apresentava na corte, pois, afinal de contas, comia de contínuo da mesa do rei, era pessoa que desfrutava da intimidade de Davi e de sua família, irado, abalado pelos presentes trazidos por Ziba, sem que desse qualquer chance a Mefibosete, tomou tudo o que era de Mefibosete e o deu a Ziba que, radiante, inclinou-se diante de Davi (II Sm.16:3,4).

- Davi fugiu, Husai conseguiu transtornar o conselho de Aitofel, que era o homem mais sábio daquele tempo e Davi acabou por vencer Absalão, recuperando o trono. Ao voltar para Jerusalém, Mefibosete foi encontrar-se com Davi, barbudo e mal-cheiroso, visto que não havia feito a barba nem lavado seus vestidos desde que Davi havia fugido de Jerusalém.

- Davi, então, tardiamente, pergunta a Mefibosete porque ele não o havia acompanhado e Mefibosete contou-lhe a verdade, de como fora enganado por Ziba. Davi, então, caiu em si, pois viu que fora extremamente injusto com Mefibosete, que havia intercedido a Deus, a favor do rei durante todo o tempo da rebelião. Tentou, então, remediar a situação, dizendo que Ziba e Mefibosete repartissem o patrimônio meio a meio, ao que Mefibosete disse que tudo poderia ficar com Ziba, pois o que ele mais queria era o bem-estar do rei, a resposta às suas orações, o que ele havia alcançado (II Sm.19:24-30).

- Neste episódio, temos muitas e importantes lições espirituais. A primeira delas é que não podemos decidir precipitadamente, máxime quando nos encontramos abalados psicológica, física e espiritualmente. O adversário de nossas almas sempre está à espreita, buscando a ocasião quando “descemos do cume do monte” para nos atacar e nos fazer errar.

- Deus, quando dialogou com Caim, disse que o “pecado jaz à porta” (Gn.4:7), ou seja, está, como diz o povo do interior brasileiro, “de tocaia”, pronto para atacar e dominar o que primeiro aparecer desavisadamente no seu caminho. Como disse o apóstolo Pedro, o adversário anda em derredor, buscando a quem possa tragar (I Pe.5:8).

- Davi havia acabado de adorar a Deus, pedido ao Senhor que o livrasse daquela situação, mas, depois de ter se entrevistado com Husai e recebido a orientação divina para que viesse a ter nova oportunidade de voltar ao trono de Israel, desceu do cume do monte das Oliveiras, desatento, sem a devida concentração espiritual e se tornou alvo fácil de Ziba que, com os presentes, com os mantimentos trazidos, conseguiu seu intento de tomar tudo quanto pertencia a Mefibosete.

- Este erro lamentável de Davi, um dos maiores de sua vida, visto que aceitou peita contra um inocente, agiu por impulso, pensando única e exclusivamente na satisfação de suas necessidades imediatas, tem como contraponto a conduta de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo que, mesmo faminto após quarenta dias e quarenta noites de jejum, não se deixou levar pela oferta diabólica de satisfação de suas necessidades mediante um indevido e inadmissível exercício de Sua divindade (Mt.4:2-4).

- Tomemos muito cuidado, amados irmãos, pois o adversário continua a se utilizar das mesmas armas, pois tudo o que há no mundo se reduz a três fatores: concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e soberba da vida (I Jo.2:16).

- Davi, faminto, psicologicamente abatido, deixou-se levar pelo presente de Ziba e cometeu uma grande injustiça, tomando tudo quanto pertencia a Mefibosete e o entregando a Ziba, sem que pudesse sequer verificar se o que Ziba estava a falar era verdade. Esqueceu-se de que Mefibosete era aleijado de ambos os pés e, assim, jamais teria condições de reinar sobre Israel. Esqueceu-de de que o povo todo estava a apoiar Absalão e que não havia a mínima condição de Mefibosete se tornar rei de Israel por ser o herdeiro presuntivo da casa de Saul, casa esta que havia sido retirada do trono pelo próprio Deus. Davi de nada disso se lembrou e, movido pela paixão, cometeu tamanha injustiça.

- Ziba aqui, como podemos ver, representa o adversário de nossas armas, a astuta serpente, que nunca deve ser subestimada. Com suas ofertas atraentes que, quase sempre, servem para saciar nossas necessidades imediatas, consegue fazer com que percamos o mais importante, que é a vida eterna, a comunhão com Deus. Pensemos nisto toda vez que formos tentados. Assim como Tamar fez com Judá (Gn.38), corremos o risco de sob um pretexto de termos de apenas pagar um cabrito, perder tudo quanto temos de mais importante, o selo (patrimônio), o lenço ou cordão (a autoridade moral e espiritual) e o cajado (a dignidade). Não nos iludamos: o salário do pecado é a morte (Rm.6:23).

- Não podemos deixar o cume do monte, ou seja, não podemos sair da presença do Senhor. Temos de manter com Deus uma íntima comunhão, estar diante d’Ele todos os dias de nossa vida, a fim de que não sejamos enganados pelo inimigo de nossas almas. É no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente que encontramos descanso (Sl.91:1). Nas mãos do Senhor, ninguém poderá nos arrebatar (Jo.10:28). Quantos têm fracassado por fazerem como Davi: descer do cume do monte, ou seja, sair da presença de Deus.

- Enquanto Davi tentava voltar ao trono, Mefibosete, que foi obrigado a ficar em Jerusalém, não teve medo de Absalão. Deixou de barbear-se e não lavou seus vestidos, numa prática de quem pedia a Deus incessantemente por algo. Sua forma de agir, pública e notória, mostrava que estava a pedir algo a Deus, a se sacrificar diante do Senhor, demonstrando toda a sua tristeza e toda a sua angústia pela situação. Intercedia em favor de Davi, porque o amava e era grato a tudo quanto Davi lhe havia feito, como, aliás, fez questão de ressaltar no reencontro com o rei.

- Mefibosete simboliza o salvo que está em comunhão com o Senhor e que se aflige pela obra do Senhor, pelo nome do Senhor. Evidentemente que, na tipificação, não é caso de o salvo se mortificar por causa do Senhor, que vive e reina para sempre, mas pode e deve fazê-lo pelos seus irmãos, aqueles que, como ele, pertencem ao corpo de Cristo (I Co.12:27). Devemos orar uns pelos outros (Tg.5:16) e, por vezes, em momentos de angústia e grande aflição, jejuarmos como reforço à oração intercessória, já que o Senhor não está fisicamente mais conosco (Mt.9:15; Mc.2:20; Lc.5:35), algo tanto mais necessário nos dias trabalhosos pelos quais vivemos. O salvo deve alegrar-se com quem se alegra, mas também chorar com os que choram (Rm.12:15). Mefibosete comia de contínuo na mesa do rei, mas, quando o rei teve de fugir, passou a se afligir por ele.

- Mefibosete, desta feita, foi ao encontro do rei. Na vez anterior, Davi o chamou, pois não tinha condições de se apresentar ao rei. Agora, é Mefibosete que vai ao seu encontro em Jerusalém. Este fato mostra-nos, por primeiro, que Mefibosete não saiu de seu lugar, estava em Jerusalém. Os salvos estão assentados nas regiões celestiais onde já foram abençoados com todas as bênçãos espirituais (Ef.1:3; 2:6). Este é o lugar em que Deus nos pôs, do qual não podemos jamais sair.

- Mefibosete foi ao encontro do rei porque estava em comunhão com ele, não havia pecado e, por isso, podia chegar com ousadia no santuário (Hb.10:19). Se estamos em comunhão com o Senhor, i.e., um verdadeiro coração, inteira certeza de fé, os corações purificados da má consciência e o corpo lavado com água limpas, podemos nos apresentar diante do Rei, porque o Senhor Jesus, nosso grande sacerdote sobre a casa de Deus, já nos abriu um novo e vivo caminho (Hb.10:20-22). Aleluia!

- Mefibosete, ao se apresentar diante de Davi, como tinha a consciência limpa, contou a verdade, dizendo ter sido enganado por Ziba, pois, ao esperar que o jumento fosse albardado pelo seu servo, foi deixado, não podendo caminhar por ser coxo de ambos os pés. Esta circunstância lembra-nos que dependemos única e exclusivamente do Senhor e que não podemos confiar no homem, pois maldito é o homem que confia no homem (Jr.17:5). Que é confiar no homem? É confiar em alguma pessoa, como Mefibosete em Ziba? Não, é confiar no ser humano, em nós mesmos, em vez de confiar no Senhor. Como diz Jeremias, é “fazer da carne o seu braço e apartar seu coração do Senhor”.

- Mefibosete, ao ser traído por Ziba, confiou plenamente em Deus e pôde ver o livramento do Senhor. Continuou em Jerusalém e, publicamente, demonstrando sua tristeza pela saída de Davi. Correu sério risco de morte, mas Deus não permitiu que Absalão o matasse e ele pôde sentir a mão do Senhor lhe protegendo, enquanto que Davi, sem que ele o soubesse, o havia privado de todos os seus bens. Vale a pena confiar em Deus!

- Mefibosete corria risco de morte quando se encontrou com Davi, mas não mentiu, como fez Mical ou o próprio Davi em situações similares. Jamais devemos mentir, devemos sempre falar a verdade (Ef.4:25). O resultado disto foi que saiu da situação com vida e numa situação moral e espiritual bem melhor que a do próprio rei Davi.

- Mefibosete, depois de ter contado a verdade, nada pediu. Deixou que o rei, a quem chamou de “um anjo de Deus”, tomasse a decisão que lhe aprouvesse (II Sm.19:27). Que expressão de amor de Mefibosete: chamar de “anjo de Deus” aquele que lhe havia privado de todo o seu patrimônio injustamente. Mefibosete mostrava ter o verdadeiro amor, o amor desinteressado, como também sua profunda gratidão por todos os benefícios que Davi lhe havia feito. Comer de contínuo na mesa do rei era para Mefibosete muito mais importante do que todos os bens que possuía. Temos procedido do mesmo modo: temos nos satisfeito apenas com as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo ou queremos os bens do mundo?

- Mefibosete, ainda, disse ao rei que, na sua situação, não tinha direitos a reclamar ao rei, pois era alvo da sua misericórdia. Quem é beneficiado pela misericórdia não cria direitos, tem de saber que tudo que tem decorre de favores imerecidos. Como faltam crentes como Mefibosete nos dias atuais, em que muitos estão a “exigir seus direitos” de Deus, como se tivessem algum mérito. Somos salvos pela graça (Ef.2:8) e não podemos nos gloriar pela salvação, nem tampouco, como muitos paroleiros em nossos dias, “reclamar direitos” ou “requerer” diante de Deus. Tomemos cuidado!

- Davi, envergonhado, procurou remediar a situação. Vendo que Mefibosete lhe fora sempre leal e que Ziba havia mentido, tentou fazer uma média, mandando que Ziba e Mefibosete repartissem o patrimônio (II Sm.19:29).

- Mefibosete, então, dá outra grande lição ao rei. Disse que o rei não precisava tentar solucionar o caso. Ele estava feliz com o retorno de Davi ao trono, com a resposta às suas orações, isto lhe bastava. Podia Ziba ficar com os bens materiais, pois Mefibosete preferia o bem-estar do rei e a continuidade da intimidade, da comunhão entre ele e o rei (II Sm.19:30). Que lição para os nossos dias. Para Mefibosete, a graça do rei lhe bastava. Será que a graça de Jesus nos basta?

- O texto sagrado não nos diz se a ordem do rei Davi foi cumprida, com a repartição do patrimônio entre Ziba e Mefibosete, ou se Mefibosete passou a viver única e exclusivamente da mesa do rei. O certo é que Mefibosete não recuperou todo o patrimônio que tinha antes, o que mostra quão enganosos são os que usam Mefibosete como símbolo de enriquecimento e da “bênção de restituição”. Fujamos destes falsificadores da Palavra de Deus!

IV – DAVI E SIMEI

- Outro episódio a envolver Davi com a casa de Saul é a que se refere a Simei, um homem da casa de Saul, que, em Baurim, pequena aldeia situada na estrada que levava Jerusalém a Jericó, onde, aliás, morara Mical com Paltis, quando Davi fugia de Absalão.

- Ao passar por Baurim, Simei foi ao seu encontro e começou a apedrejá-lo, amaldiçoando a Davi, chamando-o de homem de sangue e homem de Belial, dizendo que o Senhor estava agora a dar o devido pagamento por todo o sangue da casa de Saul e que Davi perdera o reino para seu filho Absalão (II Sm.16:5-8).

- Num momento de abatimento total, em plena fuga, Davi encontra o rancor de alguns da casa de Saul. Era evidente que muitos dos familiares de Saul não haviam se conformado com a perda do reino para a família de Davi, mas permaneciam enrustidos, visto que, embora Davi tivesse sido benevolente com a casa de Saul, certamente não toleraria uma oposição.

- No entanto, diante da mudança das circunstâncias políticas, Simei não perdeu a oportunidade de insultar Davi e externar todo seu ódio e todo seu rancor. Isto nos mostra claramente que não devemos confiar nas pessoas nem nas circunstâncias que nos são favoráveis. Só Deus conhece o coração do homem (I Sm.16:7) e o silêncio ou até a proximidade de alguns não significa, em absoluto, que sejam nossos amigos e que estejam ao nosso lado. Devemos ter íntima comunhão com o Senhor, pois só o discernimento espiritual nos fará saber quem é por nós e quem não o é.

- Simei aproveitou-se da situação adversa por que passava Davi e “foi à forra”. Começou a apedrejar Davi, um gesto insultante, porque assim eram tratados os criminosos. Não bastassem as pedras que eram atiradas, em cima de um fato verdadeiro, construiu uma série de mentiras. Disse que Davi era um homem de sangue, o que era verdade, tanto que, por este motivo, não pôde construir o templo, como afirma Flávio Josefo: “…Deus apareceu em sonhos a Natã e ordenou-lhe que dissesse a Davi que, ainda que louvasse a sua intenção, não queria que a executasse, porque suas mãos tinham sido muitas vezes manchadas de sangue dos seus inimigos…” (Antiguidades Judaicas VII, 4, 270. In: História dos hebreus. Trad. de Vicente Pedroso, v.1, p.154). O texto sagrado não é explícito mas dá a entender que foi por este motivo que o Senhor não permitiu que Davi construísse o templo (II Sm.7:8,9; I Cr.17:7,8).

- As palavras de Simei mostram-nos como age o inimigo de nossas almas, que é o “diabo”, isto é, o acusador, o caluniador. A partir de uma verdade, que devia ser de todos conhecida, ou seja, de que Davi era um homem de sangue, construiu-se um edifício de mentiras. Por primeiro, Simei apedrejou Davi, transformando o rei em um criminoso da pior espécie, pois o apedrejamento era pena para os mais graves crimes na lei de Moisés.

- Assim tem agido o adversário de nossas almas na atualidade. Tem transtornado todos os fundamentos morais, jurídicos, políticos e sociais no mundo para tornar os salvos em criminosos, para transformar a virtude em crime, para tornar o certo em errado. O relativismo moral vigente em nossos dias é a antessala para a completa inversão de valores, que já temos sentido, característica de uma sociedade dominada pelo pecado (Is.5:20).

- Não bastasse isso, muitos, na atualidade, têm sido enganados pelo discurso que tornou Deus em criminoso. Não são poucos os que chamam o Deus da Bíblia de “carrasco”, “cruel” e outras coisas inomináveis. Este estado de coisas só tende a aumentar, pois, na Grande Tribulação, será a atitude dos seguidores da besta o blasfemar contra Deus, apesar de sofrerem na pele a demonstração do poder e da ira do Senhor (Ap.16:9).

- O que é mais triste é verificar que, nos dias hodiernos, já são muitos os que cristãos se dizem ser que chamam o que a Bíblia ensina de “atraso”, de “crueldade”, de “absurdo”, indo atrás de outros evangelhos, onde a “dureza”, o “legalismo”, o “autoritarismo” são substituídos por “novas visões”, por “novidades”. Tal atitude nada mais é que repetir a mentira de Simei e apedrejar aquilo que é certo, considerar que Deus é mentiroso (I Jo.5:10).

- Mas Simei não se limitou a apedrejar o rei mas, também, a partir da constatação de que Davi era homem de sangue, passou a dizer que Davi estava a pagar o preço pelo derramamento do sangue da casa de Saul. Ora, que mentira terrível a que era lançada por Simei. Como Davi poderia estar a pagar pelo derramamento do sangue da casa de Saul se nunca havia derramado o sangue de quem quer que fosse ligado a Saul? Vemos pelo texto sagrado que, bem ao contrário, Davi derramou o sangue daqueles que lhe foram comunicar que haviam matado Saul e seus filhos. Davi estava a pagar o preço pelo seu próprio pecado, estava a colher as consequências de seu erro, nada mais do que isto.

- Simei chamou, também, a Davi de “homem de Belial”, ou seja, de “homem mau”, “homem perverso”. Que duro é recebermos ofensas como as que Davi estava recebendo. Davi sempre fora bondoso, leal e prudente. Havia, sim, errado e estava a pagar o preço de seu erro, mas daí a chamá-lo de “homem de Belial” era demais. No entanto, Davi nada respondia, prosseguindo seu caminho de aflição e de fuga.

- Por fim, Simei lançou sobre Davi uma falsa profecia, dizendo que Deus havia tirado o reino de Davi e dado a Absalão. No momento em que esta profecia foi proferida, Davi estava em nítida situação de desvantagem e, mais do que isto, abalado física e psicologicamente. Devemos ter muito cuidado quando passamos por aflições e tribulações. Neste momento, devemos aumentar ainda mais nossa comunhão com Deus, pois o adversário não perderá oportunidade para levantar falsos profetas, para proferir “profetadas”, que podem nos gerar ainda mais fraqueza e desânimo espirituais.

- Ao ouvir estas coisas, Abisai, irmão de Joabe, propôs ao rei que Simei fosse morto. Abisai, aqui, era mais um agente do inimigo de nossas almas. Diante de tanta calúnia e de tanto insulto, nada mais natural que Simei fosse morto. Mas Davi era um homem segundo o coração de Deus e sabia que, se autorizasse a morte de Simei, que não seria difícil de acontecer, pois Simei estava desarmado e Abisai era um dos valentes do rei, Davi tornaria verdade a falsa acusação: derramaria o sangue de alguém da casa de Saul.

- Não podemos pagar o mal com o mal (Rm.12:21). Somente o bem vence o mal e, se praticarmos o mal, seremos vencidos, não alcançando a vitória. A prática do mal é pecado e, assim, estaremos nos escravizando em vez de nos livrando do problema.Diz Pedro que é melhor padecermos fazendo o bem do que fazendo o mal (I Pe.3:17).

- Davi, apesar de toda a situação adversa, não se encontrava abalado espiritualmente naquele instante. Havia sido levado pelo impulso com Ziba, mas, agora, não permitiu que a carne falasse mais alto. Disse a Abisai que não se importasse com aquilo. Simei estava ali a mando do Senhor, era um instrumento de provação divina e, portanto, ele nada faria, deixando ao Senhor, que conhecia a sua miséria, o pagamento com bem da sua situação adversa (II Sm.16:7-12).

- Davi prosseguiu seu caminho, não dando confiança às ofensas e calúnias de Simei, que continuou a atirar pedras e a levantar poeira (II Sm.16:13). Simei ia ao longe do monte e levantava poeira. Assim faz o inimigo de nossas almas: anda ao derredor, não se aproxima, se verdadeiramente estamos em comunhão com o Senhor, mas não deixa de atirar suas pedras e de “levantar poeira”. Precisamos, porém, diante desta situação, prosseguir o nosso caminho. O fato é que, na sequência do caminho, Davi e seus homens embora tivessem chegado cansados, alcançou o lugar de refrigério (II Sm.16:14).

- Aprendamos esta lição. Não devemos dar confiança às calúnias do diabo ao longo de nossa jornada. Não podemos querer resolver as falsas acusações com a prática do mal, que é o que o diabo quer, pois, assim, pecaremos e perderemos a salvação. Prossigamos a nossa caminhada, confiando em Deus e deixando a Ele a solução dos nossos problemas. Apenas não deixemos de olhar para Jesus, o autor e consumador da nossa fé, correndo a carreira que nos está proposta (Hb.12:1-3). Ao final da nossa jornada, acharemos, juntamente com os irmãos, o descanso para as nossas almas, que não é aqui neste mundo (Mq.2:10).

- O Senhor, assim como esperava Davi, olhou para a sua miséria e pagou com bem a maldição lançada por Simei. Davi retornou ao trono e, num gesto de que era realmente de coração que havia deixado a solução do problema para o Senhor, perdoou a Simei, que, incontinenti, prostrou-se diante do rei assim que ele passou o Jordão (II Sm.19:18-23).

- Simei confessou o seu pecado diante do rei e lhe pediu perdão. Abisai, uma vez mais, quis que Davi mandasse matar o caluniador, mas Davi, fiel ao seu propósito inicial, perdoou a Simei, dizendo que ele não morreria e confirmando isto com juramento. Simei alcançou o perdão do rei e Davi cumpriu a sua promessa, não o matando. Antes, porém, de morrer, lembrou a Salomão o mal que Simei havia feito e Salomão lhe impôs a prisão domiciliar em Jerusalém. Simei acabou morto porque desobedeceu a Salomão, saindo de Jerusalém (I Rs.2:8,9; 36-46). Com Simei, temos a mesma lição que aprendemos com Davi: o pecado é perdoado mas as suas consequências nos seguem inevitavelmente.

V – DAVI E OS DEMAIS FILHOS DE SAUL

- Neste estudo do relacionamento de Davi com a casa de Saul, resta-nos, tão somente, falarmos do episódio que envolveu o enforcamento de alguns descendentes de Saul, mencionado em II Sm.21.

- Diz-nos o texto sagrado que sobreveio uma fome de três anos sobre Israel. Davi, então, consultou ao Senhor qual o motivo daquela situação e o Senhor lhe disse que a fome havia sobrevindo sobre Israel por causa de Saul e da sua casa sanguinária, porque haviam matado os gibeonitas (II Sm.21:1).

- Este curto relato bíblico traz-nos importantíssimas lições. Por primeiro, mostra-nos que Deus está no absoluto controle de todas as coisas. Esta matança dos gibeonitas por Saul não foi sequer relatada na Bíblia nas passagens referentes ao reinado de Saul, ou seja, foi algo que passou despercebido dos escritores sagrados, mas não do Senhor. Deus bem observou o que Saul havia feito e, diante da total indiferença de Israel para que se fizesse justiça, agiu trazendo fome sobre a terra.

- Por segundo, vemos que Deus cuida de todos os homens, mesmo os mais humildes e simples. Os gibeonitas, sabemos todos, haviam enganado o povo de Israel e se infiltrado no meio do povo de Deus. No entanto, havia um pacto entre Israel e os gibeonitas, que lhes preservava a vida e Deus não permite que Seu povo seja infiel nos compromissos assumidos. Ao mandar matar os gibeonitas, Saul estava violando o pacto firmado no tempo de Josué e isto era desagradável aos olhos do Senhor. Os gibeonitas foram mortos e o reinado de Saul terminou. Isbosete e, depois, Davi reinaram e nada havia sido feito para reparar este mal. No tempo certo, décadas depois do acontecido, Deus resolveu agir, ante a inércia dos homens, porque Ele cuidava também dos gibeonitas e zelava pela justiça no meio do Seu povo.

- Não precisamos fazer revoluções, rebeliões ou motins em nossas igrejas locais por causa das injustiças cometidas, ainda que contra os mais pequenos, ainda que contra os “gibeonitas”, ou seja, aqueles que estão em nosso meio sem que, na verdade, pertençam a nós. O Justo Juiz tudo vê e não permitirá que a injustiça perdure. No tempo certo, tomará as devidas providências. Certo é que, como servos de Deus, não devemos folgar com a injustiça, nem aceitá-la, devemos denunciá-la, falar a verdade, mas não busquemos resolver com as nossas forças. Deixemos nas mãos do Senhor que, a Seu tempo, tudo fará e de modo perfeito.

- Por terceiro, vemos que Deus tem, entre Suas formas de agir, o uso da natureza. Como a desmentir os “adoradores da natureza” dos nossos dias, o Senhor faz questão de mostrar que tem o absoluto controle das forças naturais, empregando-as para fazer justiça. Recentemente, aliás, o pastor Sebastião Rodrigues da Silva, presidente da AD em Cuiabá/MT, na 38ª Assembleia Geral Ordinária da CONFRADESP (Convenção Fraternal Interestadual das Assembléias de Deus – Ministério do Belém no Estado de São Paulo), fez questão de relatar uma série de visões e mensagens proféticas que tem recebido, entre as quais o Senhor nos faz lembrar que, neste período do “princípio de dores” em que vivemos, fará mostrar Seu poder sobre a natureza e, através dela, mostrar que Jesus está às portas, que é tempo de nos santificarmos e de nos prepararmos para o arrebatamento da Igreja, o que, aliás, está consonante com os sinais da vinda do Senhor relatados no sermão escatológico de Jesus.

- Deus enviou a fome sobre Israel e foram necessários três anos para que Davi consultasse a Deus, percebesse que aquilo não era algo natural, mas, sim, uma iniciativa divina, um chamamento de atenção da parte de Deus. Deus não atua com juízos pela natureza porque queira ver a humanidade sofrer, mas, antes, para que o homem perceba que há um Deus nos céus e que é necessário obedecer-Lhe para que se alcance a vida eterna.

- Por quarto, vemos, uma vez mais, que Davi nada fazia sem antes consultar ao Senhor. Se Saul matou os gibeonitas sem qualquer orientação divina e dentro de um espírito nacionalista, popular e simpático aos israelitas mas totalmente fora da vontade do Senhor, Davi consultou a Deus para saber qual o motivo da fome e como deveria agir para que a justiça se fizesse.

- Davi, então, chamou os gibeonitas e disse o que desejariam para que se fizesse a devida reparação. Vemos, neste episódio, que Deus não é apenas Deus de amor, mas também é Deus de justiça. Faz-se absolutamente necessário que a justiça se realize. Não é à toa que o texto sagrado resume a administração de Davi como sendo o rei que fazia justiça (II Sm.8:15). Temos feito justiça nos lugares que ocupamos?

- Os gibeonitas disseram que não queriam prata nem ouro, mas que se lhes dessem sete homens, a fim de que fossem eles enforcados em Gibeá, a cidade de Saul, para servirem de exemplo para todo o povo, a fim de que não mais houvesse perseguição em Israel contra os gibeonitas. Diante de tal pedido, Davi os atendeu, já que era esta a vontade de Deus, poupando, porém, a Mefibosete, filho de Jônatas, diante do pacto que havia feito com aquele filho de Saul, quando ainda vivia na corte de Saul.

- Davi, então, entregou nas mãos dos gibeonitas, os filhos de Rizpa, a concubina de Saul, ou seja, Armoni e outro também chamado Mefibosete, como também os cinco filhos da irmã de Mical, quie tivera de Adriel, filho de Barzilai. Todos foram enforcados pelos gibeonitas (II Sm.21:4-9).

- Davi fez aquilo por ordem divina, não era da sua vontade que se derramasse sangue da casa de Saul, mas a casa de Saul havia sido sanguinária e Deus, então, não poderia deixar que isto ficasse impune. Não foi Davi quem os enforcou, mas, sim, os gibeonitas.

- Numa clara demonstração de que Davi não se agradara desta situação, ao saber que Rizpa não permitiu que os corpos dos enforcados fossem atacados pelos abutres e por outros animais carniceiros (II Sm.21:10), resolveu dar uma sepultura digna não só aos enforcados mas a toda a casa de Saul, mandando que fossem desenterrados os ossos de Saul e de Jônatas e que, juntamente com os enforcados, fossem todos sepultados em Zela, na sepultura da família, pois ali estava sepultado Cis, o pai de Saul (II Sm.21:11-14).

- Terminava assim a saga da casa de Saul na história de Israel. Davi levou os ossos de todos à sepultura de Cis, o pai de Saul. Este gesto representou o retorno da família ao seu “statu quo ante”. A casa de Saul passava para a história, retornando a ser uma simples família do povo de Israel. A descendência de Saul não se encerrou por causa de Mefibosete, filho de Jônatas, mas dela não se tem registro algum dali para a frente. Davi, porém, em sua fidelidade a esta casa , cumpriu o último dever que tinha para com eles: o de dar-lhes a devida e digna sepultura.

- Que sejamos como Davi, cumpridores de todos os nossos deveres para com o próximo, deixando que a justiça de Deus se faça, não se substituindo ao Senhor e, ainda que o próximo rejeite a Deus e morra espiritualmente, tudo fazendo para lhes dar uma digna e devida sepultura. Amém.

Caramuru Afonso Francisco

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Entrevista com o Pastor Altair Germano


O Blog Escola Dominical em Questão entrevista sobre o tema : “Educação Cristã Eficaz”, nesta oportunidade o Pastor Altair Germano, ,43, pastor, Bacharel em Teologia, Licenciado em Pedagogia com Habilitação em Administração Escolar, Especialista em Educação Cristã, Pós-graduando em Psicopedagogia, Mestre em Pedagogia Cristã, Mestrando em Teologia Pastoral, casado com Elizabeth, pai de Alvaro e Paulo. Presidente do Diretório Estadual de Pernambuco e membro do Conselho Consultivo da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB), Presidente do Conselho de Doutrina da UMADENE, Vice-presidente do Conselho de Educação e Cultura do CEC-CGADB, membro da Comissão Regional do Centenário das Assembléias de Deus no Brasil (CGADB/CPAD/COMADALPE), Superintendente Geral da EBD da AD em Abreu e Lima - PE, Coordenador Pedagógico e Professor da FATEADAL, conferencista e escritor.Agradecemos profundamente ao nobre pastor Altair .







Ev. André
O que é ensino eficiente na EBD?

Pr. Altair Germano
Ensino eficiente na EBD é aquele que consegue transformar integralmente o professor e o aluno, em seus saberes, fazeres, relacionamentos e caráter, em relação a Deus e ao próximo.


Ev. André
Dentre todas as matérias e conteúdo , quais ou qual a que deveria ser melhor enfatizada?


Pr. Altair Germano
Todos os conteúdos relacionados à vida cristã são essenciais. O que falta não são conteúdos, mas, por vezes, profundidade e objetividade, e uma boa distribuição dos mesmos nos currículos escolares.


Ev. André
Qual o aspecto apologético no ensino de EBD?



Pr. Altair Germano

Como espaço de produção de conhecimento bíblico, é fundamental que na EBD as grandes questões relacionadas aos ataques à fé sejam discutidas e combatidas. É preciso equipar a todos para lidar com as grandes e desafiantes questões da pós-modernidade, além das velhas e novas heresias.


Ev. André
O Pentecostalismo bíblico deve ser mais bem ensinado e enfatizado nas nossas EBD’s?

Pr. Altair Germano
Sem dúvida. Há ensinos e práticas nas igrejas pentecostais, que não se sustentam biblicamente, podendo ser chamado de pentecostalismo tradicional ou denominacional, menos de bíblico.


Ev. André
Sugestões de livros ao Professor de EBD.

Pr. Altair Germano
Dentre tantos, “Manual da Escola Bíblica Dominical” (Antonio Gilberto), “Ensino Participativo na EBD (Marcos Tuler), “As Sete Leis do Aprendizado” (Bruce Wilkison), “Introdução à Educação Cristã” (Perry G. Dows) etc.




sábado, 17 de outubro de 2009

Os ministros e os mistérios de Deus (1 Co. 4. 1)




Em que consiste a tarefa do ministério? Porque somos ministros? Qual é o alvo do ministério? Porque tomamos este trabalho? Temos os ministros e o ministério, ambos juntos e separados, como disse um velho amigo, como cano de garrucha. Os ministros são homens que foram chamados, e consagrados para a sublime tarefa do ministério. O ministério é a tarefa segundo a qual devem cumprir todos os ministros
que foram consagrados exclusivamente para este fim. O ministro é um homem, com todas as características de todo ser humano. Será que o homem é ministro por apenas ser homem? Ou será que a nele uma qualidade extraordinária, pela qual Deus o chama consagra e confia a ele tão grandiosa tarefa? Estas perguntas gritam por respostas, mas acho que não faríamos as perguntas se não soubéssemos a resposta. E o ministério? O ministério é o trabalho ou oficio ao qual Deus confia aos ministros. O ministério é na verdade o ministério da palavra e dos sacramentos. Eles são identificados por Paulo como os mistérios de Deus. Esta definição de ministério me deixa na perplexidade. Como podemos, nos homens, sermos ministros dos mistérios de Deus? Somos humanos, e por isso não podemos ser ministros dos mistérios de Deus. Como ministros temos uma obrigação que somos incapazes de cumprir. Independente de nossas capacidades intelectuais, tipo teologia, ou qualquer outro tipo de ciência, não somos aptos, e nem temos condições de sermos ministros dos mistérios de Deus. Deus é o one que não permite ser manipulado. Não podemos conhecer a Deus por nossos próprios esforços. Não podemos trazer Deus ao nosso controle, e usa-lo. Ele é como expressou Lutero, O Deus absconditus. O humano só pode apoderar-se e conhecer apenas o que é humano. Nisto consiste nossa perplexidade e impossibilidade: os ministros devem ministrar os mistérios de Deus, contudo não são capazes de ministrar os mistérios de Deus. Se parássemos por aqui, o que seria do nosso ministério? Ainda bem que a historia de Jesus Cristo não esta restrita ao antigo testamento. Pois ali o Deus santo esta totalmente distante do homem. Mesmo com tanta distancia, vemos no antigo testamento homens, como, Jeremias, Oseías, Moises, Jonas, ou Isaias, foram literalmente ministros dos mistérios de Deus, e que não tinham do que se gloriar, e, portanto nenhum ministro da atualidade desejaria estar no lugar deles. E os ministros do novo testamento? Aqui o Deus distante, alto e sublime, torna-se o Deus homem, e abita com o homem. O que devo dizer de João Batista, que serve apenas de transição, e tem sua cabeça oferecida em uma bandeja? E Paulo, homem extraordinário na evangelização e responsável pela maior parte da literatura do novo testamento? Quem em Sá consciência gostaria de passar o que Paulo passou? E Pedro? E João? Pense no seu ministério e responda para si próprio, você é um ministro de Deus? Você esta apto para ser um ministro de Deus? Para ser um ministro de Deus, o homem deve esvaziar-se de si mesmo e estar totalmente receptivo. Pois onde termina o aniquilamento do homem, começa a regeneração e o avivamento de Deus. Deus não esta a procura de homens aptos cheios de si, Deus esta a procura de homens vazios de si, para que ele possa enchê-los e usa-los como lhe apraz. Os homens que já são capazes lutam sua própria luta, e são dignos de seu salário. Devemos admitir nossa incapacidade se sermos ministros de Deus. E ao mesmo tempo reconhecer nossa obrigação de sermos ministros dos mistérios de Deus. Pois Deus só chama e capacita homens. (as mulheres são a exceção de Deus para o ministério). Nos ministros vivemos em um mundo totalmente diferente do mundo de Paulo ou João. A cosmo visão deles não deve ser o nosso critério. Aquele que os arregimentou, este sim, é atual e totalmente comprometido com o mundo atual. Ser ministro nos dias atuais é uma busca prioritária dos homens de igreja. Pois os ministros atuais são os homens da vez. O ministro de hoje é um homem bem sucedida, veste terno de cinco mil reais e não pelos de camelo. Come só caviar, nunca mel silvestre. Viajam apenas de avião, nunca a pe ou de navio como encarcerado. Não trabalham fazendo tendas, mas estipulam o preço de seus sermões. E a quem pague por eles. Ser ministro hoje é o cume mais alto do eclesiasticismo. O ministro de hoje e o grande homem de Deus. Todos o querem, todos o honram, todos o amam. Ninguém o despreza. Consegue ver o quanto os ministros de hoje são diferentes dos ministros do novo testamento? Este e o ponto. O Deus de Paulo e do novo testamento não mudou, nem tampouco sua palavra, que se fez carne. Os dias atuais gritam por ministros conforme o modelo esboçado por Paulo em suas cartas. Deixe-me usar uma palavra soteriologica, conversão, este é o chamado de Deus para a ultima hora. Pois a ultima hora, é a hora dos ministros amantes de si mesmos. Ao invés de servir querem ser servidos. Nosso ministério é sermos ministros dos mistérios de Deus, e não ministros de nós mesmos. Paulo renunciou grandes coisas, para unicamente servir sem parreiras, inclusive a coisa mais extraordinária que Deus criou para a satisfação humana. Deixe-me fazer um ultimo pedido. Ministros não saiam das galés. Se algum de vos saiu das galés e foi para o convés, o senhor do barco o chama, volte para as galés. Levante-se da mesa, tire a túnica de príncipe, cinja-se com uma toalha, pegue a bacia, coloque água, e, portanto, cumpra o seu ministério.

Pb. Juliano da Silva
Setembro 2009


Em tempo: os artigos assinados são de responsabilidade de seus autores!

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

REQUISITOS BÍBLICOS PARA O DIACONATO E O PRESBITÉRIO




Caramuru Afonso Francisco
(Estudo ministrado na reunião de obreiros na Assembléia de Deus em Sorocaba/SP em 7/12/2002, no período da tarde, antes da separação de diáconos e presbíteros naquela oportunidade pelo pastor-presidente daquela igreja, Osmar José da Silva).

Texto bíblico básico - I Tm.3:1-16

INTRODUÇÃO


Quando se fala em diácono e presbítero, na atualidade, em nossas igrejas, logo se tem a idéia de que estas pessoas são denominadas, pelos teólogos e especialistas em eclesiologia, de "oficiais da igreja", expressão que indica que se tratam de funções de importância menor na casa de Deus, de ofícios subalternos, de auxiliares para os "ministros", estes, sim, dotados de encargos superiores, dos chamados "dons ministeriais" mencionados por Paulo na sua epístola aos Efésios, no capítulo 4.
Entretanto, quando vamos pesquisar na Bíblia Sagrada a respeito, não vemos este mesmo ponto-de-vista que, é forçoso admitir, decorre mais da tradição e da história da Igreja do que, propriamente, de uma disposição da Palavra de Deus.
Com efeito, a colocação dos diáconos e dos presbíteros como meros auxiliares de pastores, evangelistas e bispos é resultado de uma hierarquização no governo eclesiástico, fruto tanto do crescimento vertiginoso do Cristianismo a partir dos tempos apostólicos, como da própria mistura entre Igreja e Estado, o que se intensificou com a suposta conversão do imperador Constantino e a liberdade de culto aos cristãos pelo Édito de Milão em 312 d.C.
Estes dois fatores fizeram com que a Igreja tivesse de se organizar administrativamente, o que fez com que surgisse, mesmo ao largo dos preceitos bíblicos e neotestamentários, uma certa hierarquização, uma hierarquia que deu ao exercício do ministério e da presidência sobre o rebanho de Deus um caráter de carreira administrativa, a exemplo do que ocorria seja na administração pública, seja no próprio Exército romanos.
Assim, pouco a pouco, deturpou-se a estrutura mais ou menos espontânea existente nos tempos neotestamentários, em que os apóstolos constituíam pessoas para presidir e ensinar a Palavra às igrejas locais por eles instituídas, denominadas de bispos, presbíteros ou anciãos (termos que são equivalentes no Novo Testamento), como também pessoas destinadas a se ocupar de tarefas outras, notadamente de assistência social, que não o ensino da Palavra e a oração, denominadas de diáconos, para uma estrutura hierárquica, para um verdadeira carreira eclesiástica, que, a partir do diaconato, chegasse até ao episcopado, passando-se pelo presbitério.
É esta a estrutura vigente em todos os segmentos do Cristianismo, havendo, apenas, alguma variação de nomenclatura, variação esta, entretanto, que não retira esta idéia de carreira, que, entretanto, deve ser completamente banida da mente e da prática das igrejas que queiram adotar a Bíblia Sagrada como única regra de fé e prática.
Entendemos, pois, que a primeira coisa que deve ser incutida na mente daquele que for separado para o exercício do diaconato ou do presbitério é a convicção de que não está sendo inserido numa carreira eclesiástica, de que não pode assumir a responsabilidade do diaconato pensando em ser "promovido" para o presbitério ou, então, assumir a responsabilidade de um presbitério pensando em ser "promovido" para o pastorado, pois nosso compromisso é somente com a Palavra do Senhor e o próprio Deus vela pela Sua Palavra para a cumprir (Jr.1:12), de modo que não podemos, de forma alguma, ao sermos chamados para exercer funções de proeminência na obra do Senhor, na Sua Igreja, iniciarmos nossas tarefas diante de perspectivas puramente humanas e com as quais Deus não tem qualquer compromisso.
Pois bem, situada a questão fora da perspectiva humana de uma carreira eclesiástica, passemos para a discussão do texto bíblico mais amplo que se tem sobre o tema, escrito pelo apóstolo Paulo a seu filho na fé, Timóteo, como verdadeiro manual de instruções para que o jovem ministro pudesse, convenientemente, escolher para as igrejas locais sob sua responsabilidade, diáconos e presbíteros.

I. OS PRESSUPOSTOS PARA O DIACONATO E PARA O PRESBITÉRIO

Vemos, desde logo, que a preocupação do apóstolo Paulo era a de trazer os elementos, os requisitos que ele mesmo observava para a escolha de presbíteros e diáconos, pois, como bem ministro do Senhor, o apóstolo não visava a construção de um império eclesiástico, de um ministério ou de uma denominação poderosa, mas, muito pelo contrário, tinha somente em mira a salvação das almas, contentando-se em ver as almas salvas e, então, após formada a igreja local, escolher, dentre certos requisitos, homens que pudessem governar o rebanho de Deus(cf.At.14:23).
Hodiernamente, entretanto, há pessoas que não têm este mesmo objetivo. Grandemente abençoadas pelo Senhor, chamadas por Ele para a exímia tarefa de desbravar regiões e ganhar almas para o reino dos céus, vencida esta etapa, tratam, imediatamente, de construir organizações e verdadeiros impérios eclesiásticos, de forma a impedir que o governo do rebanho de Deus saia de suas mãos. As conseqüências têm sido trágicas, pois, a história tem demonstrado, a organização tem prejudicado grandemente o organismo vivo que é a Igreja e, como a obra de Deus não pode parar, das duas uma: ou a organização acaba sendo atropelada pelo organismo e se dilacera, não sem deixar profundas marcas materiais e espirituais ou a organização acaba matando o organismo, transformando-se em mais uma "igreja de Sardo", aquela que tem nome de que vive, mas que, há muito, já morreu espiritualmente (cf.Ap.3:1). Que Deus nos dê aos líderes do século XXI, aos apóstolos e desbravadores do Evangelho o mesmo sentimento de desprendimento e a mesma aversão ao domínio e ao poder que havia nos apóstolos !
Paulo, em primeiro lugar, afirma a Timóteo que o desejo de um crente em ser ministro ou oficial da igreja é um desejo excelente, é algo que não constitui, por si só, em atitude desprezível ou em pecado. Querer ser pastor, evangelista, presbítero, diácono ou cooperador é um desejo que tem a aprovação de Deus, não é ambição nem cobiça que pudesse ser considerada um mal, um pecado, uma violação de um mandamento divino.
Sentir o desejo de ter uma função de proeminência na Igreja do Senhor não deve ser algo que seja confundido como um interesse mesquinho ou como uma sede de poder. Não ! O apóstolo insiste que este desejo jamais pode ser abominado pelo Senhor, porquanto Ele é fiel, assim como a Sua Palavra e o próprio Jesus dissera, quando ainda entre nós, que era mister que houvesse pessoas dispostas a fazer a obra do Senhor e que isto deveria estar incluído nos nossos pedidos a Deus (Mt.9:37,38), de forma que não poderia Deus recriminar qualquer desejo de trabalhar na Sua obra.
Entretanto, embora seja algo excelente este desejo de servir ao Senhor no ministério, não é ele algo suficiente para que se tenha a investidura em alguma função ministerial.
O desejo do servo do Senhor para ingressar nas fileiras dos obreiros é algo excelente, é algo que revela uma profundidade no sentimento de dever e de comprometimento com Jesus, mas, di-lo Paulo com todas as letras, é algo absolutamente insuficiente para que alguém receba tal responsabilidade.
Lamentavelmente, um dos primeiros pontos que têm sido observados nos candidatos ao ministério, na atualidade, é a sua vontade, o seu desejo de se engajar nas fileiras ministeriais, sendo, mesmo, praxe em muitos lugares a busca, a procura daqueles que almejam angariar posições ministeriais, notadamente em campos, igrejas e denominações "concorrentes".
Sob a afirmação apostólica de que o desejo do episcopado é algo excelente, são tolerados, admitidos, incentivados e estimulados interesses mesquinhos, sentimentos cobiçosos e outros pensamentos que estão longe, muito longe de serem tidos pelo Senhor como "desejos excelentes".
Esquecem-se muitos de que o Senhor não pode ser enganado, conhece a profundeza dos corações(I Sm.16:7; Jo.2:24,25) e que tais atitudes jamais serão por Ele chanceladas, mas, antes, serão objeto da justa retribuição, pois o nosso Deus não Se deixa escarnecer (Gl.6:7).
O desejo do episcopado é o desejo de ser "episkopos", bispo, em grego, palavra que quer dizer "supervisor". Bispo é aquele que está supervisionando, ou seja, aquele que está velando, aquele que está cuidando, aquele que está tratando, que está observando o povo de Deus. O desejo do episcopado, portanto, é o contrário do desejo que muitos têm apresentado sob este título na casa de Deus: não é o desejo de ser servido, de mandar, de ordenar, mas, sim, o desejo de servir.
Quem deseja o episcopado, deseja servir a Deus servindo os crentes, ou seja, bem ao contrário do que se passa na mente de muitos que estão a desejar o ministério, Deus está à procura de pessoas que queiram servir os demais crentes, que queiram ser instrumentos de Deus para o cuidado, para o zelo, para o crescimento espiritual dos demais irmãos de fé.
A palavra "bispo" (que, aliás, está na moda no meio evangélico, sendo a nova "coqueluche" dos que querem demonstrar sua "autoridade eclesiástica") significa "supervisor", mas não no sentido daquele que vê do alto, que é objeto da adulação e da obediência dos que estão embaixo, mas, bem ao contrário, aquele que deve velar, cuidar, observar e tomar conta do que não é seu, mas, sim, do Senhor. Aquele que deve cuidar, como verdadeiro depositário fiel, de uma herança que não é sua, mas de Deus. Por isso, o apóstolo Pedro foi bem claro ao afirmar, em sua epístola, que o sentimento de domínio deveria estar bem distante do coração dos presbíteros (I Pe.5:3).
A palavra "presbítero" também é grega e significa "o mais velho", o que demonstra a sua equivalência com a expressão "ancião". Os presbíteros, portanto, também não são "mandões" ou "chefes", mas pessoas que devem ser respeitados pelo seu exemplo, exemplo este que deve ser a base de sua autoridade e não o desejo de domínio, como explicita Pedro no texto já mencionado.
A palavra "diácono", outra palavra grega, quer dizer "servidor", ou seja, aquele que serve, mesmo sentido que tem a palavra "ministro".
Ora, se assim é, vemos que até nas suas denominações, as funções ministeriais não deixam qualquer dúvida: existem para que seus titulares sirvam ao povo e não sejam por ele servidos.
O desejo do episcopado é o desejo de servir. É este o desejo excelente mencionado pelo apóstolo Paulo. É este o desejo que merece ser levado em conta, ainda que, repitamos, ainda que o crente tenha este desejo, é ele absolutamente insuficiente para determinar uma separação.
Assim, o primeiro discrímen que deve ser efetuado no instante da escolha de diáconos e de presbíteros, é a existência de um real desejo do episcopado, isto é, de um desejo de servir a Igreja de Deus e não de ser por ela servido.
Mesmo assim, este desejo não é bastante para que alguém seja separado ao diaconato ou ao presbitério.
Existente o desejo do episcopado e consciente o candidato de que a função ministerial não é uma carreira administrativa eclesiástica, a partir daí é que se iniciará a verificação dos requisitos para que alguém seja separado ao diaconato e ao presbitério, num rigor bíblico que, lamentavelmente, repita-se, diante da perspectiva carreirista dominante e da falta de discernimento do "desejo do episcopado" tem gerado as grandes mazelas que vemos no corpo ministerial das igrejas locais na atualidade.
Por que o desejo do episcopado genuíno não é suficiente para a separação de um diácono e de um presbítero ?
Porque assim a Palavra de Deus o determina, quando vemos que, após a detecção do desejo do episcopado, diz o apóstolo que devem ser preenchidos alguns requisitos, requisitos estes que, se estão na Bíblia Sagrada, não podem ser considerados como elementos válidos apenas para aqueles tempos apostólicos, mas, sim, como requisitos que devem ser observados a todo tempo e a todo instante, pois, além de serem requisitos relativos ao próprio caráter do candidato e, como tal, atemporais, decorrem do ensinamento de alguém que executava fielmente a obra do Senhor, que tinha o Espírito de Deus e que teve confirmada pelo Espírito a sua maneira de agir, como podemos ver pelo vigoroso progresso que viveram as igrejas locais por ele estabelecidas em seu grandioso ministério missionário.

II. OS REQUISITOS PARA O DIACONATO E O PRESBITÉRIO

II.1 - Irrepreensibilidade

O primeiro requisito e, no nosso modesto modo de ver, o mais importante, tanto para o presbitério quanto para o diaconato, é a IRREPREENSIBILIDADE.
Diz o apóstolo Paulo que o bispo deve ser irrepreensível (I Tm.3:2), bem assim que os diáconos sirvam se forem irrepreensíveis (I Tm.3:10), denotando, assim, explicitamente, para ambas as funções e de forma prioritária, que a irrepreensibilidade deve ser uma característica indispensável para que alguém seja diácono ou presbítero.
É por isso que se disse que o desejo do episcopado, ainda que seja o genuíno desejo de servir, não é condição suficiente para que alguém possa ser guindado a esta posição.
Exige o apóstolo que o candidato seja irrepreensível, ou seja, que não possa ser repreendido.
Ser irrepreensível é não ser capaz de ser repreendido e isto é uma característica que só tem quem está em comunhão estreita e íntima com nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
Não poder ser repreendido é não poder ser objetado por quem quer que seja, crente ou ímpio, por conta dos atos que têm praticado. É ter uma vida cujas ações e atitudes denotam um caráter de santidade e de obediência à Palavra de Deus que não permita qualquer oposição, a não ser a natural oposição do adversário de nossas almas.
Por isso é que o próprio Paulo, após anunciar as qualidades do verdadeiro crente, qualidades estas que constituem o caráter cristão, conhecido pela expressão "fruto do Espírito", afirma, com a experiência de quem já fora perseguidor implacável dos cristãos, que "contra estas coisas não há lei "(Gl.5:23).
Um crente irrepreensível é aquele cujas obras não são capazes de ter a oposição sensata e fundamentada de quem quer que seja. É alguém que pode até sofrer duras conseqüências pelos seus atos, mas cujo sofrimento será tão somente o resultado de uma vida de fidelidade a Deus.
Neste sentido, aliás, foi a expressão de Pedro, segundo a qual, o crente não pode sofrer senão por ser um cristão, o que faz com que o sofrimento seja injusto (I Pe.2:19) e motivo de glorificação diante de Deus (I Pe.4:16).
O crente irrepreensível é aquele cujas obras fazem com que os homens glorifiquem a Deus (Mt.3:16), é aquele que faz com que os homens reconheçam Deus em sua vida (II Rs.4:9), é uma verdadeira luz do mundo, um verdadeiro sal da terra.
A Bíblia traz-nos muitos exemplos de pessoas que, embora compromissadas com Deus, não preencheram, em certos momentos de suas vidas, este requisito e, portanto, não estariam aptas para, se vivessem no tempo da graça, serem diáconos ou presbíteros.
Abrão, por exemplo, ao se desviar da orientação e da direção divinas, mesmo estando em prosperidade material, acabou sendo alvo de dura repreensão de caráter moral por parte de Faraó, um politeísta e idólatra, repreensão contra a qual não pôde argumentar, pois estava completamente fora da vontade do Senhor (Gn.12:18-20), ou então, a repreensão e desmascaramento vivenciados pelo rei Davi por parte do profeta Natã (II Sm.12:7-12), repreensão contra a qual não pôde o rei usar da autoridade que possuía para fazer mal ao homem de Deus.
O presbítero e o diácono não podem, pois, ter uma conduta social que permita sejam repreendidos pelos homens, sejam eles crentes ou não. Devem ser homens que, no jargão popular, "estejam acima de qualquer suspeita".
Para o exercício de certas atividades na sociedade, exige-se que o candidato seja alguém idôneo, tenha credibilidade moral e reputação ilibada (como, v.g., exige a Constituição da República Federativa do Brasil para a escolha dos ministros do Supremo Tribunal Federal, em seu artigo 101). Se os homens, sendo maus e pecadores, exigem de que esteja na proeminência um porte diferenciado perante a sociedade, por que não teríamos o mesmo cuidado na escolha de diáconos e de presbíteros, que estarão em destaque no meio da "geração eleita, sacerdócio real e nação santa" ?
É fundamental, portanto, que os diáconos e presbíteros sejam pessoas irrepreensíveis, pessoas que não possam ser repreendidas pela sua conduta social, entendida esta não só dentro das quatro paredes do templo, mas, o que é fundamental, no dia-a-dia de sua vida neste mundo.
Somente pode ser separado como diácono ou presbítero alguém que tenha atendido à ordem do Senhor para Abraão em Gn.17:1: "anda em Minha presença e sê perfeito." Sabemos que a perfeição aqui não é a infalibilidade, algo que jamais será atingido pelo ser humano, mas a integridade, ou seja, a retidão, a correção de propósitos e de atitudes. Quem não atender a esta exigência divina de aperfeiçoamento na jornada de fé não está, ainda, em condições, de assumir o diaconato ou o presbitério.

II.2 - Marido de uma mulher

O segundo requisito trazido pelo apóstolo para que alguém possa ser guindado ao ministério é que seja marido de uma mulher (I Tm.3:2), exigência que, também, é repetida explicitamente quando se trata especificamente do diaconato (I Tm.3:12).
O texto tem causado grande polêmica no tocante à questão de se estar aqui proibindo que alguém divorciado seja separado para o ministério, diante do sentido original da expressão "uma mulher" que seria melhor traduzida para o português como "uma só mulher", já que se teria aqui um numeral e não um artigo, até porque, em grego, não há artigo indefinido.
Entretanto, não vamos adentrar neste assunto, que demandaria um estudo à parte, até porque entendemos que o requisito apresentado é de uma maior profundidade do que a questão de se saber se o candidato a diácono ou a presbítero já convolou núpcias anteriormente.
O que se está a exigir aqui é que o candidato ao ministério tenha um bom porte familiar, ou seja, que seja reconhecidamente um "pai de família", um "chefe de família", ou, para se utilizar de uma típica expressão popular que já está fora de moda, "gente de família".
Quando estamos analisando os pretendentes a namoro de nossos filhos, sempre procuramos observar se o(a) pretendente é "gente de família", ou seja, se tem uma vida familiar, se tem um relacionamento estável e definido com seus pais e seus irmãos.
Ora, é exatamente isto que o apóstolo está indicando neste ponto, ao exigir que o candidato ao ministério seja "marido de uma mulher", algo que, posteriormente, na mesma passagem, é explicitado, ao se dizer que quem não governa bem a sua casa, não poderá jamais governar a casa de Deus (I Tm.3:4,5).
Para que alguém possa exercer o ministério, é imperioso que tenha um porte familiar exemplar, que seja "gente de família", que possa ser reconhecido como "marido de uma mulher".
Para se ser "marido de uma mulher", é preciso ser alguém que seja amoroso, tenha uma afetividade evidenciada e genuína, pois, caso contrário, sempre estará só na sociedade, pois sua mulher não quererá acompanhá-lo.
Com efeito, sabemos que a mulher é um ser guiado pelo sentimento e pela intuição, de modo que o candidato ao ministério deve ser uma pessoa que tenha cativado sua mulher, e, para cativar uma mulher, é indispensável que se demonstre amor e afeto, capazes de criar um cumplicidade que faça com que a mulher tenha prazer em fazer companhia ao seu marido.
Ser "marido de uma mulher" é demonstrar a todos que se é amoroso, sensível e afetuoso.
Não é por outro motivo que a recomendação bíblica aos maridos, quando são explicitados os deveres domésticos, é de que o marido ame a sua mulher (Ef.5:25). Se o marido não amar sua mulher, não a poderá cativar, não constituirá com ela a unidade que caracteriza o casamento (Gn.2:24; Mt.19:6).
Como alguém pode ser ministro na casa de Deus se não ama a sua própria mulher ? Como diz o apóstolo João, se não se ama a quem se vê, como se poderá dizer que se ama a Deus (I Jo.4:20) ? E, se não ama a Deus, como poderá amar a Igreja do Senhor ?
O amor que a Palavra de Deus exige do marido, ademais, não é qualquer amor, mas um amor intenso e que seja de renúncia. Com efeito, o marido deve amar sua mulher como Cristo amou a Igreja e a Si mesmo Se entregou por ela (cf. Ef.5:25).
O candidato a ministro deve amar sua mulher e estar pronto a se entregar por ela. Reside aqui, aliás, um dos grandes equívocos que têm sido cometidos pelos obreiros nos nossos dias, a saber, o de menosprezo da família em favor da obra de Deus.
Para que se separe alguém ao diaconato ou ao presbitério, é preciso verificar se ele é "marido de uma mulher" e, como "marido de uma mulher", o candidato ao ministro deve estar disposto a morrer pela sua mulher, pela sua família e não pela obra do Senhor.
Não pode ser obreiro quem não está disposto a se sacrificar pela sua família.
Recentemente, aliás, ouvi de um pastor, com lágrimas em seus olhos, a constatação de que, num velório de um grande homem de Deus, teve o responsável pelo culto fúnebre de até se virar e esconder seu rosto da família daquele servo de Deus, porque, embora tivesse dito, em suas palavras tocantes, que se estava ali diante de um grande batalhador do Evangelho, não poderia ser dito que ali estava um grande pai e um grande marido, porquanto este ministro havia abandonado sua família em prol da "obra do Mestre", e, como resultado disto, ali estavam todos os seus filhos desviados e fora da igreja.
É uma triste constatação a de que há uma grande parcela de filhos de obreiros no mundo, precisamente porque, ao serem separados estes obreiros, não se verificou se eram eles "maridos de uma mulher", se eles governavam bem as suas casas.
Nos dias em que vivemos, em que o alvo principal do adversário tem sido contra a família, é absolutamente indispensável que somente separemos para o ministério pessoas que sejam "maridos de uma mulher", que sejam verdadeiros amantes de suas famílias, que estejam dispostos a morrer pela salvação de suas famílias.
Não permitamos que os obreiros desprezem, deixem em segundo plano as suas famílias, pois a igreja nada lucrará com isto, mas, muito pelo contrário, perderá, totalmente, a sua credibilidade e se abrirá uma cunha na qual o adversário, com certeza, trará enormes prejuízos e um rastro de morte e de destruição que, muito provavelmente, não poderá ser totalmente desfeito.
O obreiro deve ser o primeiro a zelar pela sua própria casa, deve ser o primeiro a instituir o culto doméstico e a gerar, em seus filhos, o prazer no serviço a Deus, a conseguir a cumplicidade e o apoio de sua mulher no exercício de suas funções na casa do Senhor.
O obreiro deve ter uma vida familiar própria e peculiar, que não se misture com a casa de Deus, pois o texto bíblico é claro ao apresentar estes dois ambientes como ambientes paralelos, que não se misturam, mas que trazem, reciprocamente, vigor e autoridade ao ministro.
Cabe, aqui, aliás, uma última observação, relativa à expressão do apóstolo, segundo a qual deve o obreiro ter "seus filhos em sujeição"(I Tm.3:4).
Aqui, o original "filhos" diz respeito a filhos em tenra idade, ou seja, crianças que não têm ainda o discernimento nem a capacidade de escolher. Assim, não pode o obreiro ser penalizado porque um filho, já atingida esta capacidade de discernimento, escolha o caminho da perdição, pois isto é resultado do livre-arbítrio de cada um e não pode o pai responder pelos pecados de seus filhos (cf. Ez.18:20).


II.3 - Sóbrio

A sobriedade é a característica seguinte mencionada pelo apóstolo Paulo, devendo, aqui, ser considerada aquele estado segundo o qual a pessoa não se encontra enebriada, embiragada, ou seja, encontra-se dentro de um perfeito reconhecimento da realidade que a cerca.
A sobriedade é, precisamente, a noção de onde se está, do que se é, do que se pode, ou não, fazer.
Ser sóbrio é, sobretudo, não se deixar levar pela sensação do poder.
É dito que "o poder corrompe" e que o "poder absoluto corrompe absolutamente" e temos, sim, de concordar com estas máximas, porquanto a sensação de poder tem levado muitos a se desvirtuar do caminho da obediência e da submissão a Deus, a começar pelo próprio inimigo de nossas almas.
O obreiro deve ser alguém que seja sóbrio, ou seja, que saiba, exatamente, apesar da posição de eminência que venha a ocupar diante do povo de Deus, não se deixar enebriar pelo novo "status" e manter-se no seu devido lugar, sabendo que é, antes de tudo, um servidor do povo, que está para servir o rebanho do Senhor e não para ser servido.
Ser sóbrio é não se deixar enebriar pelo poder, é não ceder à tentação de ter domínio sobre o povo de Deus (I Pe.5:3), é compreender que somente seremos alguém relevante e proeminente na casa do Senhor se agirmos como o homem que o próprio Jesus disse que foi o maior profeta dentre os nascidos de mulher, João Batista(Lc.7:28). A qualidade que fez com que o Senhor considerasse João Batista o maior de todos os seres humanos pecadores foi somente uma: a humildade, pois, em pleno vigor de seu ministério, João soube, exatamente, qual era o seu lugar, ao afirmar que deveria diminuir para que Cristo crescesse (cf. Jo.3:30).
Entre nós, brasileiros, há uma tradição cultural de dar muito crédito aos títulos e aos cargos. Dentro de uma visão patrimonialista que nos herdou a própria cultura lusitana (que o diga o grande jurista Raymundo Faoro, em sua magistral obra, 'Os donos do poder'), temos a tendência de conferir posição e respeito a quem ostente um determinado título, de forma que a ostentação de um título chega a ser primordial no próprio estabelecimento de relações sociais.
Em razão disso, há uma verdadeira busca de títulos no meio da igreja, como se o Senhor necessitasse de credenciais ou de quaisquer documentos para que alguém exerça um determinado dom ministerial no meio do povo de Deus.
Esta característica de nossa cultura tem sido ardilosamente utilizada pelo inimigo de nossas almas para levar ao fracasso muitos dos sevos do Senhor, que, além de correrem atrás dos títulos, o que, não raro, corrida que faz com que percam a direção do Senhor para seus ministérios, o que lhes é fatal, gera um subproduto não menos perigoso: a embriaguez pelo poder.
Diante deste quadro, portanto, é mister que vislumbremos se os candidatos ao ministério são sóbrios, se o poder não lhes sobe, facilmente, à cabeça.

II.4 - Vigilante

O obreiro deve, como crente que é, ser uma pessoa vigilante.
Estamos no mundo, mundo este em que estamos convivendo, diariamente, com o mal, mal este que quer, simplesmente, destruir-nos, pois o curso do mundo segue o que foi imposto pelo "deus deste século", pelo "príncipe das trevas"(Ef.2:2,3), cujo trabalho é matar, roubar e destruir (Jo.10:10).
Não podemos nos iludir com quaisquer propostas ou considerações de origem satânica segundo as quais é possível estabelecer-se uma trégua com o pecado e com o mundo, que jaz no maligno, pois o diabo não cessa de buscar uma ocasião para tragar a tantos quanto possa.
Não é por outro motivo que Jesus disse que estaríamos como ovelhas no meio de lobos (Lc.10:3) e de ter mostrado ser necessária e indispensável a Sua intercessão para que sejamos livres do mal (Jo.17:15).
O crente deve ser vigilante, estar sempre atento a todos os movimentos que estão à sua volta, a fim de que não seja apanhado de surpresa pelo adversário, devendo, pois, de modo geral, estar vigiando, que é o que o Senhor recomenda expressamente a toda a Igreja (cf. Mc.13:37).
Pois bem, se para o crente a vigilância já é um imperativo, que dirá para o obreiro, que se encontra em posição de eminência e com maiores responsabilidades na Igreja, pois, como afirma a Palavra do Senhor, "...a qualquer que muito for dado, muito se lhe pedirá, e ao que muito se lhe confiou, muito mais se lhe pedirá."(Lc.12:48).
Estando em posição de destaque diante do povo de Deus e da sociedade, o obreiro deve ter redobrada vigilância, buscando viver aquilo que ensina e propala na pregação e ensino da Palavra do Senhor, sob pena de retirar toda a credibilidade de sua pregação.
O conhecido e exímio orador sacro em língua portuguesa, o padre Antonio Vieira, em um de seus mais famosos sermões, o Sermão da Sexagésima, onde discute porque a Palavra de Deus não estava frutificando conforme o Senhor prometera na parábola do semeador, chegou à conclusão de que o principal obstáculo para que houvesse muitas conversões era o próprio pregador, cuja vida, muitas vezes, desmentia cabalmente a pregação efetuada.
O obreiro precisa ser vigilante e estar bem atento a tudo que o cerca, para impedir que suas ações, palavras e obras venham a levar descrédito para o Evangelho de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
Aliás, quem pode objetar que o maior obstáculo para a conversão de almas, atualmente, não têm sido os escândalos causados por obreiros que não têm sido vigilantes ?
Neste tópico, ainda, devemos observar que o obreiro deve ser vigilante na transmissão da doutrina para o povo de Deus.
Como ministros do Senhor, temos a incumbência de transmitir a Palavra de Deus, de ensiná-la e devemos ser transmissores fiéis, meros condutores da Palavra que é de Deus e não nossa. Muitos não têm vigiado e, por causa disso, a doutrina não tem sido transmitida devida e corretamente para o povo.
Muitos não têm sido vigilantes e acabam transmitindo ao povo doutrinas de homens, pensamentos seus e até doutrinas de demônios, colocando veneno na panela, causando grande prejuízo espiritual ao povo do Senhor.
A "Ética dos Pais"(em hebraico, "Pirke Avot"), um dos principais capítulos da literatura de sabedoria do "Talmud", o depósito da chamada "lei oral judaica", inicia-se com a seguinte afirmação: " Moisés recebeu a Torá do Sinai; transmitiu a Josué; Josué, aos anciãos; os anciãos, aos profetas; os profetas a transmitiram aos homens da Grande Assembléia..." (Pirke Avot 1,1).
O que aqui observamos é que, para os judeus, a validade de toda a sua lei está na fidelidade da transmissão, ou seja, desde Moisés, que a recebeu de Deus, até os homens da Grande Assembléia, que são os membros do Sinédrio que compilaram as tradições orais depois da destruição do templo de Jerusalém pelos romanos, havia uma cadeia de fiel transmissão, e esta é a razão pela qual os judeus, mesmo não tendo templo e, até 1948, nem sequer tendo um Estado na Palestina, mantinham a observância da lei, porque havia fiel transmissão.
Se alguém for observar este princípio em nossas igrejas locais, será que poderá dizer que está sendo transmitida a Palavra do Senhor na mesma fidelidade com que o Senhor a transmitiu aos Seus discípulos (cf. Jo.15:15), ou será que temos criado um sem-número de doutrinas e de tradições que têm, inadvertidamente, por falta de nossa vigilância, invadido e se inserido no meio do povo de Deus, anulando até a própria Palavra do Senhor, como acontecia, entre os judeus, no tempo de Jesus ? (cf. Mc.7:1-13).
Na lei civil brasileira, qualquer um que der informação inexata ou incorreta a respeito de um determinado produto, é responsabilizado pela notícia não correspondente à verdade, tendo o consumidor direito a ser ressarcido pelo prejuízo sofrido diante da erronia, diante da chamada "propaganda enganosa"( artigos 6º, IV e 37 do Código de Defesa do Consumidor), podendo, até, o responsável ser processado criminalmente (artigos 66 e 67 do Código de Defesa do Consumidor).
Se os homens, sendo maus e pecadores, punem, desta maneira, quem não for fiel à mensagem veiculada ao público, como podemos pretender sair ilesos se não transmitirmos, fielmente, a mensagem que Deus determinou que divulgássemos, separando-nos para o ministério ?
Que sejamos vigilantes, sabendo que devemos prestar contas de tudo que ensinarmos ao povo de Deus, pois, como afirmou Tiago, "... meus irmãos, muitos de vós não sejam mestres, sabendo que receberemos mais duro juízo..." (Tg.3:1).

II.5 - Honesto

A versão do Pe. Antonio Pereira de Figueiredo, a primeira versão em português feita pela Igreja Romana, datada de 1842, traduziu esta característica do obreiro como sendo "concertado", ou seja, compromissado, comprometido, responsável por força de um pacto.
Parece-nos interessante trazer esta outra expressão para demonstrar a amplitude do termo "honesto", que assume uma conotação, nos nossos dias, mais voltada ao aspecto financeiro, visão que não corresponde ao alcance do texto em foco.
Ser honesto é ser comprometido com obrigações e responsabilidades assumidas, é cumprir rigorosamente com o que prometeu, com o que se comprometeu.
O crente, em geral, diz-nos a Palavra de Deus, deve procurar as coisas honestas (Rm.12:17).
Financeiramente, alguém é honesto quando não se enriquece indevidamente, ou seja, quando vende exatamente o que se comprometeu a vender, quando paga ou cobra o justo preço sobre uma determinada coisa.
Para que alguém seja honesto, neste ponto-de-vista financeiro, não pode ter amor ao dinheiro, raiz de toda a espécie de males (I Tm.6:10), devendo ter, assim, desapego às coisas materiais (Mt.6:18-21). Assim, antes de se separar alguém para o ministério, é imperioso que saibamos como é seu comportamento diante do dinheiro.
Pois bem, ser um obreiro honesto não é apenas ser correto com as finanças que, porventura, lhe sejam entregues pela comunidade, pela igreja local em que está exercendo seu ministério, mas é manter vivo o compromisso assumido perante o Senhor de bem desempenhar a função para a qual foi chamado.
Dentro desta perspectiva, não é honesto o obreiro que tem uma visão "carreirista", como dissemos acima, ou seja, que tudo faz, não para bem desempenhar a função para a qual foi separado, mas que procura mostrar-se à liderança da igreja, à cúpula ministerial, com vistas a galgar outras posições mais importantes na estrutura administrativa da organização humana construída em torno da igreja, que é um organismo vivo, propriedade exclusiva do Senhor Jesus.
A honestidade exige do obreiro uma transparência, pois, quem anda honestamente, anda "como de dia", na expressão do apóstolo Paulo aos Romanos (Rm.13:13). Pessoas que sejam refratárias a uma vida de transparência, que tendem, sempre, a esconder algo além da natural intimidade e privacidade que cada ser humano deve ter, não é uma pessoa indicada para o ministério na casa do Senhor, que exige honestidade, honestidade esta que exige, sobretudo, a transparência.


II.6 - Hospitaleiro

Outra qualidade que Paulo apresenta a Timóteo para que seja buscada nos candidatos ao diaconato e ao presbitério é a hospitalidade, qualidade que era fundamental nos tempos apostólicos, ante a total falta de infra-estrutura para a acolhida de irmãos, já que o precário sistema de estalagens e de hospedagens daqueles dias confundiam-se com a prática do meretrício e de toda sorte de prostituição.
Esta característica, nos nossos dias, onde a urbanização excessiva e a violência urbana fazem com que se tenha uma realidade totalmente distinta daquela vivida nos primeiros tempos da igreja, tende a ser negligenciada e até desprezada nas nossas igrejas locais, postura, entretanto, que não pode ser tolerada, se é que cremos que a Palavra de Deus é atemporal e que, portanto, não podem as mudanças sócio-culturais invalidá-la.
Não deixamos de reconhecer que a exigência da hospitalidade, nos nossos dias, não tem o mesmo caráter que tinha nos tempos de Paulo e de Timóteo, mas, também, é inegável que a hospitalidade deve ser uma qualidade presente, notadamente, entre os ministros, a quem cabe, em primeiro lugar, acolher os irmãos e os visitantes em geral nas igrejas locais, algo que, lamentavelmente, tem sido totalmente desvirtuado atualmente.
Ser hospitaleiro é muito mais do que estar disposto a receber alguém para dormir ou tomar uma refeição na sua casa. Ser hospitaleiro é estar disposto a acolher e acolher envolve mais do que suprimento de necessidades físicas ou higiênicas, mas significa poder transformar seu lar e sua pessoa num refúgio para quem está cansado, atribulado, angustiado e aflito.
Ser hospitaleiro é ter condições de ser um verdadeiro "hospital", ou seja, ser alguém que possa amainar a dor, o sofrimento, a doença, a necessidade do próximo.
Um dos modelos maiores de hospitalidade na Bíblia Sagrada é o de Abraão que, no maior calor do dia, acolheu aqueles três viajantes, um dos quais era o próprio Senhor, quando estava à porta da tenda(Gn.18:1-3). Sua disposição e seu pronto socorro àqueles homens revelam que o obreiro deve ser alguém que esteja, à porta da tenda, ou seja, à disposição, para mitigar o sofrimento do próximo.
Muitos obreiros, porém, estão como Sara, que se encontrava dentro da tenda, preso àquele universo interno, totalmente alheia ao que se passava em volta, sem qualquer disposição para saciar a fome e a sede de quem quer que fosse.
Sejamos hospitaleiros, dispostos a realizar a obra do Senhor, que é a de cuidar dos doentes, resolver os problemas dos aflitos e trazer paz aos atribulados.
Recentemente, conversando com um obreiro, o mesmo, que dirige uma congregação numa grande cidade do interior paulista, afirmou que tem conseguido sensibilizar a irmandade no auxílio aos necessitados, ao afirmar que, a partir do momento que a igreja decide evangelizar, certamente encontrará um sem-número de problemas a resolver e se a igreja quer pregar o evangelho, deve estar consciente que também deve estar pronta a ajudar a resolver todo tipo de problemas, pois, no mundo sem Deus e no pecado, não há senão problemas e problemas cada vez maiores.
Como podemos querer pregar o Evangelho se não estamos dispostos a ser hospitaleiros ?
Mas, para que haja hospitalidade, é mister que haja um prévio discernimento. É aqui que se tem um dos pontos fundamentais que permitem o exercício da hospitalidade sem qualquer problema, apesar dos dias maus em que vivemos.
A violência urbana do nosso tempo somente impede o exercício da hospitalidade se não houver o discernimento. Abraão pôde identificar que, entre aqueles viajantes, estava o próprio Deus, tanto que a Ele se dirige e se prostra (Gn.18:3). Não podemos mais agir como a personagem mencionada pelo escritor aos Hebreus (provavelmente Ló), que, sem saber, hospedou anjos (Hb.13:2), pois a probabilidade de estarmos hospedando demônios será muito grande.
Se o candidato ao ministério for hospitaleiro criterioso, teremos a demonstração de que se está diante de alguém que tem o discernimento, que sabe ver o mal de longe e é de pessoas assim que a Igreja precisa para seu crescimento espiritual.

II.7 - Apto para ensinar

Já falamos, ao tratar da vigilância, da importância que tem de ter o conhecimento da Palavra do Senhor na escolha dos ministros na casa de Deus.
É fundamental que o diácono ou presbítero sejam pessoas que tenham condições de ensinar a Palavra de Deus e tem sido este um requisito que tem sido deixado de lado pelas igrejas locais, para grande prejuízo da Igreja do Senhor, em especial no Brasil, onde o vertiginoso crescimento da Igreja tem sido, indevidamente, aliado a um espontaneísmo e a um anti-intelectualismo que se confunde com a ação do Espírito Santo. Não são poucos os que defendem a tese de que o Espírito Santo, para agir, exige um ambiente em que não haja estudo sistemático da Palavra do Senhor, em que tudo se reduza a uma operação de "revelação" do Espírito e de uma espontânea manifestação do Senhor no meio do Seu povo.
Muito pelo contrário do que tem sido pregado e propagandeado aos quatro ventos, o modelo bíblico mostra que Jesus era alguém que sempre ensinava a Palavra do Senhor com base nas Escrituras, nunca apresentando um espontaneísmo ou uma doutrina baseada apenas em Seu sentimento ou pensamento, como também lecionou durante mais de três anos aos Seus discípulos, os quais continuaram a manter uma vida de oração e de aprendizado da Palavra, pois somente quem dela aprende é que pode ensiná-la, a ponto de não permitir sequer que conflitos surgidos na igreja viessem a perturbar seu trabalho (cf. At.6:2-4).
O diácono e o presbítero devem ser pessoas que estejam aptas a ensinar a Palavra do Senhor, mas muitos têm sido separados para o ministério sem atender a este requisito e a conseqüência é que o povo de Deus tem sido deixado à mercê, correndo sério risco de ser destruído, precisamente porque lhe falta o conhecimento. (Os.4:6a).
Para quem alguém esteja apto para ensinar, é preciso, em primeiro lugar, que esteja disposto a aprender. Ser discípulo de Jesus é ser Seu aluno, pois a palavra "discípulo" quer dizer aluno. Jesus disse que os apóstolos deviam "fazer discípulos"(Mt.28:19-ARA e NVI), ou seja, pessoas que quisessem aprender.
Então, o primeiro ponto que devemos observar no candidato a obreiro é se freqüenta as reuniões de ensino da igreja local (culto de oração e doutrina, escola bíblica dominical, seminários, palestras etc.), se está aprendendo.
Em seguida, devemos testá-lo no exercício do ensino da Palavra, dando-lhe oportunidades para que venha a fazer estudos bíblicos, a fazer explanações da Palavra do Senhor.
Somente assim teremos observado se o crente está em condições de ser guindado ao ministério.
É, aliás, outro grande mal que tem causado a "visão carreirista" nas igrejas locais, a total eliminação deste requisito na separação de diáconos, havendo, mesmo, quem ache que, exatamente por não ter condições de ensinar a Palavra, deva alguém ser separado ao diaconato, buscando basear seu entendimento na própria criação do diaconato, em At.6, pois o "diácono era, precisamente, alguém escolhido dentre o povo para permitir que os apóstolos estudassem a Palavra enquanto eles serviriam às mesas."
Entretanto, este entendimento não pode ser, de forma alguma, adotado na igreja do Senhor.
Por primeiro, o diácono, corretamente ou não, no momento aqui não importa, não tem servido como mero auxiliar na igreja local para assuntos materiais, como se decidiu em Jerusalém, de modo que, como o diácono pode assumir funções em nossas igrejas locais do século XXI que, na Jerusalém dos anos 30 seriam exercidas apenas pelos apóstolos, o argumento apresentado não pode, em absoluto, ser acolhido.
Por segundo, ao se verificar quais os requisitos apresentados para a escolha dos primeiros diáconos, observaremos que foram escolhidos "varões de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria", ou seja, pessoas que não eram, em absoluto, ignorantes quanto à Palavra de Deus, tanto assim que basta olharmos para o discurso que um dos diáconos, Estêvão, proferiu (At.7:2-53), para verificarmos que a idéia de que o diácono pode ser alguém que não tenha condições de ensinar a Palavra seja algo que não tem qualquer respaldo bíblico.
Ser apto para ensinar a Palavra é, assim, requisito indispensável para que alguém possa ser obreiro, mas para ensinar é preciso querer aprender sempre. Não há limite para o aprendizado da Palavra de Deus, de forma que também deve ser observado no obreiro se o seu desejo de aprender sempre perdurará, durante toda a sua vida.
Devemos impedir que os auto-suficientes, os que acham que sabem tudo, os "sabichões" sejam guindados ao ministério. Nosso Senhor, para que não houvesse dúvida alguma de que o conhecimento humano jamais pode querer ser completo ou tal que dispense qualquer aprendizado, deixou-nos dois exemplos cabais de Sua superioridade a todo e qualquer ensinador das Escrituras: aos doze anos, quando foi ao templo pela primeira vez, quando deveria assumir a responsabilidade de conhecer e praticar a lei, segundo o costume judaico, por três dias, ensinou os doutores do Templo, mostrando, assim, ser a eles superior(Lc.2:46,47); ao entrevistar o mestre de Israel, o maior conhecedor da lei em seu tempo, o doutor Nicodemos, o Senhor, expressamente, disse que estava apenas falando de coisas naturais e já o mestre estava perdido, sem entender o que se dizia, imagine se começasse a falar das coisas celestiais (Jo.3:10-12).
O obreiro deve ser alguém apto a ensinar a Palavra de Deus, mas alguém que reconheça que, por mais que saiba, jamais poderá conseguir chegar a uma posição maior do que a de estar aos pés do Senhor(se é que é possível chegar aos Seus pés).

II.8 - Não dado ao vinho

Outra característica que deve ter o candidato ao diaconato ou ao presbitério é o de não ser dado ao vinho, ou seja, não pode ser portador de vício de qualquer espécie.
Parece, até, à primeira vista, que esta exigência do apóstolo é desnecessária, pois, naturalmente, para que alguém seja membro do corpo de Cristo, para que alguém tenha sido batizado em águas, faz-se mister que esteja completamente liberto de qualquer vício.
Assim, como exigir que um obreiro seja pessoa que não seja portadora de qualquer vício, se esta já é uma exigência para se tornar membro do corpo de Cristo ?
Esta aparente contradição, entretanto, inexiste. O apóstolo tinha compreensão de que a vida do crente é uma vida de santificação e que, nem sempre, esta vida é uma seqüência de progressos espirituais. Muitas vezes, há grandes percalços e fracassos na caminhada de fé. Os homens são falhos e, vez por outra, retrocedem espiritualmente, não devendo isto ser uma constante, na vida da pessoa realmente transformada, mas um fato isolado, episódico, que, entretanto, nunca está ausente da vida do cristão.
João, em sua primeira carta universal, é claríssimo ao afirmar que "se dissermos que não pecamos, fazemo-lO mentiroso, e a Sua palavra não está em nós"( I Jo.1:10). Se dissermos que não pecamos mais, que adquirimos a impecabilidade ao aceitarmos a Cristo, estaremos mentindo e, conseqüentemente, estaremos pecando.
Ciente desta condição do ser humano, o apóstolo adverte a seu filho na fé que observe não a história do candidato ao diaconato ou ao presbitério, mas, sim, o seu momento espiritual presente, o atual instante de espiritualidade do candidato a obreiro.
Quando o candidato se batizou em águas, ele dava frutos de arrependimento, ele demonstrava estar liberto de todo e qualquer vício (assim se espera que tenha ocorrido...), mas, e agora, como é a vida do candidato ao ministério ? Tem ele sido um instrumento nas mãos do Senhor, ou tem se deixado dominar por algum vício, seja ele qual for ?
Não basta observar se o candidato ao ministério bebe, fuma, usa drogas, joga ou algo similar, o que é muito improvável que esteja ocorrendo, mas é preciso verificar se algo não lhe tem dominado, se ele não consegue se desvencilhar de certos vícios adquiridos durante a jornada de fé.
Será que o candidato ao ministério não está preso a certas práticas que denotem certos vícios, tais como a avareza, ou o descontrole desmedido no consumo e na ostentação ? Será que não tem demonstrado descontrole em aspectos morais, particularmente de moral sexual, não conseguindo resistir aos apelos da mídia no que respeita a pornografia ou sensualismo ? Será que não tem se tornado um "workaholic", sendo viciado em trabalho, a ponto de ter deixado, em segundo plano, suas relações familiares e, até mesmo, a obra do Senhor ? Será que não tem se prendido a certas práticas, como assistir a certo programa de televisão ou participar de certo evento, que não é pecaminoso em si, mas que leve para o segundo plano tudo o mais, inclusive a adoração ao Senhor ?
"Não dado ao vinho" é, portanto, uma característica muito mais ampla do que, simplesmente, certificar-se se o candidato ao ministério é um alcoólatra. É a necessária verificação se o indivíduo tem cumprido o primeiro mandamento, que é o de amar a Deus sobre todas as coisas e se pode repetir, com sua vida, as próprias palavras do apóstolo, escritas à igreja de Corinto: " todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm; todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma." (I Co.6:12).

II.9 - Não espancador

Seguindo na sua relação de qualidades indispensáveis para que alguém seja alçado ao ministério, o apóstolo apresenta uma outra característica que não tem sido muito observada nos nossos dias, máxime em países como o Brasil, de cultura excessivamente machista.
Diz o apóstolo que o obreiro não pode ser "espancador", ou seja, não pode ser uma pessoa violenta, agressiva, que não hesite em ofender a integridade física do seu semelhante.
Nos dias de Paulo, a força bruta, a capacidade de fazer valer a força física, era um atributo importante e ressaltado na sociedade, mormente quando se sabe que se estava diante de um governo que, pela força, dominava praticamente todo o mundo de então. Baseado, como estava, em sua força militar, o Império Romano só poderia, mesmo, criar uma cultura que exaltasse a força física.
Entretanto, na Igreja do Senhor, jamais este atributo foi considerado como relevante. Com efeito, salvo o episódio dos mercadores do templo, em que Jesus voltou-Se contra as atitudes desrespeitosas de quem mercadejava a fé do povo, mas onde não se vê, em absoluto, qualquer agressão a uma pessoa, não vemos o Senhor usar da força física para tomar qualquer atitude em Seu ministério.
Assim, também não podemos querer que pessoas que estejam à frente do povo de Deus, possam valer-se da brutalidade ou da força física para que sua vontade prevaleça. Como afirmou o profeta, a Igreja deve estar consciente que sua prevalência sobre o pecado e o mal não é por força nem por violência, mas pelo Espírito do Senhor (cf. Zc.4:6b).
Deste modo, não pode ser separado para o ministério alguém que recorra freqüentemente à força bruta, à violência, que seja espancador, que baseie sua autoridade na agressão à integridade do semelhante, que, como ele, é imagem e semelhança de Deus.
Tão inadequado e impróprio para o exercício do ministério é este comportamento que Moisés, por se ter apresentado como pessoa agressiva e violenta, teve de se submeter a um período de quarenta anos no deserto, para só, então, após ter se convertido no homem mais manso sobre a terra, ser considerado preparado por Deus para realizar a obra para a qual havia sido escolhido pelo Senhor.
Ser pessoa violenta, agressiva e irascível é característica que impede que alguém seja guindado ao ministério na Igreja do Senhor.
Mas é oportuno aqui observar que não é apenas do ponto-de-vista físico que devamos observar a presença, ou não, desta qualidade no candidato ao ministério.
Impõe-se, também, com redobrada atenção, verificar como é o falar deste candidato, como ele trata o próximo, se atinge, ou não, com suas palavras, a integridade moral e psíquica do semelhante.
Às vezes, embora não se espanque fisicamente, espanca-se impiedosamente com palavras, deixando marcas e cicatrizes profundas, que não saram tão rapidamente como se fossem ferimentos físicos.
Como é o trato do candidato a obreiro com seu semelhante ? Como são suas palavras de repreensão, de indignação, de correção ? Será que são palavras firmes mas doces, cheias de graça ? Ou são ofensivas e verdadeiras chibatadas que deixam marcas difíceis de cicatrização ?
É imperioso que o obreiro seja manso e humilde de coração, assim como é seu Senhor (cf. Mt.11:29b), sendo equilibrado em suas palavras, que não vise ao "linchamento moral" de quem quer que seja, mas que busque, mesmo nas repreensões e correções, a edificação do errado, a cura do doente, a restauração do caído.
Acumulam-se, nos tribunais, demandas contra igrejas por causa de comportamentos de obreiros que foram ofensivos à moral e ao respeito devido a irmãos disciplinados, demandas estas que, via de regra, têm sido julgadas contra a igreja. Antes de observarmos nestes julgamentos uma eventual "perseguição religiosa dissimulada", como alguns precipitados logo passam a propalar, por que não observarmos se tais condenações não são fruto de uma inobservância deste mandamento bíblico de que os obreiros, aqueles que estão à testa da igreja do Senhor, não podem ser espancadores ?
Será que um magistrado que condene a igreja porque, ao ser tomada uma medida de disciplina, em reunião pública, o obreiro não se contente em apenas dizer à igreja que alguém foi disciplinado, mas que passe a fazer considerações ofensivas e impiedosas contra o membro suspenso ou excluído, não estará agindo conforme a Palavra do Senhor, que afirma que o diácono ou presbítero não pode ser espancador ? Será que a caneta do magistrado não está sendo utilizada para que a Palavra de Deus seja cumprida ? (cf. Gl.6:7).


II.10 - Não cobiçoso de torpe ganância, mas moderado

Aqui, uma vez mais, parece-se estar diante de uma obviedade, porquanto a moderação, também chamada de temperança, domínio próprio ou autodomínio é uma qualidade que deve estar presente em todo servo de Deus, pois é um atributo inerente ao fruto do Espírito (cf. Gl.5:22). Assim, se alguém é salvo, "ipso facto", é moderado, e exigir-se isto de um candidato ao diaconato ou ao presbitério seria, para se utilizar de uma expressão popular, "chover mo molhado".
No entanto, além do aspecto temporal, que já analisamos quando observamos a exigência de o candidato ao ministério ser "não dado ao vinho", que exige, portanto, uma análise do momento presente da vida espiritual do candidato e não apenas de seu histórico, o que dá completo sentido à exigência aqui trazida pelo apóstolo, é importante observar que o obreiro deve ser alguém que tenha equilíbrio, que tenha moderação, não só sob o aspecto individual, mas, também, coletivo.
É preciso observar como o pretendente ao diaconato e ao presbitério tem se comportado em relação à comunidade, se tem sido um extremista, um fundamentalista, alguém que não encontre qualquer objeção em assumir uma atitude radical e desequilibrada.
Uma pessoa desta natureza não pode, em absoluto, ser guindada ao ministério, onde o equilíbrio e a sensatez são fundamentais para que se tenha sucesso e êxito no ministério.
Esta característica deve demonstrar que o candidato ao ministério é uma pessoa que tem condição de se colocar na posição do crente fraco, do crente necessitado, do crente que está errado e, assim, ter compaixão e saber levar em conta todas as circunstâncias que levaram alguém a tomar esta, ou aquela atitude.
A moderação envolve a ponderação, a ausência de pressa na tomada desta, ou daquela decisão, um discernimento espiritual aguçado e que revele o intuito de sempre conseguir a edificação e o aperfeiçoamento dos santos nas suas atitudes.
O equilíbrio, a moderação é algo que tem faltado muito em nossas igrejas locais, sendo qualidade que devemos buscar intensamente junto ao Senhor, Ele próprio um exemplo de equilíbrio, de sensatez e de temperança.
A qualidade aqui é indispensável para o futuro de nossa igreja e quem o diz não somos nós, mas o próprio presidente atual da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil, pastor José Wellington Bezerra da Costa que, em janeiro de 2002, foi enfático ao afirmar que, se não houver equilíbrio por parte dos obreiros, as Assembléias de Deus no Brasil correm sério risco de deixar de existir enquanto organização a serviço do reino do Senhor.
A própria física revela-nos que os extremos não são locais que concentrem energia ou que se constituam em depósitos de energia, algo que é realizado pelo centro. Daí porque Salomão ter afirmado que a virtude está no meio (cf. Ec.7:16,17) e ter pedido, mesmo em termos financeiros, que o Senhor lhe desse apenas a porção acostumada de cada dia (Pv.30:8,9), pois é na moderação que se encontra a bênção do Senhor.

II.11 - Não contencioso

O candidato ao diaconato e ao presbitério deve ser uma pessoa que seja pacificadora, que seja conciliadora, inimiga de contendas, ou seja, que não tenha prazer, antes abomine as intrigas, as discussões, as polêmicas, os debates, as lutas, as porfias e as pelejas.
Naturalmente que um servo de Deus sincero e autêntico é alguém que não promove este tipo de conflitos no seio da comunidade, porquanto é alguém que dá o fruto do Espírito e, entre as qualidades de tal fruto está a paz (cf. Gl.5:22), ao mesmo tempo em que se sabe que, entre as obras da carne, estão as inimizades, porfias, pelejas e dissensões (cf. Gl.5:20).
Entretanto, o fato de não ser o promotor deste espécie de conflitos é condição necessária para um servo de Deus, mas insuficiente para alguém que queira estar à frente do povo de Deus ou tendo nele algum destaque.
Para o cristão, basta que esteja em paz com os outros enquanto depender dele esta paz (cf. Rm.12:18), mas, para ser obreiro, é preciso mais do que isto, é preciso ser alguém que vá trazer a paz, que vá promover a paz entre os seus irmãos e entre as pessoas em geral, alguém que tenha o espírito de conciliação e que saiba mediar os conflitos que lhe forem apresentados.
Como, então, poder ser separado para o ministério alguém que, como diz o ditado popular, "paga um boi para não entrar na briga, mas dá uma boiada para não sair dela ? ". como poder ser incluído entre os candidatos ao ministério alguém que tenha prazer nas porfias, que alimente discussões, que goste de polêmicas e de instigar as diferenças e divergências no meio do povo de Deus ?
Um dos grandes problemas que a sociedade atual tem sentido é o aumento de um fenômeno que os juristas têm chamado de "litigiosidade contida", ou seja, a incapacidade de as pessoas conseguirem resolver seus litígios, seus conflitos, seus problemas, o que gera uma insatisfação continuada e deteriora os relacionamentos, que, quase sempre, acabam degenerando ou em manifestações de violência, ou, então, em pedido de intervenção do Estado, cujos órgãos de solução de conflitos encontra-se congestionado e sem condições de dar conta do número cada vez mais crescente de litígios que lhe têm chegado ao conhecimento.
Em termos de igreja, a situação não tem sido diferente, com os irmãos em Cristo tendo, também, inclusive entre si, cada vez mais, de recorrer à Justiça ou a outros organismos de solução de conflitos, numa prova evidente de que nossos obreiros já não têm sido suficientes para a conciliação de interesses e de pretensões, o que é altamente indesejável.
Por que isto tem acontecido ? Exatamente porque não têm surgido ministros e oficiais que sejam inimigos de contenda, que tenham a capacidade de conciliação, de composição dos conflitos.
Jetro já havia aconselhado Moisés a buscar homens capazes de conciliar os conflitos no meio do povo de Israel e esta instituição foi fundamental para que o povo pudesse iniciar sua caminhada para receber a lei no Monte Sinai (cf. Ex.18:14-27). A igreja não pode perder a capacidade de resolver os conflitos que exsurjam entre os justos, pois não podemos permitir que injustos julguem os justos (cf. I Co.6:1-9).
Soubemos, certa feita, de um caso que nos deixou assaz preocupados. Um irmão, em uma determinada congregação, acabou descobrindo que sua mulher estava grávida mas que o filho não era seu, mas, sim, de seu sócio. Completamente transtornado, o rapaz, um crente fiel e muito simples, após ter pensado até em dar cabo da vida da mulher infiel, resolveu ir para a igreja, pois era domingo.
Ao término da reunião, pediu para falar com o dirigente da igreja e lhe contou o acontecido, pedindo que o mesmo fosse, com sua mulher, até a sua casa, para dar uma palavra a ele e à mulher infiel e a lhes orientar no procedimento a seguir. Ao chegar à casa, porém, assim que avistou a mulher do irmão, o obreiro encolerizou-se, passou a proferir palavras duras para a mulher, ao mesmo tempo em que dizia ao marido traído que ele poderia, biblicamente, separar-se da mulher e que tinha todos os direitos e razões do mundo para lançar fora a mulher pecadora. Quando estava no auge de sua ira, o pobre rapaz disse ao obreiro que, se fosse para falar aquilo, ele não teria perdido seu tempo em chamá-lo àquela hora da noite, pois o que ele queria era um conselho de pacificação, uma orientação que viesse a dar tranqüilidade e esclarecimento a mentes que já estavam suficientemente alteradas do ponto-de-vista emocional.
Que tristeza ! Quem deveria trazer a paz e ter a capacidade de conciliar interesses e pretensões, era o primeiro a ser repreendido por estar incitando o conflito e a contenda !
Que possamos ter obreiros que sejam inimigos de contendas.
Outro tipo de pessoa que não pode ter acesso ao ministério é o polemista, o questionador inveterado, o amante de discussões e debates intermináveis.
Diz Paulo a Timóteo, nas suas duas epístolas a seu filho na fé, que o obreiro deve evitar "os falatórios profanos" (II Tm.2:16), rejeitar tanto as "fábulas profanas e de velhas"( I Tm.4:7), "as questões loucas e sem instrução"(II Tm.2:23), pois "ao servo do Senhor não convém contender"(II Tm.2:24).
Não confundamos o polemista e questionador inveterado, que é aquele que gosta de questionamentos pelos questionamentos, que quer apenas a polêmica e a discussão, sem qualquer interesse em aprendizado e em crescimento espiritual, daquele indivíduo que tem sede de aprender a Palavra de Deus, que quer saber, com profundidade, a doutrina da Palavra do Senhor, que quer saber a razão de ser deste ou daquele ensinamento, seu respaldo bíblico, enfim, alguém que queira ser interativo no ensinamento da sã doutrina.
Este deve ser um candidato ao ministério, sim, pois se trata de alguém que almeja ser "aprovado, que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade "( II Tm.2:15).
Lamentavelmente, os irmãos deste naipe, questionadores e que querem ser bons manejadores da palavra da verdade, são mantidos à parte nas igrejas locais, não são bem vistos pelos obreiros já existentes, principalmente por aqueles que não querem ser estudiosos da Palavra de Deus, porquanto este tipo de gente os obriga a estudar a Palavra para poder responder aos questionamentos.
Entretanto, aqui estamos a tratar de outro tipo de irmão, do questionador que não tem interesse algum em aprender mas, apenas, de desmoralizar o ensinador, de causar polêmica e debate, enfim, seu intento não é de aprender, de crescer, mas de mostrar uma suposta erudição sua ou de destruir a própria autoridade de quem está encarregado de ensinar a Palavra.
Estes devem ser mantidos afastados do ministério, bem assim devem ser, educada e sabiamente, anulados pelos obreiros, pois trarão conseqüências funestas no progresso espiritual da igreja, que não pode prescindir do ensino da Palavra do Senhor, como, aliás, já dissemos supra.

II.12 - Não neófito

Prosseguindo em sua relação de requisitos para a escolha de diáconos e presbíteros, Paulo afirma que os candidatos devem ser pessoas que não sejam neófitas, para que, ensoberbecendo-se, não caiam na condenação do diabo (II Tm.3:6).
Ser neófito é ser iniciante na fé, é ser um novato, uma pessoa que está dando os seus primeiros passos na vida espiritual.
A Bíblia afirma que "…se alguém está em Cristo, nova criatura é, as coisas velhas passaram, eis que tudo se fez novo…" (II Co.5:17), bem como que é preciso nascer de novo para se entrar no reino dos céus (Jo.3:5-7).
Se assim é o ingresso no reino de Deus, verifica-se que a vida espiritual possui a mesma linha evolutiva da vida material, ou seja, após o novo nascimento, o crente será um recém-nascido, passará a infância, a adolescência, para, então, só depois atingir a maturidade espiritual.
Daí porque Paulo ter afirmado, aos coríntios, que eles eram, ainda, meninos em Cristo (I Co.3:1), ou ter o escritor aos Hebreus afirmado que seus leitores ainda necessitavam de um alimento correspondente à sua infância espiritual (Hb.5:12,13).
Aliás, nesta passagem, o escritor aos Hebreus demonstra que não é o tempo que define a maturidade espiritual, mas o crescimento espiritual decorre de uma vida cada vez mais íntima em relação a Deus.
Por isso, o obreiro não pode ser uma pessoa que não tenha maturidade espiritual, pois, não tendo ainda uma experiência madura com o Senhor, facilmente, por causa de sua posição, será enganado pelo adversário de nossas almas e, inevitavelmente, será tomado pela soberba, que foi o pecado que levou o querubim ungido (cf. Is.14:13-15; Ez.28:2-10) e nossos primeiros pais (Gn.3:5,6) à perdição.
Uma pessoa precisa ter adquirido maturidade espiritual para ser guindado até o ministério e a maturidade espiritual evidencia-se por uma vida que demonstre total dependência do Senhor, que produza não só frutos para arrependimento, mas um crescimento espiritual contínuo.
Não se deve, portanto, confundir maturidade espiritual com idade ou com tempo de conversão, pois, como vimos supra, o escritor aos Hebreus chama de meninos crentes que, pelo tempo, já deviam ser considerados maduros na fé, mas não o eram.
Não deve haver, portanto, preconceito com relação aos jovens, muitas vezes deixados de lado na separação ao ministério, sob o argumento de que são neófitos, o que é um verdadeiro contra-senso, até porque o próprio Timóteo era um jovem quando foi separado para o ministério (cf. I Tm.2:22). O que se deve avaliar é a maturidade espiritual do candidato, não sua idade, nem seu tempo de conversão.
Neste ponto, vemos como é evidentemente bíblico e correto o procedimento adotado pelas Assembléias de Deus de somente separar obreiros que já tenham sido revestidos do poder do Espírito Santo, pois este é o ponto primeiro para que alguém possa ser considerado maduro espiritualmente, pois foi o requisito imposto pelo próprio Senhor para que Seus discípulos pudessem iniciar a obra de evangelização (cf. Lc.24:49).

II.13 - Não avarento

Outra característica importantíssima para o diácono ou presbítero é que não seja avarento, ou seja, que não tenha o "amor do dinheiro, (que) é a raiz de toda a espécie de males "( I Tm.6:10).
Com efeito, se o candidato ao ministério tiver seu coração nas coisas materiais, for avarento, será um sério candidato a se tornar um falso mestre, que faça do povo de Deus mercadoria e negócio (cfe. II Pe.2:1-3).
Hoje em dia, já não são poucos os lugares em que a aptidão para o ministério é calculada em termos de capacidade de arrecadação, em que a carreira ministerial é medida pelo volume de recursos que se consegue angariar junto ao povo do Senhor.
Buscam-se mercenários, empresários, comerciantes e não mais homens de Deus !
Mas a Bíblia é clara ao afirmar que a condenação desta gente não demorará e que, no tempo oportuno, aqueles que transformaram o povo de Deus em mercadoria, que reduzem a igreja do Senhor a um "mercado' ou "segmento de mercado", receberão do Senhor a paga pela sua conduta abominável.
Na igreja, devemos ter pessoas desprendidas das coisas materiais, pessoas que não estejam preocupadas em fazer do ministério um meio de vida, em ter no ministério uma renda ou uma fonte de sobrevivência.
Não somos contrários à existência de obreiros que vivam da obra do Senhor, pois a Bíblia permite que haja este tipo de obreiro, cujo salário é digno, mas somos contra os mercenários da fé, aqueles que querem servir para ganhar dinheiro.
A Bíblia diz que o obreiro é digno do seu salário, ou seja, que haverá aqueles que, por terem sido chamados para uma dedicação exclusiva, mereçam receber uma remuneração por isto, mas jamais chancela os interesseiros, aqueles que querem ser chamados a servir, não para servir, mas para receber um salário.
É preciso verificar qual o intento, qual o interesse que está por detrás do "desejo do episcopado" e se for verificada a avareza, o amor do dinheiro, isto representará um sonoro e bem alto "não". A igreja precisa de obreiros, não de mercenários !

II.14 - Tenha bom testemunho dos que estão de fora

Outra característica que Paulo inclui entre os requisitos indispensáveis para um candidato ao ministério é que este tenha bom testemunho dos que estão de fora, ou seja, que sejam bem vistos na comunidade, mas também fora da comunidade.
É preciso, portanto, que o candidato a ministro não seja, apenas, alguém que seja bem visto nas quatro paredes do templo, alguém que se destaque como pessoa de grande espiritualidade, digna e honesta durante os cultos ou as demais reuniões e atividades da igreja local, mas, muito mais do que isto, que seja uma pessoa que tenha um bom conceito, uma boa reputação entre os incrédulos, entre os ímpios, entre os que não aceitam a Cristo como Senhor e Salvador.
Muitos têm desprezado esta circunstância, que tem trazido enorme prejuízo para a divulgação do Evangelho, pois têm sido separados obreiros que têm mau (para não dizer péssimo) conceito no meio social onde vivem.
O obreiro deve ser uma pessoa bem conceituada porque tem de transmitir, pelo seu porte, credibilidade às suas palavras, pessoa cujo falar seja considerado crível e respeitável entre os incrédulos que, afinal de contas, serão o principal alvo das pregações e das declarações que forem feitas pelo ministro no seu cotidiano como anunciador destacado do Evangelho de Jesus Cristo.
O cristão, diz o próprio Jesus, deve ser luz do mundo e sal da terra e suas boas ações devem ser capazes de fazer os homens glorificar a Deus que está nos céus (cf. Mt.5:13-16). Ora, o obreiro, que estará em destaque perante a sociedade, dentro os integrantes da igreja local, com muito maior razão, deve ser uma pessoa irrepreensível, inatacável do ponto-de-vista social.
Assim, deve o obreiro demonstrar que é uma pessoa que cumpre seus deveres cívicos, que esteja em dias com as suas obrigações civis, que seja um correto patrão ou empregado, que não esteja lesando o próximo (inclusive o Governo, sendo um correto contribuinte), que não esteja sendo investigado pela polícia ou pela justiça, que seja um bom vizinho, um bom pai, um bom filho, enfim, que seja um "homem de bem" na sociedade em que vive.
Não podemos admitir uma postura que tem buscado dividir a vida espiritual da vida material de alguém. É impossível alguém que esteja em comunhão com Cristo, ter uma vida material desregrada, confusa e problemática. Jesus afirmou que pelos frutos conheceríamos o interior, a espiritualidade de alguém (Mt.7:16-20), de modo que, se alguém não pode receber um bom testemunho dos que estão de fora, dos que não vivem de acordo com os preceitos divinos, não está em condições de ser separado para o ministério na igreja do Senhor.
Há quem entenda que isto seria submeter ao julgamento dos ímpios ao próprio merecimento dos justos, mas, em primeiro lugar, trata-se de um requisito bíblico, que não comporta, portanto, questionamento. Em segundo lugar, porém, vemos que o mandamento bíblico é de grande sabedoria, porquanto o testemunho dos que estão de fora é um testemunho que deve ser levado em conta, pois permite descobrir os casos de dissimulação e de hipocrisia, que, e Cristo foi realista, é um dos comportamentos mais encontradiços entre os religiosos.
Naturalmente que, na análise do conceito que o candidato a ministro tenha na sociedade, não haveremos de considerar os preconceitos e antipatias surgidos pela sua fidelidade ao Evangelho, pois sabemos que o mundo tem seu curso contrário ao do sincero e fiel servo do Senhor. É por isso que a Bíblia afirma que se alguém padece por ser cristão, deve glorificar a Deus.
Assim, se alguém está sendo, v.g., processado por causa de seu testemunho perante Cristo, isto deve ser um fator a inseri-lo no ministério e não o contrário. Uma perseguição por causa do Evangelho não é um mau testemunho, mas um bom testemunho dos que estão de fora, ainda que representado por atitudes e ações maléficas contra o candidato ao ministério (cf. Mt.5:11,12; I Pe.4:1-19).
Por falta de atendimento a este requisito é que se tem aberto enorme brecha ao adversário de nossas almas, pois é através de más condutas sociais de muitos obreiros precipitadamente separados que o inimigo tem procurado lançar o descrédito na pregação do Evangelho e criado os inúmeros escândalos que tanto prejuízo tem causado à obra do Senhor.
Que somente sejam separados obreiros que tenham bom testemunho dos que estão de fora, para que o nome do Senhor seja glorificado !

III. AS CARACTERÍSTICAS DE UM BOM SERVIÇO NO DIACONATO E NO PRESBITÉRIO

Além de ter elencado os requisitos para que alguém seja guindado para o ministério (diaconato ou presbitério), o apóstolo Paulo também apresentou a seu filho na fé, Timóteo, algumas características que devem estar presentes no exercício do ministério dos separados, preocupação que revela a necessidade de se estar verificando o exercício, o desenvolvimento cotidiano do ministério, a fim de que se possa observar o desempenho do obreiro, inclusive com vistas à entrega de maiores responsabilidades no futuro, sem a perspectiva, entretanto, de "carreira eclesiástica".
Não pretendia o apóstolo que Timóteo apenas observasse os irmãos para separá-los ao ministério, mas, bem ao contrário, o que deveriam eles fazer uma vez já no ministério, numa clara demonstração de que a igreja é dinâmica, não comporta acomodação, na sua incessante e contínua luta para salvação das almas e aperfeiçoamento dos santos.
Em primeiro lugar, é dito que os diáconos (e, por extensão, todos os obreiros) devem "guardar o mistério da fé em uma pura consciência" (I Tm.3:9), ou, noutras versões, "conservar o mistério da fé com a consciência limpa" (ARA) ou "apegar-se ao mistério da fé com a consciência limpa"(NVI).
O que se observa, portanto, é que o obreiro não deve manter uma vida íntegra e sincera até ser separado para o ministério, mas que, a partir da separação, conservem, mantenham, apeguem-se ao mistério da fé, ou seja, ajam sempre dentro de uma perspectiva de fé em Cristo, que suas atitudes revelem uma profunda direção do Espírito Santo.
E devem fazê-lo tendo a consciência pura, tendo a consciência limpa, ou seja, mantendo-se fiéis e leais ao Evangelho e à Palavra de Deus.
Os maus obreiros, os chamados "falsos mestres", têm como característica a busca da satisfação dos próprios interesses, construindo doutrinas e ensinamentos que lhes convenham, que lhes tragam vantagens e oportunidades.
O sincero e autêntico obreiro na igreja do Senhor é alguém que se mantém por fé, que guarda e conserva o mistério da fé, que tem em vista não seus próprios interesses, mas os do dono da obra e que, por isso, tem uma consciência limpa e pura diante de Deus.
Para se ter uma consciência pura, é necessário que o sangue de Cristo tenha purificado e esteja, sempre purificando, o obreiro (cf. Hb.9:14), algo que somente se torna possível se o obreiro estiver andando na luz, em plena comunhão com o Senhor( cf. I Jo.1:7). Aliás, quem tem esta consciência, purifica-se a si mesmo ( I Jo.3:3).Foi esta consciência sem ofensa perante Deus e perante os homens que Paulo pôde apresentar aos fariseus, quando foi preso em Jerusalém (At.24:16).
Tem-se uma consciência pura quando se está vivendo uma vida de verdade e de sinceridade diante de Deus, pois a mentira e a hipocrisia são venenos cujo poder é o de cauterizar a própria consciência, transformando o obreiro em um obreiro fraudulento e sem qualquer temor de Deus (cf. I Tm.4:2).
Somente quem tem uma consciência pura, poderá apresentar um bom porte de Cristo, porte que confundirá os que falarem mal do obreiro por causa de seu modo de viver, contribuindo, assim, para o aumento da credibilidade da pregação do Evangelho (cfe. I Pe.3:16).
O obreiro deve preocupar-se intensamente em uma vida de contínua santificação. Sua oração deve ser, continuamente, a do salmista: "Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me e conhece os meus pensamentos. E vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno."(Sl.139:23,24).
Um outro aspecto deste primeiro requisito de bom serviço está na perseverança que deve apresentar o obreiro. Como crente, é preciso que o obreiro persevere, pois somente quem perseverar será salvo (cf. Mt.24:13). Entretanto, quando se trata de um obreiro, a falta de perseverança traz conseqüências ainda mais drásticas, como se verifica em II Pe.2:1,21,22. Conservemos, pois, a fé no Senhor até o fim!
O segundo ponto de um bom serviço é a correspondência da aquisição da boa posição com a aquisição de muita confiança na fé que há em Cristo Jesus (I Tm.3:13).
Assim, aquele que for separado ao ministério, ao invés de apresentar um ar de superioridade, um prazer pelo mando e pelo poder, deve demonstrar, no dia-a-dia, um crescimento espiritual, um acréscimo na fé, uma maior humildade e dependência do Senhor.
Somente estará apresentando um bom serviço o obreiro que mostrar que está confiando mais no Senhor, que está tendo uma vida de maior santidade e dependência de Deus. Não é o número de almas convertidas, o montante de dízimos e de ofertas, o aumento de pessoas batizadas que deverão constar da apreciação do obreiro, mas a sua própria vida espiritual. É verdade que estes dados refletem, são evidências de um crescimento espiritual, mas é preciso verificar se o crescimento espiritual tem sido do obreiro e da igreja local ou só dos demais integrantes da igreja local.
Como tem sido o crescimento espiritual do obreiro ? Tem ele aumentado sua confiança em Deus ? Tem a aquisição de sua boa posição sido correspondida com uma aquisição de uma vida mais santa e dependente do Senhor ?
Deve o obreiro relembrar as palavras do escritor aos Hebreus, tendo consciência de que a confiança em Deus apresenta um galardão incomparável e que deve o obreiro ter paciência e aguardar o cumprimento das promessas do Senhor na sua vida, pois o justo vive da fé (Hb.10:35-39).
Entretanto, para que se possa ter esta confiança em Deus, é necessário que ele esteja com seu coração "purificado da má consciência e o corpo lavado com água limpa"(cf. Hb.10:22b). Só assim poderá reter firme a confissão da nossa esperança e poder estimular os demais irmãos a fazer o mesmo.
O terceiro ponto que deve ser observado no desempenho do obreiro é que ele jamais deve se esquecer de que a igreja é a coluna e firmeza da verdade (I Tm.3:15).
Esta figura da igreja é sempre mencionada em todos os estudos a respeito de eclesiologia, mas muitos se esquecem do contexto em que foi ela foi apresentada.
Paulo diz ter elencado todos os requisitos para o ministro na casa do Senhor para que Timóteo soubesse como convinha nadar na igreja, que é a coluna e firmeza da verdade.
Quando o obreiro tem consciência de que a igreja é a igreja do Deus vivo, porta-se com temor e tremor diante do povo de Deus, pois tem a noção de que o Deus da igreja é um Deus vivo, que tudo vê, que tudo sabe e que protege e cuida dos Seus e que não tolerará que toquem na menina dos Seus olhos (cf. Zc.2:8).
Quando o obreiro tem consciência de que a igreja é a coluna e a firmeza da verdade, sabe que não pode mentir para o povo de Deus, nem viver uma vida de aparência, de hipocrisia e de engano, pois "nada há que encoberto que não haja de ser manifesto, e nada se faz para ficar oculto, mas para ser descoberto" (Mc.4:22).
Quando o obreiro tem consciência de que a igreja é a coluna e a firmeza da verdade, sabe que não pode deixar de pregar o genuíno Evangelho, de ensinar a sã doutrina, pois somente a palavra do Senhor é aceita pela igreja, pois somente ela é a verdade (Jo.17:17).
Por fim, Paulo afirma que o obreiro tem de seguir, em sua trajetória, o próprio exemplo do Senhor Jesus, que é o obreiro por excelência, o protótipo de todo o ministro na casa do Senhor (I Tm.3:16).
Assim como Jesus Se manifestou em carne, entrando no mundo declarando que iria fazer a vontade de Deus (cf. Hb.10:5-7), o obreiro deve ter consciência de que é um ser humano(Sl.9:20) e, portanto, sujeito às mesmas paixões de todos os homens(Tg.5:17), não podendo, pois, exigir dos demais irmãos um comportamento sobre-humano, nem tampouco se achar um super-homem, devendo ter o firme propósito de sempre fazer a vontade de Deus em seu ministério.
Como Jesus foi justificado em espírito, o obreiro deve ser alguém que tenha, efetivamente, nascido de novo, sido justificado pela fé e ter se estabelecido como um pessoa que está em paz com Deus (Rm.5:1), pois, se não for uma pessoa convertida, de modo algum poderá servir a Deus, pois não se pode servir a dois senhores, nem ter uma vida com Deus e com o pecado simultaneamente.
Do mesmo modo que Jesus foi visto dos anjos, o obreiro deve ser alguém que seja observado pela igreja do Senhor, que seja por ela auxiliado e aprovado, o que somente se fará se o obreiro tiver um porte digno e demonstrar verdadeiro amor pela igreja.
Da mesma maneira que Jesus foi pregado aos gentios, o obreiro deve ser, constantemente, observado pelo mundo sem Deus e sem salvação, devendo, entretanto, neles inspirar uma glorificação a Deus, mesmo naquilo em que o criticarem ou dele falarem mal. O obreiro deve ter um porte, uma conduta social que impeça qualquer repreensão ou redução da credibilidade na pregação do Evangelho. Deve ser alguém que, mesmo que condenado pelos homens, seja apresentado como alguém onde não se vê culpa (cf. Mt.27:24; Lc.23:22).
Jesus foi crido no mundo e o obreiro deve, também, ter uma credibilidade perante a sociedade, deve demonstrar uma autoridade diante da igreja e dos homens, autoridade esta que resultará de uma vida de santidade e de comunhão com o Senhor. Não deve o obreiro ser como os escribas, que ensinavam a Palavra mas não a viviam, pois o povo sabe muito bem discernir entre quem tem autoridade e quem não tem (cf. Mt.7:28,29).
Se assim agir o obreiro em sua vida ministerial, certamente, assim como Jesus foi recebido acima na glória, certamente será honrado e reconhecido pelos homens, pela igreja como um santo homem de Deus e, na vinda do Senhor, terá o seu merecido galardão, pois Deus é galardoador dos que O buscam (cf. Hb.11:6 "in fine").


Em tempo : este estudo e outros foram publicados com a permissão do Autor.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

A cura do Evangelho ou o evangelho da "cura"




Dias difíceis esses em que vivemos . Principalmente pelo fato de que há uma flagrante "onda" de inversão de valores . No campo da pregação por exemplo : teologia da prosperidade ,confissão positiva ,triunfalismo etc...
Na verdade somos sabedores e aceitamos o fato ,de que, Jesus cura enfermidades. O que não concordamos é com o foco desvirtuado e sem respldo bíblico que estas estão, ao lado do "sucesso financeiro" recebendo nos arrais ditos cristãos.
O texto de Marcos 16.15,por exemplo começa com a pregação do evangelho.Mateus 28.19ss com o ensino.Seria isso mera coicidência? Não entendemos assim! Isso porque as "Escrituras" apresentam os milagres como mostra do poder de Deus e como confirmação da Palavra proclamada.

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Os milagres provaram a fonte da mensagem. Quando Deus enviou Moisés ao Egito, ele lhe deu sinais milagrosos para provar que sua mensagem era realmente divina (Êxodo 4,1-17).
Os milagres de Jesus provaram seu poder para perdoar pecados. Estude o relato de Marcos 2,1-12, observando especialmente as palavras de Jesus nos versículos 10 e 11: “Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados - disse ao paralítico: Eu te mando: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa.”
O povo entendeu que os sinais introduziram uma nova doutrina. As pessoas em Cafarnaum perguntaram: “Que vem a ser isto? Uma nova doutrina! Com autoridade ele ordena aos espíritos imundos, e eles lhe obedecem!” (Marcos 1,27).
O Espírito Santo deu poderes miraculosos aos apóstolos para confirmar a palavra que eles pregaram (Marcos 16,20). Paulo descreveu esses sinais como “as credenciais do apostolado” (2 Coríntios 12,12).
Alguns anos depois, o autor de Hebreus falou que a palavra dos apóstolos foi confirmada junto com o testemunho de “sinais, prodígios e vários milagres” (Hebreus 2,3-4). (
acesso em 12/08/2009 )

Portanto o foco não são os milgres mas sim Quem os opera - Jesus .O Evangelho de fato promete cura.São uma concequencia da pregação E não o oposto!

domingo, 9 de agosto de 2009

Breve !!!

Estamos graças a Deus com uma carga soblevada de trabalho secular e eclesiastico nestes dias ,daí não estarmos tendo tempo para postagens.
Porém estamos preparando assuntos e temas importantes ...


Breve...