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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

AS NECESSÁRIAS CAUTELAS PARA A ESTRUTURAÇÃO DO POVO DE DEUS



Texto áureo
“Então o meu Deus me pôs no coração que ajuntasse os nobres, e os magistrados, e o povo, para registrar as genealogias. E achei o livro da genealogia dos que subiram primeiro e assim achei escrito nele: ” (Ne.7:5)


INTRODUÇÃO

- Em complemento ao estudo deste trimestre, estudaremos o capítulo 7 do livro de Neemias, que não objeto de lição específica.

- No capítulo 7 de Neemias, aprendemos que o povo de Deus precisa ser bem estruturado, com vigilância, a fim de que inimigos externos e infiltrados não comprometam a obra de Deus.

I – NEEMIAS ESTABELECE UM SISTEMA DE SEGURANÇA PARA JERUSALÉM E REORGANIZA O SERVIÇO DO TEMPLO

- O capítulo 7 do livro de Neemias começa com a afirmação do governador de que, após a finalização da reconstrução dos muros, mesmo diante da ação dos falsos profetas e dos que haviam se mancomunado com Sambalate, Tobas e Gesem para tentar atemorizar o governador, as portas foram levantadas (Ne.7:1).

- É interessante verificarmos que, primeiro, Neemias teve de reedificar os muros, muros que não podiam ter qualquer brecha (Ne.6:1), para só então, colocar as portas nos portais. A edificação tem a sua ordem, que não pode ser alterada.

- Assim, também, ocorre na vida espiritual. Primeiramente, temos de edificar os muros sem brecha alguma, ou seja, alicerçados sobre a rocha, que é Cristo Jesus (Mt.7:24; I Co.10:4), crescermos na doutrina, em amor, para que não venhamos a ser enganados pelo inimigo e seus agentes (Ef.4:14-16). Somente depois é que teremos condição de entrarmos em contato com o mundo, a fim de cumprirmos a tarefa da evangelização, visto que é necessário antes sabermos qual é a esperança que temos para podermos levá-la aos outros (I Pe.3:15).

- Muitos, nos dias em que vivemos, têm subvertido esta ordem com grande prejuízo tanto para si mesmos quanto para a obra de Deus. Sem terem ainda tido a necessária edificação, lançam-se, inadvertidamente, a tarefas de evangelização, fracassando por não terem o devido preparo, não só não conquistando almas para Cristo como perdendo a si mesmos. Tomemos cuidado e sigamos o exemplo de Neemias que, primeiro reconstruiu os muros, sem brecha alguma, para depois levantar as portas.

- Após ter levantado as portas, Neemias tomou outra importante providência: estabeleceu porteiros, cantores e levitas (Ne.7:2). De nada adiantaria ter muros sem brecha alguma e portas levantadas, se não houvesse pessoas prontas a efetuar os serviços e tornar operante toda a estrutura que, com a mão de Deus, havia sido construída em apenas cinquenta e dois. A obra de Deus é feita por homens e os homens devem ter prioridade. A estrutura é boa, mas sem pessoas de nada isto valerá. Lamentavelmente, muitos não têm agido deste modo, com grave prejuízo para a extensão do reino de Deus em nossos dias.

- Levantadas as portas, Neemias estabeleceu porteiros. Os porteiros eram absolutamente necessários para que as portas fossem abertas e fechadas nos dias e horários certos, para que a entrada e saída de pessoas e animais fosse devidamente organizada, para que as portas, enfim, tivessem alguma funcionalidade. De que adiantaria todo o esforço para a construção e levantamento de portas, se não houvesse porteiros que tornassem as portas úteis? Por isso, assim que as portas foram levantadas, Neemias tratou de pôr porteiros para que a edificação desse os resultados esperados.

- De igual maneira, precisamos ter “porteiros” em nossa vida espiritual, ou seja, necessitamos ser vigilantes em nosso contato com o mundo, visto que, embora a ele não mais pertençamos, ainda estamos nele e temos de conviver com ele inclusive para cumprirmos com a tarefa de sermos luz do mundo e sal da terra (Jo.17:11,16). Vigiar foi a ordem dada por Nosso Senhor (Mc.13:37).

- Um dos principais “porteiros” que temos são os nossos olhos, porta de entrada de tudo quanto temos à nossa volta, em especial nos dias em que vivemos em que a principal comunicação é audiovisual. Temos de ter muito cuidado com os olhos, pois estes são órgãos que podem comprometer toda a nossa comunhão com Deus. Cristo nos ensina que eles são “a candeia do corpo” e se eles forem bons, todo o nosso corpo terá luz, se, porém, os teus olhos forem maus, o nosso corpo será tenebroso (Mt.6:23). Será que, a exemplo de Jó, fizemos um concerto com nossos olhos (Jó 31:1)?

- Este cuidado de Neemias, também, remete-nos para a escolha dos porteiros em nossas igrejas locais. Esta função, que muitos vêm com desprezo, é importantíssima e até o descuido de alguns na escolha dos porteiros é um dos principais fatores para a situação lamentável da evangelização em muitos lugares. Os porteiros, em nossas igrejas locais, devem ser pessoas muito preparadas, revestidas do poder de Deus, que possam não só persuadir os transeuntes a adentrar em nossos templos para assistir aos cultos, mas serem gentis, dóceis e solícitos , de modo a serem verdadeiros “cartões de visita” de nossas igrejas locais. De nada adianta toda uma estrutura para se servir a Deus se não houver “porteiros” que tornem tudo funcional e útil. Aprendamos com Neemias e tenhamos este mesmo cuidado, líderes na casa do Senhor!

- Ao apontar os porteiros, Neemias deu-lhes a ordem para que não se abrissem as portas de Jerusalém até que o sol se aquecesse, devendo as portas ser fechadas e trancadas, devendo ser, ainda, postos guardas dos moradores de Jerusalém, cada um na sua guarda, e cada diante da sua casa (Ne.7:3).

- As portas de Jerusalém tinham de se manter fechadas durante a noite. Temos aqui uma linda lição espiritual: nossas portas devem se fechar quando as trevas comparecerem. Não podemos permitir que o pecado, representado pela escuridão, tenha entrada em nossa vida. Por isso, o apóstolo Paulo nos adverte para que não demos lugar ao diabo (Ef.4:27).

- As portas tinham de ser fechadas e trancadas. Não bastava “encostar” a porta, mas elas deviam devidamente trancadas. Não podemos ser negligentes, mas zelosos em servir a Deus, tomando todo o cuidado para que não permitamos a entrada do mal em nossas vidas. Por isso, o autor da epístola aos hebreus recomenda-nos para que não só deixemos o pecado, como também o embaraço, coisas que não são em si pecaminosas mas que podem nos levar ao pecado (Hb.12:1). Não basta fechar, é preciso, também, trancar as portas!

- A vigilância é reforçada na ordem de Neemias. Além de fechar e trancar as portas, deviam ser postos guardas dos moradores de Jerusalém, cada um na sua guarda e cada um diante da sua casa. A vigilância das portas, tarefa do governo da cidade, era feita, mas cada morador devia também fazer a vigilância diante de sua casa. Que linda lição para cada crente, principalmente para aqueles que acham que só os ministros e responsáveis pelo governo da igreja devam se preocupar com a vigilância. Esta é uma tarefa de cada um de nós: todos nós devemos ser zelosos, cada um tem de ter cuidado de si mesmo para, então, poder contribuir com o cuidado de todos (I Tm.4:16).

- Temos posto guardas diante de nossas casas? Como está a vigilância em nossos lares, em nossas famílias? Temos, como cônjuges, como pais, como filhos, cuidado para que o inimigo não tenha entrada em nossas casas? Ou será que as mensagens satânicas têm pleno acesso através dos meios de comunicação de massa, da internet e de tantas outras coisas tenebrosas que o inimigo têm lançado contra os servos do Senhor? Será que nossas casas têm “guardas”?

- Neemias, além de pôr porteiros e guardas, também tratou de estabelecer cantores. Pode parecer estranho que Neemias tenha procurado pôr cantores depois da conclusão da obra de reedificação. Esta estranheza é resultado de um pensamento precipitado de que os cantores teriam sido postos nas portas de Jerusalém ou nos muros. Entretanto, não é isto que o texto sagrado nos revela.

- Ao estabelecer cantores, Neemias mostra-nos que, em virtude da situação de grande miséria e desprezo que vivia Jerusalém, o serviço de louvor do templo não estava a funcionar. A situação era de tanta tristeza e miséria, que não havia como se manter o serviço do louvor no templo, não só diante da insegurança reinante, mas também pela própria situação emocional e espiritual adversa a qualquer manifestação de alegria, que é o que representa o cântico (Tg.5:13).

- Superada a insegurança, concluída a obra pela benignidade divina, Neemias logo entendeu que se devia restabelecer o serviço de louvor do templo e, por isso, designou cantores. Neemias não podia admitir uma situação de restauração, de renovo sem que houvesse o perfeito louvor.

- O louvor deve acompanhar a adoração ao Senhor. Não pode o povo de Deus, edificado e salvo pela graça e misericórdia de Deus, calar-se e deixar de louvar ao Senhor. É com tristeza que vemos, nos dias hodiernos, muitos que cristãos se dizem ser desprezarem, por completo, o cântico e o louvor, tanto que chegam atrasados aos cultos, depois do momento litúrgico do louvor. Aprendamos com Neemias e não permitamos que deixe de haver em nossas vidas espirituais os cantores que completam a obra de nossa edificação espiritual.

- Neemias, também, estabeleceu levitas, que eram auxiliares dos sacerdotes no serviço do templo. Observemos, aliás, que, ao contrário do que se costuma dizer hoje em dia, “levita” não se confunde com o músico. Os levitas eram os descendentes de Levi, a tribo que havia sido designada para o serviço do templo. Os filhos de Arão eram sacerdotes e todos os demais levitas foram encarregados dos mais diversos e variados serviços no tabernáculo e, posteriormente, no templo, inclusive a parte musical. Portanto, não confundamos “levita” com “músico”.

- O cuidado de Neemias de estabelecer levitas reflete a sua preocupação em que nada ficasse por fazer no serviço do templo. Neemias não se preocupava apenas em ter muros e portas, mas queria que a segurança trazida por estes muros e portas pudesse restaurar todos os serviços do templo. Os líderes precisam ter este mesmo zelo, de fazer com que todas as tarefas, todos os serviços necessários para a igreja local sejam realizados a contento. Não basta apenas termos edificação espiritual, mas é preciso que esta edificação se traduza em serviço eficaz, até porque a Igreja, como corpo de Cristo, veio para servir e não para ser servida.

- Após estabelecer porteiros, cantores e levitas, Neemias nomeou seu irmão Hanani e a Hananias como maiorais da fortaleza sobre Jerusalém, porque era como homem fiel e temente a Deus, mais do que muitos (Ne.7:2).

- A nomeação de Hanani como maioral da fortaleza, seu irmão, pode trazer a Neemias a acusação de “nepotismo”, ou seja, “favoritismo para com parentes”, mal que infesta a Administração Pública em nosso país e que, infelizmente, também já encontrou guarida na administração eclesiástica. Muitos, aliás, buscam nesta passagem bíblica até uma “fundamentação” para suas práticas pouco ou nada recomendáveis nas igrejas locais.

- Contudo, quando vemos o próprio texto sagrado, contemplamos em Neemias mais uma virtude como líder e governante (como, aliás, já visto no apêndice 1). Hanani foi nomeado não por ser seu irmão, mas porque “era homem fiel e temente a Deus, mais do que muitos”. O parentesco aqui era apenas um acidente, que não foi considerado na nomeação. Não nos esqueçamos, aliás, que Hanani fora até Jerusalém e, ao ver a situação, levou alguns de Judá para falar com Neemias a respeito da situação de Jerusalém. Era uma pessoa que tinha história na obra do Senhor e que, portanto, fazia jus àquela nomeação, independentemente do parentesco que tinha com o governador.

- Neemias faz questão de dizer que nomeara o seu irmão por causa do temor dele a Deus, que superava o de muitos. Um critério para pormos alguém à testa da obra do Senhor é, precisamente, o seu temor a Deus, que deverá ser superior ao dos demais. Como é diferente o critério de Neemias do que temos visto em nossas igrejas locais! Aprendamos com Neemias!

- Neemias, em mais uma demonstração de transparência, não deixou que Hanani, apesar de suas qualidades, estivesse sozinho como maioral da fortaleza. Ao seu lado, pôs Hananias nesta função. Deste modo, não deixou qualquer suspeita com relação ao fato de Hanani ser seu irmão, como também nos dá uma amostra da própria criteriologia que seria adotada pelo Senhor Jesus na evangelização do povo judeu, durante Seu ministério público, ou seja, o de sempre chamar de dois em dois, para que o serviço seja eficaz (Lc.10:1). É sempre importante, nas tarefas da igreja, serem indicados dois, para que um ao outro possa ajudar.

II – NEEMIAS RESOLVE REPOVOAR JERUSALÉM

- Estabelecido um sistema de segurança para Jerusalém, como também reorganizado o serviço do templo naquilo que havia sido interrompido pela falta de segurança, Neemias percebeu que a cidade era larga de espaço e grande, mas havia pouco povo dentro dela, além do que as casas ainda não estavam edificadas (Ne.7:4).

- Neemias, como um verdadeiro e autêntico homem de Deus, dava prioridade ao ser humano, entendia que o homem foi posto como coroa da criação terrena e, como tal, ocupa o primeiro lugar na preocupação da obra do Senhor. De que adiantaria uma cidade grande, agora segura e murada, vazia? Era necessário que as pessoas desfrutassem dos benefícios da reedificação dos muros e das portas de Jerusalém. Ele não poderia se contentar com os espaços vazios de Jerusalém. Será que nossos líderes têm esta mesma preocupação nos dias hodiernos? Será que, assim como o Senhor, querem que as “moradas celestes” sejam ocupadas por salvos e remidos pelo sangue de Cristo? Ou estão felizes com o “punhadinho” que está a ocupar os templos, uma vez que já lhes permitem viver regaladamente nesta Terra?

- Jerusalém estava com uma pequena população como decorrência da própria situação de insegurança que existia. Quem se atreveria a morar numa cidade com muros fendidos e portas queimadas a fogo? Quem poderia morar em uma cidade que não tinha sequer casas edificadas?

- Entretanto, esta situação se alterara e, portanto, não havia mais motivo para que Jerusalém se tornasse uma cidade larga de espaço e grande mas com pouco povo. Temos esta mesma consciência? Será que estamos a pensar como Neemias, ou já abrimos mão de encher as nossas igrejas locais e nos contentamos com o “pouco povo”? As estatísticas, infelizmente, denunciam que o ritmo de evangelização tem diminuído consideravelmente e que muitos que cristãos se dizem ser estão “satisfeitos” com os megatemplos, com os templos grandiosos, com as “grandes catedrais” que, porém, a exemplo dos grandes templos da Igreja Romana, em muitos lugares, encontram-se como simples monumentos, locais de visitação turística, mas com muito pouco povo. Acordemos, irmãos, pois não é esta a vontade de Deus!

- Este inconformismo de Neemias não era algo de seu coração, provinha de Deus, tanto que é o próprio Neemias quem afirma que Deus lhe pôs no coração que reunisse todo o povo e tomasse a deliberação de povoar Jerusalém.

- O desejo de Jesus não é diferente do de Neemias. Ao contar a parábola da grande ceia (Lc.14:15-24), Nosso Senhor mostra-nos que o seu desejo é que Seus servos saiam pelos caminhos e valados e os force a entrar, para que a Sua casa se encha. Temos tido esta atitude de insistência e de zelo e dedicação para que a casa do Senhor se encha? Temos o mesmo denodo e preocupação manifestados por Neemias ao ver Jerusalém grande, segura, mas vazia?

- Diante do desejo que o próprio Deus pôs em seu coração, Neemias convocou os nobres, os magistrados e o povo. Temos aqui mais um belo exemplo, já mencionado em capítulos anteriores, de que Neemias sempre procurava legitimar suas decisões com a participação do povo. Embora fosse ele o governador e tivesse a autoridade dada pelo rei de Pérsia para tomar as decisões que precisavam ser tomadas, embora tivesse ele sentido da parte de Deus a orientação para o repovoamento de Jerusalém, Neemias não se furtou a chamar uma assembleia e a compartilhar com o povo o seu desejo.

- A participação do povo nas deliberações é algo muito importante para que tenhamos a legitimidade das decisões, para que consigamos o comprometimento de todos na obra do Senhor. Como diz um caro irmão que conosco participa do estudo dos professores de EBD, ultimamente os crentes só são chamados para participar na hora de contribuir, sendo verdadeiras “vaquinhas de presépio” no restante. Talvez resida aí um dos principais fatores para a falta de comprometimento de muitos com a obra do Senhor. Aprendamos com Neemias!

- Neemias queria povoar Jerusalém, queria que a cidade se enchesse, mas este desejo do governador nada tinha que ver com a “numerolatria”, esta fixação no crescimento quantitativo que hoje orienta e dirige os vários métodos e estratégias de “crescimento de igrejas” que proliferam no meio do povo de Deus. Neemias queria encher Jerusalém, mas não queria fazê-lo apenas com números. Para habitar a “cidade santa”, era preciso que se fosse, igualmente, santo, ou seja, que se estivessem diante de legítimos integrantes do povo de Judá.

- Por isso, ao desejo de povoar a cidade, correspondia outro desejo proveniente de Deus, o de se consultarem as genealogias, a fim de se verificar quem era o verdadeiro povo judeu, quem era verdadeiramente judeu, quem tinha vindo com Zorobabel para Canaã depois do final do cativeiro da Babilônia. Por isso, Neemias foi consultar o “livro da genealogia dos que subiram primeiro”.

- Este livro continha a relação de todos que haviam subido com Zorobabel para Canaã depois do decreto do rei persa Ciro que pusera fim ao cativeiro da Babilônia (Ed.2) e era a prova da legitimidade da ascendência judaica do povo. Neemias queria repovoar Jerusalém mas deveria fazê-lo apenas com os judeus legítimos e autênticos, aqueles que eram descendência de Abraão, Isaque e Jacó.

- Nos dias de Neemias, estávamos diante de um povo dotado de uma etnia, de uma ascendência biológica, o que não se dá com a Igreja, que é uma nação espiritual. No entanto, esta mesma preocupação genealógica deve existir quando tratarmos de “encher a casa de Deus”. A casa do Senhor somente pode ser cheia e habitada pelos que constam do “livro da genealogia”, que não é o livro que estava guardado no templo há mais ou menos 80 (oitenta) anos na Jerusalém de Neemias, mas é “o livro da vida do Cordeiro” (Ap.21:27), onde estão escritos os nomes daqueles que foram “eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo”, gerados de novo pelo Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo a Sua grande misericórdia para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, incontaminável e que se não pode murchar, guardada nos céus para eles (I Pe.1:2,3).

- Somente podemos povoar nossas igrejas locais com aqueles que também poderão entrar na Jerusalém celestial. Assim, para que alguém venha a pertencer à igreja local, precisa dar frutos dignos de arrependimento, precisar mostrar, pela sua maneira de viver, que realmente foi “gerado de novo”, que morreu para o mundo e agora vive para Deus. Por isso, o batismo nas águas, que é o ato pelo qual alguém se incorpora à igreja local, deve ser realizado apenas quando se tem esta demonstração inequívoca da salvação na pessoa de Jesus Cristo.

- Muitos, no entanto, não estão mais buscando o “livro da genealogia” e estão a pôr dentro da igreja local qualquer um, sem qualquer objetivo senão o de “fazer quantidade”, “fazer número”. Não é este, porém, o propósito de Deus, já que não foi assim que o Senhor procedeu com Neemias e, como sabemos todos, Deus não muda (Ml.3:6).

- Neemias consultou o livro e, no capítulo 7, segue uma longa lista, que corresponde a Ed.2 (pois se trata da mesma lista), onde são registradas as genealogias de todo o povo judeu que retornara do cativeiro babilônico. Esta extensa lista mostra-nos que, apesar de constituir um povo, os judeus não eram indistintamente tomados, não eram tratados pelo Senhor como “massa”, como, lamentavelmente, agem muitos dos líderes de hoje em dia, mas que cada um tinha o seu próprio local e a sua própria individualidade diante de Deus.

- Na igreja não é diferente. Deus tem-nos como um povo, um povo que é um corpo e no qual cada um vive em função do outro (I Co.12:12-31), no qual é preciso que todos se ajustem segundo a justa operação de cada parte para que haja a edificação em amor (Ef.4:15,16), mas onde cada um é tratado como indivíduo, com uma particularidade e intimidade com Deus, individualidade e intimidade que, inclusive, perdurarão por toda a eternidade (Ap.2:17). Lembremo-nos disto em nosso relacionamento com os irmãos, que não podem ser tratados como “massa”, muito menos como “números”.

- Neste livro, achou-se que alguns que haviam subido com os judeus para Canaã não puderam comprovar a sua genealogia, a saber, os filhos de Delaías, os filhos de Tobias e os filhos de Necoda, num total de seiscentos e quarenta e dois (Ne.7:62), como também alguns sacerdotes, a saber, os filhos de Hobaías, os filhos de Coz, os filhos de Barzilai, o gileadita, que tomara uma mulher das filhas de Barzilai e se chamou do seu nome (Ne.7:63). Como estes sacerdotes não puderam comprovar a sua origem sacerdotal, como que imundos, foram excluídos do sacerdócio (Ne.7:64).

- Este episódio, ocorrido ainda nos dias de Zorobabel, mostra-nos claramente que, no meio do povo de Deus, como o Senhor Jesus deixou claro nas parábolas do reino dos céus (Mt.13), sempre haverá “infiltrados”, pessoas que se introduzirão no meio do povo sem que a ele pertençam. Havia até “sacerdotes” que não eram sacerdotes, visto que não pertenciam à família de Arão, inclusive os “filhos de Barzilai”, que assim se denominavam desde os dias de Davi, ou seja, antes mesmo da construção do templo por Salomão e que, portanto, por mais de quinhentos anos, intitulavam-se sacerdotes sem o ser!

- No entanto, ainda que tenha demorado tanto tempo, um dia foram eles revelados e, como não puderam provar a sua genealogia, foram excluídos do sacerdócio, tidos como imundos. Assim ocorre, também, no meio da Igreja: muitos, aproveitando-se do adormecer dos servos de Deus (Mt.13:25), são semeados no meio do povo pelo inimigo.

- No entanto, como afirmou o Senhor Jesus, nada do que é oculto assim permanecerá e, a seu tempo, será revelado (Lc.12:2). No momento aprazado pelo Senhor, o “livro da genealogia” será consultado e o que deve ser feito é que, constatada e revelada a “imundícia”, imperioso que se exclua o imundo do sacerdócio, ou seja, que ele seja retirado da comunhão da Igreja.

- Temos aqui, ademais, uma preciosa lição sobre a necessidade de se continuar a exercer a disciplina na Igreja, o que, infelizmente, já não tem sido realizado por muitos sob uma falsa doutrina de que “quem disciplina é o Espírito Santo”. No episódio narrado por Neemias e constante do “livro da genealogia”, é claríssimo que, após a revelação dada por Deus, incumbe ao povo promover a exclusão do sacerdócio, ou seja, vindo a revelação da imundícia, faz-se preciso que a própria igreja promova a exclusão.

- Também se encontrou “no livro da genealogia”, que o governador (que era, então Zorobabel) contribuiu para o tesouro em ouro, com oito quilos, cinquenta bacias e quinhentas e trinta vestes sacerdotais, tendo, também, os maiorais do povo dado para o tesouro da obra, em ouro, cento e sessenta quilos e, em prata, mil e trezentos e vinte quilos, enquanto o restante do povo dera cento e sessenta quilos de ouro, duzentos quilos de prata e sessenta e sete vestes sacerdotais, tendo, então, cada um ido habitar em suas cidades (Ne.7:70-73).

- Neemias, então, faz questão de mostrar ao povo que, além de termos cuidado em quem deveria habitar no meio do povo, ou seja, somente os que tinham genealogia, somente com o comprometimento de todos se poderia fazer a obra do Senhor e se ter o culto a Deus, fundamental para a sobrevivência de Judá, “propriedade peculiar de Deus entre os povos”.

- A começar do governador, passando pelos maiorais e, por fim, todo o povo tinha de contribuir para a sustentação do trabalho do Senhor e, consequentemente, para a sobrevivência do povo de Deus. Por isso, Neemias a todos convocou, para que participassem das deliberações e, também, da sustentação do serviço da casa do Senhor. Este nível de compromisso ainda hoje é necessário, sem o que não se realizará a obra de Deus. Mas, como já dissemos supra, não apenas na contribuição, na doação de recursos financeiros, mas também nas deliberações. Aprendamos com Neemias!

- Só pode haver comprometimento, porém, quando todos são irmãos, ou seja, quando todos forem verdadeiros e genuínos “filhos de Deus”. A presença de “infiltrados” impede que o compromisso surja do modo mais eficaz na obra de Deus. Por isso, precisamos sempre ter em mente a “consulta ao livro da genealogia”, a observação rigorosa e com discernimento espiritual daqueles que realmente pertencem ao povo de Deus. Vigiemos, amados irmãos!

- A consulta ao “livro da genealogia” mostra-nos, ainda, o cuidado que Neemias tinha com a história do povo. Precisamos incutir em nossas mentes que todo povo tem de zelar pela sua história, precisa ter memória, pois, “um povo sem memória não tem futuro”. O cuidado de Deus para que Seu povo não perca a memória é tão grande que muitos dos livros das Escrituras são históricos, sem falar na circunstância de que uma das ordenanças que nos foram deixadas pelo Senhor Jesus é precisamente a “ceia do Senhor”, que é, entre outras coisas, um “memorial”.

- Torna-se preciso sempre que os líderes reafirmem a história do povo de Deus e como ela reflete a fidelidade do Senhor para conosco. Neemias consultou o livro da genealogia e o revelou a todo o povo para que estes pudessem, antes de mais nada, ter noção da sua própria origem, do início da reocupação de Canaã depois do cativeiro para que, à luz desta história, pudessem devidamente deliberar. No ano do centenário das Assembleias de Deus no Brasil, resgatemos a nossa história!

- Após ter lido o “livro da genealogia”, Neemias não determinou o imediato repovoamento de Jerusalém. Havia sido dado o primeiro momento para isto, que era o resgate da história, o resgate da memória, mas isto ainda era insuficiente. Faziam-se necessários, ainda, alguns outros momentos, a saber, o avivamento, o arrependimento e a organização do serviço religioso, consoante se vê nos capítulos 8, 9 e 10 de Neemias, a serem estudados nas lições próprias.

Caramuru Afonso Francisco

domingo, 30 de outubro de 2011

A INJUSTIÇA SOCIAL COMO OBSTÁCULO À OBRA DO SENHOR



Texto áureo
“ Disse mais: Não é bom o que fazeis: porventura não devíeis andar no temor do nosso Deus, por causa do opróbrio dos gentios, os nossos inimigos? ” (Ne.6:9)


INTRODUÇÃO
- Em complemento ao estudo deste trimestre, analisaremos o capítulo 5 de Neemias, que não foi objeto de lição específica.

- No capítulo 5 de Neemias, vemos que não há como se realizar convenientemente a obra de Deus se não houver justiça social.

I – UM OBSTÁCULO À OBRA DA REEDIFICAÇÃO SURGE NOS RELACIONAMENTOS SOCIAIS ENTRE OS JUDEUS

- Neemias estava a relatar a grande oposição que lhe faziam Sambalate, Tobias e Gesem e como, em virtude dela, tiveram os edificadores de trabalhar com uma mão nas ferramentas e outra nas armas. Eram, verdadeiramente, “tempos angustiosos”, como, aliás, já profetizara a respeito o profeta Daniel (Dn.9:25).

- Em meio a esta aflição por causa da ameaça de um ataque iminente do exército de Samaria, exsurge um novo obstáculo à obra, surpreendente até, visto que não nascido do exterior, não proveniente do inimigo, mas, sim, do próprio interior do povo de Judá. Este obstáculo como que interrompe a narrativa da oposição dos adversários e passa a ser relatado por Neemias.

- “Foi, porém, grande o clamor do povo e de suas mulheres, contra os judeus, seus irmãos” (Ne.5:1). No meio da aflição que se vivia por causa do perigo externo, aparece uma murmuração entre os judeus, um desentendimento entre os próprios compatriotas.

- Por que havia este clamor? O próprio Neemias responde: porque estava ocorrendo uma desmedida exploração dos mais pobres pelos mais ricos que, diante da fome que havia na terra, aproveitaram a ocasião para se enriquecer ainda mais, gerando um quadro de grande servidão por causa das dívidas contraídas pelos mais pobres para que pudessem sobreviver, alimentar-se do necessário.

- O quadro em Judá era, como descrito pelos judeus quando se encontraram em Neemias, era de grande miséria e de desprezo (Ne.1:3). Neemias tinha consciência disso desde quando passou a orar a Deus e pôde vê-lo com seus próprios olhos ao chegar a Jerusalém. No entanto, este clamor lhe revelava um fator que até então lhe passara despercebido: a grande miséria não era só resultado da falta de recursos, da inexistência de uma Jerusalém reedificada e segura, mas, também, consequência de uma injustiça social.

- Diante da situação de escassez de recursos, os pobres, para poderem se alimentar, acabaram se endividando com os mais ricos, que, sem dó nem piedade, aproveitaram-se da ocasião para tomarem as terras dos seus compatriotas, como também de reduzi-los à escravidão.

- Como se sabe, a única forma pela qual se permitia a escravidão de judeus por judeus na lei de Moisés era em virtude das dívidas. Não tendo com que pagar as dívidas, os devedores eram escravizados pelo prazo máximo de seis anos (Lv.21:1,2).

- Ante a situação difícil em que os judeus se encontravam, em pouco tempo quase todo o povo fora escravizado por uns poucos que, detentores dos recursos, não tiveram outro objetivo senão se aproveitar da ocasião para seu próprio enriquecimento, sem exercer a misericórdia que se exigia de um povo que servia ao Senhor, Ele próprio misericordioso.

- A situação era de calamidade social e, com este clamor, Neemias percebeu claramente que não poderia executar a obra da reedificação dos muros e portas de Jerusalém, visto que tal obra exigia a participação de todos, a união de todo o povo, algo imprescindível para se realizar a vontade de Deus. Havia ele conclamado todo o povo à obra e ali estava o povo todo a trabalhar, apesar das angústias vividas, mas este clamor representava um enorme fator de risco para a continuidade da obra.

- De igual maneira, não podemos fazer a obra de Deus se não houver comunhão na Igreja. A Igreja tem de se caracterizar pela comunhão, como nos deixa claro a descrição que Lucas faz da igreja primitiva em Jerusalém em At.2:42-47.

- A comunhão dá-se não somente pela crença em comum na pessoa de Jesus Cristo, mas também no compartilhamento tanto material quanto espiritual dos crentes. “Eles tinham tudo em comum”, relata o livro de Atos, o que importava, inclusive, no compartilhamento do necessário para a sobrevivência. Quando isto teve uma certa defasagem, vemos o surgimento da murmuração no capítulo 6 de Atos, o que levou os apóstolos à instituição do diaconato, para que não houvesse a persistência da carência ainda que em um segmento da comunidade.

- Não há como se realizar a contento a obra do Senhor se os relacionamentos sociais dos salvos não forem transformados pelo Evangelho. Por isso, o Senhor Jesus nos ensinou que devemos amar uns aos outros como Ele nos amou, amor que não envolveu apenas o aspecto da salvação, mas também a tomada de atitudes concretas para minorar o sofrimento e a carência do povo, inclusive no que respeita aos aspectos terrenos de nossa existência.

- Nos dias hodiernos em que vivemos, de crescente desigualdade social apesar do progresso da tecnologia, a Igreja não poderá realizar a obra do Senhor se transferir para o seu interior o mesmo quadro de injustiça social que o mundo está a viver. Muitos, a exemplo do que ocorria nos dias de Neemias, estão se aproveitando de sua posição privilegiada na sociedade e, sem dó nem piedade, estão a se enriquecer às custas do próximo e, o que é mais grave, às custas dos próprios irmãos.

- É triste verificarmos que, assim como ocorre no mundo, não são poucos os que fazem da Igreja um local para acumulação de riquezas, para o seu próprio enriquecimento, gerando as mesmas murmurações que foram ouvidas por Neemias junto ao povo e às suas mulheres que, por causa do pão de cada dia, estavam em situação deplorável, com a perda tanto de seu patrimônio quanto de seus familiares, que já se achavam escravizados pelos mais ricos.

- A situação de extrema desigualdade social é contrária à vontade do Senhor. Quando do estabelecimento da lei, o Senhor já sinalizara para o povo de Israel que, embora sempre haverá diferença de rendimentos entre os homens, pois a pobreza é inafastável da realidade humana (Dt.15:11), não se poderia admitir uma diferença gritante entre os diversos segmentos da sociedade e, mais ainda, que os mais pobres ficassem a viver em extrema escassez a ponto de lhes colocar em risco a sua dignidade.

- Tanto assim é que o Senhor mandou criar mecanismos que impedia o crescimento ilimitado da desigualdade social entre os israelitas, tais como a limitação da escravidão de um israelita por outro a seis anos (Ex.21:1,2); o ano sabático, onde o descanso da terra era acompanhado da liberdade de qualquer um colher do fruto da terra naquele ano (Ex.23:10,11); a respiga, que permitia que os necessitados colhessem livremente o que caía na hora da colheita (Lv.19:9; Dt.24:19-21) e, por fim, o ano do jubileu, quando as propriedades adquiridas eram devolvidas aos seus donos primitivos, o que, a um só tempo, impedia a concentração de renda e se criava um instrumento para se evitar o aumento desmedido dos preços (Lv.25:10-15).

- Como se não bastasse isto, verificamos, ao longo da história sagrada, que as ocasiões de intensa desigualdade social que se encontraram em Israel eram precisamente períodos de ocaso espiritual, a nos apontar que o distanciamento da vontade de Deus gera um quadro de injustiça social. É a situação que vemos no final do reinado de Salomão, quando a idolatria havia retornado à sociedade (I Rs.12:4); no reinado de Zedequias, o último rei de Judá, quando a apostasia chegou ao seu grau máximo (Jr.34:8-11).

- O Senhor, por fim, dá-nos demonstração inequívoca de seu desagrado com este estado de injustiça social quando levanta profetas para denunciar esta situação, como vemos, por exemplo, nos ministérios de Amós (Am.4, 5, 8), Miqueias (Mq.2,3) e Jeremias (Jr.34:12-22).

- Diante da situação angustiante que se estava a passar na reedificação dos muros e das portas de Jerusalém, o povo não mais aguentou e começou a clamar. Ao povo, diante da situação de miséria em que se encontrava, situação que não tinha qualquer perspectiva de modificação, não tinha outra coisa a se falar senão clamar. Este recurso não é condenado por Deus. Pelo contrário, a Bíblia nos fala que o Senhor atenta para o clamor do pobre e do necessitado (Ex.2:23; 3:7,9; 22:22,23; Jó 34:28; Sl.9:12).
- Deus não quer que o pobre clame somente a Ele. Também é legítimo que o pobre clame aos demais homens, sendo certo que se os homens não o ouvirem, também não serão ouvidos por Deus (Pv.21:13).

- O fato é que a situação era tão aflitiva que o povo e as suas mulheres começaram a clamar não somente a Deus mas, também, contra os judeus, seus irmãos, a nos revelar que, quando há insensibilidade por parte dos mais aquinhoados em relação ao clamor dos pobres, temos, também, um incentivo e estímulo ao desespero, o que poderá levar, inclusive, os pobres a pecar, deixando de simplesmente clamar para começar a murmurar. Este pecado não será, porém, apenas dos pobres, mas também dos que foram responsáveis por esta situação. Temos consciência disso?

- A situação, entretanto, não parece ter sido percebida por Neemias logo de início, pois foi preciso que o povo clamasse insistentemente até o ponto em que “Neemias se enfadou” (Ne.5:6). É preciso ter perseverança, mesmo no clamor por causa da necessidade e da carência. Caso o povo e as suas mulheres tivessem, diante de uma aparente indiferença inicial de Neemias, cessado de clamar, não teria havido qualquer modificação na situação adversa que estavam a passar.

- O clamor do pobre e do necessitado tem de ser ouvido pela Igreja que, não só no seu interior, mas também na sociedade, deve fazer com que haja uma perseverança, uma persistência neste clamor, até que haja o “enfado” de quem pode modificar a situação. Espelhemo-nos no exemplo da viúva da parábola do juiz iníquo (Lc.18:1-8) que, apesar de saber que o juiz não queria fazer justiça a pessoa alguma, não desanimou e perseverou em sua demanda, até que conseguiu que a justiça fosse feita.

- Qual é a nossa situação diante da grande injustiça social que existe tanto dentro da Igreja quanto na sociedade em que vivemos? Será que somos como o juiz iníquo? Sensibilizemo-nos com o clamor do pobre e do aflito para que possamos também ser ouvidos pelo Senhor e pelos homens.

II – NEEMIAS ATENDE AO CLAMOR DOS NECESSITADOS

- Neemias era um homem de Deus e, embora tenha resistido um pouco ao clamor do povo e de suas mulheres, “enfadou-se”. Este enfado foi uma bênção, visto que, por primeiro, foi uma conversão interior. O próprio Neemias afirma que “considerou consigo mesmo no seu coração”. Coisa boa é quando nos sensibilizamos por causa do clamor do pobre e do necessitado, quando sentimos compaixão pelo próximo, quando nos deixamos sensibilizar pela situação de injustiça por que passa a humanidade.

- Neemias, primeiro, verificou se as reivindicações apresentadas estavam de acordo com a Palavra do Senhor. Sentiu, como homem de Deus que era, que o clamor era justo e legítimo e que a forma pela qual a elite judaica estava vivendo não correspondia à vontade de Deus. Não havendo a observância da vontade de Deus nos relacionamentos sociais, jamais o Deus do céu faria prosperar a obra de reedificação dos muros e portas de Jerusalém.

- Neemias também ponderou que de nada adiantaria restabelecer Jerusalém como uma cidade, com muros, portas e segurança, caso não houvesse justiça entre os judeus, pois a estrutura social não existe por si só, mas, sim, para o homem, o que, aliás, o Senhor Jesus ensinaria ao dizer que o sábado foi feito para o homem e não o homem, para o sábado (Mc.2:27).

- Neemias, após ter entendido que o clamor era justo e legítimo e, portanto, para ele estava a atentar o Senhor, tomou uma atitude concreta e corajosa: pelejou com os nobres e com os magistrados, mostrando-lhes que eles haviam praticado usura, tendo, inclusive, ajuntado um grande ajuntamento contra eles (Ne.5:7).

- Neemias, em suas ponderações, observou claramente que este enriquecimento desmedido em detrimento dos menos favorecidos era usura, o que era expressamente vedado pela lei (Ex.22:25; Lv.25:36,37; Dt.23:19,20). “Usura” é a cobrança de juros excessivos sobre o empréstimo dado a alguém, uma verdadeira transferência do patrimônio para alguém sem que tenha havido qualquer trabalho por parte daquele que enriquece.

- A quem Neemias então deveria se dirigir? Aos que haviam se enriquecido indevidamente, ou seja, os nobres e magistrados, à elite judaica. Assim, afirma que “pelejou” com eles, a mostrar que não foi na primeira ocasião que conseguiu convencer os poderosos da sociedade de então a ceder às reivindicações dos menos favorecidos.

- Neemias chegou mesmo a ajuntar o povo num ajuntamento contra os nobres e os magistrados, a indicar que a resistência era grande para que se alterasse a situação. Não nos iludamos, portanto, quando empunhamos a bandeira da justiça social, da diminuição das desigualdades, seja no interior da Igreja, seja na sociedade, pois a resistência sempre será grande, mas perseveremos, porquanto estaremos a fazer a vontade de Deus.

- Feito o ajuntamento, um ajuntamento pacífico e ordeiro, determinado pela própria autoridade [o próprio Neemias, que era o governador], Neemias denunciou a injustiça cometida, lembrando aos nobres e magistrados que todo o povo havia sido resgatado do cativeiro, que todos haviam readquirido a liberdade, por uma operação divina, e, portanto, como agora os próprios judeus estariam a escravizar os seus irmãos? Como dizer que se estava lutando pela manutenção da liberdade frente aos povos vizinhos, que queriam escravizá-los, se os próprios judeus escravizavam seus irmãos? (Ne.5:8).

- A injustiça social é um reflexo do pecado que campeia na humanidade, pois todo pecado é iniquidade, ou seja, injustiça (I Jo.3:4). Assim, consentir com a injustiça social, tirar proveito dela é consentir com o pecado e é digno de morte tanto quem o pratica, quanto quem consente com a sua prática (Rm.1:32).

- A injustiça social leva os homens à uma situação tanto de miséria quanto de suntuosidade que compromete a sua própria dignidade, tornando-se um fator de incentivo para a prática do pecado. O sábio Agur já ensinava que a situação de extrema injustiça social é uma janela escancarada para o pecado, seja para o pobre, que se tornará um furtador; seja para o rico, que se tornará um vaidoso e soberbo (Pv.30:8,9).

- O papel do governante, como se vê, é o de promover, de forma ordeira, justa e legítima, a cessação das atividades que geram a injustiça social, ficando sempre ao lado dos menos favorecidos, sem que, para tanto, venha a destruir os mais abastados. Faz-se preciso denunciar a injustiça e conscientizar os mais abastados a tomar medidas efetivas para que tal situação deixe de existir, diminuindo o abismo entre os estratos extremos da sociedade.

- Neemias, em sua argumentação, não se utilizou de qualquer filosofia, ideologia ou doutrina humanas. Como homem de Deus, mostrou claramente aos nobres e magistrados que era necessário “andar no temor do nosso Deus, por causa do opróbrio dos gentios, os nossos inimigos” (Ne.5:9). Sem o temor de Deus, não há como se realizar justiça social. Sem que estejamos obedientes ao Senhor, não há como vivermos de acordo com a Sua vontade no que respeita aos nossos relacionamentos sociais.

- Por isso, a melhor forma pela qual a Igreja tem para debelar a extrema desigualdade social é através de uma vida de temor a Deus, de estrita obediência à Palavra de Deus. Não é papel da Igreja assumir filosofias, doutrinas ou pensamentos humanos para tentar criar condições para uma melhor vida sobre a face da Terra, mas lutar e pelejar para que, havendo temor a Deus, esta melhora se realize pela concretização do amor ao próximo, da vontade do Senhor.

- A presença da injustiça social no meio da Igreja, como se tem verificada cada vez mais entre nós, é mais uma demonstração de que está a faltar o temor a Deus entre os que cristãos se dizem ser. O temor a Deus não se apresenta apenas em uma maior devoção individual, mas, também, num relacionamento fraterno e amoroso para com o irmão, na ajuda aos necessitados, a começar pelos de nossa igreja local.

- Neemias não foi um político demagogo, que simplesmente fez discursos e promessas ao povo que clamava, sem tomar qualquer iniciativa concreta. Não só assumiu a luta contra os nobres e magistrados, como fez o ajuntamento de todos contra eles, mas também confessou e deixou as suas próprias práticas usurárias, pois também ele, seus irmãos e seus moços haviam emprestado dinheiro para os mais necessitados. Num gesto exemplar, Neemias abandonou o ganho dos juros destes empréstimos, fazendo antes de exigir que os outros fizessem (Ne.5:9).

- Neemias, então, após dar o exemplo, determinou que os nobres e magistrados restituíssem aos pobres as suas terras, as suas casas, como também a taxa que estavam a cobrar de juros pelo dinheiro, trigo, mosto e azeite que exigiam deles, taxa que correspondia ao “centésimo”, ou seja, 1% (um por cento) (Ne.5:10,11), taxa bem inferior ao que vemos em nosso país, que é conhecido como “o paraíso dos juros” em nosso planeta.

- Neemias foi vitorioso e a elite judaica também se sensibilizou com o clamor dos pobres e necessitados, restituindo o que haviam tomado dos mais necessitados, como também deixando de exigir os juros que estavam a cobrar, compromisso que foi solenemente firmado, tendo, inclusive, havido juramento perante os sacerdotes (Ne.5:12), bem como o gesto simbólico do sacudir do regaço (Ne.5:13).

- A consequência de se ter conquistado a justiça social, com o fim da desigualdade social gritante, foi o louvor a Deus (Ne.5:13). A justiça social é uma boa obra e, com ela, o nome do Senhor é glorificado. Que bom será quando isto se der no interior de cada igreja local!



III – A JUSTIÇA SOCIAL ATINGE A ADMINISTRAÇÃO DE JUDÁ

- O capítulo 5 de Neemias, contudo, não termina nesta redenção dos relacionamentos sociais entre pobres e ricos.

- Neemias como que explica como havia sido bem sucedida a sua modificação do quadro da injustiça social. Ele tinha credibilidade pois, diante do quadro de grande miséria e desprezo que vivia o seu povo, não se prevaleceu da sua condição de governador para se enriquecer.

- Neemias dá-nos conta de que, desde o dia em que foi nomeado governador na terra de Judá pelo rei Artaxerxes até o fim do seu primeiro mandato, que foi de doze anos (desde o ano vinte até o ano trinta e dois daquele rei – Ne.5:14), Neemias nem seus irmãos comerão do “pão do governador”, ou seja, não receberam os salários a que fariam jus pelo exercício desta função.

- Esta expressão de Neemias mostra-nos que, embora não seja pecaminoso que um governante seja assalariado, todo governante precisa ter a prudência e a sensibilidade para que este assalariamento não seja um escândalo, uma ocasião para que se tenha murmuração e revolta em meio à população.

- O apóstolo Paulo também procedeu do mesmo modo em Tessalônica, quando, para que não houvesse escândalo entre os que se evangelizavam ali, trabalhou noite e dia para não ser pesado aos irmãos e, com isto, ter credibilidade e legitimidade para pregar o Evangelho (I Ts.2:9). É o próprio Paulo quem diz que digno é o obreiro do seu salário (I Tm.5:18), ensino, aliás, que é do próprio Senhor Jesus (Lc.10:7). Todavia, este ganho deve ser obtido sem escândalo, sem que isto seja um tropeço para a obra de Deus.

- Neemias, mesmo tendo caído na “tentação da usura”, desde quando chegou a Jerusalém, ao verificar a situação de grande miséria e desprezo que vivia o povo abriu mão do “pão do governador”, num gesto de sensibilidade e de compaixão para com o próximo. Sem dúvida alguma, este seu gesto foi um dos fatores para que tivesse autoridade para conseguir demover a grande injustiça social então reinante. Como afirma o próprio Neemias: “…nem por isso exigi o pão do governador, porquanto a servidão deste povo era grande” (Ne.5:18 “in fine”).

- Muito da injustiça social em nossas igrejas locais se deve à falta de autoridade que muitos de nossos líderes tem tido precisamente porque não só não abrem mão do “pão do governador”, como ainda, a exemplo de nossas autoridades civis, estão perigosamente a se acostumar a uma vida nababesca, incompatível com a situação social de nosso povo. É preciso que tenham a mesma sensibilidade que tiveram tanto Neemias quanto Paulo para que a obra de Deus não continue a ser prejudicada.

- Os antecessores de Neemias oprimiram o povo, tomaram-lhe pão e vinho e, além disso, quarenta siclos de prata, uma espécie de “imposto per capita (por cabeça) abrindo caminho para que seus moços, isto é, seus ajudantes também dominassem duramente sobre o povo, tudo fazendo porque não tinham temor a Deus, ao contrário de Neemias (Ne.5:15).

- Esta situação não nos é desconhecida. Vivemos num país em que a Administração Pública se tornou uma grande opressão para o povo, com um aumento desmedido da carga tributária sem que haja qualquer retorno para o bem-estar da população. Como se não bastasse isso, os gastos governamentais aumentam cada vez mais com salários dos governantes e de seus assessores, cada vez em maior número, sem falar no que é desviado pela corrupção para a satisfação dos “caixas dois” de campanhas dos partidos e enriquecimento dos políticos. Tudo isto é mostra de falta de temor a Deus.

- Lamentavelmente, os que cristãos se dizem ser que ocupam tais posições, em vez de se comportarem como Neemias, estão a copiar os antecessores de Neemias, vivendo da mesma maneira que os integrantes da Administração que não servem a Deus, mostrando, com isso, que não têm também temor a Deus. Devemos observar estas condutas e, na hora das eleições, não nos deixar levar pela simples afirmação de que A ou B é “crente”, mas verificar se, no exercício das funções públicas, agiram como “crentes” ou se tão somente estão a repetir as mesmas atitudes deletérias e reprováveis dos incrédulos.
OBS: É muito triste constatar, por exemplo, que recente levantamento feito pelo jornal paulistano “A Folha de São Paulo” o campeão de gastos com todas as mordomias existentes na Câmara dos Deputados é um deputado que cristão se diz ser e que apenas um deputado federal, que não é cristão, tenha abrido mão dos abusivos e excessivos privilégios dos parlamentares, enquanto que toda a “bancada evangélica” tenha preferido se aproveitar da situação. Ah, Senhor, que tenhamos políticos como Neemias em nosso país!

- O que ocorre, porém, é que esta opressão não se circunscreve apenas à Administração Pública. As igrejas locais, também, em suas estruturas administrativas, estão cada vez mais parecidas com o Estado. Há, também, muita opressão sobre o povo, com uma crescente arrecadação que não se converte em benefício da obra de Deus, havendo também muitos “moços” que estão a dominar o povo, vivendo como parasitas em torno dos cofres das igrejas. Há muitos “mercenários” no meio do povo de Deus. Torna-se necessário e urgente que o temor a Deus volte a prevalecer na administração de nossas igrejas.

- Neemias, além da sensibilidade para abrir mão do “pão do governador”, também tomou a decisão de participar da obra de reparação, dando o exemplo, não querendo ser um “mandão”, mas um “líder servidor”, assim como o Senhor Jesus nos ensina, pois, em termo se Igreja, o maior deve servir o menor e não o contrário, como ocorre no mundo.

- Neemias, também, além de se mostrar um líder servidor, que não se isolava dos seus liderados, também tomou o cuidado de não ter um acréscimo patrimonial que pudesse causar escândalo ao povo. Fez questão de não comprar terra alguma, a fim de que não se criasse suspeita a respeito de sua honestidade.

- O aumento patrimonial não é um mal em si. Deus abençoa os Seus servos e pode, sim, fazer com que alguém venha a enriquecer. No entanto, para quem está na liderança, seja na sociedade, seja na igreja, todo cuidado é pouco e se deve viver de maneira tal que não haja qualquer motivo de suspeita. É bom lembrarmos que, segundo a legislação brasileira, o aumento patrimonial injustificado por si só já se constitui em ato de improbidade administrativa, ou seja, numa demonstração de desonestidade. Ora, se assim é a lei dos homens, como deve comportar-se o salvo, cuja justiça deve exceder a dos escribas e fariseus (Mt.5:20)?
OBS: Assim diz o artigo 9º da lei 8.429/1992: “Constitui ato de improbidade administrativa importando enriquecimento ilícito auferir qualquer tipo de vantagem patrimonial indevida em razão do exercício de cargo, mandato, função, emprego ou atividade nas entidades mencionadas no art.1º desta lei e, notadamente: (…) VII – adquirir, para si ou para outrem, no exercício de mandato, cargo, emprego ou função pública, bens de qualquer natureza cujo valor seja desproporcional à evolução do patrimônio ou à renda do agente público;”

- Neemias não comprou qualquer terra para não dar motivo à murmuração nem que tal exemplo pudesse fomentar o recrudescimento da injustiça social. Assim devem também fazer os líderes no meio do povo de Deus, agindo de forma transparente para que toda e qualquer aquisição não seja motivo de desconfiança ou suspeita. A falta de transparência, entretanto, é mais uma das mazelas de nossos dias hodiernos.

- Além de não adquirir qualquer propriedade, Neemias ainda fez com que seus moços também se ajuntassem à obra. Neemias também não quis criar uma “casta de privilegiados” em torno de si, não quis que seus “assessores” usassem da proximidade com o líder para se fazerem “chefetes” no meio do povo, o que, também, infelizmente, tem ocorrido no meio das igrejas locais. Não havia, nos dias de Neemias, lugar para “parasitas”.

- Neemias não só mandava os seus moços trabalharem, mas também se incumbia de, às suas expensas, providenciar o sustento deles e dos cento e cinquenta homens dos judeus e magistrados, além daqueles que vinham aos judeus dentre as gentes que estavam à sua roda. Todos os dias, era preparado um boi e seis ovelhas escolhidas, além de aves, sendo que, de dez em dez dias, era providenciado muitíssimo vinho. Neemias cuidava dos seus, mas nem por isso exigia o “pão do governador”.

- Temos aqui que não se está a defender que os líderes passem necessidades ou vivam indignamente. Têm eles, como já dissemos, o direito ao salário para que possam viver com dignidade e bem cuidar dos seus, pois também são pais de família. De igual maneira, têm o mesmo direito aqueles que estão ajudando os líderes. Todavia, tudo deve ser feito com transparência e sem qualquer intuito de enriquecimento. Neemias era tão transparente que deixou registrado o quanto se gastava com alimentação dia após dia. Precisamos desta mesma transparência no meio do povo de Deus.

- Por que Neemias agiu desta maneira? Primeiro, como vimos, porque tinha temor a Deus. Segundo, porque queria o bem do seu povo. Por isso, ao prestar contas de sua administração, termina com uma oração ao Senhor: “Lembra-Te de mim para bem, ó meu Deu, e de tudo quanto fiz a este povo” (Ne.5:19). Será que com a administração que temos feito dos recursos do povo de Deus, podemos ter convicção de que Deus Se lembra de nós para nosso bem?

Caramuru Afonso Francisco

sábado, 20 de agosto de 2011

PAULO E A QUESTÃO DA CONTRIBUIÇÃO FINANCEIRA EM CORINTO





O assunto relativo à contribuição financeira não é muito ventilado em o Novo Testamento. Ao contrário do que vemos nos dias hodiernos, não era um assunto que tivesse a atenção e o foco dos apóstolos.
No entanto, ao contrário do que dizem alguns, não se tratava de questão de somenos importância, tanto que, em suas duas cartas aos coríntios, o apóstolo Paulo cuida do assunto, precisamente porque, entre os problemas que existiam naquela igreja e que o levaram a esta relação epistolar, estava a relutância dos coríntios no pedido do apóstolo para que ajudassem os crentes da Judeia, que passavam por privações econômico-financeiras.
Com efeito, na primeira carta do apóstolo à igreja de Corinto que se encontra no texto sagrado (pois tudo indica que era, na verdade, a segunda carta que escrevia àquela igreja, como se percebe de I Co.5:9), o apóstolo dá aos coríntios a mesma ordem que dera, antes, aos gálatas, ou seja, que fizessem uma coleta no primeiro dia da semana com o objetivo de angariar recursos para os crentes judeus (I Co.16:1-3).
Na expressão do apóstolo, percebemos, de pronto, que havia um costume de se fazer coletas para os santos, ou seja, ao contrário do que alguns argumentam, a prática da contribuição financeira sempre foi parte integrante da adoração a Deus e tinha por objetivo a ajuda aos necessitados.
Paulo, portanto, não instituiu uma coleta nesta carta, mas pediu aos coríntios que, conforme o costume já observado, em meio à coleta que se fazia aos santos, começassem a fazer uma espécie de fundo que fosse destinado aos crentes judeus.
Tendo tido conhecimento da necessidade que havia entre os crentes da Judeia, o apóstolo, usando de sua autoridade, pedia aos crentes de Corinto que, em suas contribuições, começassem a formar um fundo com o objetivo de suprir as necessidades dos crentes judeus.
Nesta ordem do apóstolo, vemos, de pronto, que toda e qualquer contribuição financeira deve ser feita com propósito definido. Paulo, na qualidade de apóstolo, tinha autoridade para determinar a formação do fundo, mas tinha, por isto mesmo, de dizer qual a finalidade deste fundo: a ajuda aos crentes da Judeia.
É preciso que toda contribuição se faça com um determinado propósito, que seja especificada, até porque, no geral, pelo que vemos do costume trazido a nosso conhecimento pelo apóstolo, a coleta deve ser feita “para os santos”, ou seja, a contribuição tem por finalidade a ajuda à própria comunidade, de forma direta ou indireta.
Mas, além deste propósito (que já retira grande número de arrecadações dos nossos dias, cujo objetivo é puramente de enriquecimento de alguns e não o bem-estar da comunidade), o apóstolo Paulo, também, traz-nos outra importante lição, qual seja, o planejamento.
Paulo pede que os coríntios iniciem esta coleta, esta formação do fundo desde já, quando recebem a carta, para que não viessem a fazer coletas quando ele chegasse a Corinto (I Co.16:2).
O apóstolo, sabendo que tal ajuda significava um “plus” aos irmãos coríntios, não queria que o fardo fosse demasiadamente pesado aos santos e, por isso, pedia que se separasse à parte uma quantia desde já, para que não se tivesse um atabalhoado contribuir, além da capacidade de cada um, quando ele chegasse a Corinto, com o propósito de ir para Jerusalém em seguida.

Este planejamento deve ser feito por parte daqueles que estão à testa da organização e que ordenam a contribuição, para se evitar um jugo pesado sobre a administração financeira de cada irmão e para que se possa alcançar, a seu tempo, o propósito definido.
Nosso país tem um histórico de falta de planejamento, a começar da Administração Pública, mas tal comportamento jamais pode invadir a administração eclesiástica. Estamos a lidar com o povo de Deus, estamos a lidar com os santos, e a falta de planejamento, nesta área, não ficará impune diante do Senhor. Lembremos disto!
Outro ponto que Paulo faz, a respeito da coleta, é dizer que, quando chegasse, mandaria os recursos para Jerusalém por intermédio daqueles que fossem aprovados pelos irmãos de Corinto, que, inclusive, decidiriam se Paulo deveria, ou não, ir com eles (I Co.16:3,4).
Temos aqui um outro ponto importantíssimo com relação à contribuição financeira na Igreja. Aquele que ordenou a contribuição deve ficar fora da posse dos recursos, posse esta que deve ser mantida com pessoas que gozem de credibilidade e confiança da comunidade.
Temos aqui a lição da transparência, que tanto tem sido defendida e aplicada para dar aparência de honestidade em recursos públicos, mas que, já nos primórdios da Igreja, era a tônica a ser seguida pelos servos de Cristo. Afinal de contas, como nos fala o apóstolo, somos “filhos da luz e filhos do dia, não somos da noite nem das trevas” (I Ts.5:5), “andamos na luz” (I Jo.1:7) e, por isso, todas as nossas obras precisam ser manifestadas, claras e transparentes (Jo.3:21).
Paulo não assumira uma postura totalmente contrária a seu envolvimento com o transporte dos valores até Jerusalém, mas deixava a decisão para a comunidade que iria contribuir e, o que é importante, fazia questão de que o número de crentes que fossem designados para a posse deste dinheiro fosse plural, exatamente para que tudo fosse feito às claras, com transparência e de modo a que tivesse o comprometimento de toda a comunidade.
A comunidade, portanto, não apenas participa enquanto contribui, mas, também, participa na guarda e posse dos valores, na medida em que escolhe quem deveria ficar com os recursos até a vinda do apóstolo, como também era ela quem decidiria quem levaria os recursos até Jerusalém.
O acompanhamento da comunidade da arrecadação dos recursos e a prestação de contas daqueles que ela própria escolhe para geri-los é, assim, uma máxima indispensável para que se mantenha a credibilidade e a confiança na gerência dos recursos, para que se atinjam os propósitos previamente estabelecidos pela liderança.
Apesar desta determinação do apóstolo, porém, parece que os crentes de Corinto não atenderam ao chamado do apóstolo, fruto até da difícil relação que estava havendo entre os coríntios e Paulo, como se vê do teor da segunda carta que Paulo escreve àquela igreja (que parece ser a quarta carta neste “diálogo epistolar”, à luz de II Co.2:4).
Afirmamos isto em virtude do que o apóstolo escreve nos capítulos 8 e 9, quando assinala que, ao contrário das igrejas da Macedônia, Corinto ainda não havia completado a sua contribuição para os crentes judeus.
Assim, ao invés de amaldiçoar os crentes de Corinto, ou chamá-los de ingratos, egoístas ou ladrões, o apóstolo inicia a sua admoestação louvando o comportamento dos crentes macedônios que, apesar de pobres e necessitados, prontamente haviam atendido à ordem do apóstolo e iniciado a sua contribuição em prol dos crentes da Judeia.
Paulo louva a voluntariedade das igrejas macedônias que, apesar de sua pobreza, foram generosas, dando até acima de sua capacidade e o fazendo, dizia o apóstolo, porque, primeiramente, deram ao Senhor, para só então, atender ao chamado do apóstolo (II Co.8:1-5).
Notamos, pois, que o apóstolo, ao enfrentar a questão da inobservância de sua determinação por parte dos crentes de Corinto, mostra que o atendimento a seu chamado por parte dos crentes da Macedônia não era em virtude de sua “autoridade apostólica”, mas, antes de mais nada, porque eles se deixaram dominar pelo Espírito Santo, porque sua generosidade era fruto de sua íntima comunhão com o Senhor: “mas a si mesmos se deram primeiramente ao Senhor, e depois a nós, pela vontade de Deus.” (II Co.8:5).
A contribuição financeira é apenas uma expressão daquilo que se encontra no homem interior. Os crentes da Macedônia haviam se entregado verdadeiramente ao Senhor e, por isso, apesar de sua pobreza, contribuíam financeiramente em prol dos crentes da Judeia, porque haviam se doado ao Senhor, não mais viviam, mas Cristo vivia neles (Gl.2:20).
Era uma situação espiritual completamente diferente da que viviam os coríntios, que haviam sido considerados por Paulo como “crentes carnais”, visto que, entre eles, ainda imperavam a inveja, contendas e dissensões ( I Co.3:1-3).
Os crentes macedônios eram excelentes contribuintes porque eram “crentes espirituais”, pessoas que haviam se entregado por completo ao Senhor e que, por isso, estavam prontos a fazer a vontade divina e, na ordem de Paulo, igualmente movida pelo Espírito Santo, detectaram a vontade do Senhor e, mesmo sem muitos recursos materiais, não só iniciaram mas completaram a sua contribuição, sendo, por causa disso, ainda mais abençoados pelo Senhor.
A contribuição financeira é reflexo da situação espiritual das pessoas e, desta maneira, não há melhor forma de se obter uma prontidão de vontade no angariar de recursos econômico-financeiros em prol dos santos senão através do crescimento espiritual dos crentes.
O que se vê hoje em dia é uma luta para angariar recursos com base não no crescimento espiritual dos contribuintes, mas, sim, com a amplificação da ganância, da inveja e de toda sorte de carnalidade. Busca-se, dentro da mentalidade consumista-materialista-hedonista de nossos tempos, mentalidade esta que nada mais é que o reflexo do “mistério da injustiça” entre nós (II Ts.2:7), fazer com que as pessoas transfiram seus recursos para as “empresas religiosas”.
O resultado de um tal comportamento é funesto, pois, se pode haver, num primeiro instante, uma grande arrecadação, com o enriquecimento de alguns com isto, temos, no médio e longo prazo, não só o esgotamento da fonte de recursos, pois, mais cedo ou mais tarde, o engodo é descoberto pelos contribuintes, como, o que é mais grave, uma dupla destruição: as “empresas religiosas” passam a ser meros “conglomerados empresariais”, diversificando suas atividades para manterem seu rendimento e os contribuintes engodados passam a pertencer ao grupo cada vez mais numeroso dos “decepcionados com a graça de Deus”, pessoas que, dificilmente, obterão a salvação, vez que associarão a ganância destes inescrupulosos “mercadores da fé” (que passam a ser apenas mercadores e aliados manifestos do sistema anticristão – Ap.18:9-18) ao Evangelho.

Paulo, ao elogiar a atitude dos crentes da Macedônia, não faz promessas de prosperidade material àqueles que contribuíram, nem tampouco procura despertar a ganância ou a inveja dos coríntios em relação aos macedônios, mas, bem ao contrário, diz que os crentes da Macedônia eram pobres, e pobres permaneceriam, mas, por serem entregues totalmente a Deus, haviam atendido ao seu pedido e, dentro de sua pobreza, haviam revelado as “riquezas da sua generosidade” e, com a bênção de Deus, feito muito mais do que seria humanamente possível fazer em termos de angariar recursos para os crentes da Judeia.
A contribuição financeira, pois, é mero reflexo de nossa entrega a Deus, de nossa comunhão com o Senhor e, por causa deste estado espiritual, Deus, com nossa contribuição, na medida de nossa capacidade, realiza o milagre da multiplicação, não para quem contribuiu, mas para quem será favorecido por esta contribuição.
É a isto que o apóstolo se refere quando fala da semeadura decorrente da contribuição financeira (II Co.8:8-10), pois, apesar da pobreza dos contribuintes, haveria uma arrecadação que satisfaria as necessidades sem que deixasse de ocorrer a suficiência para os que haviam contribuído. Na partilha, haveria recursos suficientes tanto para quem deu quanto para quem haveria de receber.
Na Macedônia, a propósito, o apóstolo havia se portado da mesma maneira do que se propusera fazer em Corinto. Designara Tito para cuidar da posse dos recursos, em comum acordo com os crentes macedônios, ou seja, também tivera o cuidado de, na arrecadação dos fundos entre os crentes da Macedônia, agir com propósito, planejamento e transparência.
Antes o exemplo dos macedônios, o apóstolo, então, passa a tratar diretamente com os coríntios, admoestando a que se fizessem não imitadores dos macedônios, mas, sim, imitadores de Cristo que, sendo rico, havia Se feito pobre para que por Sua pobreza, enriquecêssemos (II Co.8:9).
Vemos aqui que o “fazer-Se pobre como Jesus” não precisa assumir a radicalidade de Francisco de Assis, que, literalmente, passou a viver a absoluta pobreza material, sem qualquer patrimônio (salvo uma só túnica remendada por dentro e por fora, com o cordão e calções), mas, sobretudo, que se tenha um espírito de desapego às coisas materiais, uma vontade resoluta de se despojar de bens, ainda que diminutos, em prol do bem-estar do próximo e do necessitado.
Por isso, o apóstolo pedia aos crentes de Corinto que não só praticassem a contribuição em prol dos crentes da Judeia, mas que, antes de tudo, quisessem fazê-lo (II Co.8:10).
Antes de tudo, é preciso que queiramos fazer a contribuição, que ela se faça com voluntariedade, pois, como o apóstolo explica na continuidade de seu raciocínio, Deus ama ao que dá com alegria (II Co.9:7).
A voluntariedade na contribuição é essencial para que ela seja uma bênção, para que ela agrade a Deus. A contribuição realizada com tristeza ou por necessidade não tem valor algum diante do Senhor e, em termos materiais, é apenas uma despesa e, dizemos com convicção, uma despesa mal feita, um desperdício, ou seja, uma destruição, uma ruína, uma perda, algo que, como sabemos, não é proveniente de Deus, mas resultado de uma ação maligna (Jo.10:10).
Sem a prontidão de vontade, sem o desejo de servir, sem a consciência de que se trata de um desapego aos bens materiais, não se tem bênção, mas avareza (II Co.9:5) e os avarentos não entrarão no reino de Deus, visto que são idólatras (Cl.3:5; Ap.22:15).

Muitas das contribuições que temos visto por aí são motivadas pela avareza, pela ganância, que é incitada e estimulada pelos arrecadadores de plantão, eles próprios falsos mestres que são igualmente movidos pela avareza (II Pe.2:3).
Tais contribuições são as responsáveis pela perdição tanto de quem contribui, quanto de quem recebe, pois, embora os gananciosos contribuintes sejam os primeiros a sofrer os danos de seu desatino, a Palavra de Deus é clara ao dizer que os que se enriquecessem às custas destes não terão outro destino senão a sentença de perdição (II Pe.2:3), como nos deixa claro o exemplo de Balaão, que é tipo bíblico desta gente (Nm.31:8).
Também não se pode levar o povo a contribuir com tristeza ou por necessidade, pois, nestes casos, assim como no caso da avareza, não se terá o desapego das coisas materiais. Embora se contribua, a tristeza ou necessidade fazem com que, sentimentalmente, a pessoa que contribui ainda esteja ligada ao que foi dado e, de igual maneira, não se terá bênção, mas tão somente uma despesa, um desperdício.
É imperioso que entendamos que, em termos de contribuição, é preciso que as pessoas sejam conscientizadas da bênção que é contribuir, da alegria que há naquele que serve a Deus de entregar sua contribuição em prol dos santos, de ser participante do milagre da multiplicação que fará o Senhor, multiplicação em favor dos necessitados, não do nosso próprio patrimônio.
Quando vemos o milagre da multiplicação, temos a convicção de que o Senhor sustenta a todos quantos Lhe servem, não os deixa à míngua e que, se hoje temos o gozo de contribuir, amanhã pode ocorrer que sejamos os beneficiários desta contribuição, mas que, sempre, tanto num caso quanto no outro, seremos alvos da bênção do Senhor (II Co.8:12-15).
Na contribuição com alegria, vemos não só que nossa pobreza material é enganosa, visto que, ao contribuirmos, vemos as “riquezas da nossa generosidade”, fruto da presença de Deus em nós, como também notamos o absoluto controle de Deus sobre todas as coisas e a Sua fidelidade, na medida em que nossa contribuição levará aos necessitados a terem a bênção da abastança, veremos como Deus cumpre a Sua Palavra, jamais deixando desamparado um justo (Sl.37:25) e, mesmo, aliviando as dores daquele que não O serve mas que, mesmo assim, é alvo de Seu amor através da generosidade da Igreja.
Esta voluntariedade não deve estar presente apenas nos contribuintes, mas também entre aqueles que forem comissionados, com aprovação da comunidade, a administrar os recursos e entregá-los a quem precisa.
Paulo fala de Tito que, pelo que deixa transparecer o texto (II Co.8:16,17), havia relutado, num primeiro momento, a aceitar o encargo, mas que, devidamente exortado, partiu voluntariamente para Corinto, a fim de supervisionar a arrecadação dos fundos.
Esta relutância de Tito, certamente, estava relacionada com a resistência em Corinto ao atendimento à ordem do apóstolo, mas, apesar de todas as dificuldades que enfrentaria, Tito, devidamente exortado, partiu para lá voluntariamente.
Encontramos aqui mais um ponto sensível que temos observado nas igrejas de nossos tempos difíceis. Cada vez menos pessoas se dispõem voluntariamente a assumir encargos nas igrejas, cujo corpo burocrático, por causa disso, aumenta cada vez mais, visto que todos querem ser remunerados, gerando um gasto que, não raras vezes, diminui sensivelmente os recursos arrecadados que, assim, estão menos a servir aos santos e, cada vez mais, a alimentar a burocracia eclesiástica.

Hoje em dia, parte considerável dos recursos arrecadados dos salvos serve tão somente para o sustento da “máquina administrativa eclesiástica”, reproduzindo-se, então, os mesmos desvios e mazelas que tanto têm caracterizado a Administração Pública.
Tito dispôs-se voluntariamente a servir à igreja em Corinto, mesmo sabendo que seu trabalho seria espinhoso, incompreendido e contrariado. Tinha, porém, a mesma prontidão de vontade que havia entre os crentes da Macedônia e, sendo assim, não só traria bênção, como não seria mais um motivo de escândalo.
Esta falta de prontidão de vontade e esta burocracia crescente existente nas igrejas locais de hoje são um dos fatores que levam à falta de transparência que tanto caracteriza a administração financeira eclesiástica hodierna.
Se o povo tiver acesso aos números da administração financeira e perceber que quantia considerável dos recursos está hoje a servir a interesses e negócios outros que não o propósito de favorecer os santos, certamente que muitos deixarão de contribuir e muitos desvios e malfeitos serão descobertos.
Contudo, temos de voltar ao modelo bíblico, que exige, como já vimos, transparência e honestidade. Não foi à toa que o Pacto de Lausanne foi enfático em afirmar que a Igreja “…torna-se uma pedra de tropeço para a evangelização (…) quando lhe falta (…) uma honestidade escrupulosa em todas as coisas, inclusive em promoção e finanças…” (item 6).
É preciso que reavaliemos, o quanto antes, o custo da burocracia eclesiástica e evitemos os desperdícios e os gastos imotivados e infundados, instaurando uma transparência que somente representará o bem-estar da obra de Deus e tornará a contribuição efetivamente uma bênção para toda a Igreja.

Mas, coerente com a proposta que havia feito aos coríntios na sua primeira carta, o apóstolo não mandou apenas Tito, mas, juntamente com ele, o “irmão louvado”, que, por sua credibilidade e honestidade, havia sido escolhido pelas igrejas para que fosse companheiro de Paulo em sua viagem (II Co.8:18,19).
Em assunto de recursos econômico-financeiros, Paulo se fazia acompanhar de alguém que tivesse sido escolhido pela comunidade, em virtude de seu porte e testemunho diante da igreja, para que não houvesse a menor sombra de dúvida quanto à arrecadação e administração dos recursos advindos da contribuição financeira dos crentes coríntios.
Havia a mais completa transparência neste assunto, o que deve ser a regra no tocante à administração financeira eclesiástica.
Paulo, assim que manda Tito, faz questão que o “irmão louvado” fosse com ele, pois isto, certamente, representaria a seriedade e credibilidade do trabalho de arrecadação dos recursos, já que o “irmão louvado” fora escolhido pelos próprios crentes para fazer companhia a Paulo e cuidar dos recursos.
Como é importante que a posse e administração do dinheiro em nossas igrejas não fique com a liderança mas seja compartilhada com pessoas que gozem da confiança da comunidade e que estejam sempre prontos a lhes prestar contas.
Como é importante que as pessoas escolhidas para esta função sejam dedicados, correspondam ao testemunho que lhes levou até aquela posição e que não queiram aparecer, mas cujo trabalho seja feito única e exclusivamente para a glória de Deus. O “irmão louvado” não tem sequer seu nome mencionado pelo apóstolo, a demonstrar como era discreto e empenhado em tão somente fazer a vontade de Deus.

A transparência, diz-nos o apóstolo, tinha por objetivo, em primeiro lugar, a glória de Deus e, em segundo lugar, a prontidão do ânimo dos contribuintes (II Co.8:19). Fazendo tudo às claras, o apóstolo, a um só tempo, glorificava a Deus, como também mantinha a disposição dos crentes em contribuir.
É precisamente isto que tem faltado em muitos lugares em nossos dias. A falta de transparência, além de entristecer a Deus e negar-Lhe a devida glória, já que somos “filhos da luz e filhos do dia”, também enfraquece a disposição dos irmãos em contribuir, máxime nos dias de multiplicação da iniquidade em que vivemos, onde a corrupção destrói grandemente a confiança entre as pessoas, como ocorria nos dias de Miqueias (Mq.2:10).
Mas, além disto, este comportamento zeloso tinha o objetivo de impedir a desonestidade em virtude da abundância advinda de se estar a agir conforme a vontade do Senhor (e que, como já vimos, gera o milagre da multiplicação), pois o zelo existente era tão somente para que houvesse honestidade tanto diante de Deus quanto diante dos homens (II Co.8:20,21).
Como afirma o Pacto de Lausanne, já mencionado, a falta de honestidade com as finanças é um escândalo, uma pedra de tropeço para a evangelização. Quando não somos zelosos e não demonstramos nossa honestidade diante de Deus e diante dos homens, sendo como a mulher de César, que não basta ser honesta, mas tem de parecer honesta, estamos impedindo que muitos venham a se render a Cristo Jesus e a alcançar a salvação.
Muitos não se dão conta de que a falta de transparência traz trevas em vez de luz e, por causa disto, muitos não alcançam a salvação, fazendo com que, em vez de sermos servos de Cristo, sejamos como os fariseus que faziam com que os seus prosélitos fossem duas vezes filhos do inferno (Mt.23:15). Será que temos consciência disto, ou seja, de que a falta de transparência nas finanças de nossa igreja local executa um relevante trabalho para o inimigo de nossas almas, impedindo a real conversão dos evangelizados? Pensemos nisto!
Mas, não bastasse a escolha de Tito e do “irmão louvado”, o apóstolo ainda manda mais um irmão, o “irmão diligente”, que gozava da confiança entre os coríntios (II Co.8:22). Mais uma vez, o apóstolo, mesmo diante da resistência dos coríntios, não usava de sua autoridade, mas, para obter a contribuição necessária, fazia-se valer da confiança e da credibilidade dos irmãos de Corinto, escolhendo pessoas confiáveis dos contribuintes.
Não é raro que, em nossos dias, vejamos os líderes agirem de forma diametralmente oposta. Em vez de escolherem pessoas da confiança dos contribuintes, escolhem pessoas de sua mais absoluta confiança. Este gesto mostra aos contribuintes que há um objetivo de se controlar os recursos segundo a vontade da liderança e não segundo a vontade da comunidade que, afinal de contas, é quem vai contribuir.
Isto gera um clima de desconfiança em meio aos crentes que, por causa disso, não contribuem como deveriam, se é que contribuem. Não é à toa, pois, que muitos crentes acabam desviando sua contribuição para outras instituições e movimentos, muitas vezes mais deletérios e muito mais mal intencionados que a sua liderança da igreja local, mas simplesmente porque não confiam na sua liderança que está tão somente a colher aquilo que semeou, na medida em que pôs à frente da administração dos recursos alguém que não gozava da confiança e credibilidade da comunidade.

Paulo, porém, não procedeu desta maneira, mas, bem ao contrário, buscou indicar pessoas que tivessem a confiança e a credibilidade dos coríntios, de modo a impedir que a desconfiança viesse a impedir a realização da obra que, aliás, já se encontrava atrasada.
Observemos, ademais, que esta comissão de Paulo tinha por finalidade tão somente fazer com que os coríntios acatassem a ordem do apóstolo em iniciar a arrecadação dos fundos, mas isto não invalidava o fato de que, uma vez chegando Paulo a Corinto, seriam os próprios coríntios quem escolheriam aqueles que levariam os recursos a Jerusalém, na companhia, ou não, do apóstolo segundo fosse decidido pela própria igreja coríntia. Que zelo pela honestidade!
Com estes predicados, a comissão iria até os coríntios na condição de “embaixadores das igrejas e glória de Cristo” (II Co.8:23), ou seja, pessoas que tinham credibilidade e testemunho a ponto de poder “representar” as igrejas, terem autoridade de falar em nome das igrejas e, mais do que isso, serem “glória de Cristo”, ou seja, pessoas que tinham uma vida de boas obras, que dignificavam o nome do Senhor, que faziam com que o nome de Jesus Cristo fosse glorificado.
Temos procurado pôr pessoas com este porte de vida para cuidar das finanças de nossas igrejas locais? Temos buscado estes requisitos para indicar e designar quem cuida do dinheiro arrecadado junto aos nossos irmãos?
* Evangelista e professor responsável pelo Estudo dos Professores e Amigos da Escola Dominical (EPAPED) da Igreja Evangélica Assembleia de Deus – Ministério do Belém – sede e colaborador do Portal Escola Dominical (www.portalebd.org.br).

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O REINO DE DEUS NÃO É DESTE MUNDO






A natureza do reino de Deus é espiritual, não podemos ter dele uma visão terrena.

Texto áureo
“Respondeu Jesus: O Meu Reino não é deste mundo; se o Meu Reino fosse deste mundo, lutariam os Meus servos, para que Eu não fosse entregue aos judeus; mas, agora, o Meu Reino não é daqui.” (Jo.18:36).

INTRODUÇÃO

- Em complemento ao estudo deste trimestre, faremos uma breve digressão sobre o aspecto espiritual do reino de Deus, visto que muito do caráter secundário e da resistência que se dá à “doutrina do reino de Deus” está vinculada a uma visão equivocada do “reino de Deus” como uma realidade material.

- Diante de Pilatos, o representante da maior autoridade política de seu tempo (César), o Senhor Jesus foi bem claro ao afirmar que o Seu reino não era deste mundo. Embora o “reino de Deus” tenha repercussões sobre a Terra, pois está entre os homens, não é algo terrenal, mas espiritual. Nunca nos esqueçamos disso!

I – A VISÃO TERRENA DO REINO DE DEUS

- Desde o início do trimestre, temos dito que a doutrina do reino de Deus tem sido, de certo modo, negligenciada por amplos setores da Igreja, notadamente aqueles que se dizem “fundamentalistas bíblicos”, uma vez que, inadvertidamente, houve a associação entre o “liberalismo teológico” e a assunção de uma postura que põe o “reino de Deus” no núcleo da discussão teológica e da pregação do Evangelho.
OBS: “…Porém, talvez o que mais afetou nossa atitude, foi a polêmica entre fundamentalismo e modernismo, a partir dos começos deste século, bem como a rejeição do fracassado “Evangelho Social”. Chegou-se a identificar toda a preocupação com os problemas sociais e políticos como tentativa de introduzir o “evangelho social”, e ao final atingiu-se o ponto em que se desculpou a falta de compaixão e de obediência como atitude de ‘defesa da fé’.… (AGUIRRE, Samuel Escobar. A responsabilidade social da Igreja. Disponível em: http://www.projetoverdade.com.br/estudos/aprioridadedaevangelizacao.htm Acesso em 11 jul. 2011).

- Em virtude de se ter dado ênfase ao “reino de Deus” como núcleo da pregação do Evangelho em meio a uma discussão de maior participação da Igreja na questão social que se aguçou com a industrialização dos países europeus e dos Estados Unidos, nos séculos XVIII e XIX, precisamente num instante em que proliferava o chamado “liberalismo teológico”, que punha em xeque a crença na Bíblia como a Palavra de Deus, houve a associação da busca de uma “restauração” do conceito de “reino de Deus” na reflexão teológica e na pregação do Evangelho com esta linha de pensamento de descrédito nas Escrituras, gerando, então, a ideia de que “a doutrina do reino de Deus” era tão somente uma linha auxiliar deste pensamento teológico liberal.

- Assim, quando o pastor e teólogo batista norte-americano de origem alemã Walter Rauschenbusch (1861-1918) iniciou a pregação do seu “evangelho social”, ao mesmo tempo em que se apresentava como um “teólogo liberal”, que não cria mais na plena inspiração das Escrituras nem tampouco no sacrifício vicário de Cristo como base para a salvação da humanidade, sua pregação a respeito do “reino de Deus” como base do evangelho foi considerada apenas um aspecto deste seu “liberalismo teológico” e, por causa disso, toda a ideia do “evangelho social” foi rechaçada pelos que não abandonaram sua crença na Bíblia como a Palavra de Deus (os chamados “fundamentalistas bíblicos’).

- Não resta dúvida de que Rauschenbusch, em seu discurso do “evangelho social”, deu ao “reino de Deus” uma feição materialista, incompatível com o ensino bíblico, mas não podemos deixar de realçar que tinha ele razão ao mostrar que o conceito de “reino de Deus” faz parte do âmago do Evangelho de Jesus Cristo, que, afinal de contas, é o “Evangelho do reino de Deus” (Mc.1:14).

- Esta visão materialista do “reino de Deus” não foi, porém, invenção de Rauschenbusch. Na verdade, já nos dias de Jesus, era a visão vigente entre os judeus, que, como nos mostra a Bíblia, aguardavam o “reino de Deus”, mas um reino aparente, um reino político, material, a restauração do reino de Davi (Lc.17:20,21).

- Israel, que era o “reino sacerdotal” de Deus (Ex.19:6), rejeitou a Deus como rei e pediu um rei humano, querendo, com isto, ser igual às demais nações (I Sm.8:4-8). Assim, neste gesto, já havia abandonado a ideia de um reino espiritual para um reino material. Aliás, como notamos das declarações do Senhor a Samuel, esta rejeição apenas se cristalizou, se consolidou com o pedido dos anciãos para constituição de um rei, mas, na verdade, era um processo que se iniciara, a bem da verdade, na quebra da lei no episódio do bezerro de ouro (Ex.32).

- O Senhor, porém, na Sua infinita misericórdia, fez com que a própria casa real que estabeleceu sobre Israel após ter cessado a Sua ira (Os.13:11), ou seja, a casa de Davi, fosse uma casa eterna (II Sm.7:16), na qual haveria de nascer Aquele que redimiria não só Israel mas todas as nações, para abrir os olhos dos cegos, tirar da prisão os presos e do cárcere os que jazem em trevas (Is.42:6,7).

- No entanto, o povo de Israel não entendeu este sentido do “reino de Deus”. Depois da perda da independência política com o cativeiro da Babilônia, continuou a acalentar o sonho de restauração do trono de Davi, ante a promessa divina, que, aliás, foi reforçada quando do fim do cativeiro a Zorobabel, descendente de Davi e herdeiro do trono judeu (Ag.2:21-23). Os próprios discípulos de Jesus manifestavam esta ideia pouco antes da ascensão do Senhor e apesar de Jesus lhes ter ensinado quarenta dias a respeito do “reino de Deus” (At.1:3,6).

- Vemos, portanto, que a ideia materialista do “reino de Deus” é algo que tem acompanhado o povo de Deus, seja Israel, seja até mesmo a Igreja, ao longo dos séculos, de modo que não podemos censurar ou criticar a sua presença, o que, logicamente, não significa que devamos acolhê-la.

- Nos tempos apostólicos, após o revestimento de poder no dia de Pentecostes, a Igreja, perseguida tanto por judeus quanto por gentios, pôde bem entender que o “reino de Deus” não era deste mundo, como havia dito o Senhor Jesus a Pilatos.

- Após o revestimento de poder, que fez com que os discípulos se tornassem eficazes testemunhas de Jesus (At.1:8), compreendeu a Igreja que sua tarefa não era perquirir sobre o tempo ou as estações que o Pai havia estabelecido para o cumprimento das promessas messiânicas que falavam a respeito do “reino”, mas, sim, pregar o Evangelho, o “reino de Deus” que estava entre os homens, ainda que não de forma visível e com dimensões temporais ou sócio-políticas.

- Desde os primórdios, encontramos que o Espírito Santo havia feito os discípulos superar esta “ansiedade”, mostrando aos servos do Senhor que cumpria, agora, levar a “mensagem do reino de Deus”, que, como dizia Paulo, não era nem comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo (Rm.14:17).

- O “reino de Deus” foi corretamente compreendido como uma realidade espiritual, como a libertação do pecado, como o “transporte do poder das trevas para o reino do Filho do seu amor” (Cl.1:13), como a ida aos “lugares celestiais em Cristo” onde somos abençoados com todas as bênçãos espirituais (Ef.1:3).

- Por isso, os apóstolos jamais defenderam qualquer insubmissão às autoridades, mas, pelo contrário, confirmavam que toda autoridade fora constituída por Deus e deveria ser honrada (Rm.13:1-7; I Pe.2:17).

- Isto não impediu, porém, que os cristãos cedo fossem vistos como uma ameaça ao Império Romano, a ponto de Paulo e Pedro, os mesmos que ensinaram sobre o respeito às autoridades romanas, terem sido martirizados. O “reino de Deus”, apesar de ser espiritual, trazia incômodo às estruturas dos reinos gentílicos, visto que a pregação da verdade, a justiça, paz e alegria no Espírito Santo sempre se apresentam como ameaça a uma sociedade construída pelo pecado e pela injustiça.

- Os chamados “pais da Igreja”, ou seja, os grandes nomes da Igreja que surgiram depois dos apóstolos até por volta do século VI, também reafirmavam esta linha de pensamento, entendendo que o “reino de Deus” tinha natureza espiritual, conquanto tivesse vindo para melhorar o mundo de então.

- No entanto, com a permissão do culto cristão, feita pelo imperador romano Constantino I (272-337), em 313, esta ideia começou a se desfazer, pois alguns viram nesta permissão, e na proximidade que Constantino I passou a ter junto aos cristãos (com o objetivo de dar sobrevida ao Império Romano…), uma ideia de instituição de um “reino de Deus” político e material.

- Assim Eusébio de Cesareia (265-339) , o grande historiador dos primeiros séculos da Igreja, passou a ser um entusiasta desta associação entre Império e Igreja, achando que, neste fato, estava a vitória do Evangelho de Cristo Jesus.
OBS: As últimas palavras da História Eclesiástica de Eusébio bem revelam este pensamento: “…Assim, depois que toda a tirania havia sido finalmente purgada, o império foi com justiça conservado firme e sem rival a Constantino e seus filhos. Os quais, em primeiro lugar eliminando aquela inimizade contra Deus mostrada pelos governantes anteriores, sensíveis às misericórdias a eles conferidas por Deus, também mostraram seu amor pela religião e por Deuys, comn devoção e gratidão a Ele pelas obras e operações que apresentaram à vista do mundo inteiro.” (História eclesiástica. Trad. de Lucy Iamakami e Luís Aron de Macedo, p.403).

- Esta noção de que “o reino de Deus” se confundiria com uma instituição com poderes temporais, que seria a Igreja, acabou gerando a confusão entre “Igreja” (menos o conjunto dos salvos, mas a instituição erguida a partir dos salvos) e o “reino de Deus”, que deu ensejo a todas as teorias políticas que levaram a uma supremacia do Papado durante a Idade Média na Europa, com as distorções que até hoje existem.

- Esta confusão da “Igreja” com o “reino de Deus” tem seu nascedouro na obra de Agostinho de Hipona (354-430), um dos “pais da Igreja”, em sua obra “A Cidade de Deus”, onde, corretamente, identificou, na história da humanidade, a presença de “duas cidades”: a “cidade de Deus”, que era composta pelos que serviam ao Senhor e a “cidade terrena”, composta pelos que eram desobedientes a Deus. Agostinho diz que estas cidades conviviam na Terra desde o início da procriação. Caim, que fundou uma cidade na Terra, representou a “cidade terrena”, enquanto que Abel, mero peregrino na Terra, foi o primeiro dos cidadãos da “cidade de Deus”, que é “celestial”, numa clara demonstração de que, embora baseado em Agostinho, não foi ele próprio quem gerou uma ideia materialista para o “reino de Deus”.
OBS: “…temos distribuído em dois gêneros: um, dos que vivem segundo o homem, e outro, segundo Deus, e a isto chamamos também misticamente duas cidades, quer dizer, duas sociedades ou congregações de homens, das quais uma está predestinada para reinar eternamente com Deus, e a outra para padecer eterno tormento com o demônio, e este é o fim principal delas, do qual trataremos depois.(…). Assim diz a Sagrada Escritura de Caim que fundou una cidade; mas Abel, como peregrino, não a fundou, porque a cidade dos santos é soberana e celestial, ainda que produza na terra os cidadãos, nos quais é peregrina até que chegue o tempo de seu reino, quando chegue a juntar a todos, ressuscitados com seus corpos, e então se lhes entregará o reino prometido, donde com seu príncipe, rei dos séculos, reinarão sem fim para sempre” (A cidade de Deus. Trad. de Libros Tauros, p.395,396) (tradução nossa de texto em espanhol).

- Com a queda do Império Romano do Ocidente e o caos daí decorrente na Europa, a Igreja foi a única instituição a remanescer e logo se pretendeu dar a esta situação histórica a ideia da supremacia e vitória da “cidade de Deus” sobre a “cidade terrena”, vinculando o estabelecimento do “reino de Deus” a esta supremacia política, social e econômica da Igreja.

- Esta linha de pensamento, aliás, teve grande aceitação na medida em que, também, se havia rechaçado a crença no “reino milenial de Cristo”, com o triunfo do chamado “amilenismo”, a doutrina de que o “reino milenial de Cristo” não seria literal (posição defendida por Eusébio). Assim, como não se cria num governo pessoal de Jesus sobre a Terra por mil anos, passou-se a entender que a “justiça e paz” apresentadas nas profecias se concretizariam por intermédio da evangelização do mundo por intermédio da Igreja, ou seja, o “reino de Deus” se tornaria pleno no tempo da Igreja e, quando todo o mundo se convertesse (ou tivesse a chance de fazê-lo), viria o juízo final.

- O mesmo equívoco dos judeus acabou se inserindo entre os que cristãos se diziam ser e, em virtude disto, surgiu a ideia de que o “reino de Deus” se instituiria sobre a face da Terra como um triunfo da evangelização e de que a Igreja tinha, sim, um poder temporal, um poder político, precisamente para estabelecer o Evangelho entre os povos.

- Com o fim da Idade Média e o desprestígio do poder político do Papado, este pensamento não foi abalado. Pelo contrário, foi o pensamento que norteou a colonização das Américas e da Oceania e, até mesmo, a ocupação pelas potências europeias de vastas áreas da África e da Ásia, o que ficou conhecido como “imperialismo”.

- Para tanto, além do “amilenismo”, surgiu também uma outra corrente escatológica que deu base para um pensamento desta natureza, pensamento este que encantou, inclusive, alguns nomes da Reforma Protestante, o chamado “pós-milenismo”, que entende que o “milênio” existirá, mas será resultado da conversão do mundo ao Evangelho. Para estes, o reino milenar de Cristo virá quando a Igreja cumprir a tarefa de evangelizar todo o mundo e, neste ponto, a presença de potências cristãs no cenário político internacional é um sinal desta evangelização que trará uma era de “justiça e paz” antes do retorno de Cristo.

- Esta linha de pensamento, que, inclusive, serviu de estímulo para o grande trabalho missionário que acompanhou tanto a colonização quanto o imperialismo, tem, hoje, adeptos no chamado “reinismo”, defendido principalmente, entre nós, pela igreja REINA, dirigida pelo bispo Hermes Fernandes, que entende que o “reino de Deus” deve se estabelecer na Terra mediante ações da Igreja em termos sociais, políticos e econômicos, sem o que não se terá como Jesus retornar à Terra.
OBS: “…Ser reinista não é apenas pertencer a uma agremiação eclesiástica, mas ser um agente do Reino de Deus, empenhado na transformação do Mundo por intermédio da implementação do conjunto de valores e princípios ensinados por Jesus. Neste contexto, a igreja é o farol, a humanidade é o navio, e o Reino de Deus é o Porto Seguro. Um farol não pode apontar sua luz para si mesmo. Seu papel é iluminar o caminho, possibilitando ao navio chegar seguro ao porto. Assim, a igreja tem a missão de ser paradigma civilizatório, a fim de que as nações andem à sua luz. A igreja deve ser uma espécie de microcosmos, de protótipo, de amostra grátis, de plano piloto. Ela, portanto, não é um fim em si mesma. A Igreja do Futuro deve ser proativa, em vez de reativa. Deve antecipar-se, como fez a mulher que derramou o perfume sobre Jesus. Deve ser vanguardista. O Mundo deve conformar-se aos valores por ela apregoados, e não vice-versa. Ela deve estar sempre um pé à frente, e isso com respeito a qualquer questão de interesse humano. Ela não apenas responde questões pertinentes ao seu tempo, como prevê questões que ainda surgirão, e busca respondê-las ainda antes que se tornem pertinentes.Embora sua origem seja celestial, ela emerge da realidade em que está inserida. Portanto, ela só pode ser emergente, se for antes, imergente. Ao emergir, ela atrai para si, não os holofotes, mas a responsabilidade por tudo o que diz respeito à condição humana e suas demandas. Por isso, ela é convergente. Sua cosmovisão é ampla e abarca a realidade como um todo, desde a cultura, a educação, as ciências, a justiça social e o meio-ambiente.…” (Rompendo com o igrejismo, abraçando o reinismo! Disponível em: http://vemprave.blogspot.com/2011/06/rompendo-com-o-igrejismo-abracando-o.html Acesso em 09 jul. 2011).


- O “evangelho social” de Rauschenbusch não diferia muito destes pensamentos. Pelo contrário, entendia que, para que houvesse o estabelecimento do “reino de Deus” na Terra, não se deveria apoiar uma instituição como a Igreja, mas, sim, que se deveria estabelecer uma luta contra a exploração dos operários e dos injustiçados pela industrialização, com a retirada do chamado “pecado social” das estruturas sociais. Somente assim, entendia este pastor, o “reino de Deus” seria estabelecido e se poderia viver o Evangelho.

- Rauschenbusch não identificava a “Igreja” com o “reino de Deus”, pois via a “Igreja” como conivente com a situação anticristã existente na sociedade, mas não deixava de entender que o “reino de Deus” tinha de se estabelecer na Terra por força humana, ainda que não pela instituição “Igreja”. Para ele, os verdadeiros integrantes do “reino de Deus” deveriam lutar para estabelecer, na Terra, a “justiça e paz” profetizadas nas Escrituras. A Igreja deve ser levada à instituição do “reino de Deus”, que, para o teólogo norte-americano, é “a humanidade organizada segundo a vontade de Deus”.
OBS: Este trecho de um dos principais livros de Rauschenbusch bem explana seu entendimento a respeito do estabelecimento do “reino de Deus”: “…(a) Desde que Cristo revelou o divino valor da vida e da pessoa e desde que Sua salvação busca a restauração e a plenitude da igualdade de qualquer forma, segue que o Reino de Deus, em todo estáfio do desenvolvimento humano, tende em direção a uma ordem social que garantirá para todas as pessoas seu desenvolvimento mais alto e mais livre. Isto envolve a redenção da vida social da influência paralítica da intolerância religiosa, da repressão da autoasserção na relação entre classes altas e baixas e de todas as formas de escravidão nas quais os seres humanos são tratados como simples meios para servir os os fins de outros; (b) Desde que o amor é a lei suprema de Cristo, o Reino de Deus implica em um reino progressivo de amor nos negócios humanos. Nós podemos ver este avanço em todo lugar onde a livre vontade do amor sobrepõe-se ao uso da força e à coerção legal como um regramento da ordem social. Isto envolve a redenção da sociedade das autocracias políticas e das oligarquias econômicas; a substituição da penologia vingativa pela redentiva; a abolição do constrangimento através da fome como parte do sistema industrial e a abolição da guerra como a expressão suprema do ódio e da mais completa cessação de liberdade, (c) A mais alta expressão de amor é a livre rendição do que é verdadeiramente de nós próprios, vida, propriedade e direitos. Uma mais baixa mas talvez mais decisiva expressão de amor é a rendição de qualquer oportunidade de explorar homens. Nenhum grupo social ou organização pode invocar que está claramente no reino de Deus se aproveita de outros para seu próprio bem-estar e resiste aos esforços para anular seu mal fundamental. Isto envolve a redenção da sociedade da propriedade privada dos recursos naturais da terra e de qualquer condição na indústria que faz o luvro do monopólio possível, (d) O reino do amor tende em direção à unidade progressia da humanidade, mas com a manutenção da liberdade individual e da oportunidade das nações de elaborar suas peculiaridades nacionais e ideais.…” (Teologia do evangelho social, p. 142-3) (tradução nossa de texto original em inglês).

- “Mutatis mutandi” é o mesmo pensamento que deu nascimento à chamada “teologia da libertação” que, a partir da década de 1960, alcançou guarida não só na Igreja Romana como também entre muitos protestantes. Adotando o pensamento de Karl Marx (1818-1893), o “pai do comunismo”, estes pensadores entenderam que o “reino de Deus” exigia, antes de mais nada, a libertação das estruturas injustas da sociedade, devendo a Igreja apoiar esta luta para que, aí, sim, então, se pudesse falar no Evangelho e no estabelecimento da “justiça e paz”.
OBS: Vejamos este texto de Leonardo Boff, um dos principais nomes da “teologia da libertação”: “…A Igreja não pode ser entendida nela e por ela mesma, pois está a serviço de realidades que a transcendem, o Reino e o mundo. Mundo e Reino são as pilastras que sustentam todo o edifício da Igreja. Primeiro apresenta-se a realidade do Reino que engloba mundo e Igreja. Reino — categoria empregada por Jesus para expressar sua ipsissima intentio — constitui a utopia realizada no mundo (escatologia); é o fim bom da totalidade da criação em Deus finalmente liberta totalmente de toda imperfeição e penetrada pelo Divino que a realiza absolutamente. O Reino perfaz a salvação em seu estado terminal. O mundo é o lugar da realização histórica do Reino. Na presente situação ele se encontra decadente e marcado pelo pecado; por isso o Reino de Deus se constrói contra as forças do anti-Reino; impõe-se sempre um oneroso processo de libertação para que o mundo possa acolher em si o Reino e desembocar no termo feliz. A Igreja é aquela parte do mundo que, na força do Espírito, acolheu o Reino de forma explícita na pessoa de Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado em nossa opressão, guarda a permanente memória e a consciência do Reino, celebra sua presença no mundo e em si mesma e detém a gramática de seu anúncio, a serviço do mundo. A Igreja não é o Reino mas seu sinal (concreção explícita) e instrumento (mediação) de implementação no mundo.Cumpre articular numa ordem correta estes três termos. Primeiro vem o Reino como a primeira e última realidade englobando todas as demais. Depois vem o mundo como o espaço da historificação do Reino e de realização da própria Igreja. Por fim vem a Igreja como realização antecipatória e sacramentai do Reino dentro do mundo e mediação para que o Reino se antecipe mais densamente no mundo.…” (Igreja: carisma e poder, p.20)

- O que se nota, portanto, em todos estes pensamentos, seja do “evangelho social”, seja do “reinismo” é o entendimento de que, primeiramente, deve-se estabelecer uma ordem social justa na Terra, através de esforços humanos, ainda que baseados no Evangelho de Cristo e com a assistência do Espírito Santo, para, então, termos um “reino milenar de Cristo”, uma era de justiça e paz. Caberia à Igreja, pois, o estabelecimento deste “reino” em termos terrenos.

- Esquecem-se, porém, os defensores desta “visão terrena do reino de Deus” que, apesar de o reino de Deus já estar entre nós, não tem ele aparência exterior, como nos ensinou o Senhor Jesus e que a Igreja não irá tomar as rédeas do ambiente político, social e econômico das nações da Terra ao pregar o Evangelho. Se fosse assim, diz-nos o Senhor, Ele não teria sido crucificado, mas Sua prisão geraria um movimento entre Seus seguidores e, certamente, haveria a Sua libertação, inclusive com a ajuda de legiões de anjos (Mt.26:53), que, afinal de contas, como já dizia Agostinho em sua “Cidade de Deus”, também fazem parte do “reino de Deus”.

- À Igreja compete pregar o Evangelho do reino de Deus, trazê-lo aos homens, que, se nascerem de novo, não só o verão como, nascendo da água e do Espírito, também nele entrarão. Todavia, este “reino de Deus” está destinado, dada a imperfeição humana, tão somente a melhorar as condições de vida sobre a face da Terra, pois a instauração dos “tempos de refrigério”, da restauração seja da ordem social, seja da própria natureza, se dará por intervenção direta e pessoal do Senhor Jesus quando do estabelecimento do “reino milenial de Cristo” (At.3:21).

- Sem Jesus, nada podemos fazer (Jô.15:5 “in fine”) e Ele, sim, haverá de instituir, de forma plena, o “reino de Deus” ainda neste céu e terra, quando voltar com a Igreja para livrar Israel das mãos do Anticristo (Ap.19:11-20:3) e, aí, sim, cumprir as profecias messiânicas do Antigo Testamento que ainda não se cumpriram, quando Israel, e não a Igreja, será o “reino sacerdotal”.

- O “reino de Deus” pregado pela Igreja não é deste mundo. As “testemunhas de Cristo” escaparão da ira futura e desfrutarão, desde o momento do arrebatamento da Igreja, o “reino” na “cidade celeste”, na “cidade que está nos céus”, que é o nosso alvo, como nos ensina o apóstolo Paulo (Fp.3:14-21).

- O alvo da Igreja é o céu, pois, como ensinou Agostinho, a “cidade de Deus” é peregrina nesta Terra, é fiel depositária da fé de Abraão (Gl.3:29) e, como tal, assim como os heróis da fé, espera “a cidade que tem fundamentos, da qual o artífice e construtor é Deus (Hb.11:10)”, deseja “uma [cidade] melhor, isto é, a celestial”, preparada por Deus (Hb.11:16).

- Quem pensa apenas nas coisas terrenas, quem reduz o trabalho da Igreja para as realidades desta vida, diz-nos Paulo, é o mais miserável de todos os homens (I Co.15:19) e que, nesta preocupação com uma visão terrena do “reino de Deus”, tornam-se inimigos da cruz de Cristo, destinados à perdição (Fp.3:18,.19).

- Com efeito, quando a Igreja passa a querer, por ela própria, empreender o “reino de Deus” na face da Terra, sua tendência é se associar a forças políticas, sociais e econômicas com este afã e, nesta associação, acaba por sufocar a Palavra de Deus, a abrir mão do próprio Evangelho. Foi o que Jesus nos ensinou na parábola do semeador, ao mostrar que a semente que germinou entre os “espinhais”, que representam “os cuidados deste mundo e a sedução das riquezas”, foi sufocada pelos espinhos.

- Quando analisamos os pensamentos que levam a uma visão terrena do “reino de Deus”, verificamos, claramente, o cumprimento do que disse o Senhor Jesus. A visão da Igreja-instituição como “reino de Deus” levou ao Papado e a todas as teorias de defesa do poder temporal da Igreja, que redundou nas graves distorções doutrinárias da Igreja Romana e na própria negação do Cristianismo durante a Idade Média.

- A visão do pós-milenismo e do amilenismo mantidos após a Reforma Protestante trouxe as graves distorções que, em nome de Deus, se fizeram seja na colonização das Américas e da Oceania, seja no imperialismo europeu-norte-americano na Ásia e na África, que acabou associando, indevidamente, o cristianismo a todo este comportamento anticristão e que muito bem explica a aversão de grandes parcelas da população destes continentes ao Cristianismo na atualidade.

- O “reinismo” defendido por Hermes Fernandes levou a uma associação com entidades ligadas à ONU e que estão vinculadas seja ao satanismo, seja à Nova Era, seja, ainda, ao bahaismo, uma seita oriental que também serve de sustentáculo para a Nova Era, que, como sabemos, é a preparação para o estabelecimento da religião do Anticristo.
OBS: “…O Bispo Hermes possui uma parceria com a uma entidade chamada visão mundial (ligada a worldvision, que apoia totalmente a causa criada pela comunidade Bahá’i que são as metas do milênio (veja no link abaixo com as oito metas da ONU):As metas no site reinista: http://www.worldvision.org/content.nsf/learn/g8-goals As mesmas metas no pnud-ONU: http://www.pnud.org.br/odm/ E, claro, não poderia falta o apoio total a agenda 21. A declaração de amor a "mamãe" terra pode ser vista no artigo 67 do manifesto reinista e, ainda por cima, distorceram totalmente a Bíblia para se justificarem: 67 - Que Igreja abrace a questão do meio-ambiente, entendendo que a atual criação está grávida de um novo céu e uma nova terra, e que muitos dos cataclismos naturais que acontecem, são as contrações e gemidos de uma natureza maltratada pelo homem (Rm.8:22) Bom..tudo isso tem que ser centralizado em um lugar. No artigo 144 do manifesto eles falam da criação da Grande Comissão (entenda-se Parlamento Mundial) e a conversão de todos os povos ao cristo (mal sabem eles que é o cristo cósmico): 144 – Christus Victor / Cristo Vencedor – Cremos na vitória de Cristo e de Sua Igreja durante o transcorrer da História, culminando no cumprimento da Grande Comissão, e na conversão das nações (Sl.22:27; Ap.6:2; 15:4)…” (NOTURNO, Teóphilo. As reinações de Hermeneu. Disponível em: http://teophilo.info/analises/hermeneu.htm#conclude Acesso em 11 jul. 2011).

- Por fim, a visão do “evangelho social” e da “teologia da libertação” levaram a um total desvirtuamento da doutrina cristã em muitas áreas, com a identificação de muitos movimentos sociais suportados por seus defensores com movimentos revolucionários que, inexoravelmente, levaram a uma perseguição religiosa e à instauração de regimes marxistas-leninistas ou simpatizantes que só serviram para diminuir a liberdade religiosa e a levar a um descrédito em relação ao Evangelho.

- Isto sem falar que uma ideia terrena do “reino de Deus” levou, inclusive, ao surgimento de heresias, como as “Testemunhas de Jeová”, cujos “salões do reino” estão a propagar que “o reino de Deus” é um “paraíso na Terra” e que não há a menor possibilidade de vivermos com Deus nos céus.
OBS: Assim ensinam as Testemunhas de Jeová: “…O Reino de Deus é um governo especial. Está estabelecido no céu e governará esta Terra.(…). Deus prometeu que Jesus se tornaria o Rei do Seu Reino. Quando Jesus esteve na Terra, provou que seria um Governante bondoso, justo e perfeito. Quando retornou ao céu, não foi logo entronizado como Rei do Reino de Deus.Em 1914, Jeová concedeu a Jesus a autoridade que lhe prometera. Desde então, Jesus está reinando no céu como Rei designado por Jeová.(…) A Terra está agora dividida em muitos países. Cada um destes tem seu próprio governo. Essas nações frequentemente lutam entre si. Mas o Reino de Deus substituirá todos os governos humanos. Regerá a Terra inteira como único governo. Então não haverá mais guerras, crimes e violência. Todos viverão juntos em paz e união.…” (O que é o Reino de Deus? Disponível em: http://www.watchtower.org/t/rq/article_06.htm Acesso em 11 jul. 2011).

- A história, pois, mostra-nos, com absoluta clareza, que não se pode conceber uma visão terrena do “reino de Deus” e que isto é mais uma artimanha do maligno para inibir a real ação do Evangelho, que é a de separar um povo para morar eternamente com o Senhor, não neste mundo. Mas seria o reino de Deus totalmente dissociado da dimensão terrena?

II – A DIMENSÃO TERRENA DO REINO DE DEUS

- Evidentemente que não! O reino de Deus está no mundo, embora não seja do mundo. O Senhor Jesus foi bem claro ao afirmar aos fariseus que o reino de Deus já se encontrava entre eles (Lc.17:21), ainda que não fosse um reino com aparência exterior. Para Pilatos, o Senhor repete esta mesma ideia ao afirmar que naquele momento, o Seu reino não era da terra (Jo.18:36).

- Jesus disse que os Seus discípulos, assim como Ele, estavam no mundo embora não fossem do mundo (Jo.17:14,16) e, como tal, sofreriam o ódio do mundo, assim como o mundo odiou ao Senhor Jesus (Jo.15:18). Existe, pois, ao contrário do que dizem os “reinistas”, um conflito presente, na face da Terra, entre a Igreja e o mundo, como deixou claro a primeira parte do item 12 do Pacto de Lausanne, que ora reproduzimos:
“Cremos que estamos empenhados num permanente conflito espiritual com os principados e potestades do mal, que querem destruir a igreja e frustrar sua tarefa de evangelização mundial. Sabemos da necessidade de nos revestirmos da armadura de Deus e combater esta batalha com as armas espirituais da verdade e da oração. Pois percebemos a atividade no nosso inimigo, não somente nas falsas ideologias fora da igreja, mas também dentro dela em falsos evangelhos que torcem as Escrituras e colocam o homem no lugar de Deus. Precisamos tanto de vigilância como de discernimento para salvaguardar o evangelho bíblico.…”
OBS: Em seu “manifesto reinista”, a Igreja Reina do bispo Hermes Fernandes bem denota a visão distorcida que tem do “reino de Deus”, ao negar este conflito em seu itens 48 e 52, “in verbis”: 48 – Cremos na existência do diabo, tanto como entidade espiritual, quanto como um arquétipo do mal, mas que está subjugado pelo poder da cruz de Cristo, onde foi definitivamente vencido. Portanto, não há a necessidade de se “amarrar” demônios, até porque Jesus, o mais Valente, já os amarrou. Repudiamos a crença maniqueísta predominante em muitos círculos evangélicos, que encara a realidade como cenário de uma guerra entre os poderes do bem e do mal. Satanás jamais representou qualquer ameaça à soberania de Deus (1 Co. 15:57; Mt. 18:20) (…)52 - Cremos que Satanás e suas hordas encontram-se derrotados, e amarrados, no sentido de não poderem coibir o avanço do Evangelho às nações do mundo (Is.49:24-25; Mt.12:28-29; Lc.11:20-22; Cl.1:13; 2:15; Hb.2:14; 2 Pe.2:4; Jd.6; Ap.20:1-3)”. Embora esteja correto em se evitar um dualismo, o manifesto mostra que não crê no poder das trevas que levará a maior parte das pessoas a rejeitar a Cristo, como se o “reino de Deus” já fosse pleno na Terra…

- Apesar deste conflito, o “reino de Deus” já está presente, e a prova disto é que Jesus expulsava demônios (Mt.12:28), a demonstrar que o mundo e o poder das trevas não poderiam resistir à Sua autoridade, autoridade que foi transmitida aos Seus discípulos (Mc.16:17).

- Apesar do ódio do mundo, Jesus, como disse Pedro na casa de Cornélio, ungido pelo Espírito Santo e com virtude, “andou fazendo bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com Ele” (At.10:38) e, ante a Sua rejeição por Israel, retirou o reino de Deus e o deu “a uma nação que dê os seus frutos” (Mt.21:43).

- Esta nação, que é a Igreja, tem de dar “os frutos do reino”, pois recebeu a semente da Palavra, tornando-se uma boa terra, e frutificou (Mt.13:23).

- Por isso, o “reino de Deus” já se faz presente na Terra e, por causa dele, a Igreja “anda fazendo bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus é com ela”, pois ela é o corpo de Cristo (I Co.12:27), a continuidade da presença do Senhor neste mundo.

- O propósito de Deus não é que simplesmente saiamos do mundo, mas que, saídos do mundo, retornemos a ele, enviados pelo Senhor, para sermos Suas testemunhas até os confins da Terra (Jo.17:18), devidamente santificados na Sua Palavra (Jo.17:17).

- Para tanto, devemos, assim como Jesus, “encarnar”, ou seja, ser “homens no meio dos homens”. Jesus nos enviou assim como o Pai o havia enviado, expressão que o teólogo peruano Samuel Escobar, um dos “pais da teologia da missão integral”, diz ter o seguinte significado:” …Enviados, por Ele, somos também homens no meio dos homens. Vivemos numa sociedade determinada, submetidos às leis humanas, às contingências e vicissitudes a que estão sujeitos todos os nossos concidadãos terrenos. E a verdade a qual somos obrigados a reconhecer é que temos cedido muitas vezes à tentação de nos separarmos da nossa sociedade e não nos identificarmos com ela. Não existe ainda mosteiro protestante na América Latina, mas a mentalidade de mosteiro, essa sim, existe. Há aqueles que sonham formar ‘bairros evangélicos’, ou sistemas de educação nos quais desde o berço até o túmulo o filho de crente seja protegido do mundo. Dizia o Pastor Stott: ‘Eu pessoalmente creio que o nosso fracasso em obedecer as implicações do mandado ‘assim... eu também envio’ constitui a mais trágica fraqueza dos cristãos evangélicos no campo da evangelização hoje em dia. Nós não nos identificamos. Cremos tão fortemente na proclamação (e muito justamente), que tendemos a proclamar a nossa mensagem à distância. As vezes parecemos gente que dá conselhos sobre a segurança de praia a homens que estão se afogando. Não nos atiramos à água para salvá-los. Espanta-nos termos que nos molhar. Além do que, isso implica muitos perigos. Esquecemos que Jesus Cristo não enviou sua salvação do céu. Ele nos visitou com grande humildade’.…(AGUIRRE, Samuel Escobar. op.cit.).

- Por isso, o “reino de Deus” não pode se manifestar apenas na proclamação do Evangelho e no desfrute das bênçãos, alianças e promessas, mas tem de se mostrar ao mundo através de ações concretas, efetivas, que mostrem que somos “a nação que dá os frutos do reino”. Como afirmou o Pacto de Lausanne em seu item 6, primeira parte: “…Cristo envia o seu povo redimido ao mundo assim como o Pai o enviou, e que isso requer uma penetração de igual modo profunda e sacrificial. Precisamos deixar os nossos guetos eclesiásticos e penetrar na sociedade não-cristã.…”.
OBS: “O Pacto de Lausanne foi um grande congresso mundial de evangélicos que ocorreu em 1974 em Lausana, Suíça, onde foi criado um comitê mundial das igrejas evangélicas. (…)O Pacto de Lausanne é considerado relevante instrumento para a definição permanente da identidade evangélica em um período de intensa relativização e de fluidificação das identidades institucionais e pessoais. Ser evangélico, então, não é uma questão de se aferrar intransigentemente a este ou aquele grupo de conceitos doutrinários, mas uma questão de comprometer-se com o propósito de Deus, a saber: ser servo e testemunha de Deus - ou seja, ser uma comunhão de pessoas que persegue em comum o alvo de viver à altura do Reino e da Glória de Deus, edificado-se a si mesmo como o Corpo de Cristo que anuncia a todo o mundo o reino e a glória.…” (Pacto de Lausanne. In: WIKIPÉDIA. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Pacto_de_Lausanne Acesso em 11 jul. 2011).

- Jesus, entre nós, andou fazendo bem e temos de fazer isto. Verdade é que a presença do “reino de Deus” entre os homens trouxe inegáveis melhoras na vida da humanidade. As universidades, a dignificação da pessoa humana, o respeito ao próximo, a filantropia social, a defesa da liberdade são conquistas inegáveis que o “reino de Deus” trouxe para a humanidade nestes dois milênios de Cristianismo. Todavia, é preciso que, a cada instante, prossigamos nesta tarefa de “fazer o bem”.

- Para tanto, é imperioso que as Suas testemunhas, num momento tão difícil em que vivemos, em que as conquistas do “reino de Deus” são rapidamente neutralizadas pela ação do “mistério da injustiça”, na preparação para a ditadura mundial do Anticristo, ajam mais ativamente no sentido de impedir o aviltamento do ser humano, algo que se está intensificando grandemente.

- O “reino de Deus” continua entre os homens e, por isso, devemos lutar para que os valores do reino sejam realçados. Devemos promover a “civilização do amor”, lutando contra as medidas que tentam matar e destruir os homens, tais como a destruição da família nos moldes biblicamente estabelecidos, o triunfo da morte em causas como a liberação do aborto e da eutanásia, como a própria defesa da homossexualidade e de sua imposição aos homens, sem falar nas medidas amplamente restritivas da liberdade de expressão e de manifestação do pensamento, pelo controle dos meios de comunicação de massa.

- Jesus, também, veio “curar a todos os oprimidos do diabo” e o “reino de Deus” tem de trazer esta cura para a humanidade. A “cura da opressão do diabo” é a retirada do pecado da vida de cada homem, o que somente se alcança pela fé em Cristo Jesus, mas os discípulos de Jesus devem, também, esforçar-se para minorar as consequências nefastas trazidas pelo pecado, criando condições para que as pessoas saiam das armadilhas criadas pelo inimigo de nossas almas.

- Neste sentido, a Igreja deve, como agência do reino de Deus, promover ações para neutralizar e reverter as estruturas injustas surgidas na sociedade por força do pecado, levando a mensagem do Evangelho mas a complementando com atitudes que façam com que se desfaçam as teias traçadas pelo maligno. Assim, é mister que se envolva na criação de redes que facilitem a retirada de pessoas de redes de prostituição, das drogas, das estruturas do crime organizado, das mais diversas situações nas quais foram inseridas pelo mal.
OBS: Como diz a primeira parte do item 5 do Pacto de Lausanne: “Afirmamos que Deus é o Criador e o Juiz de todos os homens. Portanto, devemos partilhar o seu interesse pela justiça e pela conciliação em toda a sociedade humana, e pela libertação dos homens de todo tipo de opressão. Porque a humanidade foi feita à imagem de Deus, toda pessoa, sem distinção de raça, religião, cor, cultura, classe social, sexo ou idade possui uma dignidade intrínseca em razão da qual deve ser respeitada e servida, e não explorada…”

- Esta ação da Igreja, que jamais conseguirá a conversão integral do mundo, é parte daquilo que o Senhor Jesus, pessoalmente, fará quando destruir o sistema gentílico mundial e instituir o Seu reino milenial, no “…tempo da restauração de tudo, dos quais Deus falou pela boca de Seus santos profetas, desde o princípio” (At.3:21b).

- O fruto trazido pelo “reino de Deus” é permanente (Jo.15:16), ainda que não atinja a plenitude por parte da Igreja. Temos, pois, uma dimensão terrena para o reino de Deus, tanto que o Senhor Jesus disse a Pilatos que, “naquele momento” o Seu reino não era da Terra, prova de que, num momento posterior, passaria a sê-lo.

- Por isso, embora não possamos ter uma visão apenas terrena do “reino de Deus”, até porque ele se consolidará em “novos céus e nova terra onde habita a justiça” (II Pe.3:13), não podemos desmerecer esta dimensão terrena do “reino de Deus”, que já melhora o mundo em que vivemos enquanto aqui está a Igreja para representá-lo, e que promoverá a “restauração de tudo” no milênio.

- Temos tido esta consciência da “missão integral da Igreja”? Como diz o já tantas vezes mencionado Pacto de Lausanne, “…A evangelização mundial requer que a igreja inteira leve o evangelho integral ao mundo todo. A igreja ocupa o ponto central do propósito divino para com o mundo, e é o agente que ele promoveu para difundir o evangelho. Mas uma igreja que pregue a Cruz deve, ela própria, ser marcada pela Cruz. Ela torna-se uma pedra de tropeço para a evangelização quando trai o evangelho ou quando lhe falta uma fé viva em Deus, um amor genuíno pelas pessoas, ou uma honestidade escrupulosa em todas as coisas, inclusive em promoção e finanças…” (item 6). Temos tido uma vida que manifesta o “reino de Deus” entre os homens? Pensemos nisto!