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domingo, 1 de agosto de 2010

OS PROFETAS ANTERIORES, ORAIS, NÃO-ESCRITORES OU NÃO-CLÁSSICOS




A atividade profética, como a linguagem, desenvolveu-se oralmente, depois assumiu a forma escrita.

Texto áureo – “E todos os profetas, desde Samuel, todos quantos depois falaram, também anunciaram estes dias” (At.3:24).


INTRODUÇÃO

- Em complemento ao estudo deste trimestre, estudaremos os chamados “profetas anteriores”, também denominados de “profetas orais”, “profetas não-escritores” ou, ainda, “profetas não-clássicos”.

- Os “profetas anteriores” são todos os profetas levantados por Deus e que não tiveram o mandado divino de reduzir a escrito as suas mensagens proféticas, o que foi feito posteriormente pelos que foram inspirados a escrever o texto sagrado.

I – OS PROFETAS ANTERIORES ATÉ SAMUEL

- Quando iniciamos o estudo do ministério profético na Bíblia, vimos que os profetas costumam ser classificados em dois grupos: profetas anteriores, também chamados orais, não-escritores ou não-clássicos e os profetas posteriores, também chamados de profetas literários, escritores ou clássicos.

- A diferença entre um grupo e outro é que os primeiros foram levantados como profetas pelo Senhor mas não foram incumbidos por Deus de reduzir a escrito as suas mensagens, a fim de que fossem elas conhecidas pelas gerações posteriores. Temos, assim, conhecimento do que disseram ao povo por intermédio de registros que lhes são posteriores, efetuados por outras pessoas, especialmente inspiradas pelo Espírito Santo para tal tarefa (II Pe.1:20,21).

- Em nosso trimestre letivo, tivemos uma lição sobre os profetas ditos escritores ou clássicos, ou seja, aqueles cujas mensagens foram, por ordem divina, reduzidas a escrito ainda no ministério de cada profeta, pelo próprio profeta ou mediante ditado do profeta (como aconteceu com Jeremias – Jr.36). Ante a ausência de uma lição sobre o outro grupo de profetas, entendemos ser útil este apêndice para esta finalidade.

- É importante ressaltar dois fatos para que não venhamos a criar confusão. O primeiro é que o fato de Deus não ter mandado ao profeta reduzir a escrito, de imediato, a sua mensagem não significa que este profeta seja inferior aos demais. Longe disso, isto apenas reflete até o estado cultural do povo no instante mesmo dos mencionados ministérios proféticos.

- Somente no final da história de ambos os reinos em que se dividiu Israel teremos uma preocupação com o registro da Palavra de Deus, como resultado até de um desenvolvimento cultural do povo e como ação da Providência Divina, ante a iminência da perda da terra de Canaã por parte dos israelitas. A destruição de ambos os reinos tornava absolutamente necessário o registro das mensagens proféticas para conhecimento das gerações vindouras, já que o contato oral ficaria sobremodo prejudicado (Sl.78:1-8).

- O segundo fator é que não devemos entender que os “profetas orais” não tenham escrito coisa alguma. Muito pelo contrário, entre os “profetas orais”, temos pessoas que escreveram parte das Escrituras, às vezes mais do que muito dos chamados “profetas literários”, mas seus escritos eram históricos ou poéticos, não tinham como objetivo registrar as suas mensagens proféticas, mas foram além disso, ao contrário dos “profetas literários”, que escreveram apenas suas profecias. Assim, pessoas como Davi, Samuel, Natã e Gade, apesar de seus escritos, são postos no rol dos “profetas orais”.

- Finis Jennings Dake (1903-1987) diz haver o registro, no Antigo Testamento, de 62 (sessenta e dois) profetas, sendo que 16(dezesseis) seriam “profetas literários” e 46(quarenta e seis), “profetas orais”, precisamente os que estamos a tratar neste pequeno estudo. Destes 46(quarenta e seis) profetas, Dake entende que 38(trinta e oito) atuaram na dispensação da lei, incluindo-se aí Balaão que, embora não fosse israelita, atuou sob a lei de Moisés.
OBS: Dake considera como profeta a Adão, com o que discordamos, pois o fato de Adão ter dado nomes aos seres vivos não o credencia como profeta como entendeu aquele comentarista. O profeta é aquele que se comunica com o homem trazendo mensagem de Deus, decorrência da entrada do pecado no mundo, algo que inocorria com Adão. Além do mais, Dake não inclui Jó como profeta, o que fazemos.

- A atividade profética, como já tivemos ocasião de verificar neste trimestre letivo, iniciou-se com Enoque, o primeiro profeta, o sétimo depois de Adão. Depois de Enoque, temos a figura de Noé, que a Bíblia chama de “pregoeiro da justiça” (II Pe.2:5), sinal de que também transmitiu aos homens a mensagem que recebeu de Deus a respeito da destruição do mundo pelo dilúvio, o que o faz ser um profeta.

- Posteriormente ao dilúvio, temos a figura de Héber ou Éber, bisneto de Sem (Gn.10:22-25), que teria profetizado a respeito da divisão da terra, ou seja, do juízo de Babel, tanto que pôs a seu filho primogênito o nome de “Pelegue”, que significa “divisão”, a demonstrar que, a exemplo de Enoque, também recebera revelação divina concernente ao plano da salvação.

- Depois de Héber, temos a sequência dos patriarcas (Abraão, seu contemporâneo Jó, Isaque, Jacó e José), cuja qualidade de profetas também já discorremos em lição deste trimestre, chegando, então, a Moisés, o profeta-modelo da dispensação da lei, período durante o qual também tivemos os ministérios de Balaão e do próprio Arão, que era “profeta” de Moisés (Ex.4:14-17).

- Moisés, como já estudamos, anunciou a vinda de um outro profeta como ele (Dt.18:15) e, na própria lei, deixou consignado que o Senhor levantaria profetas no meio do povo (Dt.13:1), ainda que não como Moisés, que receberiam mensagens por meios indiretos (Nm.12:6), até a vinda daquele profeta como Moisés. É importante observar que Moisés, embora seja tido como um profeta anterior, escreveu, segundo Dake, 475 versículos de profecias e, no texto sagrado, Moisés escreveu 4.392 versículos mais do que Isaías, prova de que ser “profeta oral” não significa, em absoluto, não ser escritor.

- A atividade profética não cessou, tanto que os judeus consideram que os livros do Antigo Testamento que se seguem ao Pentateuco, os livros que chamamos históricos, fazem parte do “Neviim”, ou seja, “dos profetas”, daí a expressão “a lei e os profetas”, que, inclusive, utilizada por Jesus (Mt.7:12; 22:40; Lc.16:16), que, desta forma, sancionou tal uso.

- Destarte, após Moisés, como Deus havia dito, começou a levantar profetas no meio de Seu povo, a fim de manter a comunicação com Israel, sempre dentro do propósito de manter a observância da lei por parte do povo, como também de revelar progressivamente o Seu plano de salvação não só para Israel mas para toda a humanidade.

- Josué foi, também, um profeta. Além de ter recebido a imposição das mãos de Moisés (Nm.27:18-20; Dt.34:9), gesto que representou a transmissão do ministério profético a ele, pois era o único ministério que Josué poderia exercer, vemos, também, Josué trazendo mensagens do Senhor ao povo (Js.3:9-12; 6:6-10,16-21,26).

- Na época dos juízes, apesar da anarquia política, que também se apresentou como anarquia espiritual, Deus não deixou o povo de Israel sem profetas. Débora é a primeira profetisa mencionada nas Escrituras (Jz.4:4), a demonstrar, uma vez mais, que o ofício profético era o mais “democrático” de todos, que não fazia sequer distinção de sexos (ao contrário dos outros dois ofícios – sacerdote e rei –, circunscritos a homens).

- Débora não somente trouxe a mensagem divina a Baraque relativamente à libertação do povo da opressão sob Jabim, como também foi usada pelo Espírito Santo para falar das consequências relacionadas ao envolvimento das tribos e cidades na luta pela liberdade, no famoso “cântico de Débora” (Jz.5), que nos mostra que o profeta era alguém que era cheio do Espírito Santo.

- Outro profeta que temos nesse período é Gideão, que também transmitiu ao povo de Israel a mensagem divina que recebera e, deste modo, livrou Israel do domínio dos midianitas (Jz.6:34,35). Jotão, o filho menor de Gideão (Jz.9:5), também foi profeta, tendo, inclusive, revelado ao povo o desgosto divino pela escolha de Abimeleque como rei e a tragédia que se abateria sobre Siquém e sobre Abimeleque por causa daquela aliança que desagradara ao Senhor (Jz.9:7-20).

- Entretanto, a anarquia sócio-político-espiritual do período dos juízes fez com que a atividade profética se tornasse rara no meio de Israel, consequência direta de sua corrupção espiritual (I Sm.3:1), tanto que, depois de Jotão, somente teremos notícia de um profeta nos dias de Eli, quando um homem de Deus é levantado pelo Senhor para proferir mensagem de desagrado com o comportamento dos filhos de Eli, Hofni e Fineias, a ponto de anunciar a mudança da linhagem sacerdotal (I Sm.2:27-36).

- Este estado de torpor espiritual, que tornava a atividade profética rara e esporádica, porém, haveria de ser alterado com o levantamento de Samuel, não sendo por outro motivo que seja este o profeta primeiramente mencionado por Pedro no sermão feito após a cura do coxo da Porta Formosa, visto ter sido ele o “restaurador” da profecia em Israel.

II – SAMUEL E A RESTAURAÇÃO DA ATIVIDADE PROFÉTICA EM ISRAEL

- Em At.3:24, o apóstolo Pedro menciona Samuel como o primeiro dos profetas que havia anunciado os dias da dispensação da graça, os dias da consumação da obra salvadora de Cristo no Calvário. Tal expressão do apóstolo pode dar a entender que os profetas que foram levantados antes de Samuel não tinham em conta a salvação da humanidade, o que sabemos não ser correto.

- A expressão do apóstolo mostra-nos que, a partir de Samuel, há uma renovação da atividade profética, que deixa de ser rara e esporádica, para ser uma constante até Malaquias, quando, então, ocorre o “silêncio profético” de aproximadamente 400 (quatrocentos) anos, interrompido com o surgimento de João Batista.

- Samuel é uma personagem importantíssima, pois, a partir de seu chamado como profeta pelo Senhor, ainda na tenra idade, passou ele a se conscientizar da necessidade que tinha o povo de Israel de que fossem criadas condições para que, de forma contínua e ininterrupta, houvesse um grupo de pessoas que se dedicassem a servir ao Senhor e a se dispor a ensinar ao povo a lei.

- Samuel percebeu que o grande drama vivido por Israel era a ausência de uma continuidade na fidelidade ao Senhor, de modo que, geração após geração, havia a corrupção com o envolvimento com a idolatria e a consequente opressão permitida por Deus junto a povos estrangeiros, a fim de que o povo se arrependesse e não se perdesse. Esta tinha sido a sina da época dos juízes, que é tão bem retratada no livro dos Juízes, que a tradição judaica entende ter sido redigido pelo próprio Samuel.

- Por isso, Samuel, após ter livrado os israelitas do domínio dos filisteus (I Sm.7:1-17), Samuel passou a julgar a todo o Israel, de forma itinerante, indo ao encontro do povo e criando a “escola dos profetas” ou “rancho dos profetas”, locais onde passou a reunir aqueles que se dispunham a servir a Deus, seja através do ofício profético a que eram chamados pelo Senhor, seja através do aprendizado e do preparo ao ensino da lei a todo o povo (“os filhos dos profetas”, ou seja, os que aprendiam com os profetas) (I Sm.10:5,10).

- Com Samuel, também, o Senhor começou a mostrar ao povo o Seu plano da salvação de forma mais minudente, revelando que o Messias viria de uma linhagem real, linhagem esta iniciada com Davi. A partir da unção de Davi, profetizada por Samuel oito anos antes de sua realização por ele próprio (I Sm.13:14; 16:13), começa o Senhor a revelar a linhagem familiar do Messias, motivo por que Pedro menciona Samuel em primeiro lugar no rol dos profetas que falavam do Cristo e de Sua obra.

- A partir de Samuel, cujo nome quer dizer “ouvir de Deus” ou “nome de Deus”, Deus passou a ser ouvido e o Seu nome, conhecido de forma praticamente ininterrupta no meio de Israel, sendo revigorada sobremaneira a atividade profética, a “voz de Deus na Terra”, como denominou, de forma muito feliz, nosso ilustre comentarista.

III – OS PROFETAS ORAIS DE SAMUEL A ELIAS

- Com Samuel, a atividade profética passa a ter continuidade e estabilidade. O próprio Saul, escolhido para ser o primeiro rei de Israel, também teve a presença do Espírito Santo e profetizou, a fim de que fosse reconhecido como alguém escolhido efetivamente pelo Senhor para o exercício da função real (I Sm.10:10,11).

- A necessidade de Saul também profetizar para que fosse reconhecido como ungido de Deus mostra-nos como, a partir de Samuel, houve uma renovação da atividade profética e como o povo havia se despertado para a operação do Senhor no meio de Israel (I Sm.3:20,21). Vemos, assim, que a profecia é indispensável para que o povo tenha discernimento espiritual e não seja levado pela corrupção do mundo.

- Quando Davi surge no cenário histórico, já era a condição existente no meio do povo, apesar do desvio espiritual de Saul. Não só Davi logo passou a ser conhecido como profeta do Senhor (cheio do Espírito de Deus, Davi logo começou a profetizar, mesmo antes de subir ao trono, como testemunham diversos salmos por ele proferidos bem antes de sua ascensão ao reinado), como também é mostrado que, mesmo durante o reinado de Saul, funcionava em Ramá, a todo vapor, a “escola de profetas” (I Sm.19:20). Não se deve esquecer que, quando Davi se encontrava na caverna de Adulão, a ele se uniu o profeta Gade (I Sm.22:5).

- No reinado de Davi, além do próprio rei, temos profetas que exerceram grande influência no governo, pois agiam como conselheiros do próprio Davi, a saber, o próprio Gade, que já acompanhava Davi desde os tempos cruéis da perseguição de Saul, mas que, nem por isso, deixou de trazer dura mensagem ao rei por causa do episódio da numeração indevida do povo como também Natã, que, inclusive, trouxe a dura mensagem contra o próprio Davi por causa do caso da mulher de Urias, tendo, sido, também, o portador da revelação de que o Messias seria da casa de Davi. Gade e Natã, aliás, assim como Samuel, também redigiram textos das Escrituras, que contam precisamente o período dos reinados de Saul e de Davi (I Cr.29:29).

- Ainda nos dias de Davi, Deus levantou outros profetas, que tiveram grande participação na organização do culto ao Senhor no templo que seria erguido por Salomão, a saber: o sumo sacerdote Zadoque (II Sm.15:27) — o primeiro da nova linhagem sacerdotal que substituiu a que pertencia Eli (I Rs.1:26,27); Hemã (I Cr.25:5; II Cr.35:15) e seus filhos (I Cr.25:1); Asafe (I Cr.25:2; II Cr.29:30) e seus filhos (I Cr.25:1); Jedutum (I Cr.25:3; II Cr.35:15) e seus filhos (I Cr.25:1).

- Estes profetas músicos e instrumentistas também redigiram salmos. Asafe foi o autor de 12 salmos (Sl.50, 73-83), Hemã de um (Sl.88) e Jedutum, também de um(é apontado como co-autor do Sl.77) . A presença destes profetas, exatamente no instante em que se construía o serviço de louvor no templo, é um indicador de que não há possibilidade alguma de um real louvor a Deus sem a presença do Espírito Santo entre os que louvam, sejam com suas vozes, seja com seus instrumentos.
- No reinado de Salomão, também os profetas estiveram presentes. O próprio Salomão é, também, um profeta, já que o Senhor lhe transmitiu mensagens por intermédio de sonhos (I Rs.3:5-14; 9:3-8; II Cr.1:7-12; 7:12-22), como a própria perda do reino por conta de sua desobediência (I Rs.11:11-13).

- Como consequência até da infidelidade de Salomão, o Senhor levantou outro profeta no meio do povo durante o reinado deste, a saber, Aías ( I Rs.11:29-39), que foi o profeta escolhido pelo Senhor para dar conhecimento a Jeroboão da sua escolha como rei de Israel. Aías, aliás, seria o mesmo instrumento divino para anunciar a Jeroboão a ruína de sua casa por conta de seu pecado de idolatria (I Rs.14:5-16).

- Havia outros profetas nos dias de Salomão, como é o caso do “profeta velho”, que, certamente, iniciou seu ministério ainda nos dias da monarquia unida mas que, a exemplo tanto de Salomão e de Jeroboão, desviou-se dos caminhos do Senhor. Este “profeta velho” acabou por levar à desobediência o “homem de Deus”, um profeta levantado pelo Senhor precisamente para trazer a Jeroboão a mensagem de desagrado com a fabricação dos bezerros de ouro e a instituição do seu culto em substituição ao culto ao Senhor nas dez tribos de Israel, bem como que tal culto haveria de ser destruído por um descendente da casa de Davi que se chamaria Josias (I Rs.13).

- Também desta época é o profeta Semaías, que foi usado por Deus para repreender a Roboão e impedir que este tentasse, pela força militar, subjugar as dez tribos que haviam escolhido Jeroboão como rei (I Rs.12:22-24; II Cr.11:1-4).

- Percebemos, pois, que, já neste momento histórico de Israel, os profetas surgiam para repreender tanto o rei como o povo pelos seus desvios espirituais. A partir da idolatria de Salomão, não temos mais a presença de profetas palacianos, amigos dos reis, mas, bem ao contrário, pessoas levantadas para apontar os erros e desatinos do governo e da sociedade.

- Por isso mesmo, os sociólogos da religião desenvolveram teorias e teses a respeito do profetismo, considerando-o como uma “força moralizadora”, um instrumento de renovação e de questionamento das injustiças e das mazelas da sociedade, não raro um “fator revolucionário”. O “profeta”, segundo este ponto de vista, é diferente seja do “mago”, que tenta tão somente canalizar as forças sobrenaturais em favor dos indivíduos, sem qualquer noção de mudança ou transformação social, como do “sacerdote”, este sempre comprometido com a ordem vigente e que não tem outro papel senão a defesa e perpetuação do “statu quo ante”.
OBS: “…O profeta não foi um descendente ou um representante das classes mais baixas. O contrário, como temos visto, foi quase sempre a regra. Também o contexto da doutrina do profeta não se derivou preponderantemente do horizonte intelectual das classes mais baixas. Entretanto, como uma regra, os oprimidos ou, pelo menos, aqueles ameaçados pela aflição, tinham a necessidade de um redentor e profeta; os afortunados, os que tinham posses, a classe dominante não tinha tal necessidade. Consequentemente, na grande maioria dos casos, a religião da salvação anunciada profeticamente tinha seu local permanente wentre os menos favorecidos. Entre eles, esta religiosidade era o substituto, ou um suplemento racional, para a magia.…” (WEBER, Max. Sociologia das religiões mundiais. Disponível em: http://www.ne.jp/asahi/moriyuki/abukuma/weber/world/intro/world_intro_frame.html Acesso em 17 jul. 2010) (tradução nossa de texto em inglês).
“…O profeta é o intermediário e o anunciador das mudanças sociais (Bourdieu). O papel do profeta é atrair e mobilizar pelo poder do seu discurso um grupo de pessoas, para assim, canalizar a força deste grupo na estrutura social nova que ele deseja fornecer. O profeta traz o gênese de uma nova ética e uns profundos sensos cosmológicos decorrente da sua visão, que pretende sistematizar em regras de estrutura os seus interesses. O profeta na sua relação com os leigos é compreendida na força política que ele possui para satisfazer as necessidades dos grupos sociais de quem ele é o seu representante. Sendo ele um homem com a mensagem-salvação (Alexandre Carneiro), pode dispensar o aparato ritualístico do sacerdote e apenas pela sua palavra ser um construtor e portador dos bens de salvação. Todavia, é bom lembrar que para Weber, o profeta se envolver na política, mas apenas como um meio para se atingir um fim, isto é, o fundamento do poder do profeta reside em seu carisma não em uma delegação de interesses do grupo que ele representa. O profeta constitui o exemplo típico-ideal de um agente social de inovação e mudança. O papel principal do profeta é sistematizar e ordenar todas as manifestações da vida, de coordenar todas as ações humanas através de um estilo de vida, no qual ele mesmo, é seu modelo ideal. Uma vez tendo o profeta, estruturado doutrinamento seus pensamentos, aqueles grupos de adeptos leigos podem vir a se transformar em uma congregação, e devido às exigências cotidianas do grupo, o profeta acaba tendo que preparar um corpo de auxiliares seus, do seu círculo mais íntimo, para poder assim atender as demandas desta incorporação. A congregação formada pelo profeta que agora corre o risco de se transformar em sacerdote, lhe assiste com dinheiro, serviços, alimentação e etc... Em troca da esperança de salvação e de ter sempre ao seu dispor uma mensagem de revelação, proteção e garantias que sua conduta, segundo o profeta, esta em consonância com a vontade a vontade divina.…” (EMANUEL, George. O profeta e o sacerdote em termos sociológicos. Disponível em : http://www.webartigos.com/articles/13131/1/O-Profeta-e-o-Sacerdote-em-Termos-Sociologicos/pagina1.html#ixzz0twykrtNT Acesso em 17 jul,. 2010).

- Esta situação perdurou na sequência dos reinos tanto de Israel quanto de Judá. Deus levanta, em Israel, ao profeta Jeú (não confundir com o rei de mesmo nome, que é posterior), o qual também mostra o desagrado divino com o rei Baasa, que manteve o pecado de Jeroboão, anunciando a derrocada de sua dinastia à frente das dez tribos (I Rs.16:1-4,12). Aliás, este mesmo profeta também profetizou contra Josafá, repreendendo-o por causa de sua aliança com Acabe (II Cr.19:1-3).

- Em Judá, não foi diferente, pois, se no reinado de Asa, o terceiro rei de Judá, Deus levantara a Azarias, com uma mensagem de exortação, que foi prontamente seguida pelo rei e pelo povo, com grandes benefícios aos judaítas (II Cr.15:1-7), posteriormente o mesmo Asa foi repreendido pelo profeta Hanani por causa de sua aliança com o rei da Síria (II Cr.16:7-9), tendo o rei, desta feita, recusado a mensagem e, inclusive, mandado prender e maltratar o profeta, que foi a razão da enfermidade e morte do rei (II Cr.16:10-13).


IV – ELIAS, ELISEU E OUTROS PROFETAS A ELES CONTEMPORÂNEOS

- Este mal-estar entre reis e profetas fez com que passassem a surgir “falsos profetas”, profetas “fabricados” pelos próprios reis e sacerdotes, a fim de trazerem mensagem aduladoras aos monarcas e de levar o povo a seguir os governantes por conta destas “profetadas”. A casa de Onri, a terceira dinastia real de Israel (I Rs.17:21,22), permitiu a proliferação desta gente, que andava “pari passu” com os profetas de Baal e de Asera, que haviam sido trazidos por Jezabel, mulher de Acabe, filho de Onri e segundo rei daquela dinastia (I Rs.16:29-31).

- Nesta situação de grande calamidade espiritual, Deus levantou um grande profeta, Elias, o tisbita, dos moradores de Gileade (I Rs.17:1), que surge do “nada”, sem qualquer procedência conhecida, mas que veio ser o “perturbador de Israel”, a voz de Deus para denunciar e exigir do povo uma postura diante da apostasia e da idolatria reinantes no governo de Acabe e de Jezabel.

- Elias notabiliza-se pela ação do poder de Deus em seu ministério. Embora não fosse o profeta “como Moisés”, já que Deus lhe falava por meios indiretos, Elias surge como um profeta de sinais e prodígios, o que não ocorria desde os dias de Josué.

- Surgido do “nada”, Elias afronta toda a estrutura idolátrica instituída por Acabe e por Jezabel, iniciando seu ministério com o anúncio de que não haveria mais chuva sobre a terra de Israel ( I Rs.17:1), a mostrar que seu ministério era voltado a desafiar e afrontar o culto a Baal, tido como o deus da fertilidade e, como tal, o controlador das colheitas e, por conseguinte, o responsável pela concessão de chuvas. Não é desarrazoado, porém, entender que Elias pertenceu a alguma “escola de profetas”, diante do seu relacionamento com elas (II Rs.2:2, 4)

- Durante três anos e seis meses (Tg.5:17), não choveu sobre Israel, conforme havia dito o profeta, tendo voltado a chover só depois de o mesmo profeta ter pedido a Deus que chovesse, o que se deu somente após o desafio lançado por ele contra os profetas de Baal e Asera, que ele próprio matou ao fio da espada, depois de Deus ter respondido com fogo do céu à sua oração no monte Carmelo.

- Elias realizou sete milagres, a saber:
a) três anos e seis meses de seca por causa de sua palavra (I Rs.17:1)
b) multiplicação do azeite e da farinha na panela da viúva de Zarefate (I Rs.17:18-16)
c) ressurreição do filho da viúva de Zarefate (I Rs.17:17-24)
d) descida de fogo do céu em resposta à sua oração (I Rs.18:30-40)
e) chuva depois de três anos e seis meses de seca por causa de sua oração (I Rs.18:41-45)
f) descida de fogo do céu para matar os soldados que vinham lhe prender (II Rs.1:9-12)
g) travessia a seco pelo rio Jordão (II Rs.2:7,8).

- Além de ter feito milagres, Elias, ainda, presenciou e vivenciou fatos sobrenaturais em sua vida, como ser alimentado por corvos (I Rs.17:3-6), por um anjo, adquirindo força sobrenatural por 40 dias (I Rs.19:5-8), sem se falar na manifestação divina para ele quando estava na caverna (I Rs.19:9-18) e, por fim, a sua trasladação ao céu sem experimentar a morte física (II Rs.2:11).

- Elias apresenta-se, assim, como um profeta modelar, tanto que para representar os profetas foi o escolhido para, ao lado de Moisés (que representava a lei), surgir no monte da Transfiguração (Mt.17:1-9; Mc.9:1-9; Lc.9:28-36).

- Durante o ministério de Elias, surgiram outros profetas no reino do norte, pois, como o Senhor disse a Elias, ao contrário do que ele pensava, não era ele o único a servir a Deus naqueles dias tão difíceis. Micaías, que também profetizava contra Acabe, era um deles (I Rs.18:7-27), que, inclusive, profetizou a morte de Acabe e a derrota de Israel diante dos siros.

- Como já dissemos, nos dias de Elias ainda existiam as “escolas de profetas” criadas por Samuel, instituição que demonstrou todo seu vigor neste período tão difícil da história israelita, tanto que é dito que Jezabel matou profetas do Senhor, mas Obadias conseguiu preservar 100 (cem) deles, que por ele foram sustentados durante o período da seca (I Rs.18:13).

- As Escrituras relatam que um profeta, nesses dias, foi até Acabe e profetizou a vitória do rei sobre os siros por meio dos moços das províncias (I Rs.20:13,14), que também disse ao rei Acabe que os siros voltariam um ano depois (I Rs.20:22), profetizando, inclusive, nova vitória de Acabe (I Rs.20:28).

- Outro profeta é mencionado que pediu para que um companheiro seu o ferisse e, diante da recusa deste seu companheiro, profetizou que um leão o mataria, o que efetivamente ocorreu (I Rs.20:35,36). Este profeta, então, pediu que outrem o ferisse, o que foi feito e foi até Acabe, repreendendo-o por ter deixado o rei da Síria voltar em paz para sua terra após a vitória militar que havia sido profetizada (I Rs.20:38-43).

- Elias, também, foi usado por Deus para desvendar a trama que envolveu a ilícita conquista da vinha de Nabote por Acabe, como também profetizou o terrível fim que Deus daria tanto a Acabe, quanto a Jezabel e a sua descendência (I Rs.21:17-26), como também a mensagem divina a Acabe de que tudo se sucederia depois de sua morte, ante o seu arrependimento diante da mensagem precedente do profeta (I Rs.21:29). Isto nos mostra, claramente, que os profetas não eram inimigos dos governantes, mas, apenas, mensageiros de Deus.

- Numa verdadeira antecipação do que estava para vir no ministério profético em Israel, Elias foi um “precursor dos profetas escritores”, pois deixou escrita uma profecia a respeito do rei Jeorão, filho de Josafá, que foi tornada conhecida depois da trasladação de Elias ao céu, onde o profeta anuncia o trágico fim daquele rei de Judá, que se dedicara à idolatria, seguindo o exemplo de sua mãe Atalia e de sua avó Jezabel (II Cr.21:12-15).

- Eliseu, o sucessor de Elias, é outro grande nome entre os “profetas orais”. Escolhido por Deus, tudo deixou para seguir Elias e, com ele, iniciar o necessário e indispensável aprendizado para substituí-lo. Seu pedido, antes de o seu antecessor ser tomado de diante dele, foi que tivesse “porção dobrada” do espírito de Elias, o que lhe foi concedido porque viu o instante em que Elias foi arrebatado ao céu (II Rs.2:9-12). Notemos que o que se concedeu a Eliseu foi o dobro de operações divinas por seu intermédio.

- Efetivamente, se Elias fez sete milagres, Eliseu realizou quatorze milagres, um dos quais depois de sua morte, a fim de se cumprir o que lhe havia sido prometido, em mais uma demonstração de que as promessas de Deus independem da nossa sobrevivência sobre a face da Terra.

- Eis os quatorze milagres de Eliseu:
a) a travessia a seco pelo rio Jordão (II RS.2:13-15)
b) a purificação das águas (II Rs.2:19-22)
c) a morte dos que o insultavam diante de sua maldição (II Rs.2:23-25)
d) a cheia das cisternas no deserto sem que houvesse chuva (II Rs.2:17-20)
e) a multiplicação do azeite na botija na casa da viúva de um dos filhos dos profetas (II Rs.4:2-7)
f) a abertura da madre sunamita (II Rs.4:14-17)
g) a ressurreição do filho da sunamita (II Rs.4:23-37)
h) a retirada da morte que havia na panela (II Rs.4:28-41)
i) a multiplicação dos pães para alimentar cem homens (II Rs.4:42-44)
j) a cura da lepra de Naamã (II Rs.5:1-14)
k) a imposição da lepra de Naamã a Geazi (II Rs.5:25-27)
l) a flutuação do machado que caíra n a água (II Rs.6:1-7)
m) a imposição de cegueira ao exército da Síria, levando-os até Samaria (II Rs.6:18,19)
n) a ressurreição de um homem jogado no sepulcro de Eliseu e que tocou seus ossos (II Rs.13:21).

- Um dos filhos dos profetas, chamado de jovem profeta, foi incumbido por Eliseu de ungir a Jeú como rei de Israel e, ao ungi-lo, repetiu a profecia de Elias a respeito da casa de Acabe e de Jezabel (II Rs.9:1-10), motivo pelo qual é dito nas Escrituras que Elias ungiria a Jeú (I Rs.19:15,16), pois, na verdade, não o fez fisicamente, mas, no ato da unção, foi reafirmada a mensagem que Elias havia proferido a respeito da casa de Acabe. Aliás, o próprio Eliseu havia anunciado que Hazael reinaria sobre a Síria, mensagem que deu também em cumprimento ao que Deus havia dito por intermédio de Elias (II Rs.8:7-13).

-Em Judá, nos dias de Elias e de Eliseu, a atividade profética prosseguiu, máxime no reinado de Josafá, um rei fiel ao Senhor. Deus usou Jaaziel para profetizar e dar a estratégia para a vitória sobre os inimigos que haviam ameaçado invadir o país (II Cr.20:14-17), mas também Eliezer para repreender Josafá por causa da sua aliança com Acazias, rei de Israel, inclusive profetizando o naufrágio dos navios construídos para ir a Társis (II Rs.20:37)

V – PROFETAS ORAIS POSTERIORES A ELISEU

- Jeú destruiu o culto organizado de Baal e Asera que havia sido instituído por Jezabel e, assim, Israel se livrou do risco de se tornar uma “nação de Baal”, embora, lamentavelmente, não se livrasse do “pecado de Jeroboão”, que foi mantido por Jeú, motivo por que o Senhor disse a Jeú (muito provavelmente por meio de um profeta) que a sua dinastia duraria somente até a quarta geração (II Rs.10:30).

- Deve-se, também, observar que Eliseu, já doente da doença de que iria morrer (numa prova bíblica de que pessoas fiéis a Deus não são imunes à doença como defende a falsa teologia da confissão positiva), ainda profetizouao rei Jeoás, filho de Jeú, dizendo-lhe que, por três vezes, venceria o rei da Síria, mas não o destruiria por falta de fé (II Rs.13:14-19).

- Em Judá, após a dura repreensão que Jeú, filho de Hanani (não confundir com o rei Jeú) havia dado a Josafá, como já dissemos, um escrito do profeta Elias chega a conhecimento de Jeorão, que sucedera a Josafá, dando-lhe notícia de seu trágico fim. Judá também sofreria com o culto a Baal e Asera trazidos por Jezabel, pois Josafá havia se casado com Atalia, filha de Acabe, que, inclusive, subiria ao trono, depois das mortes de seus dois filhos, Jeorão e Acazias (II Rs.11:1-3).

- O sumo sacerdote Jeoiada foi usado por Deus para restaurar o culto ao Senhor e para exterminar a casa de Acabe e o culto a Baal em Judá, tendo entronizado a Joás, o único filho de Josafá que havia sobrevivido à matança efetuada por Atalia. Durante os dias de Jeoiada, Joás serviu ao Senhor e, por isso, profetas não se levantaram. No entanto, após a morte do sumo sacerdote, Joás se desviou e Deus começou a levantar profetas para exortar o rei e o povo (II Cr.24:19), em especial a Zacarias, filho de Jeoiada, que, por ter profetizado contra o rei, foi morto no pátio da casa do Senhor (II Cr.24:20-22), sendo o o último relato de uma morte por causa do nome do Senhor no Antigo Testamento, na ordem estabelecida no cânon judaico, motivo por que é ele mencionado como o rastro final da “linha de sangue de martírio” mencionada por Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (Mt.23:35).

- Nota-se, pois, uma acelerada apostasia por parte tanto de Israel quanto de Judá, o que tornou necessária a redução a escrito das mensagens proféticas, para que fossem conhecidas das gerações vindouras, diante do estado de calamidade espiritual que se começava a viver e que levaria, primeiro o reino de Israel e, depois, o reino de Judá, à perda da Terra e, no caso do reino de Israel, à própria destruição como nação.

- Assim, já no reinado de Jeroboão II, o terceiro rei da casa de Jeú, vemos a atuação de “profetas literários”, a começar por Jonas, filho de outro profeta, Amitai, que havia profetizado, em profecia que não foi reduzida a escrito (prova de que estamos diante de um período de transição), a respeito do restabelecimento das fronteiras de Israel por parte desse rei (II Rs.14:25). Jonas teria iniciado seu ministério assim que Eliseu encerrou o seu e a tradição judaica entende que Jonas seja o filho da viúva de Zarefate que Elias teria ressuscitado.

- Depois de Jeroboão II, a situação espiritual piora sobremaneira. A casa de Jeú é substituída por uma sequência de reis que não são constituídos pela vontade do Senhor (Os.8:4), grassando também a injustiça e a corrupção, tudo relatado pelos “profetas literários” que são levantados nesse tempo: Jonas, Oseias, Joel, Amós, Miqueias, Naum e Obadias.

- Em Judá, um profeta se levantou nos dias do rei Amazias, filho de Joás, que o exortou a não lutar juntamente com o exército de Israel, diante da rejeição divina às dez tribos, tendo o rei atendido a esta exortação e sido bem sucedido por conta disto (II Cr.25:7-13).

- Entretanto, Amazias também se desviou dos caminhos do Senhor, tendo, então, sido morto e substituído por seu filho Uzias. A partir de Uzias, também Judá passa a ter “profetas literários”, como Isaías, que era da corte de Uzias, provavelmente seu parente e Miqueias. Nesse tempo, o reino de Israel é destruído e passamos a ter profetas apenas no reino de Judá.

- Em Judá, durante o período dos “profetas literários” (aos dois já mencionados acresça-se Jeremias, Habacuque e Sofonias), existiram também “profetas orais”, como a profetisa Hulda, que teve o auge de seu ministério no reinado de Josias (II Cr.34:22-28), que profetizou o cativeiro da Babilônia e a morte de Josias antes que isso acontecesse e os profetas Jigdalias e Urias, ambos mencionados como contemporâneos de Jeremias (Jr.35:4 e 26:20,21 respectivamente).

- A coexistência entre “profetas literários” e “profetas orais” pode ser explicada pelo fato de que Deus tinha muito interesse em que o povo se arrependesse de seus pecados (Jr.25:4-7), sendo certo que, em virtude da situação de apostasia vivida pelo povo judaíta, havia uma proliferação de falsos profetas nos dias finais do reino de Judá.

- Com o cativeiro, porém, não há notícia de que tenha havido “profetas orais” no meio do povo. Os profetas no cativeiro e após ele são todos “profetas literários” (Daniel, Ezequiel, Ageu, Zacarias e Malaquias). Somente com João Batista, após o “silêncio profético”, teríamos, novamente, um “profeta oral”, aquele que, aliás, seria o maior de todos os profetas do Antigo Pacto.- Lembremos, por fim, que o próprio Senhor Jesus foi um “profeta oral”, vez que nada escreveu.
Caramuru Afonso Francisco

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

O MINISTÉRIO APOSTÓLICO




Texto áureo
“Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina.” (Ef.2:20).

INTRODUÇÃO

- Ainda a título de complementação dos estudos que temos tido sobre a Segunda Carta de Paulo aos Coríntios, faremos um breve estudo a respeito do ministério apostólico, questão oportuna já que têm surgido, no meio evangélico, inúmeros “apóstolos”, tendo sido esta epístola uma defesa que Paulo fez de seu apostolado à igreja em Corinto.

- Ao verificarmos o que a Bíblia fala sobre os apóstolos, bem como as características do apostolado, mediante a defesa que Paulo faz em II Coríntios, percebemos nitidamente que o ministério apostólico ficou restrito aos doze escolhidos pelo Senhor Jesus e que os “apóstolos do século XXI”, mesmo que o ministério apostólico tivesse perdurado até os dias de hoje (o que não parece ser o caso na melhor interpretação bíblica), não passariam dos “falsos apóstolos” mencionados pelo próprio Cristo em Ap.2:2.

I – OS SIGNIFICADOS DA PALAVRA “APÓSTOLO”

- Muito se tem discutido a respeito da existência, ou não, na Igreja, em nossos dias, do “ministério apostólico”. A Igreja teria, ainda hoje, “apóstolos”? Afinal de contas, Paulo, ao escrever aos efésios, disse que o Senhor Jesus daria “uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e doutores” (Ef.4:11), ou seja, haveria cinco dons ministeriais na Igreja, um dos quais o de “apóstolo”.

- Com base nesta passagem bíblica, notadamente nos últimos anos, muitos líderes ditos evangélicos têm se intitulado “apóstolos”, querendo, com isso, afirmar que estão à frente dos demais ministros de seu movimento, de sua denominação, que são, em nível hierárquico inferior, “bispos” ou “pastores”. Mesmo nas Assembleias de Deus já começaram a surgir alguns “apóstolos”, ainda que, por enquanto, em igrejas que, por terem assim agido, acabaram se desligando das principais convenções. Haveria base bíblica para isto? Há, na atualidade, o dom de “apóstolo”?
- Esta questão, que tem sido suscitada com frequência em nosso meio, é oportuna no instante em que estamos a estudar a segunda carta de Paulo aos coríntios, em que Paulo defende, diante da igreja em Corinto, exatamente a sua condição de “apóstolo”, que era a principal crítica que se lhe faziam os judaizantes, que não aceitavam o apostolado do ex-perseguidor da Igreja. Nada melhor, pois, quando estamos a estudar a defesa que Paulo faz de seu apostolado junto aos crentes de Corinto, que venhamos a discutir esta problemática a respeito da existência, ou não, de apóstolos na Igreja dos dias atuais.

- Por primeiro, devemos lembrar que a palavra “apóstolo” é uma palavra grega, que já existia quando do início da história da Igreja. Quase todas as questões surgidas atualmente a respeito de títulos, funções e dons ministeriais no meio evangélico partem de premissas que desconsideram a realidade de que, com a vinda de Cristo e o início da dispensação da graça, algumas palavras adquiriram novos significados, significados específicos decorrentes da instalação da nova aliança, sem que, no entanto, na própria redação do Novo Testamento, não tenham sido utilizadas em seus significados primitivos, alheios às instituições surgidas com o aparecimento da Igreja.

- Um exemplo disso é a palavra “diácono” (διάκονος), cujo significado em grego é “servo”, “servidor” e que, após a questão surgida na igreja de Jerusalém no tocante à assistência às viúvas, passou a designar um oficial da igreja encarregado de servir as mesas (At.6:1-6). Assim, muitas vezes, no texto grego do Novo Testamento, aparece a palavra “diácono”, mas no seu significado original, de “servidor”, de “pessoa que presta serviços” (significado muito semelhante ao de “servente” em “servente de pedreiro”, que usamos em português), que nada tem que ver com a função criada após este problema na igreja de Jerusalém. Assim, quando se diz que Febe era “diaconisa”, como se vê em Rm.16:1, em algumas versões, em absoluto se quer dizer que Febe havia sido separada para o “diaconato” como aqueles sete varões em Jerusalém, mas apenas se diz que ela era uma mulher prestativa, que “servia” os irmãos, que lhes prestava serviços (hospedagem, fornecimento de alimentação, cuidados diversos etc. etc. etc.), não havendo base alguma para, a partir daí, dizer-se que mulheres podem exercer o “diaconato”, máxime diante de textos como At.6:3 e I Tm.3:12, que indicam que tal função é privativa dos homens.

- Mas, voltando à questão do “apostolado”, temos aqui a mesma situação. A palavra “apóstolo”(απόστολος) significa “delegado”, “enviado”, “despachado”, vindo do verbo “apostello” (αποστέλλω), cujo significado é “enviar”, “despachar”. Assim, “apóstolo” é um “enviado”, alguém que é mandado para fazer algo para outrem. Neste sentido, aliás, é que se disse que o Senhor Jesus deve ser considerado como “o apóstolo e sumo sacerdote da nossa confissão” (Hb.3:1), ou seja, como o “enviado” do Pai à humanidade para a salvação (Mc.9:37; Mc.12:6; Lc.4:18; Jo.3:17; 4:34; 5:23,37; 6:38).

- Quando Jesus iniciou o Seu ministério terreno, começou a chamar aqueles que deveriam acompanhá-l’O (Mc.4:13). Dentre estes homens que foram chamados por Ele e que passaram a segui-l’O para serem “pescadores de homens” (Mt.4:19), Jesus escolheu doze “para que estivessem com Ele, e os mandasse a pregar, e para que tivessem poder de curar as enfermidades e expulsar os demônios” (Mc.3:14,15). Estes doze homens foram, pois, escolhidos para um trabalho específico, para que fossem enviados e pregassem às ovelhas perdidas de Israel, já que, no exíguo tempo que Jesus tinha, não poderia Ele pessoalmente, ir a toda a extensão da Palestina judaica (Mc.6:7). Estes doze foram “enviados” por Jesus para este trabalho e, por isso, passaram a ser chamados de “apóstolos”, ou seja, “enviados”.

- Os “apóstolos”, portanto, eram, dentre os discípulos de Jesus, aqueles que passaram a participar de um grupo seleto, mais próximo do Senhor, que foram “enviados”, num primeiro instante, para pregar aos israelitas e, desta maneira, fazer com que o trabalho de Jesus se estendesse a todo o Israel, como também fossem preparados para liderar a Igreja quando terminasse o ministério terreno de Jesus (Mc.10:32; Lc.8:1; 18:31; 22:14; Jo.6:70).

- Desta maneira, a palavra “apóstolo”, que tinha o significado de “enviado”, passou a designar aqueles doze homens que, tendo sido enviados durante o ministério terreno de Jesus para completar-Lhe a obra da evangelização a todo o Israel, também haviam sido escolhidos por Jesus para continuar-lhe a obra, liderando a Igreja nos primeiros dias.

- Esta condição foi plenamente compreendida pelos apóstolos após a ressurreição de Jesus. O Senhor, em Suas aparições, completando todo o ensino dos anos de Seu ministério terreno, falou-lhes a respeito do reino de Deus (At.1:3), mostrando-lhes que, como apóstolos, deveriam eles, que haviam testemunhado o cumprimento das Escrituras a respeito da morte e ressurreição de Cristo, pregar em Seu nome o arrependimento e a remissão dos pecados em todas as nações, começando por Jerusalém (Lc.24:44-48) e que, para realizar esta obra, deveriam eles aguardar o revestimento de poder (Lc.24:49).

- Tanto assim é que, enquanto aguardavam tal revestimento de poder, os onze apóstolos sentiram a necessidade de completar o número de doze, que estava incompleto após a traição e suicídio de Judas Iscariotes, pois sabiam eles que o número de apóstolos tinha de ser doze, já que este havia sido o número escolhido pelo próprio Jesus, até porque aos apóstolos está reservado o julgamento das tribos de Israel durante o reino milenial (Mt.19:28; Lc.22:30).

- Por isso, resolveram escolher um novo apóstolo, que ocupasse o lugar deixado por Judas Iscariotes, tendo, então, demonstrado toda a sua consciência do que era ser um “apóstolo”, ao apontar como requisitos do apostolado que se fosse “um varão que convivera com os demais apóstolos todo o tempo em que o Senhor Jesus entrou e saiu dentre eles, começando desde o batismo de João até o dia em que dentre eles foi recebido em cima, para que se fizesse testemunha de Sua ressurreição” (At.1:22).

- Ante estas exigências, que confirmavam que o apostolado era algo peculiar e referente ao “envio” de Jesus durante o Seu ministério terreno, apenas dois candidatos se apresentaram naqueles quase cento e vinte discípulos, tendo sido lançadas sortes entre José Barsabás e Matias, sortes que foram favoráveis a este último que, a partir daquele momento, passou a ser contado com os onze apóstolos, “por voto comum” (At.1:26).

- Este gesto dos apóstolos que levou à escolha de Matias, além de ter o mérito de nos dizer o que é ser “apóstolo”, também nos mostra que não houve, neste episódio, a intervenção divina que confirmasse esta substituição de Judas por Matias. Na verdade, a expressão de Lucas, que diz que “Matias foi contado por voto comum com os onze apóstolos”, por ser um texto inspirado pelo Espírito Santo, mostra-nos claramente que, para o Senhor Jesus, Matias não era apóstolo, embora tivesse passado a ser assim considerado, visto que o “voto comum” dos demais apóstolos não tem o mesmo valor da chamada feita pelo próprio Senhor Jesus, como já vimos antes.

- Muito pelo contrário, na sequência da história da Igreja, veremos que é a Paulo que se terá esta chamada para o lugar de Judas Iscariotes. Com efeito, Paulo é o único, com exceção de João (que era um dos doze) a quem o Senhor Jesus aparece pessoalmente depois de Sua ascensão, no caminho de Damasco (At.9:4-6), como também o único que revela ter tido experiências pessoais diretas com o Senhor Jesus (I Co.11:23), expressão esta, aliás, o que é assaz elucidativo, que foi utilizada com respeito à ceia do Senhor, uma reunião que Jesus teve tão somente com os doze (Mt.26:20; Lc.22:14).

- Na sequência da conversão de Paulo, vemos que o Senhor Jesus falou em visão a Ananias que Paulo era para Ele “um vaso escolhido para levar o Seu nome diante dos gentios, e dos reis, e dos filhos de Israel” (At.9:15), atestando, assim, que Paulo era “enviado” do Senhor notadamente para os gentios, motivo pelo qual diria que a ele havia sido confiado o “evangelho da incircuncisão” (Gl.2:7). Tinha-se mais uma demonstração de que Paulo assumia uma condição singular dentre os demais discípulos, verdadeiramente ocupando o lugar deixado por Judas Iscariotes.

- Não é por outro motivo que Paulo passa a se intitular “apóstolo”, sempre reafirmando que isto não era consequência de sua vaidade ou presunção, mas a pura e cristalina vontade de Deus (I Co.1:1; II Co.1:1; Ef.1:1; Cl.1:1; II Tm.1:1). Ele fora “enviado” pessoalmente pelo Senhor Jesus e, mediante experiências pessoais retroativas, havia se tornado testemunha do ministério terreno de Jesus, tanto que chegou, mesmo, a mencionar um ensino de Cristo que nenhum dos evangelistas registrou (At.20:35). É, por isso até que Paulo se intitula um “apóstolo abortivo”, ou seja, como um “apóstolo nascido fora de época” (este é o sentido da palavra grega “ektroma” – εκτρωμα — utilizada no texto), alguém que, depois dos acontecimentos autorizadores da escolha de alguém como apóstolo, faz-se participantes dele.

- Os judaizantes questionavam o “apostolado” de Paulo precisamente porque Paulo não acompanhara o ministério terreno de Jesus e por se voltar para a pregação do Evangelho aos gentios, não impondo aos convertidos a observância da lei de Moisés, o que atestaria, segundo eles, a “falsidade” de seu ministério apostólico, pois nada disso era feito ou realizado pelos outros onze (ou doze, já que, certamente, os judaizantes consideravam válida a substituição de Judas por Matias).

- No entanto, como temos visto em II Coríntios, Paulo mostra que seu ministério nada tinha de inferior em relação aos demais apóstolos, sendo certo que a participação, ainda que a fora de época, do ministério terreno de Cristo e a sua condição peculiar de ser testemunha da ressurreição do Senhor superavam todos os óbices apresentados para o reconhecimento de seu apostolado, ainda mais diante da demonstração de Espírito e de poder que haviam caracterizado sua passagem por Corinto e por todos os lugares onde estava a implantar igrejas.

- Ser “apóstolo”, pois, no contexto da Igreja, era ter sido testemunha do ministério terreno de Cristo, desde Seu batismo por João até a Sua ascensão aos céus e, ante este testemunho do cumprimento das Escrituras a respeito do Cristo, pregar o arrependimento e remissão dos pecados em todas as nações, começando por Jerusalém, cuidando do ministério da palavra e da oração (At.6:2,4), completando a construção da estrutura da Igreja que estava sendo edificada pelo Senhor Jesus (Mt.16:18).

II – O DOM MINISTERIAL DE APÓSTOLO

- Desde quando nomeou os doze para pregar às ovelhas perdidas da casa de Israel (Mt.10), o Senhor Jesus deixou claro que o trabalho dos apóstolos era complementar a Sua obra ministerial que Ele, feito pouco menor do que os anjos, tornado homem (Hb.2:9), não poderia realizar sozinho, diante do tempo que Lhe fora destinado e da própria necessidade de ensinar aos discípulos de que a obra haveria de ser feita coletivamente. A Igreja é o “corpo de Cristo” (I Co.10:16) e todos devemos trabalhar conjuntamente para que a obra de evangelização se realize.

- Mas, além de ser o “corpo de Cristo”, de que Jesus é a cabeça, além de ser o Salvador do corpo (Ef.5:23), a Igreja também é o “edifício de Deus” (I Co.3:9) e, como todo edifício, tem de ter um alicerce, um fundamento, uma base para que se construísse. É interessante observar que, quando Jesus revelou o mistério da Igreja, que estava oculto desde os séculos (Ef.3:5-10), disse que haveria de edificar a Igreja (Mt.16:18), ou seja, a Igreja não estava edificada quando da revelação deste mistério em Cesareia.

- A Igreja, para ser edificada, precisava, como todo edifício, de uma pedra fundamental, da “principal pedra da esquina”. Ora, quando da revelação do mistério, Jesus mesmo disse que pedra era esta, a saber, Ele próprio. “Sobre esta pedra edificarei a Minha igreja”, disse o Senhor Jesus. Como podemos saber que a pedra é Cristo? Porque assim nos ensina o apóstolo Pedro, a quem o Senhor dirigiu estas palavras: “ E chegando-vos para Ele — pedra viva, reprovada, na verdade, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa.” (I Pe.2:4). Se Pedro, que era a pessoa que ouviu estas palavras de Jesus, entendeu que a pedra a que Jesus Se referia era o próprio Cristo, como haveremos de dar outro sentido a estas palavras?

- Paulo, mesmo, confirma esta circunstância ao dizer que ninguém pode pôr outro fundamento além do que está posto, que é Jesus Cristo (I Co.3:11) e, em outra passagem, reafirma que a “principal pedra da esquina” é o Senhor Jesus (Ef.2:20).

- No entanto, um edifício não é feito apenas pela pedra fundamental. Ela é indispensável, é a base de tudo, é o fundamento de tudo, mas o alicerce depende ainda de outras estruturas além destas pedras. Ora, o fundamento completo, o alicerce completo tem, ao lado da pedra fundamental, “o fundamento dos apóstolos e dos profetas” (Ef.2:20).

- Vemos, portanto, que a Igreja está fundamentada em Jesus Cristo, mas que esta pedra principal da esquina é complementada, corroborada pelo “fundamento dos apóstolos e dos profetas”. Quando se fala em profetas, lembramos do que disse o Senhor Jesus: “A lei e os profetas duraram até João” (Mt.11:13; Lc.16:16). Assim, os profetas, cujo último foi João, serviram de fundamento para a Igreja, porque prediziam a respeito do Messias, a respeito do Cristo, sendo testemunhas dAquele que haveria de vir. Como bem explanou num estudo bíblico realizado em 25 de janeiro de 2010 na Assembleia de Deus do Ministério do Ipiranga na Praça da Sé – São Paulo/SP, o pastor José Magalhães (vice-presidente da Assembleia de Deus – Ministério de São Miguel Paulista, em São Paulo/SP), “Jesus era uma profecia” durante os ministérios dos profetas, tendo passado a ser uma “realidade conhecida” no instante em que foi batizado por João, razão pela qual João foi o maior de todos os profetas (Lc.7:28), pois além de profetizar a respeito de Cristo, também O apresentou em carne e osso ao povo.

- Jesus disse que as Escrituras d’Ele testificavam (Jo.5:39), Escrituras estas que eram, naquele momento, tão somente “a lei e os profetas”, o Antigo Testamento. Os profetas apresentavam-se, desta maneira, como “testemunhas” do Senhor Jesus, fazendo, assim, parte deste fundamento que se erigia como “edifício de Deus”, já que o cumprimento de suas profecias na pessoa de Cristo era parte fundamental da pregação do arrependimento e remissão dos pecados por parte dos discípulos do Senhor (Lc.24:44-47). Não é à toa que Pedro, no dia de Pentecostes, usou das Escrituras em seu sermão (At.2:14-40).

- Este testemunho dos profetas era um “testemunho antecipado”, como nos ensina Pedro em sua primeira epístola, quando afirma que os profetas indagaram que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que neles estava, indicava, anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir, aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para a Igreja, eles ministravam estas coisas que agora eram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, pregavam o evangelho (I Pe.1:10-12).

- É neste instante, pois, que surge o segundo grupo de “complementadores” do fundamento da Igreja, ou seja, os apóstolos. Eles tinham a missão de, pelo Espírito Santo enviado do céu, testificarem o cumprimento do que havia sido profetizado a respeito do Cristo. Eles deveriam complementar o que havia sido profetizado, ministrando a Palavra de Deus e perseverando na oração, a fim de que o povo compreendesse que o que havia sido profetizado a respeito do Cristo já estava cumprido e que era tempo de se salvar da geração perversa e crer em Jesus como Senhor e Salvador de suas vidas.

- Os apóstolos eram “enviados” de Jesus para testificar o cumprimento das Escrituras em Jesus e também deixar registrado este cumprimento em novas Escrituras, Escrituras que completassem a revelação de Deus ao homem. Aquilo que os profetas haviam profetizado e tinha sido registrado fora cumprido e cabia aos apóstolos, como “enviados especiais” do próprio Senhor Jesus, como “testemunhas oculares” do cumprimento das Escrituras, mostrar o cumprimento do que havia sido profetizado, devendo ser igualmente registrado o que eles ensinassem sobre tal cumprimento.

- O dom ministerial de apóstolo, portanto, diz respeito a este fundamento da Igreja, a esta complementação da obra de Cristo, complementação relacionada ao complemento das Escrituras (o Novo Testamento) e à estruturação da base do “edifício de Deus”, da Igreja, a partir do que cada crente poderia, em conjunto com os demais irmãos em Cristo, levantar os pavimentos, os andares, isto é, “ajustar-se e crescer para templo santo do Senhor, para morada de Deus em Espírito” (Ef.2:21,22), “ajustar-se bem e ligar-se pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, para fazer o aumento do corpo, para sua edificação em amor” (Ef.4:16); “para edificação da casa espiritual e sacerdócio santo, para oferta de sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” (I Pe.2:5).

- Ora, um tal trabalho se esgotou com a morte do apóstolo João que, pela tradição e por inferências das Escrituras (Jo.21:22,23), foi o último dos doze a morrer, tendo sido concluído o Novo Testamento com ele, com a redação de suas cartas, do seu evangelho e do Apocalipse. Temos, então, que não há como se admitir que haja novos apóstolos depois dos doze, pois o trabalho deles era específico, concernente à conclusão do alicerce da Igreja, algo que se encerrou com João, quando se complementou a revelação de Deus por Cristo Jesus.

- É, neste sentido, que, ao falar sobre os dons dados à Igreja, o apóstolo Paulo que o Senhor Jesus deu, primeiramente, à Igreja, apóstolos (I Co.12:28) e, posteriormente, os demais dons, a mostrar que havia uma precedência, não só de autoridade, mas de tarefa na edificação da Igreja, porque a eles cumpria complementar o alicerce do “edifício de Deus”. Por isso, é dito que os crentes, logo após o início da igreja, perseveravam “na doutrina dos apóstolos”, o primeiro fator da “koinonia” característica da igreja primitiva (At.2:42).

- Esta circunstância, ademais, é confirmada na visão que João teve da Jerusalém celestial, a morada dos salvos. Ali, as portas são doze, cada uma com o nome de uma das tribos de Israel, que é o povo de Deus (Ap.21:12; Rm.11:17,18). Mas, além das portas, a cidade celeste tem um muro que tem doze fundamentos, e neles os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro (Ap.21:14). Por que doze? Porque depois destes doze, não houve mais nenhum apóstolo!

- Por isso é dito que a Igreja é “apostólica”, ou seja, está baseada no ensino dos apóstolos, que testificavam o cumprimento das Escrituras hebraicas na pessoa de Cristo Jesus. Pertencemos, sim, a uma igreja “apostólica”, porque perseveramos na doutrina dos apóstolos, que nada mais é que a Palavra de Deus, o testemunho de Cristo Jesus.

- Dirão alguns que o próprio Novo Testamento chama de “apóstolos” a outros que não os doze e Paulo, como é o caso de Barnabé (At.14:14). No entanto, aqui “apóstolo” tem o significado de “enviado”, porque tanto Barnabé quanto Paulo haviam sido “enviados” pela igreja de Antioquia (At.13:2,3). “Apóstolo” aqui está empregado no seu significado primitivo, algo mais próximo ao que atualmente chamamos de “missionário”.

- A propósito, na história da Igreja, passou-se a chamar de “apóstolo” aquele que “enviado” por uma igreja ou até mesmo por um chamado divino, implantava igrejas em regiões até então não evangelizadas, como é o caso de Bonifácio (672-754 ou 755), que iniciou a evangelização da Alemanha (primeiramente, por conta própria, depois como “enviado” do Papa Gregório II) e, por isso, é intitulado “Apóstolo dos Germanos” ou, mesmo de José de Anchieta (1534-1597), que é chamado pelos católicos romanos de “Apóstolo do Brasil”, por ter sido um dos principais responsáveis pela catequização dos índios no início da colonização portuguesa em nosso país. Trata-se, pois, de um costume disseminado pela Igreja Romana e que, portanto, não deve ser acolhido por quem cristão se diz ser e não aceita o romanismo, como é o nosso caso.

- Por causa deste costume é que muitos entendem que ser “apóstolo” é ser “implantador de igrejas”, ideia surgida ao longo da história da Igreja, mas que não tem respaldo bíblico. O “apóstolo” é aquele que foi escolhido por Jesus para que complementasse o fundamento da Igreja, testificasse o cumprimento das profecias pelo ministério terreno de Jesus, tarefa que se encerrou com o apóstolo João, por volta do ano 100. A partir de então, temos na Igreja o exercício dos demais dons ministeriais (profetas, pastores, evangelistas e mestres), atuando o dom ministerial apostólico através das Escrituras, do Novo Testamento, mas não mais por pessoas escolhidas para este mister.

- A implantação de igrejas não é tarefa do apóstolo, mas, sim, do evangelista, que pode ser um “missionário”, alguém enviado por uma igreja já instituída, como aconteceu com Paulo e Barnabé em relação à igreja de Antioquia. Paulo, mesmo, não se dizia apóstolo porque implantava igrejas, mas, neste aspecto de seu ministério, dizia-se evangelista como se vê em I Co.1:17. Por isso, não podemos considerar senão como uma adoção deste costume a consideração como “apóstolos” de grandes homens de Deus que desbravaram regiões não evangelizadas como os missionários Daniel Berg e Gunnar Vingren ou o indiano Sundar Sing (“o apóstolo dos pés sangrentos” – 1889-1929).

III – A AUTORIDADE APOSTÓLICA

- O que mais impressiona os “apóstolos do século XXI” é a “autoridade apostólica”, que foi defendida por Paulo na segunda carta canônica aos coríntios. Muitos hoje querem se intitular “apóstolos” precisamente porque querem ter a “autoridade espiritual” que tinham os apóstolos na igreja primitiva. Quando vemos no texto bíblico, percebemos que os apóstolos tinham uma precedência sobre pastores, bispos, presbíteros e decorre daí, dentro desta ideia de “hierarquia ministerial” que tem tomado conta das mentes das igrejas e denominações, a necessidade de se dar ao “líder” o título maior, considerado como sendo o de “apóstolo”.

- Não resta dúvida de que os apóstolos, em seu tempo, eram revestidos de uma autoridade respeitada e que se sobrepunha aos dos demais ministros existentes nas igrejas locais. Esta autoridade decorria do fato de que haviam sido chamados diretamente pelo Senhor Jesus e que a eles incumbia o ministério da Palavra e da oração. Evidentemente que uma tal posição lhes punha num patamar diferenciado diante dos demais crentes, seja porque os crentes haviam se convertido por causa da pregação dos apóstolos (At.4:33; 5:12,42), seja porque, mesmo entre aqueles que haviam acompanhado o Senhor Jesus em Seu ministério terreno, era sabido que os doze desfrutaram de um convívio mais íntimo com Cristo.

- Contudo, esta autoridade não se traduzia em domínio sobre a fé dos crentes, como tencionam os “apóstolos pós-modernos”. Bem ao contrário, vemos que os apóstolos não eram “ditadores” nem “tiranos”, mas que, mesmo tendo uma posição diferenciada por vontade de Deus, jamais ousavam se considerar superiores aos demais crentes.

- No episódio da instituição do diaconato, embora tenham decidido criar esta nova função na Igreja, sem consultar os crentes, participaram sua decisão a todos os crentes e deixaram que o povo mesmo escolhesse os diáconos, mostrando, assim, que não estavam a transformar os crentes em meras “vaquinhas de presépio”, mas em pessoas participantes do governo da Igreja. De igual modo, Paulo, no final de sua primeira viagem missionária, fez com que os próprios crentes escolhessem anciãos que ficassem à frente das igrejas locais (At.14:23).

- Os apóstolos não se consideravam superiores aos outros crentes, nem estavam preocupados em “exercer o poder”. Sua autoridade não se manifestava em termos de domínio, mas em demonstração do poder de Deus. Assim, demonstravam sua posição diferenciada, seu chamado específico, não dando ordens aos crentes, nem exigindo que estes lhe obedecessem, mas, bem ao contrário, dando sinais de seu apostolado que, desde seu chamado no ministério terreno de Cristo, eram bem diferentes do “mandonismo” que caracteriza os “apóstolos do século XXI”, mas que era o poder de curar enfermidades, expulsar demônios e fazer sinais, prodígios e maravilhas no meio do povo (At.5:12), mas também o de ter como mensagem a pregação do Evangelho, ou seja, do cumprimento das Escrituras na pessoa de Cristo (At.4:33; 5:42), e, por isso, o de sofrerem, inclusive fisicamente, por causa desta ousadia no testemunho da Palavra de Deus (At.4:23-31; 5:40,41).

- Precisamente, porque os apóstolos não dominavam sobre a fé dos demais crentes, como fazem muitos dos “apóstolos pós-modernos” na atualidade, a Igreja não teve qualquer solução de continuidade quando os crentes foram dispersos por ordem dos líderes religiosos judeus, tendo os apóstolos sido mantidos em Jerusalém (At.8:1). Esta atitude somente serviu para que os crentes disseminassem a pregação do Evangelho e fossem constituídas igrejas em outras localidades, passando-se, assim, a cumprir o propósito de Jesus para a Igreja (At.9:31).

- O “concílio de Jerusalém” é outro exemplo de que como a “autoridade apostólica” não é “exercício de poder ou de mando”, mas, sim, algo bem diverso. Os apóstolos, diante da difícil questão a respeito da submissão dos crentes gentios à lei de Moisés, recorreram, em primeiro lugar, a uma reunião onde também estiveram presentes os anciãos, ou seja, os dirigentes das igrejas locais, prova de que os apóstolos não se consideravam hierarquicamente superiores a estes ministros do Evangelho (At.15:6). Como se não bastasse isso, foram buscar a direção e orientação do Espírito Santo (At.15:28), a quem reconheceram como sendo superior na Igreja. Que diferença para com os que se autointitulam “apóstolos” em nossos dias!

- Os apóstolos haviam aprendido com o Senhor Jesus que a posição que ocupavam na Igreja os fazia “servidores de todos os demais crentes” (Mc.9:35). Paulo, o abortivo, também aprendeu esta lição, tanto que se denominou para os coríntios como “hyperetes” (I Co.4:1), ou seja, o escravo remador das trirremes romanas, como tivemos oportunidade de estudar na lição 7 deste trimestre, e como se encontra no brilhante estudo do presbítero Saulo Gurgel, “Hiperetes: ministro ou escravo”, cuja leitura, uma vez mais, recomendamos (Disponível em: http://sglima.blogspot.com/2009/12/hiperetes-ministro-ou-escravo.html Acesso em 06 fev. 2010).

- João, ao escrever o último livro da Bíblia Sagrada, apresentou-se como “vosso irmão e companheiro na aflição, e no reino, e paciência de Jesus Cristo” (Ap.1:9), expressão que foi assim comentada pelo pastor José Serafim de Oliveira: “…Isto quer dizer que a mesma aflição que os crentes estavam passando, ele estava também. Não tinha privilégios. Estava na mesma situação, no mesmo patamar, e todos, tanto o apóstolo como os crentes, tinham a plena certeza, plena convicção de que estavam sofrendo pela causa da justiça, pelo Reino de Deus.…” (Desvendando o Apocalipse: o livro da revelação. São Paulo: Pr. José Serafim, 2009, p.13).

- Percebe-se, portanto, que a “autoridade apostólica” não advém de uma posição hierárquica, não é uma questão de mando, mas era fruto da presença do poder de Deus na vida daqueles homens que haviam sido escolhidos para anunciar, com ousadia e poder, a Palavra de Deus, para testemunhar o cumprimento das Escrituras na pessoa de Cristo Jesus.

- Neste sentido, também, a Igreja é apostólica, pois deve seguir os passos dos apóstolos, deve prosseguir fazendo o que os apóstolos faziam, sendo este o motivo pelo qual Paulo pedia aos coríntios para que fossem seus imitadores, como ele era de Cristo (I Co.11:1).

- Paulo, quando quis provar sua condição de apóstolo, não invocou qualquer domínio sobre a fé dos coríntios. Pelo contrário, logo no limiar da defesa de seu apostolado, quis deixar claro que não tinha domínio sobre a fé daqueles crentes, porque era cooperador do gozo deles, porque eles se mantinham em pé pela fé e não por causa da suposta autoridade do apóstolo (II Co.1:24).
OBS: Podemos até dizer que os versos do conhecido bolero de José Feliciano, “Sabor a mí” trazem o verdadeiro espírito do apostolado pelos verdadeiros, genuínos e autênticos apóstolos, a saber: “No pretendo ser tu dueño, no soy nada yo no tengo vanidad. De mi vida doy lo bueno, soy tan pobre, que otra cosa puedo dar” (tradução nossa: não pretendo ser seu dono, não sou nada, não tenho vaidade. Deu o melhor da minha vida, sou tão pobre, que outra coisa poderia dar?” Ah, se os “apóstolos do século XXI” pensassem assim…

- Vemos, pois, que a referida “autoridade apostólica”, em momento algum, pode ser considerada uma “intermediação” entre Cristo e os membros da igreja, como tem sido ensinado pela falsa doutrina da “cobertura apostólica”, que nada mais é que mais uma evidência de que muitos dos “apóstolos do século XXI” nada mais são que “falsos cristos”, pessoas que assumem indevidamente para si um papel que cumpre única e exclusivamente a Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, qual seja, o de ser o mediador entre Deus e os homens (I Tm.3:5).
OBS: É interessante notar que mesmo o Papa, que se diz “Vigário de Cristo”, não toma a liberdade de se chamar “apóstolo”, mas tão somente “sucessor do príncipe dos apóstolos” (aliás, “Papa” significa “Pedro Apóstolo Príncipe dos Apóstolos”). Assim, embora também seja um “falso cristo”, é menos atrevido que estes “apóstolos pós-modernos”…

- Outro ponto que se costuma associar à ideia da “autoridade apostólica” é a “paternidade espiritual”, considerada como uma dependência e uma relação de obediência que deve existir entre os crentes e os “apóstolos”. Aqui também, vemos que este conceito é despido de qualquer amparo bíblico, tanto que, na sua própria defesa do apostolado, Paulo mostra que a “paternidade espiritual” é, antes de mais nada, um dever do que um poder. Diz o apóstolo: “…não busco o que é vosso, mas sim a vós; porque não devem os filhos entesourar para os pais mas os pais para os filhos. Eu de muito boa vontade gastarei, e me deixarei gastar pelas vossas almas, ainda que, amando-vos cada vez mais, seja menos amado” (II Co.12:14,15).

- Ser “pai espiritual”, portanto, não é ter a obediência dos “filhos” e fazer com que eles o sustentem. Não, não e não! Ser “pai espiritual” é ter a consciência de que deve levar a “herança do Senhor”, que são os filhos na fé, a se apresentar como “virgem pura a um marido, a saber, a Cristo” (II Co.11:2) e que, por isso, deve empreender todos os esforços para que estes filhos não venham a se perder, ainda que eles não reconheçam este amor e dedicação. Afinal de contas, é o pai espiritual quem deve levar o tesouro, que é o Evangelho (II Co.4:4-6), a estes filhos e não os filhos quem devem trazer seus bens para enriquecer os pais espirituais.
- Quão diferente é o conceito bíblico de “paternidade espiritual” do que andam ensinando por aí, que nada mais é que indevida submissão do crente a um homem, o que Paulo disse não ser mais admissível para quem é salvo em Cristo Jesus (I Co.7:23). “Pai espiritual” não é quem escraviza homens com suas “fórmulas de fé”, “visões”, “revelações”, mas, sim, quem leva Cristo Jesus aos homens, nada querendo em troca.

- A autoridade apostólica advinha do bom testemunho dado pelos doze, pela presença do poder de Deus através de suas vidas, pelo grande amor que devotavam aos demais crentes, pela responsabilidade e compromisso que tinham para com a mensagem do Evangelho e a edificação dos crentes. Como disse Paulo, os apóstolos tinham consciência de que Deus os havia posto como os últimos, como condenados à morte, como espetáculo ao mundo, aos anjos e aos homens. Pessoas que não se importavam de sofrer fome, sede, nudez, ferimentos e falta de residência fixa; pessoas que não se importavam de serem considerados o lixo deste mundo e a escória de todos (I Co.4:11-13).

- Os “apóstolos pós-modernos” assim se consideram diante dos demais homens? Será por isso que se intitulam “apóstolos”? Não, não e não! Como assinala, em texto muito feliz, o pastor Ricardo Gondim, “…O que preocupa nos apóstolos pós-modernos é ainda mais grave. Tem a ver com a nossa natureza que cobiça o poder, que se encanta com títulos e que fez do sucesso uma filosofia ministerial. Há uma corrida frenética acontecendo nas igrejas de quem é o maior, quem está na vanguarda da revelação do Espírito Santo e quem ostenta a unção mais eficaz. Tanto que os que se afoitam ao título de apóstolo são os líderes de ministérios de grande visibilidade e que conseguem mobilizar enormes multidões. Possuem um perfil carismático, sabem lidar com massas e, infelizmente, são ricos.” (Não quero ser apóstolo. Disponível em: http://www.jesussite.com.br/acervo.asp?id=1065 Acesso em 06 fev. 2010).

- Esta motivação dos “apóstolos do século XXI” faz com que se tenha a negação completa do que vimos até aqui a respeito do apostolado. Ainda que se entendesse que o ministério apostólico continuasse nos dias hodiernos, uma tal motivação não encontraria guarida na Bíblia para que reconhecêssemos como legítimos apóstolos homens que buscam poder, que se dizem superiores aos demais crentes.

- Aos doze, Jesus disse que o apostolado os tornava servos de todos os demais, não o maior dentre os crentes; aos doze, Jesus disse que tinham de ser testemunhas das Escrituras, não os portadores de “novas mensagens”, de “novas revelações”; aos doze, Jesus disse que deveriam ser “revestidos de poder”, do mesmo Espírito Santo que Ele havia assoprado sobre eles (Jo.20:22) e que serviria para glorificar o Filho (Jo.1¨6:13,14) e não “uma nova unção”, que nos distancia da simplicidade que há em Cristo, exatamente o que o “pai espiritual” deve impedir que aconteça (II Co.11:3,4; Gl.1:8,9).

- Ademais, nestes “apóstolos do século XXI” não vemos os sinais que caracterizavam o apostolado de Paulo. Paulo, para demonstrar que não inferior aos demais apóstolos, fez questão de lembrar aos coríntios que não era rude na ciência, anunciara de graça o evangelho de Deus, era ministro de Cristo, tinha um currículo de sofrimentos por causa do Evangelho, não se considerar nem ser superior a qualquer crente, bem como ter intimidade com Deus (II Co.11-12).
- Nos “apóstolos do século XX!”, no entanto, o que vemos não é coisa alguma destas características. Como afirma o irmão batista Márcio Redondo, “…Minha dificuldade em aceitar o movimento apostólico dos nossos dias reside em que os ‘apóstolos’ modernos não viram Jesus ressuscitado, não foram designados pessoalmente pelo próprio Jesus, não realizam prodígios e sinais como na época do Novo Testamento e, ao contrário dos apóstolos do século I, se preocupam com a distribuição territorial. Minha conclusão é que tais pessoas declaram-se apóstolos, mas na verdade nunca o foram (2 Coríntios 11.13; Apocalipse 2.2)” (Apostolado ou apostolice. Disponível em: http://camposdeboaz.xn.blog.br/apostolado-ou-apostolice-marcio-redondo Acesso em 06 fev. 2010).

- Com efeito, quando olhamos para um “apóstolo” ali, vemo-lo explorando o povo financeiramente, o que apóstolo algum faria;se olhamos para outro lá, vemo-lo envolvido em processos criminais, com os delitos comprovados e que dão até condenações judiciais (não no Brasil, claro, pois o Brasil é a nação da impunidade…); se, todavia, dirigimo-nos para acolá, vemos outro “apóstolo” lutando por territórios e por espaços na mídia, em luta insana com outras denominações, querendo ser o “maior” na mídia; se, por fim, atentamos para aquele que está mais para lá, vemo-lo usando de subterfúgios para “mostrar” poder como neurolinguística, adivinhação ou emocionalismos; quando, então, caminhamos em direção àquele outro ali, ele, baseado em sua “cobertura apostólica”, domina a fé dos crentes, que estão ligados a ele por “alianças espirituais”, pela “geração espiritual”, devendo ser “respeitado e obedecido”. Como podemos, então, dizer que tais homens são apóstolos? Postos à prova, provam não sê-lo (Ap.2:2).

- Esta “apostolice” é mais um eloquente sinal de que estamos em plena apostasia, no ocaso de nossa dispensação. Olhemos para Jesus, o autor e consumador da nossa fé, para que não sejamos enganados e peçamos a Deus misericórdia para que alcancemos, no final de nossa jornada, o mais importante título que alguém pode conseguir: o de servo. Amém!

Caramuru Afonso Francisco

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

O PACTO DAVÍDICO


O “pacto davídico” é um momento dos mais importante do plano de Deus para a salvação da humanidade, pois é o instante em que se revela a dignidade real do Messias e sua condição de “Filho de Davi”.

I – OS PACTOS DIVINOS DO ANTIUGO TESTAMENTO

- Neste último estudo complementar do trimestre letivo a respeito da vida de Davi, analisaremos o chamado “pacto davídico”, o último pacto divino do Antigo Testamento, quando o Senhor revela ao mundo que o Messias, o Salvador seria da casa de Davi, dinastia que se iniciava em Israel.

- O instante em que Deus revela a Davi, por meio do profeta Natã, que o Senhor é quem edificaria casa eterna para Davi e não Davi uma casa para o Senhor, como era o desejo do rei, é o ápice da vida espiritual do “homem segundo o coração de Deus”, em que o rei se vê como um elemento-chave de um plano que nem sequer tinha como imaginar.

- Deus, no Seu desejo de Se relacionar com o homem, tendo-o dotado tanto de razão quanto de espiritualidade, por Seu profundo amor, sempre tomou a iniciativa de firmar com o ser humano “pactos”, ou seja, compromissos a fim de abençoar o homem.
OBS: “…O conceito de pacto permeia a compreensão hebraica de sua relação com Deus. Yahweh, o auto-existente Deus, inicia e mantém aliança com o homem. Ele é motivado por um amor inabalável chamado hesed, que é traduzido ‘bondade amorosa’ ou ‘misericórdia.’ Que o Deus transcendente condescende para entrar em parceria com a sua própria criação é realmente motivo de culto. Ele não é dependente de nada, nós não temos nada para oferecer-lhe que ele primeiro não nos tenha dado. No entanto, ele deseja fazer um pacto com os homens, e entrar em um relacionamento pessoal com sua criação. Porque a natureza de Deus é pactual, nós que somos criados à sua imagem também fazemos pactos. O termo hebraico berith é utilizado mais de 280 vezes no Antigo Testamento para descrever tratados, alianças, ou ligas entre os homens. Ele é usado para descrever uma constituição entre um governante e os seus subordinados. E é utilizado com referência a uma relação entre Deus e seu povo.…” (REASONER, Vic. Uma teologia arminiana do pacto. Trad. de Lailson Castanha. Revista Arminiana - Vol 18 Edição 2 - outono 2000. Disponível em: http://www.arminianismo.com/index.php?option=com_content&view=article&id=790:uma-teologia-arminiana-do-pacto&catid=175&Itemid=29 Acesso em 29 out. 2009)


- Num pacto, como diz Vic Reasoner, o padrão básico continha “…um preâmbulo, em que o iniciador é identificado; uma introdução histórica anterior descrevendo as relações entre as partes; estipulações e demandas que deveriam ser lidas publicamente em intervalos regulares; juras de um juramento com bênçãos e maldições; e a designação de testemunhas e sucessores.…” (end. cit.).

- Os estudiosos da Bíblia costumam considerar os seguintes pactos firmados entre Deus e o homem, todos visando a salvação do homem:
a) o pacto edênico ou pacto da criação — Este pacto encontra-se em Gn.2:16,17, quando o Senhor condicionou a vida eterna à obediência do homem em não comer da árvore da ciência do bem e do mal no Jardim do Éden, sob pena de morte. O primeiro casal não obedeceu à condição pré-estabelecida e, por isso, foram separados de Deus, cumprindo-se, assim, a cláusula referente à morte, seguida, ainda, de outras maldições, que se encontram em Gn.3:14-19. Entre elas, Deus fez a promessa de que salvaria o homem das garras do pecado por meio da “semente da mulher que esmagaria a semente da serpente”, uma maldição sobre a serpente, mas, simultaneamente, uma bênção para a humanidade.

b) o pacto noaico – Este pacto encontra-se em Gn.9:1-16, que os judeus chamam de “Shéva Mistvót Benê Nôach” (os Sete Preceitos dos Descendentes de Noé), quando o Senhor abençoou Noé e seus filhos depois do dilúvio, retomando as ordens de frutificação e multiplicação dada aos primeiros pais, como também o domínio do homem sobre a criação terrena, estabelecendo, porém, preceitos morais de defesa da vida e proibição de consumo de sangue, prometendo também nunca mais destruir a criação terrena com um dilúvio, pondo o arco-íris no firmamento como prova e lembrança da Sua promessa.

c) o pacto abraâmico – Este pacto encontra-se em Gn.12:1-3 e 17:1-14, quando o Senhor chamou Abraão para dele formar uma grande nação em que seriam benditas todas as famílias da Terra. Neste momento, Deus começa a formar a nação de onde viria o Salvador do mundo. Neste pacto, Deus promete ter um concerto perpétuo com a nação que surgiria de Abraão, por intermédio de Isaque, estabelecendo a circuncisão como símbolo deste pacto, desde que houvesse, por parte do homem, a fé no Senhor (“andar na presença do Senhor, o Todo-Poderoso, e ser perfeito”).

d) o pacto sinaítico – Este pacto encontra-se em Ex.19:5-9, quando o Senhor propôs a lei ao povo de Israel no monte Sinai e os israelitas se comprometeram em cumprir os mandamentos que receberiam da parte do Senhor, por intermédio de Moisés. Neste momento, já formada a nação de Israel, Deus lhe traz regras e mandamentos, sob os quais haveria de nascer o Messias, que era a personagem apontada por todos os ritos, cerimônias e regras deste pacto (Gl.3:23,24; Hb.10:1).

e) o pacto palestiniano – Este pacto encontra-se em Js.8:30-35, onde se cumpriu o determinado em Dt.27 e 28. Nesta ocasião, cumprindo a ordem do Senhor, os israelitas, já instalados em Canaã, mesmo em meio à conquista ainda, comprometem-se a observar a lei de Moisés como condição para que permanecessem na “terra que mana leite e mel”. O cativeiro da Babilônia e a diáspora vivida a partir de 70 d.C. são consequências diretas do descumprimento deste pacto.

f) o pacto davídico – Este é o pacto que estudaremos neste breve apêndice, encontrado em II Sm.7:5-17, repetido em I Cr.17:7-15, quando o Senhor, em resposta ao desejo de Davi de edificar-Lhe um templo, diz que o templo só seria edificado pelo sucessor de Davi, mas que quem haveria de edificar casa para Davi era o próprio Senhor, pois a casa de Davi reinaria para sempre. Com isto, dando mais um passo no cumprimento de Seu plano para salvar o homem, Deus revela qual seria a estirpe, a família de onde surgiria o Messias.

II – O PACTO DAVÍDICO

- Davi tinha a visão da arca do Senhor em uma tenda que havia preparado para ela em Jerusalém, ao mesmo tempo em que habitava num palácio, cuja construção havia sido possível mediante uma aliança que firmara com Hirão, rei de Tiro, aliança esta, aliás, que o havia feito entender que seu reino havia sido confirmado pelo Senhor (II Sm.5:11,12).

- Davi não suportou a circunstância de morar num palácio, enquanto a arca do Senhor se encontrava numa tenda e decidiu que iria construir uma casa para o Senhor. Neste seu desejo, Davi mostra que dava prioridade, em seu governo, ao culto a Deus, que compreendia, como homem espiritual que era, que seu papel como rei de Israel era o de fazer com que sua nação cumprisse o propósito assumido no monte Sinai de ser “um reino sacerdotal e um povo santo” (II Sm.7:1-3; I Cr.17:1,2).

- Este desejo de Davi não era, nem poderia ser, desagradável a Deus. Seus intentos e sua motivação eram da mais perfeita razoabilidade e demonstravam uma espiritualidade elevada. Por isso, ao confidenciar este seu plano ao profeta Natã, o homem de Deus não titubeou em confirmar as intenções de Davi, estimulando-o a fazê-lo, sem que, no entanto, tivesse consultado a Deus ou tivesse falado em nome do Senhor. Deixou-se levar pelas evidências lógico-humanas, o que, entretanto, nunca deve ser feito por quem é escolhido pelo Senhor para trazer mensagens para o povo.

- Deus não pensa como o homem, pois senão não haveria de ser Deus (Is.55:8,9). Deus, por definição, é superior ao homem e, por isso, jamais poderemos entendê-lO (Pv.20:24). Não se pode, pois, admitir qualquer doutrina ou filosofia que esquadrinhe Deus em princípios e regras previamente estabelecidos pelo ser humano e que tudo expliquem. O que sabemos a respeito de Deus é tão somente aquilo que nos foi revelado pela Bíblia Sagrada (Dt.29:29), que é a verdade (Jo.17:17). Tudo o mais não passará de especulação e de vaidade humana. Cuidado com os “especialistas em Deus”, com os “doutores em divindade”, com aqueles que tudo sabem e tudo explicam à revelia das Escrituras…

- Naquela mesma noite, como Deus não é Deus de confusão (I Co.14:33), o Senhor se apresentou ao profeta Natã e o mandou desfazer a “profetada”, dizendo a Davi que ele não iria edificar o templo em Jerusalém, mas que tal tarefa ficaria a cargo de seu sucessor. O Senhor, como se vê, não recriminou o genuíno propósito de Davi, tanto que o confirmou (I Rs.8:18), mas queria mostrar ao Seu ungido que havia reservado para ele algo mais excelente do que ser o construtor e inaugurador do templo, onde se unificaria e de estabilizaria o culto a Deus em Israel, como um importante fator de estímulo ao cumprimento do propósito divino para Israel, mas que seria ele o construtor e o inaugurador da dinastia real de onde viria o Messias, cujo templo era muito mais importante que o que fosse construído com pedras (Jo.2:19,20).

- Muitos líderes, na atualidade, precisam ter este mesmo despertamento que Deus deu a Davi. Estão muito preocupados na construção de templos de pedras, esquecendo-se de que sua mais importante tarefa é ser “pescador de homens”, é construir o corpo de Cristo, este templo que não poderá ser derribado pelas portas do inferno, contra o qual não podem se levantar as hostes espirituais da maldade. Não podemos ter a mentalidade dos judeus que viam (e ainda veem) no templo material o suprassumo de seu culto a Deus, mas entender que os verdadeiros adoradores adoram o Pai em espírito e em verdade (Jo.4:20-24).

- É evidente que não somos contrários à criação de templos, visto que são eles necessários para que se tenha o devido culto a Deus, além do que servem eles de referência indispensável para que se cumpram as funções determinadas à Igreja na sua tarefa de evangelização dos perdidos e edificação dos salvos, mas não podemos, de forma alguma, tornar prioritário na administração das igrejas locais a construção civil. Muitos ministros do Evangelho reduziram-se a mestres de obras, o que não se pode admitir. O Senhor quis mostrar a Davi que ao homem segundo o coração de Deus está reservada uma tarefa mais importante que a da construção civil, embora não tenha, em momento algum, recriminado esta iniciativa, como já dissemos.

- Na Sua mensagem a Davi, o Senhor, em primeiro lugar, disse que nunca havia pedido que se Lhe construísse uma casa de cedros. Havia, pelo contrário, determinado que se construísse o tabernáculo para que ali fizesse sentir Sua presença no meio do povo. O que exigia de Davi é que apascentasse o Seu povo e que o objetivo de Deus era a preparação deste povo para que fosse ele plantado no lugar em que habitasse e dali nunca mais fosse removido nem afligido pelos filhos da perversidade. Por isso, aliás, havia dado descanso a Davi de todos os seus inimigos em redor (II Sm.7:8-11; I Cr.17:7-10).

- O Senhor mostra a Davi que mais importante do que edificar-Lhe casa de cedros era apascentar o povo de Israel. A pessoa humana tem prioridade para o Senhor. O homem foi feito a coroa da criação e é ele o bem mais precioso que existe no povo de Deus. Os pastores devem ter isto sempre em mente, pois, se jamais se esquecerem desta realidade, terão um comportamento totalmente diverso em relação a cada crente, cuja alma vale mais do que o mundo inteiro (Sl.49:7,8). Quantos, na atualidade, estão a sacrificar centenas, quiçá milhares de crentes, decepcionando-os, escandalizando-os em troca de alguns milhares e até milhões de reais ou de dólares norte-americanos? Ah, se soubessem quanto vale uma alma e o que é prioritário aos olhos do Senhor…

- O Senhor esperava de Davi que contribuísse, no seu governo, para o plano divino de fixação de Israel em um lugar de forma definitiva, para que de lá nunca fosse removido, o que, em outras palavras, nada mais era que um esforço do rei para que o povo servisse a Deus, pois somente na obediência ao Senhor, conforme os pactos sinaítico e palestiniano, pudessem permanecer na Terra Prometida (II Sm.7:10; I Cr.17:9).

- Deus havia abençoado Davi para que vencesse todos os inimigos ao redor de Israel para que eles tivessem descanso. Isto só pôde ser feito por Davi porque Deus o ajudou neste sentido, porque Deus o abençoou para que isto se concretizasse, tanto que, com Davi, Israel, pela vez primeira, chegou aos limites prometidos por Deus a Abraão. Mas não seria com Davi que isto se daria de modo definitivo. Na profecia, vemos claramente que Deus haveria, ainda, de fazer isto e, como sabemos, tal promessa somente se realizará com o próprio Jesus, em Seu reino milenial.

- Esta palavra, ademais, pode, sim, legitimamente, ser aplicada aos ministros do Evangelho em nossa atual dispensação. O “Israel de Deus” (Gl.6:16) também tem sido afligido pelos filhos da perversidade (Jo.16:33). Caminhamos neste mundo de aflições com bom ânimo, sabendo que Jesus já venceu o mundo e brevemente nos tirará daqui para que estejamos com ele para sempre, onde jamais poderemos ser afligidos novamente. Enquanto isto não acontece, os pastores, a quem incumbe apascentar o rebanho de Deus (I Pe.5:1-3), têm a responsabilidade de contribuir para que os crentes em Cristo se mantenham no lugar da bênção (os “lugares celestiais em Cristo” – Ef.1:3), a fim de que sejam devidamente plantados para que não sejam debilitados nem removidos de onde estão (“na rocha”, ou seja, em Cristo – Sl.40:2; I Co.10:4).

- Revela, então, o Senhor a Davi que edificaria casa ao rei. Em vez de Davi edificar uma casa ao Senhor, seria o Senhor quem construiria uma descendência, uma dinastia, uma casa real a Davi. Por isso, um dos filhos de Davi se assentaria no trono de Israel e teria o seu reino confirmado. Este sucessor é quem edificaria casa ao Senhor e o seu trono seria confirmado para sempre. Ao contrário do que havia ocorrido com Saul, o antecessor de Davi, Deus Se faria pai deste sucessor e ele seria Seu filho, a benignidade divina não se desviaria deste sucessor e ele seria confirmado na casa do Senhor e no Seu reino para sempre e o seu trono seria firme para sempre (II Sm.7:10-17; I Cr.17:10-15).
OBS: “…A promessa que ‘a casa’, ‘o reino’ e ‘o trono’ de Davi seriam estabelecidos para sempre é significativa porque mostra que o Messias viria da linhagem de Davi e que Ele estabeleceria um reino sobre o qual Ele reinaria. O pacto é sintetizado pelas palavras ‘casa’, prometendo uma dinastia na linhagem de Davi; ‘reino’, referindo-se a um povo que seria governado por um rei; ‘trono’, enfatizando a autoridade do mandamento do rei; e ‘para sempre’, enfatizando a natureza eterna e incondicional desta promessa para Davi e Israel…” (O que é o pacto davídico? Disponível em: http://www.gotquestions.org/Davidic-covenant.html Acesso em 31 out. 2009) (tradução nossa de texto em inglês).

- O fato de Davi não edificar o templo servia, assim, como uma comprovação de que Deus havia suscitado uma casa real para o Seu ungido. Seria o seu sucessor, um de seus filhos, que haveria de edificar casa para o Senhor. Este sucessor deve ser entendido em uma dupla aplicação do texto, a saber: uma aplicação imediata e uma aplicação futura.

- A aplicação imediata foi a prova de que Deus estava constituindo uma dinastia real. O sucessor de Davi construiu a casa que Davi havia desejado mas não iria fazê-lo. Com efeito, Salomão construiu o templo em Jerusalém, tendo, no ato da inauguração, relembrado, diante de todo o povo, a promessa que havia sido feita pelo Senhor (I Rs.8:12-21; II Cr.6:14-19).

- Após a construção e inauguração do templo, Deus apareceu a Salomão e mostrou ao rei que o pacto estabelecido com Davi dependia de uma condição para que fosse mantido, qual seja: a fidelidade de cada ocupante do trono de Davi. Cada rei que assumisse o trono, para ter seu reino confirmado, deveria andar como Davi andou e fazer tudo o que o Senhor ordenara na lei de Moisés, sob pena de o Senhor não só fazer valer o pacto palestiniano, retirando o povo da Terra, como também destruiria não só o templo de Jerusalém como também apearia do poder real a casa de Davi (I Rs. 9:1-9; II Cr.7:17-22). Vemos, pois, que o pacto davídico não era um pacto incondicional, mas que dependia do cumprimento, por parte dos descendentes de Davi, da observância da lei, como também a promessa não se esgotava em Salomão, mas tinha uma aplicação futura.
OBS: “…Neste pacto com Davi, Yahweh apresenta a Davi duas categorias de promessas: aquelas que se realizariam durante o tempo de vida de Davi (II Sm. 7:8-11a) e aquelas que encontrariam cumprimento depois de sua morte (II Sm. 7:11b-16). …” (GRISANTI, Michael A. O pacto davídico. Disponível em: http://www.tms.edu/tmsj/tmsj10p.pdf Acesso em 31 out. 2009) (tradução nossa de texto em inglês).

III – O CUMPRIMENTO DO PACTO DAVÍDICO AO LONGO DA HISTÓRIA DE ISRAEL

- A aplicação futura do pacto davídico diz respeito ao fato de que surgiria das entranhas de Davi, de sua semente, alguém que edificaria casa ao Senhor e que reinaria para todo o sempre sobre Israel. Este não era Salomão, pois, além de o próprio Salomão, na dedicação do templo, ter relembrado a promessa divina de perpetuidade da casa de Davi como algo futuro e ainda não acontecido (I Rs.8:25,26; II Cr.6:16), o Senhor, como já vimos, apareceu a ele, depois da dedicação do templo, para mostrar-lhe a condicionalidade do pacto inclusive para ele, que havia construído o templo.

- O fato é que os descendentes de Davi, a começar do próprio Salomão, não cumpriram com a condição de se manter fiel aos mandamentos do Senhor. Salomão, por causa da multiplicação de mulheres, caiu na idolatria e, por isso, o Senhor lhe tomou dez das tribos de Israel (I Rs.11:1-13; II Cr.10:15,19).

- Como se isto ainda fosse pouco, Manassés, o 14º rei de Judá (portanto, o 16º da linhagem da casa de Davi), aquele que mais tempo reinou sobre o povo de Deus (cinquenta e cinco anos — II Rs.21:1; II Cr.33:1), extrapolou todos os limites de desobediência aos mandamentos do Senhor, numa impiedade nunca antes vista sobre o povo, de tal maneira que, por causa de seus muitos pecados, determinou o Senhor que a casa real de Judá seria retirada do trono, por força mesmo do pacto davídico (II Rs.21:1-16; II Cr.33:1-10).
OBS: Alguém pode, corretamente, observar que Uzias também reinou 55 anos sobre Judá (II Cr.26:3), mas não podemos nos esquecer que não governou todo este tempo, visto que, por ter ficado leproso, foi declarado imundo e, num período não explicitamente determinado nas Escrituras (Flávio Josefo afirma que isto aconteceu no 52º de seu reinado, portanto, teria “reinado” leproso por três anos), reinava mas não governava, pois foi substituído pelo seu filho Jotão, que era quem efetivamente administrava Judá a partir deste instante – II Cr.26:20,21.

- Apesar do avivamento proporcionado por Josias, neto de Manassés, o Senhor manteve a Sua sentença contra Judá e a casa de Davi, como deixou claro na palavra que trouxe por intermédio da profetisa Hulda, quando se descobriu o livro da lei no templo de Jerusalém (II Rs.22:14-20; II Cr.34:22-28).

- Deus não foi insensível aos clamores de Josias e do povo. Na verdade, vemos que, morto Josias, a geração que se lhe seguiu não cessou de desobedecer ao Senhor. Os sucessores de Josias, três de seus filhos e um neto (Joacaz, Joaquim, Jeconias ou Jeioaquim – este, neto de Josias — e Zedequias) não serviram a Deus e fizeram o que era mal aos olhos do Senhor. Como consequência disto, o profeta Jeremias foi usado por Deus para relembrar a sentença de perda da dignidade real da casa de Judá (Jr.22), em especial a Jeconias, que, por ser o neto de Josias, era o “natural” suscitador de semente à casa real de Judá.

- Em palavra a Jeconias (ou Joaquim, na ARC), o profeta Jeremias afirmou que estaria “privado de seus filhos, homem que não prosperará nos seus dias nem prosperará algum de sua geração para se assentar no trono de Davi e reinar mais em Judá” (Jr.22:30).
- Teria, então, o Senhor quebrado o pacto davídico? De forma alguma! O pacto davídico era condicional, no que respeita à manutenção no trono de um descendente de Davi, à observância deste descendente dos mandamentos, estatutos e juízos do Senhor. Entretanto, os descendentes de Davi não se mantiveram fiéis ao Senhor e, por isso, o Senhor fez o que havia dito a Salomão. Destruiu o templo e não permitiu mais que alguém da casa de Davi reinasse sobre Judá.

- Mas, se o Senhor ratificou que não haveria mais quem reinasse sobre Judá da casa de Davi, não permitiu, porém, que a semente de Davi fosse destruída, o que era o que de mais natural ocorria quando da conquista de um povo por outro, em especial quando este povo era o da Babilônia, cuja política era a da mistura dos povos conquistados para que perdessem a sua identidade.

- Como prova de que Deus não havia se esquecido de seu compromisso com Davi, fez com que o rei de Babilônia, Evil-Merodaque, no 37º ano do cativeiro, levantasse ao mesmo Joaquim (ou Jeconias) da profecia de Jeremias da cabeça da prisão e lhe desse um lugar de destaque na sua corte, lugar que reteve até a sua morte. Com esta elevação, Deus impediu que a dinastia de Davi se extinguisse e, assim, o plano da redenção da humanidade prosseguisse (II Rs.25:27-30; Jr.52:31-34).

- Quando o povo retornou a Jerusalém, o próprio Senhor determinou que fosse reconstruído o templo, apesar de toda a oposição dos gentios. Esta reconstrução foi dirigida por ninguém mais, ninguém menos que Zorobabel, bisneto de Jeconias, neto de Pedaías e filho de Sealtiel (I Cr.3:15-19).

- Muitos discutem como que Jeremias disse que Jeconias seria “privado de filhos” e, em I Crônicas, é dito que teve dois filhos (Assir e Sealtiel). Há alguns que dizem que Sealtiel não seria filho biológico de Jeconias, mas, sim, um sobrinho que teria sido adotado como filho na corte de Babilônia, buscando, inclusive fundamento para tal pensamento na genealogia de Jesus, vez que Sealtiel é ali apontado como filho de Neri, que seria descendente de Natã (outro filho de Davi com Bate-Seba – I Cr.3:5) e não de Salomão (Lc.3:27-31). Como não é dada qualquer descendência de Assir, ter-se-ia cumprido a profecia de Jeremias sem que se tivesse quebrado o pacto davídico, visto que se tem a manutenção não só da linhagem legal como também biológica da linhagem de Davi e Bate-Seba.

- Zorobabel dirigiu a reconstrução do templo em Jerusalém, atendendo às determinações do Senhor feitas pelos profetas Ageu e Zacarias (Ed.5:1,2; 6:14). O templo foi, então, reconstruído por um descendente de Davi, que, mais uma vez, edificava-Lhe casa. Zorobabel, porém, não mais ostentava a dignidade real e, por isso, não era a personagem mencionada na aplicação futura do pacto davídico.

- Tanto assim é que, em meio à reconstrução do templo, vieram a Zorobabel duas mensagens da parte do profeta Ageu.

- Na primeira delas (Ag.2:1-9), o Senhor, além de confirmar a necessidade da reconstrução do templo, prometeu que, “daqui a pouco”, faria tremer os céus, a terra, o mar, a terra seca, todas as nações e trariam os tesouros de todas as nações e a casa se encheria de glória, pois a glória daquela casa seria maior que a da primeira e naquele lugar daria o Senhor a paz.

- Em Ag.2:7, há muita discussão sobre a tradução, pois algumas versões traduzem “tesouros de todas as nações” como o “Desejado de todas as nações”, fazendo, pois, alusão, nesta profecia, ao Messias, que seria apontado nesta profecia, em uma demonstração de que o pacto davídico ainda estava de pé, embora não fosse se cumprir em Zorobabel.

- Sem adentrarmos nesta discussão, o certo é que, nesta profecia de Ageu, mostra-se que a reconstrução do templo era necessária mas não se daria ali o cumprimento do pacto davídico, pois aquela casa testemunharia uma glória maior que a da primeira, que fora construída por Salomão. Ora, tal não se deu na construção do Segundo Templo, pois, ao contrário do que ocorrera com Salomão (e mesmo no tabernáculo com Moisés), quando o Segundo Templo foi dedicado, a glória do Senhor não apareceu e não encheu aquela casa (Ed.6:15-22). Esta glória viria “daqui a pouco”, como afirmou o Senhor.

- Na segunda profecia de Ageu, o Senhor prometia fazer tremer os céus e a terra, derrubar o trono dos reinos e destruir a força dos reinos das nações, quando então seria tomado Zorobabel e feito “anel de selar”, porque havia Zorobabel sido escolhido pelo Senhor (Ag.2:20-23).

- Ora, quando o profeta Ageu se dirige a Zorobabel, chama-o de “príncipe de Judá”. Zorobabel nada mais era que um simples “príncipe”, pois, embora fosse o herdeiro da coroa real de Judá e estivesse, por milagre, à frente do povo apesar desta condição, não podia, de forma alguma, governar sobre os judeus, que eram servos dos reis da Pérsia, tanto que edificavam o templo “conforme o mandado de Ciro e de Dario, e de Artaxerxes, rei da Pérsia” (Ed.6:14 “in fine”). Como, então, haveria o Senhor de “derrubar o trono dos reinos e destruir a força dos reinos das nações” nos dias de Zorobabel, que nem sequer se tornou rei?

- Deus confirmava a Zorobabel que o havia escolhido para dar a continuidade à semente de Davi. O templo estava sendo reconstruído, mas não seria ainda Zorobabel quem haveria de ser o descendente que firmaria o seu trono para sempre em Israel. Deus queria a reconstrução do templo, mas não seria nesta reconstrução que se cumpriria a promessa dada à casa de Davi. O cumprimento ainda seria no futuro, quando, inclusive, os poderes gentílicos, que hoje dominavam sobre os judeus, seriam extirpados.

- Tal circunstância foi bem compreendida pelo povo judeu no cativeiro, como vemos, por exemplo, na oração feita pelos maiorais dos levitas nos dias de Neemias (Jesua, Cadmiel, Bani, Hasabneias, Serebias, Hodias, Sebanias e Petaías) (Ne.9:34-38).

- Este descendente de Davi, que teria seu trono confirmado para sempre e que traria a glória do Senhor para o Segundo Templo, é Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Desde o instante em que entrou, pela vez primeira, no templo em Jerusalém, foi apresentado como a salvação do Senhor, a luz para alumiar as nações e a glória de Israel (Lc.2:29-32). Quando retornou a este mesmo templo, doze anos depois, apresentou-Se como a sabedoria de Deus, causando admiração por Sua inteligência e respostas, mostrando-Se como o Filho (Lc.2:46-49), como anunciado no pacto davídico (II Sm.7:14a; I Cr.17:13a).

- O Segundo Templo teve, assim, maior glória que o primeiro, pois, se no Primeiro Templo, a glória de Deus se apresentou e encheu a casa por ocasião da inauguração, no Segundo, o próprio Deus compareceu, através da pessoa do Filho, trazendo, neste mesmo templo, o Seu poder, o Seu amor e os Seus ensinos.

- Mas o verdadeiro templo não era aquele construído por Zorobabel e reformado por Herodes, cuja beleza causava admiração a todos os judeus (Mt.24:1,2; Lc.21:5,6). Logo no início de Seu ministério terreno, Jesus foi ao templo e, conforme a narrativa de João, ali revelou qual era o verdadeiro templo: aquele que seria derribado, mas que, em três dias, tornaria a se levantar: o Seu corpo (Jo.2:19-21). Esta afirmação de Jesus calou profundamente na mente dos judeus, tanto que foi a principal acusação que lhe fizeram no Sinédrio, quando de Seu julgamento perante os judeus (Mt.26:59-61; Mc.14:57-59).

- Jesus edificou uma casa que não seria jamais derribada: a Sua Igreja (Mt.16:18), que é o Seu corpo (I Co.12:27). Esta casa somos nós (Hb.3:3-6) que, enquanto aqui estamos, devemos nos portar como templo do Espírito Santo (I Co.6:19).

- Mas, além de ser o edificador da casa que jamais seria derribada, Jesus, também, é Aquele que terá confirmado o Seu reino e o Seu trono para sempre. A outra acusação que se fez contra o Senhor Jesus, desta feita, perante os romanos, foi precisamente o de Se declarar rei dos judeus (Lc.23:1-3; Jo.18:33-37).

- A Pilatos, Jesus mostrou que Seu reino não era deste mundo, indicando, assim, que não haveria de ser nesta ocasião em que seria confirmado n’Ele o reino e o trono de Davi. Isto se dará no futuro, quando o Senhor retornará glorioso com a Sua Igreja, a casa que tiver edificado, derrotando o Anticristo e se estabelecendo em Israel, não só como rei dos judeus, mas como rei de todas as nações, Rei dos reis e Senhor dos senhores, derrubando os tronos de todas as nações, como profetizado por Ageu (Is.11; Dn.2:44,45; Ap.19:11-21; 20:4).

- Conforme podemos ver, o pacto davídico está em pleno vigor ainda, não tendo sido definitivamente cumprido, já que Jesus ainda não ocupou o trono de Israel, como prometido por Deus a Davi. Nem se diga que Jesus disse que Seu reino não era deste mundo, pois, efetivamente, não no é, mas o pacto firmado com Davi fala do “trono de Davi”, do “reino de Davi” e sabemos bem que o trono de Davi e o reino de Davi é o reino de Israel, cujas fronteiras, não por acaso, são as mesmas da promessa dada por Deus a Abraão.

- Este não cumprimento do pacto mesmo com a vinda do Messias e Sua morte vicária no Calvário foi atestado pelo próprio Senhor Jesus, pois a única pergunta feita por Jesus e que não foi respondida por Ele durante Seu ministério terreno diz respeito ao pacto davídico, como se verifica de Mt.22:41-46 e Mc.12:35-37.

- Esta resposta viria, por inspiração do Espírito Santo, no dia de Pentecostes, quando, na sua pregação, Pedro mostrou aos judeus que o ouviam que o Filho de Davi era Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, que seria levantado do fruto dos lombos do segundo rei de Israel, segundo a carne, para que este descendente Se assente sobre o trono de Davi (At.2:25-30). Que isto ocorrerá, diz Pedro, não se pode ter dúvida porque Jesus ressuscitou dentre os mortos e foi recebido nos céus e, por isso, Davi profetizara que o Filho de Davi era Senhor (At.2:32-36).

- Completando este raciocínio, o mesmo Pedro, na segunda pregação que é relatada no livro de Atos, feita após a cura do coxo da porta Formosa do templo, afirmou que convém que o céu contenha a Jesus Cristo até os tempos da restauração de tudo, inclusive do reino de Israel (At.3:20,21).

- Não há, pois, como deixarmos de observar que o pacto davídico apontava para Cristo Jesus e que ainda não foi completamente cumprido, visto que, apesar da edificação da casa indestrutível, ainda não se confirmou o reino de Israel e o trono de Davi a Jesus. Brevemente, porém, o Senhor Jesus, com a Sua casa já edificada, reinará sobre Israel. Além da casa construída não por mão de homens, a casa espiritual que é a Sua Igreja, também haverá de edificar um templo em Jerusalém, o templo descrito pelo profeta Ezequiel (Ez.40-46), reinando sobre um novo Israel, restaurado e que cumprirá o propósito de ser um reino sacerdotal e um povo santo (Ez.47,48). Após estes mil anos, então, o Senhor Jesus, tendo feito a completa restauração da humanidade e da criação, submeter-Se-á ao Pai e terá congregado n’Ele todas as coisas (Ef.1:10), tendo, então, a consumação dos séculos. Aleluia!

- Estas sublimes promessas foram feitas a Davi, motivo por que dissemos que é o pacto davídico, sem dúvida, o ápice da vida espiritual deste homem segundo o coração de Deus.

- Neste pacto, uma vez mais, aprendemos que os desígnios de Deus se cumprem independentemente da vontade humana, mas que a cada ser humano é dada a oportunidade de aceitar, ou não, a oferta proveniente da benignidade e misericórdia do Senhor. Assim como Davi aceitou os ditames deste pacto e se manteve fiel ao Senhor até o fim reunindo condições de desfrutar das “firmes beneficências” que lhe foram prometidas, também podemos nós nos habilitar a recebê-las, desde que aceitemos a oferta que nos faz o Senhor (Is.55:1-3).
OBS: “…É enquanto filho de Yahweh que Davi e seus descendentes desfrutariam das cláusulas deste pacto. Estes versículos [II Sm.7:14-16, observação nossa] também introduzem a possibilidade de que filhos desleais poderiam perder a oportunidade de desfrutar das cláusulas deste (cf. I Rs.2:4; 8:25; 6:12-13; 9:4, 6-7; Sl.89:29-32; 132:12). Como a Abraão (Gen 12:1-3), Yahweh prometeu a Davi uma descendência eternal e a posse da terra. Filhos leais, i.e., que vivessem de acordo com as estipulações do pacto mosaico, poderia desfrutar plenamente das cláusulas oferecidas a eles. Contudo, filhos desleais, i.e., descendentes davídicos que fossem infiéis ao pacto, perderiam a prometida proteção divina e eventualmente perderiam o gozo da autoridade e da terra. Ainda assim, Yahweh prometa que os filhos desleais perderão sua oportunidade de gozar das cláusulas deste pacto, afirma que a casa davídica e o trono durarão para sempre, dando a esperança de que Yahweh poderia levantar, um dia, um filho leal que satisfaria as exigências de Yahweh para a observância do pacto. Embora a linhagem de Davi pudesse ser castigada, os termos deste pacto, a hesed (חסד) de Deus jamais seria retirada.…” (GRISANT, Michael A. end. cit.) (tradução nossa de texto em inglês).


- Na história deste pacto, vemos homens que, apesar de seus pecados, deles se arrependeram e obtiveram o perdão divino, como é o caso do próprio Davi e mesmo de Manassés que, apesar de ter sido o mais ímpio dos descendentes de Davi, aproveitou a oportunidade para se arrepender dos males cometidos (II Cr.33:11-20), mas também temos casos como o de Uzias que, apesar de iniciado bem nos caminhos do Senhor, sendo ricamente abençoado, acabou se rebelando contra o Senhor e tendo triste fim (II Cr.26:16-23) ou de Joás que, igualmente, acabou se desviando dos caminhos do Senhor, chegando, inclusive, a cometer crimes dentro do próprio templo (II Cr.24:17-22; Mt.23:35; Lc.11:51).

- A todos estes descendentes de Davi, integrantes da casa de Davi, Deus deu a mesma oportunidade para que se mantivessem fiéis ao Senhor, a fim de receber as bênçãos da perpetuidade. Nem todos aproveitaram esta chance. Assim ocorre conosco, hoje, nós, que somos, também, integrantes da casa de Davi, visto que fomos feitos “reis e sacerdotes” por Nosso Senhor Jesus Cristo (Ap.1:6), coerdeiros de Cristo (Rm.8:17), irmãos do Senhor (Hb.2:11). Vamos desperdiçar esta manifestação da graça do Senhor? Que Deus nos ajude a perseverarmos até o fim e atingirmos as “firmes beneficências de Davi”. Amém.

Caramuru Afonso Francisco