quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O JEJUM COMO REFORÇO À ORAÇÃO



Texto áureo

“Dias virão, porém, em que o esposo lhes será tirado, e, então, naqueles dias, jejuarão” (Lc.5:35)


INTRODUÇÃO

- Em complemento ao estudo sobre oração neste trimestre letivo, traremos um breve estudo sobre o jejum, uma prática muito salutar que se deve adicionar à oração.

- O jejum é uma prática presente em diversas religiões durante todos os tempos da história da humanidade, prática que foi exercida por Jesus que, ao contrário de falsos mestres de nosso dias, recomendou-a, sim, para a Sua Igreja.

- O jejum, desde as mais remotas épocas, sempre foi uma prática presente na vida religiosa da humanidade. No entanto, este fato não nos autoriza, em absoluto, a dizer que o jejum não deva ser praticado pelos cristãos. Muito pelo contrário, a Bíblia e, em especial, o próprio Jesus ensina a Sua Igreja que devemos jejuar e que, até mesmo, em certas ocasiões, o jejum é necessário para a vitória do crente.

I - O O QUE É JEJUM

- O jejum é a abstenção total ou parcial de alimentação com a finalidade de aprimoramento do exercício da oração e da meditação. É uma prática encontrada nas mais antigas religiões da humanidade, em todos os lugares e nos mais variados estágios da civilização. Assim, tanto foram encontrados sacerdotes de tribos nos mais distantes continentes que jejuavam para ter maior contacto com as divindades ou os espíritos dos antepassados, como também, como o jejum tem sido prática regular em todas as grandes religiões da atualidade (islâmicos, hinduístas, budistas, judeus e, por fim, os próprios cristãos).

- Por trás do jejum, existe a crença (que é válida) de que a mortificação do corpo, o sacrifício faz com que o homem se aproxime mais da divindade, porquanto revela seu desapego aos prazeres e às coisas materiais mais importantes, que são as referentes à sobrevivência, com o intuito de melhor perceber a vontade de Deus e de melhor agradá-l’O. Verdade é que não podemos entender o jejum, como muitos que assim fazem nas outras religiões, como um necessário desprendimento do corpo, como se o corpo fosse um mal em si e, portanto, um obstáculo para que tenhamos uma vida espiritual. Esta ideia, não corresponde ao ensino bíblico a respeito do assunto, pois Deus fez o homem corpo, alma e espírito (Gn.2:7, I Ts.5:23) e a Bíblia infirma que tudo quanto Deus fez foi por Ele considerado bom (Gn.1:31), o que inclui o nosso corpo.
OBS: "…Dentro de certas escolas filosóficas greco-romanas e fraternidades religiosas jejuar, como um aspecto de ascese, foi aproximado à convicção de que a humanidade tinha experimentado um estado primordial de perfeição que foi perdida por uma transgressão original. Por várias práticas ascéticas como jejuar, praticar a pobreza voluntária e a penitência, o indivíduo poderia ser restabelecido a um estado onde a comunicação e a união com o divino foram tornadas possíveis novamente. Consequentemente, em várias tradições religiosas, um retorno a um estado primordial de inocência ou felicidade ativou várias práticas de ascese julgadas necessárias ou vantajosas, provocando tal retorno. Para tal se agrupa a suposição subjacente básica de que aquele jejum era, de algum modo, propício para iniciar ou manter contato com Deus. Em alguns grupos religiosos (por exemplo, Judaísmo, Cristianismo e Islã) jejuar, gradualmente, se tornou um modo de expressar devoção e adoração a um ser divino específico.
Além da suposição subjacente básica de que jejuar é uma preparação essencial para revelação divina ou para algum tipo de comunhão com o espiritual ou o sobrenatural, muitas culturas acreditam que o jejum é um prelúdio em tempos importantes na vida de uma pessoa. Purifica ou prepara a pessoa (ou grupo) para maior receptividade em comunhão com o espiritual.…" (BINGEMER, Maria Clara Lucchetti. Jejum e fome zero: elementos quaresmais. Disponível em: www.google.com.br/search?q=cache:2JwR9lGw40MJ:www.adital.org.br/asp2/noticia.asp%3Fidioma%3DPT%26noticia%3D6706+jejum&hl=pt-BR&ie=UTF-8)

- É por isso que a Bíblia não considera o jejum como uma penitência ou um sacrifício necessário para o desenvolvimento espiritual, pois devemos também ter o nosso corpo envolvido no anúncio da salvação, tanto que Deus o tornou templo do Espírito Santo (I Co.6:19). O jejum é uma prática recomendada, mas é um método para reforço da oração, não algo que possa trazer algum mérito ou que demonstre haver algum merecimento na vida de algum homem, pois tudo o que recebemos de Deus é fruto da Sua imensa misericórdia e graça (Lm.3:22). Este errôneo conceito de jejum próprio dos gentios, foi o motivo da reprovação da prática farisaica, como vemos no sermão do monte (Mt.6:16). Assim, ao contrário do que argumentam alguns falsos mestres nos nossos dias, Jesus não reprovou o jejum mas, sim, este errado conceito de jejum.
OBS: A ideia do jejum como penitência está difundida em muitos credos religiosos. Entre os muçulmanos, o jejum, ao lado de ser uma forma de agradecimento a Deus pela revelação do Alcorão durante o mês de Ramadã, que é um dos pilares da fé islâmica, também é prescrito como penalidade em virtude de algumas faltas. Assim, por exemplo, um muçulmano que mata outro acidentalmente e não tem condições de pagar uma indenização à família da vítima, deve jejuar dois meses consecutivos como pena(Alcorão, 4:92). Entre os católicos romanos, também, o jejum é considerado uma prática obrigatória durante o tempo de penitência (cânon 1249 do Código Canônico). O Catecismo da Igreja Romana afirma que uma das formas de penitência é o jejum (artigo 1434), que corresponderia à penitência interior consigo mesmo, baseando-se, para tanto, no escrito do livro apócrifo de Tobias que diz : "…vale mais a oração com jejum e a esmola com justiça do que a riqueza adquirida com a injustiça…" (mias uma vez vemos um livro apócrifo dar base a um pensamento da doutrina romanista). O Papa João Paulo II (1978-2005) reforçou este entendimento romanista a respeito do jejum ao afirmar que o jejum é "…prática penitencial que exige um esforço espiritual mais profundo, isto é, a conversão do coração com a firme decisão de se afastar do mal e do pecado, para se predispor melhor à realização da vontade de Deus. Com o jejum físico, e ainda mais interior, o cristão prepara-se assim para seguir Cristo e ser sua fiel testemunha em qualquer circunstância. Além disso, o jejum ajuda a compreender melhor as dificuldades e os sofrimentos de tantos irmãos nossos, oprimidos pela fome, pela miséria e pela guerra. Ele estimula também a um movimento concreto de solidariedade e de partilha com quem se encontra em necessidade." (Angelus de 2 de março de 2003. Disponível em: www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/angelus/2003/documents/hf_jp-ii_ang_20030302_po.html).


- Um dos pais da Igreja (nome que recebiam os grandes nomes da Igreja depois dos apóstolos até a Idade Média), o italiano Pedro Crisólogo (380 ou 406-451), que foi bispo de Ravena, afirmou: “…Há três coisas, meus irmãos, três coisas que mantêm a fé, dão firmeza à devoção e perseverança à virtude. São elas a oração, o jejum e a misericórdia. O que a oração pede, o jejum alcança e a misericórdia recebe. Oração, misericórdia, jejum: três coisas que são uma só e se vivificam reciprocamente. O jejum é a alma da oração e a misericórdia dá vida ao jejum. Ninguém queira separar estas três coisas, pois são inseparáveis. Quem pratica somente uma delas ou não pratica todas simultaneamente, é como se nada fizesse. Por conseguinte, quem ora também jejue; e quem jejua pratique a misericórdia. Quem deseja ser atendido nas suas orações, atenda as súplicas de quem lhe pede; pois aquele que não fecha os seus ouvidos às súplicas alheias, abre os ouvidos de Deus às suas próprias súplicas.(…). Peçamos, portanto, destas três virtudes – oração, jejum, misericórdia – uma única força mediadora junto de Deus em nosso favor; sejam elas para nós uma única defesa, uma única oração sob três formas distintas.…” (CRISÓLOGO, Pedro. A oração, o jejum e a misericórdia. Disponível em: http://reporterdecristo.com/a-oracao-o-jejum-e-a-misericordia/ Acesso em 01 out. 2010). Em outro sermão, o mesmo Pedro Crisólogo diz que “…O jejum é paz do corpo, força dos espíritos e vigor das almas( Sermo VII: de ieiunio 3 apud JOÃO PAULO II. Audiência geral de 21 de março de 1979. Disponível em: http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/audiences/1979/documents/hf_jp-ii_aud_19790321_po.html Acesso em 01 out. 2010).

- Quando falamos em jejum, há aqueles que entendem que o jejum é a abstinência completa de todo e qualquer alimento, tanto água quanto os demais alimentos, não aceitando a ideia de que possa existir um jejum parcial. Entretanto, devemos compreender o jejum como uma abstinência total ou parcial de alimentação. O jejum envolve uma abstinência, uma privação, que pode não ser completa. Um exemplo bíblico de jejum parcial encontramos em Dn.10:3, onde o profeta afirma que não comeu manjar desejável, num exemplo de que a abstinência não era total. Desta forma, não temos respaldo bíblico para afirmar que todo e qualquer jejum somente é válido se for total.
OBS: Atualmente, não há mais, entre os católicos romanos, uma definição do que seja o jejum, mas, no Código Canônico anterior, datado de 1917 e que vigorou na Igreja Romana até 1983, o jejum era considerado como uma abstinência em que, no mínimo, não se deveria tomar mais do que uma refeição completa, permitida a ingestão de outro alimento outras duas vezes ao dia, regra que, embora não conste mais do Código Canônico, ainda tem sido considerada como válida entre os católicos romanos. No Brasil, entretanto, a Igreja Romana não tem incentivado esta prática (com exceção talvez dos carismáticos), tanto que o jejum semanal prescrito para as sextas-feiras foi substituído pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) pela prática de obras de caridade e exercícios de piedade.

- Existem algumas dúvidas relativas ao jejum, que seria aqui oportuno discutir, a saber:
a) O jejum deve envolver, também, a abstinência de relações sexuais? No sentido estrito, o jejum é a abstinência de alimentos, ou seja, de comida e/ou de bebida. Desta forma, como o sexo não é um alimento, não estaria envolvida na ideia de jejum tal abstinência. No entanto, é inegável que a prática do sexo é algo que está relacionado com a satisfação do corpo e, em virtude disto, logo se associou a ideia de jejum à abstinência também de sexo, uma associação que não se entende seja desarrazoada, mas que não se afigura como um mandamento(entre os muçulmanos, o jejum envolve a abstinência sexual). Numa ocasião, pelo menos, a Bíblia registra que a consagração para a presença de Deus envolveu a abstinência sexual, como se vê na entrega dos dez mandamentos ao povo de Israel (Ex.19:15), embora não esteja explicitado que tal abstinência estivesse acompanhada de um jejum. A Bíblia ensina-nos, entretanto, que, para que haja a abstinência sexual, é necessário que haja mútuo consentimento entre marido e mulher, sem o que não se terá como regular tal abstinência (I Co.7:10). Desta forma, o jejum não envolve, necessariamente, a abstinência de relações sexuais, mas não é errado incluí-la no sacrifício, desde que isto se faça através de consentimento mútuo de marido e mulher. Ademais, a abstinência sexual, por si só, independentemente do jejum, constitui-se em um reforço à prática da oração, observadas as restrições bíblicas já mencionadas.

b) O jejum envolve a abstinência de ingestão de remédios e de medicamentos? Outra dúvida frequente é se o jejum impede a pessoa de ingerir remédios e medicamentos durante o período da abstinência. Entre os católicos romanos, o jejum prescrito para uma hora antes da participação na comunhão expressamente exclui a água e o remédio(cânon 919 do Código Canônico). Entendemos que o remédio não é alimento e, portanto, sua ingestão não quebra o jejum, até porque se pode fazer um jejum parcial, como veremos infra. Entretanto, há remédios que, para serem ingeridos, exigem a ingestão de algum tipo de alimento, o que impediria, pelo menos, um jejum total. Esta situação demonstra que pessoas enfermas devem evitar a prática do jejum até o seu pronto restabelecimento, havendo outras formas de agradar a Deus e de buscá-l’O mais intensamente, como falamos infra.

c) O jejum é quebrado pela participação na mesa do Senhor? Outra discussão que surge é se a pessoa que está jejuando quebra o jejum se participar da mesa do Senhor. A ingestão do pão e do vinho, na Ceia, faz quebrar o jejum? Muito se tem discutido sobre este assunto, mas entendemos que a melhor opinião é a defendida, entre outros, pelo pastor e escritor Severino Pedro da Silva, segundo a qual, como o pão e o vinho não têm o escopo de alimentar o corpo e, sim, são símbolos de um alimento espiritual, a participação da mesa do Senhor não tem o condão de quebrar um jejum que esteja sendo levado a efeito por um servo do Senhor. Jamais um crente, a pretexto de um jejum, deverá deixar de participar do corpo de Cristo, pois a participação na ceia é um mandamento do Senhor e obedecer é melhor do que sacrificar. No entanto, se a consciência do crente não aceita que ele possa manter o jejum participando da ceia, que o entregue antes da participação, como, aliás, sabiamente, em todas as ceias, costuma proceder, na igreja que preside, pastor Raimundo Soares de Lima (Indaiatuba/SP), que sempre entrega, coletivamente, o jejum dos crentes presentes no culto da Ceia do Senhor, antes do início da participação.

d) Devem-se praticar os atos de higiene pessoal enquanto se jejua? Muitos têm dúvida se, durante o jejum, podem praticar atos de higiene e cuidado pessoais, como tomar banho, escovar os dentes, vestir-se bem ou algo similar. Entre os judeus, havia aqueles que entendiam que, durante o jejum, não se devia tomar banho. Foi a partir deste ensinamento que surgiu o jejum farisaico, em que a pessoa fazia questão de mostrar aos outros que estava jejuando. Deste modo, como isto foi duramente criticado pelo Senhor no sermão do monte, torna-se evidente que não só pode, mas que o crente deve praticar estes atos de higiene durante o jejum, até para não demonstrar que está jejuando. Estas práticas estão inclusas na expressão bíblica "unge a tua cabeça e lava o teu rosto" (Mt.6:17).

e) Considera-se de jejum o período de abstinência durante o sono? Há muitas pessoas que, para jejuar, buscam o período do sono, ou seja, alimentam-se bem e vão dormir, procurando acordar mais tarde no outro dia, exatamente para que não "sejam tentados a quebrar o jejum". Esta prática não deve ser seguida pelos crentes. O jejum é a abstinência de alimentos, ou seja, é deixar de se alimentar em período em que normalmente haveria a alimentação. O período de sono não é um período em que nos alimentemos normalmente e, portanto, esta falta de alimentação não pode ser considerada como jejum.

f) Quanto tempo deve durar o jejum? Muito se indaga sobre o período de duração do jejum, como se o tempo do jejum fosse torná-lo melhor ou não, ou que Deus exigiria um tempo mínimo de jejum. De qualquer maneira, o importante é que haja o propósito por parte do jejuador e uma sinceridade capaz de sensibilizar o coração de Deus. Cada pessoa deve saber da sua estrutura e, com base nisto, calcular o tempo de jejum. Um jejum total não pode ser muito duradouro, pois os casos constantes da Bíblia de prolongados jejuns completos (Moisés-Ex.24:18, 31:18; 34:28, Elias - I Rs.19:8 e Jesus - Mt.4:2) são casos especiais, relacionados com a missão específica e singular destes dois homens de Deus e do próprio Senhor Jesus, razão pela qual não podem nem devem ser copiados pelos crentes. O jejum feito acima das condições físicas somente tratará problemas de saúde física e mental ao jejuador, sendo motivo de escândalo e não de glorificação do nome do Senhor e não devemos dar motivo de escândalo (I Co.10:32; Mt.18:7). Entretanto, deve-se observar que a ciência médica não considera como sendo de jejum um período inferior a 4(quatro) horas (nenhum exame médico que exija jejum é realizado em período inferior a este), de sorte que não há que se falar em jejum inferior a este período, pois não há aqui qualquer privação de alimentação, mas mero intervalo de refeições.

g) Pode-se jejuar enquanto se faz uma dieta? Há muitas pessoas que, por estarem fazendo uma dieta alimentar, estética ou médica, querem aproveitar-se da ocasião para jejuar. Seria isto possível? Em primeiro lugar, devemos lembrar de que o jejum não se confunde com a simples dieta alimentar. Já há grupos religiosos que estipulam jejuns como verdadeiras dietas, tendo um cardápio de abstinência assim como as receitas de dieta que cada vez mais proliferam no mundo. Em segundo lugar, se estamos diante de uma dieta médica, não se terá jejum, pois o jejum é uma privação de algo que se pode consumir e a pessoa estará sendo privada de alimentação por questões de saúde e não estará deixando de se alimentar de coisa alguma, o que prova não se tratar de jejum algum. Se a dieta for estética, teremos uma atitude puramente motivada para aspectos de beleza e de bem-estar corporal, atitudes que são incompatíveis com os propósitos que devem ser levados a efeito pelo jejum. Portanto, concluímos que uma dieta não pode ser "aproveitada" como jejum.

- O conceito de jejum, ademais, não envolve apenas a ideia de privação alimentar. O jejum, também, é caracterizado pela existência de um propósito, de uma finalidade precisa e clara. Como afirma o professor Felipe de Aquino, católico da Comunidade Canção Nova, “…Ao jejuar devemos concentrar-nos não só na prática da abstenção do alimento ou das bebidas, mas no significado mais profundo desta prática. O alimento e as bebidas são indispensáveis para o homem viver, disso se serve e deve servir-se, mas não lhe é lícito abusar seja da forma que for. O jejum tem como finalidade nos levar a um equilíbrio necessário, e ao desprendimento daquilo que podemos chamar de ‘atitude consumística’, característica da nossa civilização. …” (AQUINO, Felipe de. A importância do jejum. Disponível em: http://blog.cancaonova.com/felipeaquino/2010/02/18/a-importancia-do-jejum/ Acesso em 01 out. 2010).

- É exatamente este o ponto em que Jesus discordava dos jejuns praticados pelos fariseus, que eram práticas rituais, formais, meras ostentações, sem qualquer propósito senão o da autoglorificação e da autoexaltação. Devemos jejuar sempre que temos um motivo, um propósito, um objetivo definido e estabelecido. Sem que haja este propósito, o jejum será tão somente uma privação alimentar, uma dieta. Daí porque não podermos concordar com a definição de jejum que teria sido supostamente anunciada numa "aparição" na cidade sérvia de Medjugorje, segundo a qual "jejum é refrear a nossa gula e disciplinar o nosso comer" (apud O jejum. Disponível em: www.google.com.br/search?q=cache:GjTEA6a3JLQJ:www.diocese- sjc.org.br/jejum.php+jejum&hl=pt-BR&ie=UTF-8).

- É a existência deste propósito e desta finalidade que difere o jejum de uma simples privação alimentar. Jejuar é muito mais do que simplesmente passar fome e sede e é neste particular que muitos têm fracassado: buscam no jejum uma ostentação, uma autoglorificação e o que conseguem, com isso, além da reprovação divina, é tão somente instantes de privação alimentar, uma dieta que, às vezes, nem benefícios traz para a saúde física do que jejua.
OBS: A preocupação com a saúde física do que jejua, aliás, é algo que sempre norteou a prática do jejum nas religiões ao longo da história da humanidade e que, aliás, tem faltado no meio evangélico. Com efeito, já os rabinos judeus diziam que o jejum, como todos os preceitos bíblicos, foi dado como "Torat Chaim" , ou seja, como ensinamentos pertinentes à vida e que os homens devem viver e não morrer por eles. Daí porque os enfermos e as crianças eram isentos desta obrigação, que também não poderia colocar em risco a vida do jejuador. O Código Canônico da Igreja Romana exclui água e remédio do jejum que deve ser observado uma hora antes da sagrada comunhão, como também dispensa as pessoas idosas e enfermas desta prática(cânon 919), revelando, assim, o cuidado que deve haver quanto a estas situações. Daí porque ter o pastor Elinaldo Renovato de Lima, , em seu artigo sobre a prática do jejum, na revista Ensinador Cristão, afirmado, sabiamente, que "…pessoas portadoras de doenças do estômago tenham cuidado com seu organismo. Não é aconselhável que pessoas com úlceras ou gastrites façam jejum. Deus não quer sacrifício. Ele quer obediência, fidelidade, santidade." (Evite os exageros: esclarecimentos importantes sobre a prática do jejum na vida cristã. Ensinador Cristão, ano 4, nº 15, jul.-ago.-set./2003, p.14).

II - O JEJUM NAS ESCRITURAS

- Na lei de Moisés, o jejum foi estabelecido como obrigatório no dia da expiação, quando o povo deveria "afligir a sua alma", expressão que significa, precisamente, praticar o jejum (Lv.16:29 - na Nova Versão Internacional, o texto diz : vocês de humilharão (ou jejuarão)). Vemos, portanto, que o primeiro propósito do jejum que se encontra na Palavra de Deus é o de humilhação, de arrependimento de seus pecados. Esta mesma ideia para o jejum encontramos no tempo de Samuel (I Sm.7:1-12) e até mesmo fora de Israel, como ocorreu entre os ninivitas após a pregação de Jonas (Jn.3:6-10).

- Na primeira manifestação voluntária de jejum que se tem notícia no meio de Israel, em Jz.20:26, temos um novo propósito para a prática do jejum. No tempo do terceiro sumo-sacerdote, Fineias, no início do período dos juízes, vamos observar os soldados israelitas jejuando buscando uma orientação divina a respeito da guerra civil contra a tribo de Benjamim. O jejum, portanto, também era utilizado para se ter uma orientação da parte de Deus.

- Quando Deus, em cumprimento à Sua Palavra, feriu o primeiro filho de Davi com Bate-Seba de enfermidade, Davi recorreu ao jejum para tentar alcançar a cura da criança, num novo propósito estabelecido para esta prática (II Sm.11:16,17). É interessante observar que, morta a criança, Davi cessou de jejuar, numa clara demonstração de que o seu jejum tinha um propósito definido e que assim deve proceder alguém que, como Davi, tem um coração segundo o coração do Senhor (I Sm13:14; 16:1).

- Também é exemplo de jejum como pedido de orientação e de súplica a Deus o que foi convocado pelo rei Josafá (II Cr.20:3), ocasião em que, ao contrário do que ocorrera com Davi, Deus concedeu o desejo do coração do povo. Outro exemplo de jejum em dias difíceis é o que foi feito pela rainha Ester, que, neste particular, foi acompanhada pelo seu povo (Et.4:16,17), bem como o de Neemias (Ne.1:4) ou de Esdras(Ed.7:21).

- O Talmude, segundo livro sagrado dos judeus, contém um livro a respeito dos jejuns ( o "Rolo dos Jejuns", em hebraico "Meguilat Ta'anit"), onde se estabeleceu, precisamente, que os jejuns têm um tríplice propósito: arrependimento, súplica pela ajuda de Deus, o luto ou a comemoração.
OBS: "…O jejum que levava ao arrependimento era considerado significativo só na medida em que era um ato de livre e espontânea vontade, para que incentivasse um auto-exame honesto de parte do jejuador. O jejum como súplica pela intervenção de Deus em época de grandes dificuldades era, frequentemente, um ato coletivo. Na história conturbada do povo judeu, espalhado por dezenas de diferentes lugares através do mundo, a observância de dias especiais de jejum era bastante usual. Podia ser ordenada pelas autoridades rabínicas de uma só comunidade - ou mesmo de toda uma região ou país - com o fito de implorar a ajuda de Deus para antepor-se a qualquer decreto severo da Igreja ou do Estado, ou para frustrar as intrigas dos inimigos implacáveis em seu ódio aos judeus. Em épocas de seca, as comunidades rurais se reuniam para jejuar a fim de provocar a chuva. Quando a peste atacava, os guetos judaicos jejuavam para suplicar a proteção divina. O terceiro objetivo, em importância, do jejum - que havia sido instituído pelos Profetas - era o de fazer relembrar aos descendentes de Abraão as muitas calamidades que se haviam abatido sobre eles em diversas ocasiões desde o Cativeiro no Egito.…" (Nathan AUSUBEL. Jejum e dias de jejum. In: JUDAICA, v.5, p.393-4).


- Ao lado deste jejum, porém, a Bíblia também informa ter surgido um jejum cerimonial, um desdobramento do jejum obrigatório do dia da expiação, de tal maneira que o próprio calendário judaico ficou recheado de dias de jejum a ponto de, no tempo dos fariseus, haver dois jejuns semanais, o das segundas-feiras e o das quintas-feiras (Lc.18:12). O Senhor sempre demonstrou Seu desagrado e reprovação a este tipo de jejum, formalista e ritualístico, despido de qualquer outro propósito senão de autoexaltação e de autoglorificação (Is.58:3-7; Zc.7:3-14; Mt.6:16-18). O jejum banalizou-se tanto que era até forma de sinal de acordo homicida, ou seja, passou a ser até uma garantia para a prática de um crime (At.23:12,13).
OBS: "…Entre todos os dias de jejum, só o Iom Kipur, o Dia da Expiação, havia recebido a sanção da Torah como mandamento. Na medida em que o costume tem um poder de perpetuação tão poderoso quanto o da lei canônica, toda uma série de jejuns extra-escritura ocupam um lugar firmemente plantado na vida religiosa judaica. O jejum de Tishah b'Av, o nono dia de Ab, era objeto de maior reverência. É um dia de dor nacional e de contrição, comemorativo da Destruição ( 586 a.E.C. e em 70 E.C., respectivamente) tanto do Primeiro quanto do Segundo Templos, em Jerusalém. A implicação deste e de outros jejuns comemorativos é a seguinte: se as calamidades se abateram sobre o povo judeu, foi, segundo as palavras da liturgia, 'por causa de nossos pecados'- como castigo de Deus.(…). Outro dia de jejum tradicional é o Tzom Guedaliahu (o Jejum de Gedalias). Tem lugar no dia que se segue a Rosh Hashanah (o Ano Novo judaico, observação nossa), e é observado pelos judeus ortodoxos em memória de Guedalias, apelidado 'o Virtuoso'. O rei Nabucodonosor da Babilônia, depois de haver reduzido o Primeiro Templo a ruínas, em 586 a.E.C., havia indicado a Guedalias para governador de Judá. Por razões desconhecidas, ele foi assassinado por seus irmãos judeus. Em represália, houve um massacre de judeus. O jejum de Assarah B'Tevet (o décimo dia de Tevet) rememora o começo do cerco de Jerusalém por Nabucodonosor. O jejum do décimo-sétimo dia de Tamuz comemora uma série de calamidades nacionais arroladas no Talmud. Segundo o Êxodo 32:19, Moisés quebrou as tábuas dos Dez Mandamentos naquele dia; e também naquele dia os sacrifícios diários do Templo foram abolidos, Tito conseguiu abrir uma brecha nos muros de Jerusalém durante o cerco daquela cidade, o general sírio Atsotomos queimou os Rolos da Torah, e um ídolo pagão foi colocado no próprio santuário do Monte Sion pelos sacerdotes acovardados do Templo. Essas eram algumas das razões que os sábios religiosos da era rabínica davam para explicar e justificar o castigo que Deus impôs a Israel, quando destruiu o Templo e espalhou o Seu povo no Exílio(…) por todos os mais longínquos recantos da terra. Ta'anit Ester (o jejum de Ester) é observado pelos tradicionalistas na véspera de Purim, em gratidão à memória do jejum patriótico que a rainha Ester fez quando em busca de orientação divina e de força para levar a efeito a súplica que devia fazer pelas vidas de seus irmãos judeus perante seu marido, o rei Assuero, da Pérsia. A véspera do Pessah (Páscoa, observação nossa) é comemorada pelos ultra-ortodoxos com o Ta'anit Bechorim ( o jejum dos Primogênitos), como expressão da gratidão a Deus por haver poupado os primogênitos de Israel à época do extermínio dos primogênitos egípcios, antes do Êxodo do Egito pelos israelitas. Na categoria de jejuns comemorativos, também os aniversários presumíveis das mortes de figuras eminentes da Bíblia, tais como Moisés, Aaarão, Miriam, Josué e Samuel, e dos mártires rabínicos que haviam perecido nas mãos dos romanos (Akiva ben José, os Dez Mártires, e outros) eram observados, em geral, com jejuns de meios dias, em séculos passados. Esses dias de jejum, porém, não são mais observados, exceto por um punhado de tradicionalistas ferrenhos.…" (Nathan AUSUBEL. Jejum e dias de jejum. In: JUDAICA, v.5, p.394).

- Nos dias de Jesus, como vimos, o jejum era uma prática constante e regular entre os judeus, desde os essênios, que se isolavam da sociedade, até os fariseus, que era o grupo religioso mais numeroso daqueles dias. Os discípulos de João Batista também jejuavam (Mt.9:14). Indagado sobre o motivo pelo qual Seus discípulos não jejuavam, Jesus respondeu aos discípulos de João Batista que não era o período de Seu ministério o tempo oportuno de jejuar, mas dias viriam em que deveria haver jejum por parte dos cristãos (Mt.9:15). Assim, ao contrário do que se tem apregoado por falsos mestres, de que o jejum seria uma prática da antiga dispensação, não presente entre os crentes, o próprio Jesus afirmou, categoricamente, que os crentes haveriam de jejuar, prova de que isto não foi abolido pelo Senhor.

- Jesus não disse que os crentes não jejuariam, mas que não se fazia necessário jejuar enquanto Jesus estivesse ali, ao lado dos discípulos, em carne e osso, orientando-os, ensinando-os e os guardando de todo o mal. Por que precisariam jejuar numa situação como esta? Entretanto, após a glorificação do Senhor, já vemos a igreja jejuando para buscar a orientação do Espírito Santo (At13:2). Deste modo, não há qualquer base bíblica para ensinamentos de que o jejum não tem lugar na dispensação da graça.

- Jesus reprovou o jejum ritualístico, sem propósito outro que não o da ostentação do jejuador, o típico jejum dos fariseus, jejum este, aliás, que, infelizmente, está presente em muitas igrejas locais por parte de "santarrões" que gostam de, em seus testemunhos e palavras, fazer questão de dizer aos ouvintes que estão jejuando ou que jejuam tantas e quantas vezes ao dia, pessoas que, assim como o fariseu da parábola, estarão apenas prestando um desserviço para suas próprias almas (Lc.18:9-14). Que sejamos verdadeiros servos do Senhor, seguindo os conselhos do Senhor sobre como jejuar (Mt.6:16-18).
OBS: Recentemente, tivemos conhecimento de que, em uma determinada igreja local, o líder jejuou por quarenta dias e, ao término do seu jejum, foi recebido com gala por toda a congregação, tendo em vista que se encontra em um “estado de maior santidade”, sendo acolhido como um verdadeiro “super-homem”, todo vestido de branco. Quanta hipocrisia e quanta desobediência à Palavra do Senhor!

- O primeiro ensino de Jesus sobre o jejum é de que devemos jejuar. Disse o Senhor "quando jejuardes", ou seja, Jesus já avisava que a Sua Igreja teria necessidade de jejuar, tanto assim que, no episódio em que expulsou um demônio após ter descido do monte da Transfiguração (Jo.17:12), foi claro ao afirmar que expulsão de determinada casta depende necessariamente de jejum e oração.

- O segundo ensino de Jesus é de que o jejum deve ser algo entre Deus e o jejuador, de tal modo que ninguém deverá saber sobre o propósito que apresentamos diante do Senhor. Trata-se de um propósito que deve permanecer em oculto, daí porque devemos nos mostrar diante dos demais homens como se não estivéssemos jejuando, não mostrando que estejamos nos abstendo de alimentação ou fazendo algum sacrifício, mas, muito pelo contrário, dando a entender que estamos normais e que nada está ocorrendo. Não se está dizendo que devemos ser hipócritas, mas que devemos manter o assunto em segredo com o Senhor. Quem jejua está querendo ter maior intimidade, aproximar-se mais do Senhor e não é possível que não possa, diante deste propósito, manter um ambiente de segredo, que é uma característica primeira da intimidade. A maior intimidade com Deus começa na existência deste segredo entre o jejuador e o Senhor.

- O terceiro ensino de Jesus é de que o jejum deve ter um propósito, uma finalidade. Ao mesmo tempo em que há um segredo entre o jejuador e Deus, faz-se preciso que o jejum tenha um fim, um objetivo a ser perseguido. Disse Jesus que Deus, vendo o nosso jejum, nos recompensará. Ora, o que é a recompensa? É um prêmio, é um galardão que se dá. Sendo assim, o jejum deve ter um propósito, pois, se não fosse assim, não teria como Deus nos dar uma recompensa, nos dar o galardão, o prêmio pretendido. Se Deus no-lo concede, é porque existe um objetivo, um fim que foi perseguido pelo jejuador.


III – O ASPECTO ESPIRITUAL DO JEJUM

- O mais importante aspecto do jejum é o seu lado espiritual, ou seja, somente pode jejuar quem estiver em comunhão com o Senhor, ou seja, a privação de alimento somente tem validade quando a pessoa, antes de se abster da comida e da bebida, já se absteve da prática do mal. Este ensinamento encontra-se no livro do profeta Isaías, no seu capítulo 58.

- Sendo uma forma de sacrifício em que o jejuador pretende se aproximar mais de Deus, é importante que tenhamos em mente que o nosso Deus é um Deus que se preocupa muito mais em obediência do que em sacrifícios (I Sm.15:22; Ec.5:1; Os.6:6; Mt.9:13; Mc.12:33). Assim, de nada adianta jejuarmos intensamente se não nos abstivermos, em primeiro lugar, da prática do mal e do pecado. Não existe vida cristã sem renúncia ao mal, sem rompimento com o pecado. A graça de Deus, diz-nos a Palavra, ensina-nos que devemos viver neste mundo de forma sóbria, justa e pia, após renunciar às concupiscências mundanas e à impiedade (Tt.2:11,12). Ser cristão é estar separado do pecado, é ser santo (I Pe.1:15,16).

- Não adianta querermos jejuar se não tivermos uma vida de santidade. A santidade
não vem pela prática do jejum, pois a santificação não é resultado de uma vida de sacrifícios, mas de uma vida sem pecado, de desvio do pecado e do embaraço que pode nos levar ao pecado (Hb.12:1), uma vida de constante vigilância (Mc.13:37; Ef.6:18).

- No entanto, o fato de termos de ter uma vida de santidade e de verdadeira demonstração de amor ao próximo não exclui a necessidade de praticarmos o jejum. Deus não prefere os sacrifícios à obediência, mas o fato de termos de ter uma estrutura espiritual que faça com que nosso jejum seja aceito não quer, em absoluto, dizer que estamos dispensados da prática do jejum. Muitos têm se utilizado do texto do profeta Isaías para justificar a ausência do jejum na sua vida devocional. Dizem que são caridosos, que têm se dedicado à oração e à leitura da Palavra do Senhor e que, por isso, não precisam jejuar. Não é isto que se infere do texto bíblico. O profeta diz que não aceita o jejum de quem não tem compromisso com a Palavra de Deus, de quem não Lhe obedece, mas também não diz que o jejum é substituído pela prática da virtude, que é uma obrigação, uma consequência da real conversão.

- O profeta afirma que Deus não deseja que haja um jejum de pessoas que vivam contendendo, debatendo e que buscam a autoglorificação (Is.58:3,4). Deus só aceita o jejum daqueles que soltarem as ligaduras da impiedade, que desfizerem as ataduras do jugo, ou seja, do pecado, o jejum de quem receba o verdadeiro amor divino em sua vida e, assim, ame a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. É o jejum de alguém assim que Deus recebe.

- Lembremo-nos de que, muitas vezes na Bíblia, o jejum está relacionado com uma atitude prévia de arrependimento dos pecados e de busca intensa da presença do Senhor. Mesmo quando estamos diante de uma circunstância bíblica de jejum agradável a Deus em que não se está diante de arrependimento, mas de busca de orientação divina, temos a verificação de que o povo está em comunhão com o Senhor, como se vê nos casos de Ester, Neemias, de Esdras ou dos crentes na igreja de Antioquia. É importantíssimo que o jejum tenha, em primeiro lugar, este caráter espiritual e que, em seguida, tenha um determinado propósito, para que, aí sim, a privação alimentar tenha eficácia como reforço à oração.

- Este sentido espiritual não deve existir apenas antes do jejum, mas deve perdurar durante todo o jejum. Há evidente quebra de jejum se a pessoa, embora tenha mantido a abstinência alimentar, pratique alguma transgressão durante o período de abstinência. Um jejum desta natureza não é aceito pelo Senhor. Há quem confunda a lição de Jesus a respeito do segredo do jejum com a possibilidade de um jejum com total descuido, em que a pessoa até se esqueça que está diante de Deus ofertando um sacrifício. Devemos viver normalmente, não deixar transparecer que estamos jejuando, mas esta discrição e segredo não devem permitir que tenhamos um cotidiano totalmente despreocupado, desatento, a ponto de permitirmos nos envolver com a prática de ações que desagradem a Deus. Devemos nos manter em espírito de oração durante o período da abstinência, exercendo as tarefas do dia-a-dia, mas com o nosso homem interior na presença de Deus a cada momento do período de abstinência.
OBS: “…O jejum nos ajuda a aprender a renunciar a alguma coisa. Ele nos faz capazes de dizer ‘não’ a nós mesmos, e nos abre aos valores mais nobres de nossa alma: a espiritualidade, a reflexão, a vontade consciente. O jejum nos coloca de pé e de cabeça para cima. Há muitos que caminham de cabeça para baixo; isso acontece quando o corpo comando o espírito e o esmaga. É o prazer do corpo que o comanda e não a vontade do espírito. É preciso entender que a renúncia às sensações, aos estímulos, aos prazeres e ainda ao alimento ou às bebidas, não é um fim em si mesmo, mas apenas um “meio”, deve apenas preparar o caminho para conquistas mais profundas. A renúncia do alimento deve servir para criar em nós condições para poder viver os valores superiores. Por isso o jejum não pode ser algo triste, enfadonho, mas uma atividade feliz que nos liberta.…” (AQUINO, Felipe de. end.cit.)

- Outro ponto importante que devemos salientar no que respeita ao jejum é o cuidado que devemos ter no momento da entrega do jejum. O jejum é como um presente que se está oferecendo ao Senhor e, portanto, não podemos ser descuidados e negligentes no instante da entrega do jejum. Findo o período da abstinência, é importante que nos dediquemos alguns instantes em oração, agradecendo a Deus pela oportunidade que tivemos de lhe oferecer este sacrifício, por ter nos guardado de ter quebrado o propósito, por termos podido resistir às necessidades físicas em prol da adoração e do louvor ao Senhor. Ninguém jamais se preocupa em dar um presente a alguém e, depois de todo o cuidado e esforço para a escolha, para a compra e para a preparação do presente, entrega-o de forma abrupta e descortês à pessoa que vai ganhar o presente, mas há alguns que, no instante da entrega do jejum, são extremamente displicentes e chegam, mesmo, a tomar a refeição sem os mínimos cuidados. Não estamos falando de ostentação ou de formalismo, mas devemos dedicar alguns instantes de oração ao término do jejum para coroarmos de êxito todo o propósito que nos trouxe mais para perto do Senhor, pois o jejum é uma atitude de reforço à oração, dela jamais pode se desvincular.

- Neste sentido, as pessoas que não têm condições de jejuar, seja pela sua saúde física, seja pela sua idade, seja pela natureza de suas atividades que impedem tal prática, não devem se martirizar ou achar que serão menos crentes porque não podem jejuar, mas devem compensar esta impossibilidade por outras práticas igualmente relevantes e edificadoras, como a oração e a prática do amor cristão.
OBS: A prática de judeus, muçulmanos e de católicos romanos de substituírem o jejum pela filantropia, como se observa, portanto, não é algo desarrazoado e é algo que tem respaldo bíblico. Se a pessoa não pode jejuar, pode substituir esta prática por outras que têm, igualmente, o agrado do Senhor. Neste sentido, aliás, é interessante o que consta no Alcorão: "…Jejuareis determinados dias; porém, quem de vós não cumprir jejum, por achar-se enfermo ou em viagem, jejuará, depois, o mesmo número de dias. Mas quem, só à custa de muito sacrifício, consegue cumpri-lo, vier a quebrá-lo, redimir-se-á, alimentando um necessitado; porém, quem se empenhar em fazer além do que for obrigatório, será melhor. Mas, se jejuardes, será preferível para vós, se quereis sabê-lo. O mês de Ramadan foi o mês em que foi revelado o Alcorão, orientação para a humanidade e vidência de orientação e Discernimento. Por conseguinte, quem de vós presenciar o novilúnio deste mês deverá jejuar; porém, quem se achar enfermo ou em viagem jejuará, depois, o mesmo número de dias. Deus vos deseja a comodidade e não a dificuldade, mas cumpri o número (de dias), e glorificai a Deus por ter-vos orientado, a fim de que (Lhe) agradeçais. " (2:184,185). Como diz a nota explicativa destes versículos corânicos, "…o jejum muçulmano não é uma auto-tortura…" e deve ser considerado como um desvio de atenção da comida, da bebida e do sexo para algo mais elevado.

- Terminamos ainda citando o professor Felipe de Aquino: “…O jejum confere à oração maior eficácia. Por ele o homem descobre, de fato, que é mais ‘senhor de si mesmo’ e que se tornou interiormente livre. Se dá conta de que a conversão e o encontro com Deus, por meio da oração, frutificam nele. Assim, o jejum não é algo que sobrou de uma prática religiosa dos séculos passados, mas é também indispensável ao homem de hoje, aos cristãos do nosso tempo. …” (end.cit.).

Caramuru Afonso Francisco

2 comentários:

Francisco Araújo Netto disse...

Excelente, muito bom mesmo, completo.

Att.,
http://wwwteologiavivaeeficaz.blogspot.com/

Profº Netto, F.A.

João carlos Ferreira Batista disse...

Muito bom texto.eu realmente aprendi muito sobre o jejum.
A paz do Senhor Jesus.