Fazer uma defesa do verdadeiro cristianismo evangélico pentecostal e subsidiar professores e interessados da Escola Dominical.
sábado, 4 de fevereiro de 2012
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Mais um valente é promovido a Glória

O evangelista Walter Marques de Melo, assíduo colaborador do Estudo dos Professores e Amigos da Escola Dominical (EPAPED) na sede das Assembleias de Deus – Ministério do Belém, foi promovido para a glória na manhã deste dia 17 de janeiro de 2012.
Nascido em Ribeiro dos Santos/SP, em 13 de outubro de 1933, irmão Walter, como era carinhosamente chamado, conheceu o Evangelho através de sua mãe, dona Leopoldina, que se converteu a Jesus por volta de 1940. Daqueles dias, o irmão Walter lembra a dedicação do pastor metodista Natanael Quintanilha e dos cultos que ele realizava na humilde residência. Quintanilha viria, mais tarde, a ser presidente da Sociedade Bíblica do Brasil.
O irmão Walter, porém, só iria realmente se converter em São Paulo/SP, para onde veio em 1954, na Igreja Presbiteriana Independente do Tatuapé.
Após ter conhecido a mensagem pentecostal, irmão Walter passou a freqüentar a Igreja Apostólica, então uma vigorosa igreja pentecostal, onde foi batizado com o Espírito Santo e logo se tornou auxiliar do bispo Eurico Matos Coutinho.
Ao notar, porém, o desvio espiritual do movimento, foi expulso do mesmo dias antes de se casar, tendo, então, ajudado a fundar a Igreja Cristã Pentecostal de Evangelização e Cura Divina, onde foi consagrado a evangelista, indo dirigir a congregação dela na Avenida Conceição, na Vila Ede, zona norte de São Paulo, local onde, inclusive, se converteu Davi Miranda, que viria a fundar, tempos depois, a Igreja Pentecostal Deus é Amor.
Pouco depois, juntamente com outras pequenas igrejas, ajudou a fundar a Igreja Pentecostal Unida, atualmente Igreja Unida e, já como pastor, dirigiu a sede da mesma, então situada na rua Manuel Dutra, na Bela Vista, centro de São Paulo. De lá, foi pastorear a Igreja Unida do Parque Sevilha, como também, a Igreja Unida de São João Clímaco.
Depois de um período de afastamento, irmão Walter passou a pertencer às Assembleias de Deus – Ministério do Belém, por volta de 1989, tendo sido reconhecido como presbítero em 2008 e sido consagrado a evangelista em 2009.
A partir de 2005, juntamente com o também saudoso irmão Sérgio Paulo Gomes de Abreu, primeiro coordenador do Portal Escola Dominical e com o irmão Caramuru Afonso Francisco, iniciou um intenso trabalho de visitação e instrução da Palavra de Deus em diversas igrejas na Região Metropolitana de São Paulo, acompanhado de sua mulher, Rozária de Quadros, cantora evangélica.
É desta época, também, que iniciou sua participação no Estudo dos Professores e Amigos do Portal Escola Dominical (EPAPED) na sede das Assembleias de Deus – Ministério do Belém, onde era o verdadeiro pastor daquele rebanho, sempre acompanhando a vida espiritual de seus participantes.
Pregador eloquente e fervoroso, irmão Walter sempre demonstrava preocupação com a apostasia atualmente existente na igreja, enfatizando os pontos da pregação pentecostal, com realce no batismo com o Espírito Santo e na cura divina.
Homem extremamente bom e liberal, sempre estava pronto a ajudar os necessitados, defendendo, também, maior participação dos membros da igreja neste tema.
Tendo ficado viúvo após quase cinquenta anos de casamento, casou segunda vez, num matrimônio que durou doze anos. Deixa duas filhas e dois netos.
Pastor Walter é, sem dúvida, um exemplo de amor à obra de Deus, de cuidado com a doutrina, que deve ficar indelevelmente marcado em nossas vidas.
Certamente, se fosse nos deixar uma mensagem de despedida, esta teria de ser a da última estrofe e estribilho do hino 175 da Harpa Cristã, seu hino predileto: “Irmãos amados, purificados, sede valentes e mui prudentes. Estais lavados e libertados, no nome santo de Jesus. No nome santo, alegre canto, eu fui lavado, santificado. Vivi perdido, mas sou remido, no nome santo de Jesus”.
Fonte: www.portalebd.org.br
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
O CRENTE E A CONFISSÃO POSITIVA

Esta declaração sobre o crente a confissão positiva foi aprovada como uma declaração oficial pelo Presbitério Geral das Assembleias de Deus [as Assembleias de Deus dos Estados Unidos da América, observação nossa] em 19 de agosto de 1980.
As Assembleias de Deus desde os seus primeiros dias tem reconhecido a importância da vida de fé. A ela tem sido dada ênfase proeminente porque as Escrituras dão a ela proeminência.
O escritor aos hebreus aponta que sem fé é impossível agradar a Deus.Por isso, ele descreve a fé como crer em duas coisas: que Deus existe e que é o galardoador daqueles que O buscam (Hb.11:6).
Todas as bênçãos que Deus tem para o Seu povo são recebidas por fé. Salvação (At.16:31), batismo com o Espírito Santo (At.11:15-17), preservação divina (I Pe.1:5), herança de promessas que incluem a cura e a provisão de necessidades materiais (Hb.6:12) e a motivação para o testemunho (II Co.4:13), que estão entre as muitas provisões da graça de Deus.
Hoje, como em toda geração, é importante para os crentes estar atentos ao exemplo na Escritura de ser forte na fé (Rm.4:20-24). Eles devem estar de guarda contra qualquer coisa que possa enfraquecer ou destruir a fé. Eles precisam orar para seu acréscimo (Lc.17:5) e constantemente procurar cultivá-la através da leitura da Palavra de Deus (Rm.10:17).
O crente e a confissão positiva
Ocasionalmente, através da história da Igreja, as pessoas têm tomado posições extremas a respeito de grandes verdades bíblicas. Algumas vezes, mestres têm defendido estes extremos. Em outras ocasiões, seguidores de alguns mestres têm ido além além dos ensinos com repercussões desfavoráveis à causa de Cristo.
Confissão positiva e confissão negativa são expressões que, nos últimos anos, têm recebido aceitação em uma forma extrema em alguns círculos.Tanto a definição na escrita quanto o modo de uso dão alguma luz nas implicações destes termos.
O fato de que extremos são agora trazidos ao foco nesta declaração não implica, em absoluto, na rejeição da doutrina da confissão, que é uma importante verdade bíblica. A Bíblia ensina que as pessoas devem confessar seus pecados (I Jo.1:9), devem confessar Cristo (Mt.10:32; Rm.10:9,10), como também manter uma boa confissão (Hb.4:14; 10:23, Versão American Standard).
Mas quando as pessoas, para enfatizar uma doutrina, vão além ou ao contrário do que o ensino das Escrituras, eles não honram a doutrina. Bem ao contrário, trazem reprovação a ela e para a obra do Senhor. Por esta razão, é importante chamar a atenção para estes excessos e mostrar como eles estão em conflito com a Palavra de Deus.
Algumas posições sobre o ensino da confissão positiva
O ensino da confissão positiva fia-se em uma definição de um dicionário inglês da palavra confissão: “reconhecer ou possuir; admitir fé em”. A confissão é também descrita como afirmar algo em que se crê, testificar para algo conhecido e testemunhar uma verdade que já foi abraçada.
Esta visão caminha um passo a mais e divide a confissão em aspectos positivos e negativos. O negativo é admitir o pecado, a doença, a pobreza ou outras situações indesejáveis. A confissão positiva é reconhecer ou possuir situações desejáveis.
Enquanto haja variações de interpretação e de ênfase a respeito deste ensino, a conclusão parece ser que o indesejável pode ser evitado pela repressão de confissões negativas. O desejável pode ser desfrutado em se fazendo confissões positivas.
De acordo com esta visão, como expresso em várias publicações, o crente que se abstém de admitir o negativo e continua a afirmar o positivo assegura para si próprio circunstâncias desejáveis. Ele será capaz de predominar sobre a pobreza, o mal e a doença. Ele será doente somente se ele confessar que é doente. Alguns fazem uma distinção entre admitir os sintomas da enfermidade e a enfermidade mesma.
Esta visão defende que Deus quer que os crentes vistam as melhores roupas, dirijam os melhores carros, e tenham o melhor de tudo. Os crentes não precisam sofrer adversidades financeiras. Tudo que eles precisam é dizer a Satanás para tirar suas mãos do dinheiro deles. O crente pode ter tudo aquilo que ele diz que precisa, seja espiritual, físico ou financeiro. É ensino que a fé obriga a ação de Deus.
De acordo com esta posição, o que uma pessoa diz determina o que ele receberá e o que ele se tornará. Por conseguinte, as pessoas são instruídas a começar confessando mesmo se o que elas querem não pode ter sido realizado. Se uma pessoa quer dinheiro, ele deve confessar que o tem, ainda que isto não seja verdade. Se uma pessoa quer cura, ele deve confessar ainda que não seja obviamente o caso. É dito para as pessoas que elas podem ter tudo aquilo que elas dizem, e, por esta razão, um grande significado é atribuído à palavra dita. É reivindicado que a palavra dita, se repetida suficientemente, resultará eventualmente em fé que consegue a bênção desejada.
É compreensível que algumas pessoas queiram aceitar o ensino da confissão positiva. Ele promete uma vida livre de problemas e seus defensores parecem fundamentá-la com passagens das Escrituras. Os problemas desenvolvem-se, porém, quando afirmações da Bíblia são isoladas de seu contexto e do que o resto das Escrituras dizem a respeito do assunto. Os extremos geram verdade distorcida e eventualmente ferem os crentes tanto enquanto indivíduos e a causa de Cristo em geral.
Quando os crentes estudarem a vida de vitória e de fé que Deus tem para o Seu povo, é importante, como em toda doutrina, buscar pela ênfase balanceada das Escrituras. Isto ajudará a evitar os extremos que, eventualmente, frustrem mais do que ajudem os crentes no seu andar com Deus.
Os crentes devem considerar o ensino total das Escrituras
O apóstolo Paulo deu um importante princípio de interpretação das Escrituras que chamou de “comparar as coisas espirituais com as espirituais” (I Co.2:13). O ponto principal deste princípio é considerar que tudo que a Palavra de Deus tem a dizer sobre um dado assunto ao estabelecer uma doutrina. Somente uma doutrina baseada em uma visão global das Escrituras se conforma com esta regra bíblica de interpretação.
Quando o ensino da confissão positiva indica que admitir fraqueza é aceitar a derrota, admitir necessidade financeira é aceitar pobreza, e admitir doença é impedir a cura, ele está indo além e em contrariedade à harmonia das Escrituras.
Por exemplo, o rei Josafá admitiu que não tinha força alguma contra a aliança inimiga, mas Deus lhe deu uma vitória maravilhosa (II Cr.20). Paulo admitiu fraqueza e então declarou que quando ele estava fraco, então era forte porque o poder de Deus é aperfeiçoado na fraqueza (II Co.12:9,10).
Foi depois que os discípulos reconheceram que não tinham o suficiente para alimentar as multidões e admitiram isto que Cristo providenciou maravilhosamente um suprimento mais do que adequado (Lc.9:12,13). Foi depois que os discípulos admitiram que não haviam apanhado peixe algum que Jesus os dirigiu para um esforço muito bem sucedido (Jo.21:3-6).
Não foi dito a estas pessoas para substituir confissões negativas por confissões positivas que eram contrárias aos fatos. Elas declararam condições exatamente como elas eram em vez de fingir algo mais. Mesmo assim Deus interveio maravilhosamente mesmo tendo eles feito o que alguns chamam de confissões negativas.
Comparar as Escrituras com as Escrituras deixa claro que expressões verbais positivas nem sempre produzem efeitos felizes, nem que declarações negativas produzem sempre efeitos infelizes. Ensinar que líderes nos primeiros dias da Igreja como Paulo, Estevão ou Trófimo não viviam em um estado constante de fartura e de saúde porque não tinham a iluminação deste ensino é ir além e em contrariedade à Palavra de Deus. Uma doutrina somente será investigada e aprovada se ela se desenvolver dentro da estrutura do ensino total das Escrituras.
A palavra grega traduzida por “confessar” significa “falar a mesma coisa”. Quando as pessoas confessam Cristo, isto é dizer a mesma coisa que as Escrituras dizem em relação a Cristo. Quando as pessoas confessam o pecado, isto é dizer o mesmo que as Escrituras dizem a respeito de pecado. E quando as pessoas confessam alguma promessa das Escrituras, eles devem estar certas que elas estão dizendo a mesma coisa acerca daquela promessa como o ensino total das Escrituras a respeito daquele tema.
As palavras de Agostinho são apropriadas a este respeito: “Se você crê naquilo que você gosta do Evangelho e rejeita o que você não gosta, não é no Evangelho em que você crê, mas em você mesmo”.
Os crentes devem considerar adequadamente a vontade de Deus
Quando a doutrina da confissão positiva indica que uma pessoa pode ter tudo aquilo que ela diz, ela falha em enfatizar adequadamente que a vontade de Deus deve ser levada em conta. Davi tinha as melhores intenções quando ele externou seu desejo de construir um templo para o Senhor, mas não era a vontade de Deus (I Cor.17:4). Foi permitido a Davi coletar os materiais, mas coube a Salomão a construção do templo.
Paulo orou para que o espinho na carne fosse removido, mas não era a vontade de Deus. Invés de remover o espinho, o Senhor deu a Paulo graça suficiente (II Co.12:9).
A vontade de Deus pode ser conhecida e reivindicada pela fé, mas o desejo do coração não é sempre o critério pelo qual a vontade de Deus é determinada. Há vezes em que o agradável e o desejável pode não ser a vontade de Deus. Tiago fgaz referência a isto quando escreveu: “Pedis, e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossas concupiscências” (Tg.4:3). A palavra traduzida por “concupiscências” [na Versão do Rei Tiago, observação do tradutor] não se refere a um desejo perverso mas a prazer ou desfrute, aquilo que o coração deseja. Várias traduções usam a palavra “deleite” em vez de “concupiscência” [como é o caso da Versão Almeida Revista e Corrigida, observação do tradutor].
No Getsêmane, Jesus pediu que se fosse possível o cálice fosse removido. Era o Seu desejo, mas, na Sua oração, Ele reconheceu a vontade de Deus e disse: “Todavia, não se faça a Mina vontade, mas a Tua” (Lc.22:42).
A Bíblia reconhece que há vezes em que um crente não saberá pelo que deverá orar. Ele não saberá qual é a vontade de Deus. Ele pode até ficar perplexo como Paulo algumas vezes ficou (II Co.4:8). Nestas situações, melhor do que simplesmente fazer uma confissão positiva baseada nos desejos do coração, o crente precisa reconhecer que o Espírito Santo intercede por ele de acordo com a vontade de Deus (Rm.8:26,27).
A vontade de Deus sempre deve ter prioridade sobre os planos e os desejos dos crentes. As palavras de Tiago devem ser constantemente guardadas à vista: “Em lugar do que devíeis dizer: Se o Senhor quiser, e se vivermos, faremos isto ou aquilo” (Tg.4:15).
Obter o que o crente quer não é tão simples como repetir uma confissão positiva. Coisas agradáveis podem estar fora da vontade de Deus e, de modo inverso, coisas desagradáveis podem estar na vontade de Deus. É importante para o crente dizer como os amigos de Paulo disseram: “Seja feita a vontade do Senhor” (At.21:14) — mais importante do que pedir uma vida livre de sofrimento.
Os crentes devem reconhecer a importância da oração inoportuna
Quando a visão da confissão positiva ensina que os crentes devem mais confessar que orar pelas coisas que Deus tem prometido, ela não toma conhecimento do ensino da Palavra de Deus a respeito da oração inoportuna. De acordo com alguns que perfilham esta doutrina da confissão positiva, as promessas de Deus estão na área das bênçãos materiais, físicas e espirituais: os crentes devem reivindicar ou confessar estas bênçãos e não orar por elas.
A instrução para não orar pelas bênçãos prometidas é contrário ao ensino da Palavra de Deus. O alimento é uma das bênçãos prometidas por Deus, mas Jesus ensinou Seus discípulos a orar: “O pão nosso de cada dia nós dá hoje” (Mt.6:11). A sabedoria é uma bênção prometida por Deus, mas as Escrituras declaram que se qualquer homem “tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada” (Tg.1:5). Jesus chamou o Espírito Santo de a promessa do Pai (Lc.24:49), mas também ensinou que Deus daria o Espírito Santo àqueles que Lho pedirem (Lc.11:13).
Enquanto há vezes em que Deus disse ao povo para não orar, como no caso de Moisés no Mar Vermelho (Ex.14:15), há muitas passagens das Escrituras lembrando os crentes a orar, e mais, orar sem cessar (Rm.12:12; Fp.4:6; I Ts.5:17).
Jesus enfatizou a importância da importunação na oração. A ilustração do amigo persistente que veio à meia-noite pedido por pão para apresentar a seus convidados tornou-se a base para a declaração de Cristo: “Pedi e dar-se-vos-á” (Lc.11:5-10). A parábola da viúva e do juiz iníquo tornou-se a ocasião para Nosso Senhor enfatizar a importunação na oração (Lc.18:1-8). Estas pessoas foram elogiadas pela importunação e não por uma confissão positiva sem oração.
Enquanto os caminhos de Deus estão acima dos caminhos do homem, e não podemos entender a razão de todo comando nas Escrituras, nós temos de saber que em Sua sabedoria Deus ordenou a oração como parte do processo incluído no encontro de uma necessidade. Mais do que uma indicação de dúvida, a oração inoportuna pode ser uma indicação de obediência e fé.
Os crentes devem reconhecer que podem esperar sofrimento nesta vida
O ensino da confissão positiva defende que devemos viver como reis nesta vida. Ela ensina que os crentes devem dominar e não ser dominados pelas circunstâncias. A pobreza e a doença são comumente mencionadas entre as circunstâncias sobre as quais os crentes devem ter domínio.
Se os crentes escolhem os reis deste mundo como modelos, é verdade que eles buscarão uma vida livre de problemas (embora até mesmo os reis deste mundo não estejam livres de problemas). Eles estão mais preocupados com prosperidade física e material do que em crescimento espiritual.
Quando os crentes escolhem o Rei dos reis como seu modelo, entretanto, seus desejos serão completamente diferentes. Eles serão transformados pelo Seu ensino e exemplo. Eles reconhecerão a verdade que está escrita em Rm.8:17 a respeito dos coerdeiros de Cristo: “se é certo que com Ele padecemos, para que também com Ele sejamos glorificados”. Paulo foi ainda além ao se gloriar em suas enfermidades em lugar de negá-las (II Co.12:5-10).
Embora Cristo fosse rico, por amor de nós Se fez pobre (Ii Co.8:9). Ele podia dizer: “As raposas têm covis, e as aves dos céus têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt.8:20).
Enquanto Deus em Sua Providência dotou alguns com a capacidade de acumular riqueza maior que outros, alguma coisa está tragicamente faltando se não há boa vontade para fazer a vontade de Deus e abandonar tudo, se for necessário, inclusive os confortos do ser humano.
Jesus jamais cessou de ser Deus, e através do poder do Espírito Santo fez vários milagres, mas Ele não estava livre de sofrimentos. Ele sabia que deveria padecer muito dos anciãos (Mt.16:21; 17:21). Ele desejou comer a páscoa com os discípulos antes que sofresse (Lc.22:15). Depois de Sua morte, os discípulos reconheceram que o sofrimento de Cristo era cumprimento das profecias (Lc.24:25, 26, 32).
Quando os crentes percebem que reinar como reis nesta vida é tomar Cristo como modelo de rei, eles reconhecerão que isto pode envolver o sofrimento, que, algumas vezes, é muito mais real ficar com circunstâncias desagradáveis do que tentar fazer todas as circunstâncias agradáveis.
Foi mostrado a Paulo que ele deveria sofrer (At.9:16). Mais tarde ele se regozijou com seus sofrimentos para os colossenses. Ele viu que o seu sofrimento como o cumprimento “ na minha carne, do resto das aflições de Cristo, pelo Seu corpo, que é a Igreja” (Cl.1:24).
Deus promete suprir as necessidades dos crentes e Ele sabe como livrar o devoto da tentação, mas reinar na vida como Cristo fez pode também incluir o sofrimento. O crente submisso aceitará isto.Ele não ficará desiludido se a vida não for uma série contínua de experiências agradáveis. Ele não se tornará cínico se não tiver todos os desejos de seu coração.
Ele reconhecerá que o servo não é maior do que seu senhor. Seguir a Cristo exige negar a nós mesmos (Lc.9:23). Isto inclui negar nossos desejos egoísticos e pode incluir admitir nossos problemas.
Problemas nem sempre são indicação de falta de fé. Pelo contrário, podem ser um tributo à fé. Esta é a grande ênfase de Hb.11:32-40:
E que mais direi? Faltar-me-ia contando de Gedeão, e de Baraque, e de Sansão, e de Jefté, e de Davi, e de Samuel e dos profetas: os quais pela fé venceram reinos, praticaram a justiça, alcançaram promessas, fecharam as bocas dos leões, apagaram a força do fogo, escaparam do fio da espada, da fraqueza tiraram forças, na batalha se esforçaram, puseram em fugida os exércitos dos estranhos. As mulheres receberam pela ressurreição os seus mortos; uns foram torturados, não aceitando o seu livramento para alcançarem uma melhor ressurreição; e outros experimentaram escárnios e açoites, e até cadeias e prisões. Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, desamparados, aflitos e maltratados (dos quais o mundo não digno), errantes pelos desertos e montes, e pelas covas e cavernas da terra. E todos estes, tendo tido testemunho pela fé, não alcançaram a promessa: provendo Deus alguma coisa melhor a nosso respeito, para que eles sem nós não fossem aperfeiçoados.
Defender que todo o sofrimento resulta de confissões negativas e indica falta de fé contradiz as Escrituras. Alguns heróis da fé sofreram grandemente, alguns até morreram por causa da fé, e foram elogiados por isso.
Os crentes devem reconhecer a soberania de Deus
A ênfase da confissão positiva tem uma tendência para incluir declarações que fazem parecer que o homem é soberano e Deus, o servo. Declarações são feita a respeito de obrigar Deus a agir, o que implica dizer que Ele abandonou a Sua soberania, que Ele não está mais na posição de agir de acordo com a Sua sabedoria e propósito. Referências são feitas de que a verdadeira prosperidade é a capacidade de usar a capacidade de Deus e o poder de encontrar necessidades independentemente de que sejam tais necessidades. Isto põe o homem na posição de usar Deus mais do que o homem se entregar a si mesmo para ser usado por Deus.
Nesta visão, é dada muito pouca consideração à comunhão com Deus para se descobrir a Sua vontade. Há muito pouco apelo a buscar as Escrituras para se ter a estrutura da vontade de Deus. Há pouca ênfase no tipo de discussão que devem seguir os crentes que resulta na concordância de dois ou três sobre qual seja a vontade de Deus. Em lugar disso, o desejo do coração é visto como uma ordem que vincula a Deus. Ele é visto como algo que concede autoridade ao crente.
É verdade que Jesus disse: “E tudo quanto pedirdes em Meu nome, Eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho” (Jo.14:13). Mas as Escrituras também ensinam que o pedido deve estar de acordo com a vontade de Deus: “E esta é a confiança que temos n’Ele, que, se pedirmos alguma coisa, segundo a Sua vontade, Ele nos ouve. E, se sabemos que nos ouve em tudo o que pedimos, sabemos que alcançamos as petições que Lhe fizemos” (I Jo.5:14,15).
“Aquietai-vos e sabei que Eu sou Deus” (Sl.46:10) é ainda uma importante regra hoje. Deus é Deus. Ele não entrega Sua glória ou soberania para ninguém. Ninguém pode obrigar Deus a agir.
A autoridade do crente existe apenas na vontade de Deus, e é responsabilidade do crente descobrir e se conformar à vontade do Deus soberano mesmos nas coisas que deseja. As palavras de Paulo são ainda aplicáveis: “Pelo que não sejais insensatos, mas entendei qual seja a vontade do Senhor” (Ef.5:17).
Quando os crentes reconhecem a soberania de Deus e de modo apropriado tornam-se preocupados com a vontade de Deus, eles não falarão em termos de obrigar Deus ou usar o poder de Deus. Eles falarão em se tornar servos obedientes. Eles desejarão se tornar instrumentos submissos nas mãos de Deus.
Os crentes devem aplicar o teste prático
Revendo os esforços daqueles que defendem este ensino da confissão positiva, fica evidente que o apelo básico é para aqueles que já são cristãos que vivem em uma sociedade farta. Eles encorajam um elitismo espiritual em seus aderentes, dizendo: “Nós cremos nas mesmas coisas que vocês. A diferença é que nós praticamos o que cremos”.
Um teste prático de uma crença é se ela tem uma aplicação universal. O ensino tem significado apenas para quem vive em uma sociedade farta? Ou isto também funciona entre os refugiados do mundo? Que aplicação tem este ensino para os crentes presos por sua fé por governos ateístas? Estão aqueles crentes que sofrem martírio ou graves prejuízos físicos nas mãos de ditadores cruéis e implacáveis abaixo do padrão?
A verdade da Palavra de Deus tem aplicação universal. Ela é tão efetiva nos bairros pobres quanto nos subúrbios. Ela é tão efetiva na selva quanto na cidade. Ela é tão efetiva em uma nação estrangeira quanto em nosso próprio país. Ela é tão efetiva tanto em nações pobres como entre as nações ricas. O teste do fruto é ainda o único caminho para determinar se um mestre ou um ensino é de Deus ou do homem: “Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt.7:20).
Os crentes devem lidar cuidadosamente com a palavra “Rhema”
Em virtude de haver muito pouco literatura entre os que expõem o ensino da confissão positiva a respeito da palavra grega “Rhema”, é necessário considerá-la como usada primariamente em comunicação oral.
Uma distinção é feita geralmente pelos defensores deste ensino entre as palavras “logos” e “rhema”. A primeira — dizem eles — refere-se à “palavra escrita”; a segunda, para o que é presentemente falado pela fé. De acordo com esta doutrina, tudo aquilo que é falado pela fé se torna inspirado e toma conta do poder criativo de Deus.
Há dois grandes problemas nesta distinção. Por primeiro, a distinção não é justificado pelo uso em o Novo Testamento Grego ou na Septuaginta (a versão grega do Antigo Testamento). As palavras são usadas como sinônima em ambos.
No caso da Septuaginta, tanto “rhema” quanto “logos” são usadas para traduzir a única palavra hebraica dabar, que é usada em vários meios relacionados com a comunicação. Por exemplo, a palavra dabar (traduzida “Palavra de Deus”) é usada tanto em Jr.1:1 quanto em Jr.1:2. Mas, na Septuaginta, é traduzida “rhema” no versículo 1 e “logos” no versículo 2.
Em o Novo Testamento, as palavras rhema e logos também são usadas uma pela outra. Isto pode ser visto em passagens como I Pe.1:23 e 25. No verso 23, é “o logos de Deus que…permanece para sempre”. No verso 25, “o rhema do Senhor permanece para sempre”. Novamente, em Ef.5:26, os crentes são lavados “com a lavagem da água pelo rhema”. Em Jo.15:3, os crentes “são limpos pelo logos”.
As distinções entre logos e rhema não podem ser sustentadas pela evidência bíblica. A Palavra de Deus, quer seja referida como logos, quer seja referida como rhema, é inspirada, eterna, dinâmica e miraculosa. Se a Palavra foi escrita ou falada, isto não altera seu caráter essencial. “Toda a Escritura divinamente inspirada é proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça; para que todo homem de Deus seja perfeito e perfeitamente instruído para toda a boa obra” (II Tm.3:16,17).
Um segundo problema também existe para aqueles que fazem distinção entre as palavras logos e rhema. Passagens das Escrituras são algumas vezes selecionadas sem atenção ao contexto ou à analogia da fé, que eles reivindicam ser “palavras de fé”. Neste tipo de aplicação do assim chamado princípio rhema, os defensores desta doutrina estão mais preocupados em fazer a Palavra significar o que eles querem que ela signifique do que se tornar no que a Palavra quer que eles se tornem. Em alguns exemplos, torna-se óbvio que eles amam Deus mais pelo que Ele faz e não pelo que Ele é.
É importante que os crentes evitem qualquer forma de existencialismo cristão que isola passagens das Escrituras do contexto e faz algumas passagens eternas e outras, contemporâneas.
Conclusão
Ao se considerar qualquer doutrina, é sempre necessário perguntar se ele está em harmonia com o ensino total das Escrituras. Uma doutrina baseada em menos do que uma visão global da verdade bíblica pode apenas trazer dano para a causa de Cristo. Ela pode mesmo ser mais danosa do que doutrinas que rejeitam as Escrituras totalmente. Algumas pessoas aceitarão mais facilmente algo como verdadeiro se ela está relacionada com a Palavra de Deus, mesmo se o ensino é uma ênfase extrema ou contradiz outros princípios das Escrituras.
A Palavra de Deus firmemente ensina grandes verdades como a cura, a provisão das necessidades e a autoridade dos crentes. A Bíblia também ensina que uma mente disciplinada é um importante fator para a vida vitoriosa. Mas estas verdades devem ser consideradas na estrutura do ensino total das Escrituras.
Quando abusos ocorrem, há, algumas vezes, a tentação para deixar de crer nestas grandes verdades da Palavra de Deus. Em alguns casos, pessoas abandonam Deus totalmente quando descobrem que ênfases exageradas nem sempre encontram suas expectativas ou resultam em liberdade de seus problemas.
O fato de que aberrações doutrinárias se desenvolvem, não é razão para rejeitar ou manter silêncio a respeito delas. A existência de diferenças de opinião é, antes de tudo, a maior razão pela qual os crentes devem continuar diligentemente a pesquisar as Escrituras. É por isto que os servos de Deuspodem fielmente declarar todo o conselho de Deus.
Concílio Geral das Assembleias de Deus
Fonte: http://ag.org/top/Beliefs/Position_Papers/pp_downloads/pp_4183_confession.pdf Acesso em 16 dez. 2011
Tradução de Caramuru Afonso Francisco.
sábado, 31 de dezembro de 2011
Novos Propósitos

Uma prática comum nos nossos cultos de fim de ano são as renovações de propósitos.O culto de passagem de ano tem um aspecto muitíssimo positivo: o poder de nos fazer refletir sobre a nossa vida ou ministério .Acho isso muito salutar!
Na verdade todos temos os nossos anseios, as nossas vontades... enfim.
Gostaria de fazer uma proposta:
Coloque sua freqüência a Escola Dominical nesta lista !Seja um aluno assíduo na EBD de sua igreja.
Conhecimento e graça te esperam!
Feliz 2012!!!
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
EM DEFESA DO CULTO DE PASSAGEM DE ANO

Sabemos todos que vivemos dias de apostasia na Igreja, mais um dos muitos sinais que estão a indicar a proximidade do arrebatamento da Igreja e do término da dispensação da graça.
No entanto, as manifestações desta apostasia não podem ser simplesmente ignoradas pelos servos do Senhor Jesus, até porque devemos, como nos ensina Judas, o irmão do Senhor, “batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos” (Jd.3 “in fine”), inclusive reagindo como nos ensina o pastor Natanel Rinaldi, considerado o maior apologista evangélico brasileiro, que afirmou, em entrevista, que “temos de agir amando a verdade como eles [os hereges, observação nossa] se apegam à mentira” (Apologética, ano 2, ed. 9, p.65).
Assim, não podemos nos calar quando vemos movimentos dentro de nossas igrejas locais que são sinais desta apostasia, sendo nosso dever denunciá-los e, no limite de nossas forças, fazer com que sejam neutralizados e retrocedam, “salvando alguns, arrebatando-os do fogo” (Jd.23 “in initio”), para usar, uma vez mais, de uma expressão de Judas.
Temos notado que, de forma crescente, muitas igrejas locais têm banido de suas atividades o “culto da passagem de ano”, aquele culto em que a Igreja se reúne para ver, a um só tempo, o final do ano em curso e o início de mais um ano.
Muitos têm justificado esta retirada com diversos argumentos: são muitos os irmãos que viajam nesta época do ano e, portanto, a frequência de tal culto é diminuta; o horário do culto é sacrificante para os irmãos, máxime nas grandes cidades, onde a violência e criminalidade só fazem aumentar; trata-se de um momento eminentemente familiar e se deve prestigiar a vida familiar dos irmãos.
Todas estas “justificativas”, entretanto, não passam de desculpas para se esconder o que realmente está ocorrendo para que alguns já tenham retirado este culto de suas agendas: a apostasia, o distanciamento de suas vidas do Senhor Jesus.
O “culto da passagem de ano”, por primeiro, não é uma invenção nem tampouco uma “tradição” criada no bojo das igrejas evangélicas e do movimento pentecostal.
Verdade é que, na história das Assembleias de Deus, vemos que se trata de uma prática que já era adotada pelos pioneiros, como, v.g., Gunnar Vingren que retornou aos caminhos do Senhor no culto de vigília de Ano Novo em 1896, quando tinha 17 anos de idade (VINGREN, Ivar. Diário do pioneiro Gunnar Vingren. 5.ed., p.20), prática que instalou nas nascentes Assembleias de Deus, visto que noticia que, no culto de ano novo de 1914, o Senhor usou em profecia a irmã Celina Albuquerque, a primeira pessoa a ser batizada com o Espírito Santo em terras brasileiras (op.cit., p.68).
Entretanto, a ideia de celebração solene diante de Deus da passagem de ano vem-nos da própria lei de Moisés. A “festa das trombetas”, realizada no dia primeiro do mês sétimo (Lv.23:24,25) é o que se denomina de “Ano Novo Judaico”, o conhecido “Rosh Hashanah”, solenidade “…cujo significado e solenidade, para os devotos…”, segundo o estudioso judaico Nathan Ausubel diz que “…só está abaixo do dia de Iom Kipur, o Dia da Expiação…” (Rosh Hashanah”. In: A JUDAICA, v.6, p.732).
Verificamos, pois, que o Senhor desejava que o Seu povo, na passagem de um ano para o outro, fizesse isto de forma solene, a fim de que se lembrasse de que a passagem do tempo é uma dádiva divina, é um momento, um instante em que devemos recordar de nossa dependência de Deus e da circunstância de que o tempo é uma realidade para os homens, o que, entretanto, inexiste para o Senhor.
O judeu francês Émile Durkheim (1858-1917), considerado o primeiro sociólogo moderno, em seus estudos, bem demonstrou que um dos papéis da religião na sociedade é o de dar noções de espaço e de tempo, noções fundamentais para o próprio desenvolvimento do raciocínio humano.
Ao determinar a celebração da passagem do ano (como também o princípio do meses, cf. Nm.10:10), o Senhor queria deixar bem claro a Israel de que Ele é o Senhor do tempo, que Ele é eterno e que tudo o que ocorre no tempo é algo que está diante d’Ele e que devemos ser agradecidos ao Senhor por tudo o que aconteceu, lembrando também que de tudo daremos conta a Ele.
Embora não estejamos debaixo da lei, é evidente que os princípios que norteiam a celebração da passagem de ano permanecem na graça, visto que têm a ver com a soberania divina, a gratidão do povo de Deus e a consciência de que a passagem do tempo é um sinal da dependência do homem em relação ao seu Criador.
A existência de um culto de ano novo, portanto, é uma forma de a Igreja agradecer a Deus pela passagem deste tempo, de recordar a sua responsabilidade pelos atos praticados e de reafirmar a dependência que temos em relação a Deus em tudo o que fazemos.
O calendário, como diz Durkheim, ajuda-nos a organizar a nossa mente, a fazermos uma análise de nossas atitudes e de nossa vida, a fazermos um autoexame, o que é fundamental para que nos mantenhamos em comunhão com o Senhor (cf. I Co.11:28). Não é desarrazoado, aliás, que muitas igrejas locais tenham aproveitado a ocasião para também celebrar a ceia do Senhor, máxime nas denominações que o fazem anualmente.
O culto de ano novo encerra, assim, uma importante mensagem: a admissão de que o período de tempo transcorrido se deve única e exclusivamente ao Senhor e que d’Ele dependemos em tudo, motivo pelo qual sempre iniciamos e terminamos o ano na presença do Senhor.
O culto de ano novo traduz a completa dependência que temos do Senhor, o reconhecimento de que “sem Ele nada podemos fazer” (cf. Jo.15:5 “in fine”), de que Ele ocupa a primazia em nossas vidas, pois Ele é “o princípio e o fim” (AP.1:8; 21:6; 22:13).
Ao começarmos e terminarmos um ano na presença do Senhor, reunidos em Seu nome, na igreja local, estamos declarando a todos que o Senhor é a razão de ser de nossas vidas, de que não mais vivemos para nós mesmos, mas para Ele (Gl.2:20).
Quando, porém, pomos outros interesses acima desta celebração, estamos, simplesmente, admitindo que a reunião coletiva da Igreja, o culto a Deus na igreja local é algo que ocupa apenas o “tempo de sobra”, algo que é secundário.
Dizer que a frequência da igreja é diminuta nesta época do ano, o que justificaria a retirada deste culto da agenda é uma falácia, pois o Senhor diz que estará presente onde estiverem dois ou três reunidos em Seu nome (Mt.18:20) e esta diminuta frequência, ademais, não retira da agenda outras reuniões, como as do meio de semana, cada vez mais vazias.
Dizer que o horário do culto é sacrificante para os irmãos é também outra falácia, pois, em outras reuniões (e algumas nada edificantes), não se verifica a questão de horário, quando isto convém, e em períodos onde não há uma intensa movimentação, como ocorre nos finais de ano, onde há uma tradição da espera do novo ano e um intenso e anormal movimento nas ruas, inclusive nas grandes cidades, apesar do horário.
A propósito, muitos que “não querem se sacrificar” ficando até meia noite nas igrejas locais, são os mesmos que, “livres do compromisso do culto de ano novo”, vão se somar a multidões à espera do ano novo nas ruas, em ambientes e circunstâncias muito mais perigosos, como são as concentrações de “réveillon” tradicionalmente organizadas nas cidades. Deixa-se de realizar os cultos de ano novo e os crentes vão para os foguetórios, para os “shows de virada” e tantas coisas nada edificantes do ponto-de-vista espiritual…
Dizer que se trata de um “momento familiar” e de que o culto de ano novo prejudicaria a vida familiar dos irmãos é outro raciocínio enganoso, visto que o culto de ano novo é, precisamente, o momento em que a família pode estar diante de Deus para agradecer ao ano que termina e pedir as bênçãos de Deus para o ano que começa. Caso o salvo não tenha seus familiares na casa do Senhor, isto não o impede de convidá-los para ir ao culto ou de, primeiro, adorar a Deus e, em seguida, dirigir-se até onde estão seus familiares para com eles compartilharem o momento festivo.
Estes crentes que querem ter “um momento familiar”, por acaso, na passagem do ano, realizam “culto doméstico” em suas casas? Evidentemente que não, até porque não o fazem o ano inteiro, por que o fariam agora? Que “preocupação com o momento familiar” é esta se não há sequer comunicação entre os membros da casa durante o ano? Tudo não passa de uma artimanha para se fugir da presença do Senhor.
A propósito, estes mesmos que se dizem “preocupados com a vida familiar”, montam agendas durante o ano que, na prática, inviabilizam a vida familiar de seus membros, a indicar que não é este o real motivo para o banimento do culto de ano novo.
O que temos, pois, na verdade, para esta prática que se tem intensificado é um sentimento de distanciamento do Senhor. As pessoas, apesar de se dizerem cristãs, estão cada vez mais deixando Deus de lado, não se sentem dependentes do Senhor, não põem Deus em primeiro plano, não têm mais a consciência de que sem Ele nada pode ser feito.
Por isso, querem aproveitar os momentos festivos para se divertirem, para o entretenimento, não tendo mais uma vida compromissada com Deus. É este o verdadeiro espírito que está por detrás de medidas como estas, que traduzem apenas um desvio espiritual crescente e preocupante.
Entendamos, pois, a importância e o significado do culto de ano novo e que, com esta celebração, assumamos, a cada mudança de ano, o compromisso de viver cada vez mais na dependência do Senhor, que nos quer dar a vida eterna, o instante em que estaremos, para sempre, livres da barreira do tempo.
Caramurú A.Francisco,
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Disciplinas Espirituais
D. A. Carson
Há quase duas décadas, escrevi um artigo intitulado "Quando a espiritualidade é espiritual? Reflexões Sobre Alguns Problemas de Definição". Aqui, eu gostaria de analisar um aspecto deste tema.
A estrutura mais ampla da discussão precisa ser lembrada. "Espiritual" e "espiritualidade" se tornaram palavras notoriamente indistintas. No uso comum, elas quase sempre têm conotações positivas, mas raramente o significado delas se encaixa na esfera do uso bíblico. Pessoas acham que são "espirituais" porque têm certas sensibilidades estéticas, ou porque sentem algum tipo de conexão mística com a natureza, ou porque adotam uma versão altamente personalizada de uma das muitas religiões. (Mas "religião" tende a ser uma palavra de conotações negativas, enquanto "espiritualidade" tem conotações positivas.)
No entanto, nos termos da nova aliança, a única pessoa "espiritual" é aquela que tem o Espírito Santo, derramado sobre indivíduos na regeneração. A alternativa, na terminologia de Paulo, é ser "natural" – meramente humano – e não "espiritual" (1 Co 2.14). Para o cristão cujo vocabulário e conceitos sobre este tema são moldados pelas Escrituras, somente o cristão é espiritual. E, por uma extensão óbvia, aqueles cristãos que mostram virtudes cristãs são espirituais, porque essas virtudes são fruto do Espírito. Aqueles que são meras "crianças em Cristo" (1 Co 3.1), se estão verdadeiramente em Cristo, são espirituais, porque são habitados pelo Espírito, mas sua vida pode deixar muito a desejar. Apesar disso, o Novo Testamento não designa os cristãos imaturos como não espirituais, como se a categoria "espirituais" fosse reservada apenas para os mais maduros, a elite dos eleitos. Isso é um erro muito comum da tradição de espiritualidade da Igreja Católica Romana. Nesta, a vida espiritual e as tradições espirituais estão frequentemente ligadas com fiéis que desejam ir além do que é comum. Essa vida "espiritual" é muitas vezes ligada com ascetismo e, às vezes, com misticismo, ordens de freiras e monges e uma variedade de técnicas que vão além do cristão comum.
Devido ao amplo uso das palavras da família de "espiritual", muito além do Novo Testamento, a linguagem de "disciplinas espirituais" tem se estendido, igualmente, a arenas que tendem a deixar preocupados aqueles que amam o evangelho. Em nossos dias, as disciplinas espirituais podem incluir leitura da Bíblia, meditação, adoração, doar dinheiro, jejuar, solidão, comunhão, obras de beneficência, evangelização, dar esmolas, cuidado da criação, escrever diários, obra missionária e mais. Pode incluir votos de celibato, autoflagelação e cantar mantras. No uso popular, algumas dessas supostas disciplinas espirituais são totalmente divorciadas de qualquer doutrina específica, cristã ou não. Elas são apenas uma questão de técnica. Essa é a razão por que, às vezes, as pessoas dizem: "Quanto à sua doutrina, comprometa-se, por todos os meios, com as confissões evangélicas. Mas, no que diz respeito às disciplinas espirituais, volte-se para o catolicismo ou, talvez, para o budismo". O que é universalmente admitido pela expressão "disciplina espiritual" é que essas disciplinas têm o propósito de aumentar a nossa espiritualidade.
No entanto, à luz da perspectiva cristã, não é possível alguém aumentar sua espiritualidade sem possuir o Espírito Santo e submeter-se à sua instrução e ao seu poder transformadores. As técnicas nunca são neutras. Estão sempre carregadas de pressuposições teológicas, frequentemente não reconhecidas.
Como devemos avaliar essa maneira popular de abordar as disciplinas espirituais? O que devemos pensar sobre as disciplinas espirituais e sua conexão com a espiritualidade definida pelas Escrituras? Algumas reflexões introdutórias:
(1) A busca do conhecimento direto e místico de Deus não é sancionado pelas Escrituras; é, também, perigoso em várias maneiras. Não importa se esta busca é realizada, digamos, no budismo (embora budistas instruídos provavelmente não falem sobre "conhecimento direto e místico de Deus" – as duas últimas palavras talvez precisem ser omitidas) ou na tradição católica, à maneira de Julian de Norwich. Nenhum desses exemplos reconhece que nosso acesso ao conhecimento do Deus vivo é mediado exclusivamente por Cristo, cuja morte e ressurreição nos reconciliam com o Deus vivo. Buscar o conhecimento direto e místico de Deus é anunciar que a pessoa de Cristo e sua obra sacrificial em nosso favor não são necessárias para o conhecimento de Deus. Infelizmente, é fácil alguém deleitar-se em experiências místicas, prazerosas e desafiadoras em si mesmas, sem conhecer nada do poder regenerador de Deus, alicerçado na obra da cruz de Cristo.
(2) Devemos perguntar o que nos garante incluir algum item numa lista de disciplinas espirituais. Para os cristãos que têm algum senso da função reguladora das Escrituras, nada, certamente, pode ser reputado como uma disciplina espiritual se não é mencionado no Novo Testamento. Isso exclui não somente a autoflagelação, mas também o cuidado da criação. Esta última é, sem dúvida, uma coisa boa que devemos fazer; é parte de nossa responsabilidade como administradores da criação de Deus. Mas é difícil pensarmos em uma base bíblica para que entendamos essa atividade como uma disciplina espiritual – ou seja, uma disciplina que aumenta a nossa espiritualidade. A Bíblia fala muito sobre oração e guardar a Palavra de Deus em nosso coração, mas diz muito pouco sobre o cuidado da criação e o cantar mantras.
(3) Algumas das coisas incluídas na lista são levemente ambíguas. Em um nível, a Bíblia não diz nada sobre escrever diários. Por outro lado, isto pode ser apenas uma designação conveniente para referir-se a autoexame cuidadoso, contrição, leitura bíblica meditativa e oração sincera. E o hábito de fazer registros em um diário para fomentar essas quatro atividades não pode ser descartado da mesma maneira como temos de rejeitar a autoflagelação.
O apóstolo declarou que o celibato é uma coisa excelente, se a pessoa tem o dom (tanto o casamento quanto o celibato são designados carismata – "dons da graça") e o celibato contribui para um ministério aprimorado (1 Co 7). Por outro lado, nada sugere que o celibato é um estado intrinsecamente mais santo; e nos termos da nova aliança nada existe que sancione o retirar-se para mosteiros de freiras ou monges celibatários que se separaram fisicamente do mundo para se tornarem mais espirituais. A meditação não é um bem intrínseco. Grande parte da meditação depende do foco da própria pessoa. O foco é um ponto escuro imaginário em uma folha de papel branco? Ou é a lei do Senhor (Sl 1.2)?
(4) Até aquelas disciplinas espirituais que todos reconheceriam como tais não devem ser mal compreendidas ou abusadas. A própria expressão é potencialmente enganadora: disciplina espiritual, como se houvesse algo intrínseco no autocontrole e na imposição da autodisciplina que qualifica alguém a ser mais espiritual. Essa suposição e essas associações mentais só podem levar à arrogância. E o que é pior: elas levam frequentemente ao hábito de julgar os outros como inferiores. Os outros podem não ser tão espirituais como eu, visto que sou tão disciplinado que tenho um excelente tempo de oração ou um ótimo esquema de leitura da Bíblia. Mas o elemento verdadeiramente transformador não é a disciplina em si mesma, e sim o valor da tarefa realizada: o valor da oração, o valor da leitura da Palavra de Deus.
(5) Não é proveitoso fazer uma lista variada de responsabilidades cristãs e rotulá-las de disciplinas espirituais. Isso parece ser o argumento que está por trás da teologia introduzida inapropriadamente, por exemplo, no cuidar da criação e no dar esmolas. Mas, pela mesma lógica, se motivado por bondade cristã, você faz massagem nas costas de uma senhora que tem pescoço rígido e ombro inflamado, este massagear as costas se torna uma disciplina espiritual. Por essa mesma lógica, uma obediência cristã é uma disciplina espiritual, ou seja, ela nos torna mais espirituais.
Usar a categoria de disciplinas espirituais desta maneira tem duas implicações infelizes. Primeira, se cada instância de obediência é uma disciplina espiritual, não há nada especial nos meios de graça, ordenados e bastante enfatizados nas Escrituras, como, por exemplo, a oração, a leitura séria e a meditação na Palavra de Deus. Segundo, essa maneira de pensar sobre as disciplinas espirituais nos induz sutilmente a pensar que o crescimento em espiritualidade é uma função de nada mais do que conformidade com as exigências de muitas regras, de muita obediência. Certamente, a maturidade cristã não é manifestada onde não há obediência. Contudo, há também grande ênfase no crescimento em amor, em confiança, em entendimento dos caminhos do Deus vivo, na obra do Espírito de encher-nos e capacitar-nos.
(6) Por essas razões, parece ser sábio restringir a designação "disciplinas espirituais" a aquelas atividades prescritas na Bíblia, que são declaradas explicitamente como meios de aumentar nossa santificação, nossa conformidade com Cristo, nossa maturação espiritual. Em João 17, quando Jesus rogou que seu Pai santificasse seus seguidores por meio da verdade, ele acrescentou: "A tua palavra é a verdade". Não é surpreendente que os crentes tenham há muito chamado de "meios de graça" coisas como o estudo da verdade do evangelho. "Meios de graça" é uma expressão agradável e menos susceptível a mal-entendidos do que "disciplinas espirituais".
Tradução: Wellington Ferreira
Copyright © D. A. Carson 2011
Copyright © Editora Fiel 2011
Há quase duas décadas, escrevi um artigo intitulado "Quando a espiritualidade é espiritual? Reflexões Sobre Alguns Problemas de Definição". Aqui, eu gostaria de analisar um aspecto deste tema.
A estrutura mais ampla da discussão precisa ser lembrada. "Espiritual" e "espiritualidade" se tornaram palavras notoriamente indistintas. No uso comum, elas quase sempre têm conotações positivas, mas raramente o significado delas se encaixa na esfera do uso bíblico. Pessoas acham que são "espirituais" porque têm certas sensibilidades estéticas, ou porque sentem algum tipo de conexão mística com a natureza, ou porque adotam uma versão altamente personalizada de uma das muitas religiões. (Mas "religião" tende a ser uma palavra de conotações negativas, enquanto "espiritualidade" tem conotações positivas.)
No entanto, nos termos da nova aliança, a única pessoa "espiritual" é aquela que tem o Espírito Santo, derramado sobre indivíduos na regeneração. A alternativa, na terminologia de Paulo, é ser "natural" – meramente humano – e não "espiritual" (1 Co 2.14). Para o cristão cujo vocabulário e conceitos sobre este tema são moldados pelas Escrituras, somente o cristão é espiritual. E, por uma extensão óbvia, aqueles cristãos que mostram virtudes cristãs são espirituais, porque essas virtudes são fruto do Espírito. Aqueles que são meras "crianças em Cristo" (1 Co 3.1), se estão verdadeiramente em Cristo, são espirituais, porque são habitados pelo Espírito, mas sua vida pode deixar muito a desejar. Apesar disso, o Novo Testamento não designa os cristãos imaturos como não espirituais, como se a categoria "espirituais" fosse reservada apenas para os mais maduros, a elite dos eleitos. Isso é um erro muito comum da tradição de espiritualidade da Igreja Católica Romana. Nesta, a vida espiritual e as tradições espirituais estão frequentemente ligadas com fiéis que desejam ir além do que é comum. Essa vida "espiritual" é muitas vezes ligada com ascetismo e, às vezes, com misticismo, ordens de freiras e monges e uma variedade de técnicas que vão além do cristão comum.
Devido ao amplo uso das palavras da família de "espiritual", muito além do Novo Testamento, a linguagem de "disciplinas espirituais" tem se estendido, igualmente, a arenas que tendem a deixar preocupados aqueles que amam o evangelho. Em nossos dias, as disciplinas espirituais podem incluir leitura da Bíblia, meditação, adoração, doar dinheiro, jejuar, solidão, comunhão, obras de beneficência, evangelização, dar esmolas, cuidado da criação, escrever diários, obra missionária e mais. Pode incluir votos de celibato, autoflagelação e cantar mantras. No uso popular, algumas dessas supostas disciplinas espirituais são totalmente divorciadas de qualquer doutrina específica, cristã ou não. Elas são apenas uma questão de técnica. Essa é a razão por que, às vezes, as pessoas dizem: "Quanto à sua doutrina, comprometa-se, por todos os meios, com as confissões evangélicas. Mas, no que diz respeito às disciplinas espirituais, volte-se para o catolicismo ou, talvez, para o budismo". O que é universalmente admitido pela expressão "disciplina espiritual" é que essas disciplinas têm o propósito de aumentar a nossa espiritualidade.
No entanto, à luz da perspectiva cristã, não é possível alguém aumentar sua espiritualidade sem possuir o Espírito Santo e submeter-se à sua instrução e ao seu poder transformadores. As técnicas nunca são neutras. Estão sempre carregadas de pressuposições teológicas, frequentemente não reconhecidas.
Como devemos avaliar essa maneira popular de abordar as disciplinas espirituais? O que devemos pensar sobre as disciplinas espirituais e sua conexão com a espiritualidade definida pelas Escrituras? Algumas reflexões introdutórias:
(1) A busca do conhecimento direto e místico de Deus não é sancionado pelas Escrituras; é, também, perigoso em várias maneiras. Não importa se esta busca é realizada, digamos, no budismo (embora budistas instruídos provavelmente não falem sobre "conhecimento direto e místico de Deus" – as duas últimas palavras talvez precisem ser omitidas) ou na tradição católica, à maneira de Julian de Norwich. Nenhum desses exemplos reconhece que nosso acesso ao conhecimento do Deus vivo é mediado exclusivamente por Cristo, cuja morte e ressurreição nos reconciliam com o Deus vivo. Buscar o conhecimento direto e místico de Deus é anunciar que a pessoa de Cristo e sua obra sacrificial em nosso favor não são necessárias para o conhecimento de Deus. Infelizmente, é fácil alguém deleitar-se em experiências místicas, prazerosas e desafiadoras em si mesmas, sem conhecer nada do poder regenerador de Deus, alicerçado na obra da cruz de Cristo.
(2) Devemos perguntar o que nos garante incluir algum item numa lista de disciplinas espirituais. Para os cristãos que têm algum senso da função reguladora das Escrituras, nada, certamente, pode ser reputado como uma disciplina espiritual se não é mencionado no Novo Testamento. Isso exclui não somente a autoflagelação, mas também o cuidado da criação. Esta última é, sem dúvida, uma coisa boa que devemos fazer; é parte de nossa responsabilidade como administradores da criação de Deus. Mas é difícil pensarmos em uma base bíblica para que entendamos essa atividade como uma disciplina espiritual – ou seja, uma disciplina que aumenta a nossa espiritualidade. A Bíblia fala muito sobre oração e guardar a Palavra de Deus em nosso coração, mas diz muito pouco sobre o cuidado da criação e o cantar mantras.
(3) Algumas das coisas incluídas na lista são levemente ambíguas. Em um nível, a Bíblia não diz nada sobre escrever diários. Por outro lado, isto pode ser apenas uma designação conveniente para referir-se a autoexame cuidadoso, contrição, leitura bíblica meditativa e oração sincera. E o hábito de fazer registros em um diário para fomentar essas quatro atividades não pode ser descartado da mesma maneira como temos de rejeitar a autoflagelação.
O apóstolo declarou que o celibato é uma coisa excelente, se a pessoa tem o dom (tanto o casamento quanto o celibato são designados carismata – "dons da graça") e o celibato contribui para um ministério aprimorado (1 Co 7). Por outro lado, nada sugere que o celibato é um estado intrinsecamente mais santo; e nos termos da nova aliança nada existe que sancione o retirar-se para mosteiros de freiras ou monges celibatários que se separaram fisicamente do mundo para se tornarem mais espirituais. A meditação não é um bem intrínseco. Grande parte da meditação depende do foco da própria pessoa. O foco é um ponto escuro imaginário em uma folha de papel branco? Ou é a lei do Senhor (Sl 1.2)?
(4) Até aquelas disciplinas espirituais que todos reconheceriam como tais não devem ser mal compreendidas ou abusadas. A própria expressão é potencialmente enganadora: disciplina espiritual, como se houvesse algo intrínseco no autocontrole e na imposição da autodisciplina que qualifica alguém a ser mais espiritual. Essa suposição e essas associações mentais só podem levar à arrogância. E o que é pior: elas levam frequentemente ao hábito de julgar os outros como inferiores. Os outros podem não ser tão espirituais como eu, visto que sou tão disciplinado que tenho um excelente tempo de oração ou um ótimo esquema de leitura da Bíblia. Mas o elemento verdadeiramente transformador não é a disciplina em si mesma, e sim o valor da tarefa realizada: o valor da oração, o valor da leitura da Palavra de Deus.
(5) Não é proveitoso fazer uma lista variada de responsabilidades cristãs e rotulá-las de disciplinas espirituais. Isso parece ser o argumento que está por trás da teologia introduzida inapropriadamente, por exemplo, no cuidar da criação e no dar esmolas. Mas, pela mesma lógica, se motivado por bondade cristã, você faz massagem nas costas de uma senhora que tem pescoço rígido e ombro inflamado, este massagear as costas se torna uma disciplina espiritual. Por essa mesma lógica, uma obediência cristã é uma disciplina espiritual, ou seja, ela nos torna mais espirituais.
Usar a categoria de disciplinas espirituais desta maneira tem duas implicações infelizes. Primeira, se cada instância de obediência é uma disciplina espiritual, não há nada especial nos meios de graça, ordenados e bastante enfatizados nas Escrituras, como, por exemplo, a oração, a leitura séria e a meditação na Palavra de Deus. Segundo, essa maneira de pensar sobre as disciplinas espirituais nos induz sutilmente a pensar que o crescimento em espiritualidade é uma função de nada mais do que conformidade com as exigências de muitas regras, de muita obediência. Certamente, a maturidade cristã não é manifestada onde não há obediência. Contudo, há também grande ênfase no crescimento em amor, em confiança, em entendimento dos caminhos do Deus vivo, na obra do Espírito de encher-nos e capacitar-nos.
(6) Por essas razões, parece ser sábio restringir a designação "disciplinas espirituais" a aquelas atividades prescritas na Bíblia, que são declaradas explicitamente como meios de aumentar nossa santificação, nossa conformidade com Cristo, nossa maturação espiritual. Em João 17, quando Jesus rogou que seu Pai santificasse seus seguidores por meio da verdade, ele acrescentou: "A tua palavra é a verdade". Não é surpreendente que os crentes tenham há muito chamado de "meios de graça" coisas como o estudo da verdade do evangelho. "Meios de graça" é uma expressão agradável e menos susceptível a mal-entendidos do que "disciplinas espirituais".
Tradução: Wellington Ferreira
Copyright © D. A. Carson 2011
Copyright © Editora Fiel 2011
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
AS NECESSÁRIAS CAUTELAS PARA A ESTRUTURAÇÃO DO POVO DE DEUS

Texto áureo
“Então o meu Deus me pôs no coração que ajuntasse os nobres, e os magistrados, e o povo, para registrar as genealogias. E achei o livro da genealogia dos que subiram primeiro e assim achei escrito nele: ” (Ne.7:5)
INTRODUÇÃO
- Em complemento ao estudo deste trimestre, estudaremos o capítulo 7 do livro de Neemias, que não objeto de lição específica.
- No capítulo 7 de Neemias, aprendemos que o povo de Deus precisa ser bem estruturado, com vigilância, a fim de que inimigos externos e infiltrados não comprometam a obra de Deus.
I – NEEMIAS ESTABELECE UM SISTEMA DE SEGURANÇA PARA JERUSALÉM E REORGANIZA O SERVIÇO DO TEMPLO
- O capítulo 7 do livro de Neemias começa com a afirmação do governador de que, após a finalização da reconstrução dos muros, mesmo diante da ação dos falsos profetas e dos que haviam se mancomunado com Sambalate, Tobas e Gesem para tentar atemorizar o governador, as portas foram levantadas (Ne.7:1).
- É interessante verificarmos que, primeiro, Neemias teve de reedificar os muros, muros que não podiam ter qualquer brecha (Ne.6:1), para só então, colocar as portas nos portais. A edificação tem a sua ordem, que não pode ser alterada.
- Assim, também, ocorre na vida espiritual. Primeiramente, temos de edificar os muros sem brecha alguma, ou seja, alicerçados sobre a rocha, que é Cristo Jesus (Mt.7:24; I Co.10:4), crescermos na doutrina, em amor, para que não venhamos a ser enganados pelo inimigo e seus agentes (Ef.4:14-16). Somente depois é que teremos condição de entrarmos em contato com o mundo, a fim de cumprirmos a tarefa da evangelização, visto que é necessário antes sabermos qual é a esperança que temos para podermos levá-la aos outros (I Pe.3:15).
- Muitos, nos dias em que vivemos, têm subvertido esta ordem com grande prejuízo tanto para si mesmos quanto para a obra de Deus. Sem terem ainda tido a necessária edificação, lançam-se, inadvertidamente, a tarefas de evangelização, fracassando por não terem o devido preparo, não só não conquistando almas para Cristo como perdendo a si mesmos. Tomemos cuidado e sigamos o exemplo de Neemias que, primeiro reconstruiu os muros, sem brecha alguma, para depois levantar as portas.
- Após ter levantado as portas, Neemias tomou outra importante providência: estabeleceu porteiros, cantores e levitas (Ne.7:2). De nada adiantaria ter muros sem brecha alguma e portas levantadas, se não houvesse pessoas prontas a efetuar os serviços e tornar operante toda a estrutura que, com a mão de Deus, havia sido construída em apenas cinquenta e dois. A obra de Deus é feita por homens e os homens devem ter prioridade. A estrutura é boa, mas sem pessoas de nada isto valerá. Lamentavelmente, muitos não têm agido deste modo, com grave prejuízo para a extensão do reino de Deus em nossos dias.
- Levantadas as portas, Neemias estabeleceu porteiros. Os porteiros eram absolutamente necessários para que as portas fossem abertas e fechadas nos dias e horários certos, para que a entrada e saída de pessoas e animais fosse devidamente organizada, para que as portas, enfim, tivessem alguma funcionalidade. De que adiantaria todo o esforço para a construção e levantamento de portas, se não houvesse porteiros que tornassem as portas úteis? Por isso, assim que as portas foram levantadas, Neemias tratou de pôr porteiros para que a edificação desse os resultados esperados.
- De igual maneira, precisamos ter “porteiros” em nossa vida espiritual, ou seja, necessitamos ser vigilantes em nosso contato com o mundo, visto que, embora a ele não mais pertençamos, ainda estamos nele e temos de conviver com ele inclusive para cumprirmos com a tarefa de sermos luz do mundo e sal da terra (Jo.17:11,16). Vigiar foi a ordem dada por Nosso Senhor (Mc.13:37).
- Um dos principais “porteiros” que temos são os nossos olhos, porta de entrada de tudo quanto temos à nossa volta, em especial nos dias em que vivemos em que a principal comunicação é audiovisual. Temos de ter muito cuidado com os olhos, pois estes são órgãos que podem comprometer toda a nossa comunhão com Deus. Cristo nos ensina que eles são “a candeia do corpo” e se eles forem bons, todo o nosso corpo terá luz, se, porém, os teus olhos forem maus, o nosso corpo será tenebroso (Mt.6:23). Será que, a exemplo de Jó, fizemos um concerto com nossos olhos (Jó 31:1)?
- Este cuidado de Neemias, também, remete-nos para a escolha dos porteiros em nossas igrejas locais. Esta função, que muitos vêm com desprezo, é importantíssima e até o descuido de alguns na escolha dos porteiros é um dos principais fatores para a situação lamentável da evangelização em muitos lugares. Os porteiros, em nossas igrejas locais, devem ser pessoas muito preparadas, revestidas do poder de Deus, que possam não só persuadir os transeuntes a adentrar em nossos templos para assistir aos cultos, mas serem gentis, dóceis e solícitos , de modo a serem verdadeiros “cartões de visita” de nossas igrejas locais. De nada adianta toda uma estrutura para se servir a Deus se não houver “porteiros” que tornem tudo funcional e útil. Aprendamos com Neemias e tenhamos este mesmo cuidado, líderes na casa do Senhor!
- Ao apontar os porteiros, Neemias deu-lhes a ordem para que não se abrissem as portas de Jerusalém até que o sol se aquecesse, devendo as portas ser fechadas e trancadas, devendo ser, ainda, postos guardas dos moradores de Jerusalém, cada um na sua guarda, e cada diante da sua casa (Ne.7:3).
- As portas de Jerusalém tinham de se manter fechadas durante a noite. Temos aqui uma linda lição espiritual: nossas portas devem se fechar quando as trevas comparecerem. Não podemos permitir que o pecado, representado pela escuridão, tenha entrada em nossa vida. Por isso, o apóstolo Paulo nos adverte para que não demos lugar ao diabo (Ef.4:27).
- As portas tinham de ser fechadas e trancadas. Não bastava “encostar” a porta, mas elas deviam devidamente trancadas. Não podemos ser negligentes, mas zelosos em servir a Deus, tomando todo o cuidado para que não permitamos a entrada do mal em nossas vidas. Por isso, o autor da epístola aos hebreus recomenda-nos para que não só deixemos o pecado, como também o embaraço, coisas que não são em si pecaminosas mas que podem nos levar ao pecado (Hb.12:1). Não basta fechar, é preciso, também, trancar as portas!
- A vigilância é reforçada na ordem de Neemias. Além de fechar e trancar as portas, deviam ser postos guardas dos moradores de Jerusalém, cada um na sua guarda e cada um diante da sua casa. A vigilância das portas, tarefa do governo da cidade, era feita, mas cada morador devia também fazer a vigilância diante de sua casa. Que linda lição para cada crente, principalmente para aqueles que acham que só os ministros e responsáveis pelo governo da igreja devam se preocupar com a vigilância. Esta é uma tarefa de cada um de nós: todos nós devemos ser zelosos, cada um tem de ter cuidado de si mesmo para, então, poder contribuir com o cuidado de todos (I Tm.4:16).
- Temos posto guardas diante de nossas casas? Como está a vigilância em nossos lares, em nossas famílias? Temos, como cônjuges, como pais, como filhos, cuidado para que o inimigo não tenha entrada em nossas casas? Ou será que as mensagens satânicas têm pleno acesso através dos meios de comunicação de massa, da internet e de tantas outras coisas tenebrosas que o inimigo têm lançado contra os servos do Senhor? Será que nossas casas têm “guardas”?
- Neemias, além de pôr porteiros e guardas, também tratou de estabelecer cantores. Pode parecer estranho que Neemias tenha procurado pôr cantores depois da conclusão da obra de reedificação. Esta estranheza é resultado de um pensamento precipitado de que os cantores teriam sido postos nas portas de Jerusalém ou nos muros. Entretanto, não é isto que o texto sagrado nos revela.
- Ao estabelecer cantores, Neemias mostra-nos que, em virtude da situação de grande miséria e desprezo que vivia Jerusalém, o serviço de louvor do templo não estava a funcionar. A situação era de tanta tristeza e miséria, que não havia como se manter o serviço do louvor no templo, não só diante da insegurança reinante, mas também pela própria situação emocional e espiritual adversa a qualquer manifestação de alegria, que é o que representa o cântico (Tg.5:13).
- Superada a insegurança, concluída a obra pela benignidade divina, Neemias logo entendeu que se devia restabelecer o serviço de louvor do templo e, por isso, designou cantores. Neemias não podia admitir uma situação de restauração, de renovo sem que houvesse o perfeito louvor.
- O louvor deve acompanhar a adoração ao Senhor. Não pode o povo de Deus, edificado e salvo pela graça e misericórdia de Deus, calar-se e deixar de louvar ao Senhor. É com tristeza que vemos, nos dias hodiernos, muitos que cristãos se dizem ser desprezarem, por completo, o cântico e o louvor, tanto que chegam atrasados aos cultos, depois do momento litúrgico do louvor. Aprendamos com Neemias e não permitamos que deixe de haver em nossas vidas espirituais os cantores que completam a obra de nossa edificação espiritual.
- Neemias, também, estabeleceu levitas, que eram auxiliares dos sacerdotes no serviço do templo. Observemos, aliás, que, ao contrário do que se costuma dizer hoje em dia, “levita” não se confunde com o músico. Os levitas eram os descendentes de Levi, a tribo que havia sido designada para o serviço do templo. Os filhos de Arão eram sacerdotes e todos os demais levitas foram encarregados dos mais diversos e variados serviços no tabernáculo e, posteriormente, no templo, inclusive a parte musical. Portanto, não confundamos “levita” com “músico”.
- O cuidado de Neemias de estabelecer levitas reflete a sua preocupação em que nada ficasse por fazer no serviço do templo. Neemias não se preocupava apenas em ter muros e portas, mas queria que a segurança trazida por estes muros e portas pudesse restaurar todos os serviços do templo. Os líderes precisam ter este mesmo zelo, de fazer com que todas as tarefas, todos os serviços necessários para a igreja local sejam realizados a contento. Não basta apenas termos edificação espiritual, mas é preciso que esta edificação se traduza em serviço eficaz, até porque a Igreja, como corpo de Cristo, veio para servir e não para ser servida.
- Após estabelecer porteiros, cantores e levitas, Neemias nomeou seu irmão Hanani e a Hananias como maiorais da fortaleza sobre Jerusalém, porque era como homem fiel e temente a Deus, mais do que muitos (Ne.7:2).
- A nomeação de Hanani como maioral da fortaleza, seu irmão, pode trazer a Neemias a acusação de “nepotismo”, ou seja, “favoritismo para com parentes”, mal que infesta a Administração Pública em nosso país e que, infelizmente, também já encontrou guarida na administração eclesiástica. Muitos, aliás, buscam nesta passagem bíblica até uma “fundamentação” para suas práticas pouco ou nada recomendáveis nas igrejas locais.
- Contudo, quando vemos o próprio texto sagrado, contemplamos em Neemias mais uma virtude como líder e governante (como, aliás, já visto no apêndice 1). Hanani foi nomeado não por ser seu irmão, mas porque “era homem fiel e temente a Deus, mais do que muitos”. O parentesco aqui era apenas um acidente, que não foi considerado na nomeação. Não nos esqueçamos, aliás, que Hanani fora até Jerusalém e, ao ver a situação, levou alguns de Judá para falar com Neemias a respeito da situação de Jerusalém. Era uma pessoa que tinha história na obra do Senhor e que, portanto, fazia jus àquela nomeação, independentemente do parentesco que tinha com o governador.
- Neemias faz questão de dizer que nomeara o seu irmão por causa do temor dele a Deus, que superava o de muitos. Um critério para pormos alguém à testa da obra do Senhor é, precisamente, o seu temor a Deus, que deverá ser superior ao dos demais. Como é diferente o critério de Neemias do que temos visto em nossas igrejas locais! Aprendamos com Neemias!
- Neemias, em mais uma demonstração de transparência, não deixou que Hanani, apesar de suas qualidades, estivesse sozinho como maioral da fortaleza. Ao seu lado, pôs Hananias nesta função. Deste modo, não deixou qualquer suspeita com relação ao fato de Hanani ser seu irmão, como também nos dá uma amostra da própria criteriologia que seria adotada pelo Senhor Jesus na evangelização do povo judeu, durante Seu ministério público, ou seja, o de sempre chamar de dois em dois, para que o serviço seja eficaz (Lc.10:1). É sempre importante, nas tarefas da igreja, serem indicados dois, para que um ao outro possa ajudar.
II – NEEMIAS RESOLVE REPOVOAR JERUSALÉM
- Estabelecido um sistema de segurança para Jerusalém, como também reorganizado o serviço do templo naquilo que havia sido interrompido pela falta de segurança, Neemias percebeu que a cidade era larga de espaço e grande, mas havia pouco povo dentro dela, além do que as casas ainda não estavam edificadas (Ne.7:4).
- Neemias, como um verdadeiro e autêntico homem de Deus, dava prioridade ao ser humano, entendia que o homem foi posto como coroa da criação terrena e, como tal, ocupa o primeiro lugar na preocupação da obra do Senhor. De que adiantaria uma cidade grande, agora segura e murada, vazia? Era necessário que as pessoas desfrutassem dos benefícios da reedificação dos muros e das portas de Jerusalém. Ele não poderia se contentar com os espaços vazios de Jerusalém. Será que nossos líderes têm esta mesma preocupação nos dias hodiernos? Será que, assim como o Senhor, querem que as “moradas celestes” sejam ocupadas por salvos e remidos pelo sangue de Cristo? Ou estão felizes com o “punhadinho” que está a ocupar os templos, uma vez que já lhes permitem viver regaladamente nesta Terra?
- Jerusalém estava com uma pequena população como decorrência da própria situação de insegurança que existia. Quem se atreveria a morar numa cidade com muros fendidos e portas queimadas a fogo? Quem poderia morar em uma cidade que não tinha sequer casas edificadas?
- Entretanto, esta situação se alterara e, portanto, não havia mais motivo para que Jerusalém se tornasse uma cidade larga de espaço e grande mas com pouco povo. Temos esta mesma consciência? Será que estamos a pensar como Neemias, ou já abrimos mão de encher as nossas igrejas locais e nos contentamos com o “pouco povo”? As estatísticas, infelizmente, denunciam que o ritmo de evangelização tem diminuído consideravelmente e que muitos que cristãos se dizem ser estão “satisfeitos” com os megatemplos, com os templos grandiosos, com as “grandes catedrais” que, porém, a exemplo dos grandes templos da Igreja Romana, em muitos lugares, encontram-se como simples monumentos, locais de visitação turística, mas com muito pouco povo. Acordemos, irmãos, pois não é esta a vontade de Deus!
- Este inconformismo de Neemias não era algo de seu coração, provinha de Deus, tanto que é o próprio Neemias quem afirma que Deus lhe pôs no coração que reunisse todo o povo e tomasse a deliberação de povoar Jerusalém.
- O desejo de Jesus não é diferente do de Neemias. Ao contar a parábola da grande ceia (Lc.14:15-24), Nosso Senhor mostra-nos que o seu desejo é que Seus servos saiam pelos caminhos e valados e os force a entrar, para que a Sua casa se encha. Temos tido esta atitude de insistência e de zelo e dedicação para que a casa do Senhor se encha? Temos o mesmo denodo e preocupação manifestados por Neemias ao ver Jerusalém grande, segura, mas vazia?
- Diante do desejo que o próprio Deus pôs em seu coração, Neemias convocou os nobres, os magistrados e o povo. Temos aqui mais um belo exemplo, já mencionado em capítulos anteriores, de que Neemias sempre procurava legitimar suas decisões com a participação do povo. Embora fosse ele o governador e tivesse a autoridade dada pelo rei de Pérsia para tomar as decisões que precisavam ser tomadas, embora tivesse ele sentido da parte de Deus a orientação para o repovoamento de Jerusalém, Neemias não se furtou a chamar uma assembleia e a compartilhar com o povo o seu desejo.
- A participação do povo nas deliberações é algo muito importante para que tenhamos a legitimidade das decisões, para que consigamos o comprometimento de todos na obra do Senhor. Como diz um caro irmão que conosco participa do estudo dos professores de EBD, ultimamente os crentes só são chamados para participar na hora de contribuir, sendo verdadeiras “vaquinhas de presépio” no restante. Talvez resida aí um dos principais fatores para a falta de comprometimento de muitos com a obra do Senhor. Aprendamos com Neemias!
- Neemias queria povoar Jerusalém, queria que a cidade se enchesse, mas este desejo do governador nada tinha que ver com a “numerolatria”, esta fixação no crescimento quantitativo que hoje orienta e dirige os vários métodos e estratégias de “crescimento de igrejas” que proliferam no meio do povo de Deus. Neemias queria encher Jerusalém, mas não queria fazê-lo apenas com números. Para habitar a “cidade santa”, era preciso que se fosse, igualmente, santo, ou seja, que se estivessem diante de legítimos integrantes do povo de Judá.
- Por isso, ao desejo de povoar a cidade, correspondia outro desejo proveniente de Deus, o de se consultarem as genealogias, a fim de se verificar quem era o verdadeiro povo judeu, quem era verdadeiramente judeu, quem tinha vindo com Zorobabel para Canaã depois do final do cativeiro da Babilônia. Por isso, Neemias foi consultar o “livro da genealogia dos que subiram primeiro”.
- Este livro continha a relação de todos que haviam subido com Zorobabel para Canaã depois do decreto do rei persa Ciro que pusera fim ao cativeiro da Babilônia (Ed.2) e era a prova da legitimidade da ascendência judaica do povo. Neemias queria repovoar Jerusalém mas deveria fazê-lo apenas com os judeus legítimos e autênticos, aqueles que eram descendência de Abraão, Isaque e Jacó.
- Nos dias de Neemias, estávamos diante de um povo dotado de uma etnia, de uma ascendência biológica, o que não se dá com a Igreja, que é uma nação espiritual. No entanto, esta mesma preocupação genealógica deve existir quando tratarmos de “encher a casa de Deus”. A casa do Senhor somente pode ser cheia e habitada pelos que constam do “livro da genealogia”, que não é o livro que estava guardado no templo há mais ou menos 80 (oitenta) anos na Jerusalém de Neemias, mas é “o livro da vida do Cordeiro” (Ap.21:27), onde estão escritos os nomes daqueles que foram “eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo”, gerados de novo pelo Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo a Sua grande misericórdia para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, incontaminável e que se não pode murchar, guardada nos céus para eles (I Pe.1:2,3).
- Somente podemos povoar nossas igrejas locais com aqueles que também poderão entrar na Jerusalém celestial. Assim, para que alguém venha a pertencer à igreja local, precisa dar frutos dignos de arrependimento, precisar mostrar, pela sua maneira de viver, que realmente foi “gerado de novo”, que morreu para o mundo e agora vive para Deus. Por isso, o batismo nas águas, que é o ato pelo qual alguém se incorpora à igreja local, deve ser realizado apenas quando se tem esta demonstração inequívoca da salvação na pessoa de Jesus Cristo.
- Muitos, no entanto, não estão mais buscando o “livro da genealogia” e estão a pôr dentro da igreja local qualquer um, sem qualquer objetivo senão o de “fazer quantidade”, “fazer número”. Não é este, porém, o propósito de Deus, já que não foi assim que o Senhor procedeu com Neemias e, como sabemos todos, Deus não muda (Ml.3:6).
- Neemias consultou o livro e, no capítulo 7, segue uma longa lista, que corresponde a Ed.2 (pois se trata da mesma lista), onde são registradas as genealogias de todo o povo judeu que retornara do cativeiro babilônico. Esta extensa lista mostra-nos que, apesar de constituir um povo, os judeus não eram indistintamente tomados, não eram tratados pelo Senhor como “massa”, como, lamentavelmente, agem muitos dos líderes de hoje em dia, mas que cada um tinha o seu próprio local e a sua própria individualidade diante de Deus.
- Na igreja não é diferente. Deus tem-nos como um povo, um povo que é um corpo e no qual cada um vive em função do outro (I Co.12:12-31), no qual é preciso que todos se ajustem segundo a justa operação de cada parte para que haja a edificação em amor (Ef.4:15,16), mas onde cada um é tratado como indivíduo, com uma particularidade e intimidade com Deus, individualidade e intimidade que, inclusive, perdurarão por toda a eternidade (Ap.2:17). Lembremo-nos disto em nosso relacionamento com os irmãos, que não podem ser tratados como “massa”, muito menos como “números”.
- Neste livro, achou-se que alguns que haviam subido com os judeus para Canaã não puderam comprovar a sua genealogia, a saber, os filhos de Delaías, os filhos de Tobias e os filhos de Necoda, num total de seiscentos e quarenta e dois (Ne.7:62), como também alguns sacerdotes, a saber, os filhos de Hobaías, os filhos de Coz, os filhos de Barzilai, o gileadita, que tomara uma mulher das filhas de Barzilai e se chamou do seu nome (Ne.7:63). Como estes sacerdotes não puderam comprovar a sua origem sacerdotal, como que imundos, foram excluídos do sacerdócio (Ne.7:64).
- Este episódio, ocorrido ainda nos dias de Zorobabel, mostra-nos claramente que, no meio do povo de Deus, como o Senhor Jesus deixou claro nas parábolas do reino dos céus (Mt.13), sempre haverá “infiltrados”, pessoas que se introduzirão no meio do povo sem que a ele pertençam. Havia até “sacerdotes” que não eram sacerdotes, visto que não pertenciam à família de Arão, inclusive os “filhos de Barzilai”, que assim se denominavam desde os dias de Davi, ou seja, antes mesmo da construção do templo por Salomão e que, portanto, por mais de quinhentos anos, intitulavam-se sacerdotes sem o ser!
- No entanto, ainda que tenha demorado tanto tempo, um dia foram eles revelados e, como não puderam provar a sua genealogia, foram excluídos do sacerdócio, tidos como imundos. Assim ocorre, também, no meio da Igreja: muitos, aproveitando-se do adormecer dos servos de Deus (Mt.13:25), são semeados no meio do povo pelo inimigo.
- No entanto, como afirmou o Senhor Jesus, nada do que é oculto assim permanecerá e, a seu tempo, será revelado (Lc.12:2). No momento aprazado pelo Senhor, o “livro da genealogia” será consultado e o que deve ser feito é que, constatada e revelada a “imundícia”, imperioso que se exclua o imundo do sacerdócio, ou seja, que ele seja retirado da comunhão da Igreja.
- Temos aqui, ademais, uma preciosa lição sobre a necessidade de se continuar a exercer a disciplina na Igreja, o que, infelizmente, já não tem sido realizado por muitos sob uma falsa doutrina de que “quem disciplina é o Espírito Santo”. No episódio narrado por Neemias e constante do “livro da genealogia”, é claríssimo que, após a revelação dada por Deus, incumbe ao povo promover a exclusão do sacerdócio, ou seja, vindo a revelação da imundícia, faz-se preciso que a própria igreja promova a exclusão.
- Também se encontrou “no livro da genealogia”, que o governador (que era, então Zorobabel) contribuiu para o tesouro em ouro, com oito quilos, cinquenta bacias e quinhentas e trinta vestes sacerdotais, tendo, também, os maiorais do povo dado para o tesouro da obra, em ouro, cento e sessenta quilos e, em prata, mil e trezentos e vinte quilos, enquanto o restante do povo dera cento e sessenta quilos de ouro, duzentos quilos de prata e sessenta e sete vestes sacerdotais, tendo, então, cada um ido habitar em suas cidades (Ne.7:70-73).
- Neemias, então, faz questão de mostrar ao povo que, além de termos cuidado em quem deveria habitar no meio do povo, ou seja, somente os que tinham genealogia, somente com o comprometimento de todos se poderia fazer a obra do Senhor e se ter o culto a Deus, fundamental para a sobrevivência de Judá, “propriedade peculiar de Deus entre os povos”.
- A começar do governador, passando pelos maiorais e, por fim, todo o povo tinha de contribuir para a sustentação do trabalho do Senhor e, consequentemente, para a sobrevivência do povo de Deus. Por isso, Neemias a todos convocou, para que participassem das deliberações e, também, da sustentação do serviço da casa do Senhor. Este nível de compromisso ainda hoje é necessário, sem o que não se realizará a obra de Deus. Mas, como já dissemos supra, não apenas na contribuição, na doação de recursos financeiros, mas também nas deliberações. Aprendamos com Neemias!
- Só pode haver comprometimento, porém, quando todos são irmãos, ou seja, quando todos forem verdadeiros e genuínos “filhos de Deus”. A presença de “infiltrados” impede que o compromisso surja do modo mais eficaz na obra de Deus. Por isso, precisamos sempre ter em mente a “consulta ao livro da genealogia”, a observação rigorosa e com discernimento espiritual daqueles que realmente pertencem ao povo de Deus. Vigiemos, amados irmãos!
- A consulta ao “livro da genealogia” mostra-nos, ainda, o cuidado que Neemias tinha com a história do povo. Precisamos incutir em nossas mentes que todo povo tem de zelar pela sua história, precisa ter memória, pois, “um povo sem memória não tem futuro”. O cuidado de Deus para que Seu povo não perca a memória é tão grande que muitos dos livros das Escrituras são históricos, sem falar na circunstância de que uma das ordenanças que nos foram deixadas pelo Senhor Jesus é precisamente a “ceia do Senhor”, que é, entre outras coisas, um “memorial”.
- Torna-se preciso sempre que os líderes reafirmem a história do povo de Deus e como ela reflete a fidelidade do Senhor para conosco. Neemias consultou o livro da genealogia e o revelou a todo o povo para que estes pudessem, antes de mais nada, ter noção da sua própria origem, do início da reocupação de Canaã depois do cativeiro para que, à luz desta história, pudessem devidamente deliberar. No ano do centenário das Assembleias de Deus no Brasil, resgatemos a nossa história!
- Após ter lido o “livro da genealogia”, Neemias não determinou o imediato repovoamento de Jerusalém. Havia sido dado o primeiro momento para isto, que era o resgate da história, o resgate da memória, mas isto ainda era insuficiente. Faziam-se necessários, ainda, alguns outros momentos, a saber, o avivamento, o arrependimento e a organização do serviço religioso, consoante se vê nos capítulos 8, 9 e 10 de Neemias, a serem estudados nas lições próprias.
Caramuru Afonso Francisco
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